Cultura Pop
Sinal de Alerta: a abertura de novela mais punk da televisão brasileira

Exibida pela Globo entre 1978 e 1979, a novela Sinal de alerta mexeu em vespeiros um tanto complexos para a época.
Até aquele período, o tema “ecologia” aparecia em uma música ou outra do Roberto Carlos – isso para ficar nos produtos populares do Brasil. Não havia nem sequer um partido verde no país (o PV data de 1985). E temas como “poluição” e “meio ambiente” só apareciam mesmo em reportagens de telejornal, que davam ao grande público a sensação de que aquilo tudo era numa galáxia distante daqui.
Agora volte para o começo dos anos 1970 e analise o fato de que o cardápio do “milagre brasileiro” (e da ditadura militar) incluía arrocho geral em operários e fábricas trabalhando ininterruptamente. Nesse cenário, a Globo pôs no horário experimental das 22h uma trama (escrita por Dias Gomes) que falava da poluição das grandes cidades, da fumaça das chaminés das fábricas e da prepotência dos capitães de indústria. Por sinal, personificados em Tião Borges, o dono da poluidora fábrica de inseticidas Ferlitit e personagem de Paulo Gracindo.
Os fãs de aberturas de novelas e de trilhas sonoras também ganhavam uma surpresa com Sinal de alerta. Nas chamadas das novas tramas, era comum que a emissora apresentasse o elenco ao som da música da abertura – que era sempre um lançamento. Quem visse os comerciais da futura novela, com a demonstração do elenco, ouviria Salve o verde, balanço que Jorge Ben havia composto para o Quarteto Em Cy cantar. Uma outra inovação da novela já vinha nas chamadas: o nome Sinal de alerta não aparecia, apenas a máscara contra gases que simbolizava a trama.
No LP da trilha nacional, Salve o verde ocupava exatamente o local destinado às músicas de abertura nos antigos LPs (se você nunca tinha reparado, elas sempre encerravam o lado A). Mas na abertura, a Globo optou por não usar trilha e utilizar um som que mais parecia uma versão folhetinesca de Revolution 9, dos Beatles, com vários ruídos colados. E várias imagens que misturavam desenhos, fotos e uso de modelos.
Pode ter passado despercebido para muita gente, mas a abertura de Sinal de alerta levava para a TV brasileira algo parecido com o estilo gráfico das animações de Terry Gilliam para o Monty Phyton’s flying circus.
O velho slogan televisivo do “no ar, mais um campeão de audiência!” não funcionou para Sinal de alerta. A novela foi bastante criticada, não gerou muito Ibope e deixou o horário das 22h parado por alguns anos.
Com as greves do ABC paulista dobrando a esquina, a Globo insistiu em ambientar a história de Sinal de alerta no Rio. Isso pode ter servido para tranquilizar a censura, mas cortou parte do realismo da trama. Dias Gomes, não custa lembrar, havia se inspirado no dia a dia insalubre de um bairro de São Paulo para escrever o texto. Por sinal, a novela nem sequer revelava o nome do bairro carioca onde ficava a fábrica, “para não desvalorizá-lo” (dizia o autor a O Globo em 31 de julho de 1978).

Várias imagens da abertura
A abertura de Sinal de alerta hoje, no entanto, é bastante lembrada – mais recentemente, por causa do YouTube, que a imortalizou. E marcou época por levar experimentação e uma arte quase punk à TV brasileira. O POP FANTASMA decidiu procurar os três criadores da abertura, Hans Donner, Rudi Böhm e Sergio Liuzzi, e reconstruir a história do trabalho.
Praticamente as mesmas perguntas foram feitas aos três. Böhm e Liuzzi responderam por escrito e Hans enviou um áudio por intermédio de seu assessor de imprensa. Optamos por contar tudo como uma história oral, com os temas envolvidos e tudo o que foi falado/escrito.
O COMEÇO
SERGIO LIUZZI. Entrei na Globo como assistente de cenografia. Havia trancado a Faculdade de Arquitetura na ilha do Fundão. Soube que dois alemães estavam preparando uma grande mudança na identidade visual da televisão. Conheci o Hans através do designer Nilton Nunes que já trabalhava na Globo há alguns anos. Fizemos a abertura de uma novela de época (das seis) que teve boa aceitação. A área que o Nilton trabalhava transferiu-se para o prédio recém-inaugurado numa sala ao lado do Hans. A partir daí, com o tempo nos aproximamos e tornei-me seu assistente.
RUDI BÖHM. Para encurtar a longa história, caso contrário, seria uma novela, eu trabalhava, neste época de 1972, como designer de televisão austríaca sob a direção de Erich Sokol. Ele era um excelente designer e fantástico chargista da Playboy e depois da Kronenzeitung em Viena.
Hans e eu nos conhecemos em Viena. Logo depois ele voltou do Brasil pela primeira vez. Como ele não sabia nada de animação e eu já trabalhava com desenhos animados e filmes de animação, ele me convidou para animar seus primeiros logotipos na Globo.
Ele voou de volta ao Rio com este primeiro filme de 35 mm, que foi em 1973. Pouco depois, em 1974, a Globo me convidou para uma consulta e logo depois mandou um contrato de trabalho como diretor de arte. Nossa área de trabalho foi dividida em duas divisões. O logotipo e o design corporativo era com o Hans e, mais tarde, com a ajuda de Sergio. E a minha parte estava o design em movimento. Nisso, Nilton Nunes, que era um editor de vídeo, foi um importante ajudante. Também naquela época, tínhamos ajuda de Cissa Guimarães. Era nossa estagiária.
Além de aberturas de novelas, que eram produzidas em cinema, minha área era a criação das chamadas, pré-censuras, vinhetas, inter-programas e aberturas para séries de TV. A primeira abertura da novela Bravo foi em 1975, depois veio Estúpido cupido (1976), Espelho mágico, Nina (1977), O pulo do gato, Dancin days, Sinal de alerta (1978). Depois Pecado rasgado, Marrom glacé, Malu mulher, Plantão de polícia, Carga pesada (tudo em 1979), e todas as vinhetas da programação.
Nessa época, no Fantástico, fui produzido por Guga, irmão do Boni, na Blimp Filmes, de São Paulo. E ainda todos os jornais, como Jornal Nacional, Jornal Hoje, Jornal da Globo, Globo Repórter, Carnaval, etc.
No começo, não havia nenhuma câmera de animação tipo Oxberry no Brasil. Então eu voei de outubro a janeiro para Nova York e Los Angeles, onde criei e produzi o jogo das vinhetas anuais, em estúdios de cinema. E o resto do ano o meu tempo foi preenchido com produção de aberturas. O restante foi feito em vídeo com Nilton, Hans e Sergio.
HANS DONNER. Olha, difícil de imaginar que alguém me pergunte de um trabalho feito há 400 anos… Porque é assim que eu me sinto. Nas primeiras décadas, daquele ano de 1978, cada ano contava como dez. Depois cada ano virou 20, 30 em termos de contagem de tempo. Mas óbvio que eu me lembro de todos esses projetos, porque foram o início, literalmente, de mexer com a sensação e a emoção de todos os brasileiros.
Foi uma das aberturas que ficaram na memória, muitas pessoas devem se lembrar de Sinal de alerta. E naquele mesmo ano de 1978, eu preparei uma mulher saindo da banana (na abertura do humorístico O planeta dos homens). Hoje, nas minhas palestras, eu resumo e destaco os trabalhos mais impactantes, e com certeza a Wilma Dias (modelo da abertura) saindo da banana faz parte dessa seleção de dez ou doze aberturas que fazem as pessoas viajarem no tempo.
TECNOLOGIA NA TV, ANOS 1970
HANS DONNER. Era nítido para onde o mundo estava caminhando quando usamos aquelas imagens na abertura. O Rudi era um gênio, dominava uma máquina que custava 500 mil dólares e que a Globo comprou imediatamente quando eu pedi. E ainda tínhamos um assistente como o Sergio.
SERGIO LIUZZI. Até meados dos anos 1980, a computação gráfica dava seus primeiros passos. As abertura das novelas, telejornais e programas eram feitas em vídeo, de forma bastante rudimentar, ou em animação – Sinal de alerta – numa truca operada pelo Rudi, que a Globo alugava. A truca fazia as animações quadro a quadro em película, um processo demorado e extremamente complexo, porém com infinitos recursos.
RUDI BÖHM. A abertura de Sinal de alerta foi o primeiro trabalho e, de alguma forma, o único (na época não havia computador) onde eu combinava muitas técnicas. O material básico era fotografia de stop-motion e filmagens de time-lapse em fotografia.
O personagem principal era Claudinho, meu assistente de São Paulo na época. Aliás, um personagem maravilhoso.
O trabalho fotográfico e o material básico de filme ao vivo foram produzidos pela Lynxfilm. Lá tinha a única câmera de time-lapse do América do Sul. O material fotográfico foi inflado em Cibacrome (transparências), e depois composto com máscaras de Kodalith (papel fotográfico).
Só tinha uma câmera de animação (Oxberry) no Brasil. Era de Josef Reindl, um checo. A empresa chamava se Truca, na Rua Abolição, Bela Vista, que possuía a primeira câmera de animação inglesa, uma Nilson-Hardell. A imagem ao vivo foi combinada com o material stop motion na imagem aérea. No final, combinamos o material pré-trucado com as máscaras no banco óptico. E essa máquina chamava-se truca.
Hoje em dia tudo soa um pouco chinês, mas era um trabalho emocionante de quebra-cabeça que exigia muita paciência e perseverança.
Depois que meu storyboard foi aceito por Boni e pelo diretor Walter Avancini, o que aconteceu imediatamente, mudei-me para o Hotel Jaraguá, São Paulo, na Rua Martins Fontes. E comecei a produção. Carlito Maia, que trabalhava para a Globo na época, foi uma grande ajuda. Além de fazer uma maravilhosa introdução à culinária italiana em São Paulo!
Lembro-me de uma visita do Boni, dois, três dias antes do término do trabalho para ver a abertura na moviola. Ninguém havia visto esse trabalho antes.
Em um domingo chuvoso, a ponte aérea foi fechada. Eu voei para o Rio com um jato particular e o material entrou segunda-feira no ar.
HANS DONNER. Eu me lembro daquela cena em que quis mostrar a poluição da Lagoa Rodrigo de Freitas. Puxei aquele “pano de lama” na frente da câmera para inserir naquela cena porque na época planejava-se concretar a Lagoa e construir prédios, o que graças a Deus não aconteceu. A poluição virou de fato o que estávamos mostrando naquela época.

NADA DE MÚSICA-TEMA, SÓ RUÍDOS
RUDI BÖHM. Desde o início do meu trabalho como animador, sempre fiz meu próprio som para meus filmes. Para mim, não havia outra opção e Boni tinha 100% de confiança no meu trabalho. E imediatamente concordou com essa versão.
HANS DONNER. Foi incrível descobrir que um cara como o Boni permitiria que usássemos apenas uma máscara sem colocar escrito “sinal de alerta”. O Boni foi impressionante: aceitou que não colocássemos música, como em todas as novelas. Só ruídos. Isso já era uma loucura.
SERGIO LIUZZI. De todas as aberturas que participei, com o Hans (a maior parte) e com o Rudi, Sinal de alerta foi a mais ousada, uma vez que o conteúdo tratava de um tema até então inédito nas telenovelas – problemas do cada vez mais acentuado desordenamento urbano que afetavam os moradores dos grandes centros.
O Rio de Janeiro desde o início dos anos 80, vinha num processo acelerado de desconstrução. Estávamos no final dos anos 80, e as questões ligadas ao meio ambiente não tinham a relevância e exposição diária nos meios de comunicação que têm hoje. Não existia internet. A questão ambiental não era tema de primeira página. A Eco 92 (que participei de uma exposição coletiva no MAM) só aconteceria 12 anos depois. Lembro-me que uma ou duas cenas do roteiro da abertura foram retiradas a pedido da direção. A trilha sonora ficou perfeita, em total sintonia com as imagens.
INFLUÊNCIA DE TERRY GILLIAM E MONTY PHYTON. TEVE?
SERGIO LIUZZI. Tomei conhecimento do Monty Python muitos anos depois. Honestamente não é definitivamente a minha praia. Devo ter visto umas duas vezes.
RUDI BÖHM. Sempre fui um fã de Terry Gilliam, desde o início. Eu amei e amo seu senso de humor e sátira. Hans e Sergio tinham um visão mais acadêmica e laqueada de design, um pouco como uma camada de pomada brilhante para os cabelos.
HANS DONNER. As trucagens na Oxberry foram um pouco inspiradas neles sim, e nessa linha se fez vários trabalhos.
INFLUÊNCIA DE “REVOLUTION 9”, DOS BEATLES. TEVE?
SERGIO LIUZZI. Agradeço pela analogia com Revolution 9, dos Beatles, mas honestamente, nunca passou por minha cabeça tal referência e acho que tampouco pelo Hans ou pelo Rudi. É possível que tenha havido, mas de forma totalmente inconsciente. Afinal somos da geração Beatles e Rolling Stones.
RUDI BÖHM (perguntado sobre se concordava com a comparação com a música dos Beatles) Concordo sim. Para mim, a arte em movimento só funciona com o conceito. Esta é a única maneira de explicar algo para o público e, às vezes (?!), permitir uma mudança na sociedade. Por esse motivo, mais tarde, trabalhei em várias TVs públicas no Brasil, o que me trouxe uma grande satisfação.
REPERCUSSÃO NA GLOBO
SERGIO LIUZZI. As propostas sempre eram levadas pelo Hans para que o Boni aprovasse. Não me lembro de nenhum comentário desfavorável. Creio que a abertura, quando apresentada para aprovação, teve uma ou duas passagens retiradas, mas não fizeram uma grande diferença. O tema da novela, por si só, já levantava algumas questões polêmicas.
RUDI BÖHM. Como eu disse, exceto o Boni, ninguém viu o trabalho até um dia antes de ir ao ar. Tanto quanto me lembro, não houve queixa. Naquela época, a poluição era um (quase) problema para o futuro. Dias Gomes, um homem sábio, era um dos poucos a tocar nesse tendão de Aquiles.
Foi também a primeira novela cujo logotipo era um desenho e não uma rotulação.
GRAVANDO O SOM.
RUDI BÖHM. Gravamos os trechos de ruídos no estúdio da Rita Lee, no Leblon. Guto Graça Mello foi responsável pelo gerenciamento técnico. Depois trouxe o material para São Paulo via fita magnética de 17 1/2 e montei na Moviola as bandas sonoras. Depois misturamos e mixamos no Estúdio Álamo na Vila Madalena. Uma cópia em som óptico foi desenvolvida e uma redução para 16mm foi feita com o internegativo de 35mm. Naquela época, a Globo ainda não possuía um telecine de 35 mm que transferia o filme para o vídeo.
SERGIO LIUZZI. As músicas das aberturas já chegavam definidas. As trilhas sonoras eram comercializadas pela gravadora Som Livre, uma empresa do grupo Globo. Não sei se a trilha de Sinal de alerta, distribuída pela Som Livre, incluía os ruídos usados na abertura – creio que não (não, os ruídos ficaram apenas na abertura).
TRABALHO EM CONJUNTO
RUDI BÖHM. Hans e Sergio fizeram o logotipo. Nada mais.
SERGIO LIUZZI. O primeiro contato que tínhamos com as novelas era feito através de uma sinopse com uma ou duas páginas. Os textos chegavam em português, sem tradução. Em Sinal de alerta, fizemos um storyboard a partir de anotações das idéias e propostas de cada um. A partir da narrativa que criamos, o Rudi construiu as imagens na Oxberry (truca).
O PÚBLICO FICOU IMPACTADO?
SERGIO LIUZZI. Não dava tempo para ter esse tipo de avaliação, nem tampouco interesse. Nosso ritmo de trabalho era intenso.
RUDI BÖHM. Foi realmente a única e provavelmente a última abertura que teve uma mensagem para o público. Não era um papel de embrulho para um produto, como os outros.
É claro que a plateia ficou chocada, mas eles entenderam o conteúdo.
Naquela época, não havia um Bolsonaro, dizendo coisas estúpidas.
DEPOIS DE “SINAL DE ALERTA”.
HANS DONNER. Nem me pergunte onde estão o Rudi e o Sergio, são 40 anos. De vez em quando escuto que um deles virou fazendeiro, cuida de escolas no interior de São Paulo… Foram pessoas que fizeram parte dos primeiros trabalhos, usando o desespero dos sinais que estavam por vir, e que hoje estão vendo o quanto valeu alertar as pessoas. Alertá-las que elas iriam ser transportadas dentro de latas de sardinha, ou sendo empurradas, como no Japão é praxe. Ou tendo memória dos prédios sendo arrancados com guindaste.
SERGIO LIUZZI. No segundo ano de faculdade, desisti definitivamente da Arquitetura, e dei muita sorte de ter trabalhado com o Hans. Com ele aprendi que design é persistência e dedicação. Os três anos e meio que trabalhamos lado a lado me deram a base para que eu partisse para outras aventuras (no design gráfico). Tive um escritório de design por vinte anos. Pude, então, “passear” por diversos segmentos, atendendo clientes das mais diferentes áreas e conhecer outros ótimos designers. Foi um desafio, mas valeu a pena.
RUDI BOHM. Hoje, minha vida cotidiana tem muitas facetas.
Dirigir vídeos documentais, escrever livros, fazer fotos e pintar exposições, cozinhar, trabalhar na minha carpintaria e cuida da manutenção da Escola e da biblioteca de Associação Apecatu.
Manutenção significa telefone, hidráulica, eletricidade, cadeiras, mesas… Dá para se divertir! Dá para se divertir! Entre no site www.rudibohm.com.br e/ou www.apecatu.org.br para ver mais.
HANS DONNER. Se vocês me levaram de volta para 1978 e acharam que o Sinal de alerta foi uma premonição, respondo que o verdadeiro Sinal de alerta eu fiz em 1992.
Foi a abertura da novela Deus nos acuda, quando veio na minha cabeça mostrar como nosso país ia ser roubado. E representei tudo com uma lama invadindo uma festa de roubalheira milionária em Brasília, em que a lama estava vindo até a boca e ninguém estava nem aí. Infelizmente ela entrou na nossa boca e o Brasil foi roubado.
Coloquei nessa abertura um sinal de alerta, de um presidente que foi impichado por comprar Ferraris e Porsches. A CNN botou um jornalista na minha sala na Globo para falar dessa abertura. Era um sinal de que só deus pode ajudar a gente. Essa abertura deveria ter tido o subtítulo “sinal de alerta”, mas ninguém se tocou. Estamos no fundo do poço e nosso país foi roubado do mapa múndi. Foram imagens que entraram além da retina, mas não entraram no estômago, para que cuidassem mais do nosso país.
Mais sobre Sinal de alerta aqui e aqui.
Aqui, o contexto político da novela.
Veja também no POP FANTASMA:
– O grito: aquela novela perturbadora da Globo ganhou tese de doutorado
Cultura Pop
Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.
Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.
O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.
Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.
Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.
Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.
De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.
Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.
Foto: Reprodução Internet
Cultura Pop
Qual é a dos dois discos novos de Lana Del Rey?

Lana Del Rey passou tanto tempo adiando e reformulando o próximo álbum que já dava para imaginar que ele nunca chegaria. Primeiro era Lasso. Depois virou The right person will stay. Em seguida apareceu como Stove. Agora a cantora resolveu complicar um pouco mais o roteiro: além de Stove, ela diz que também está preparando um segundo álbum inédito.
A novidade surgiu em uma publicação no Instagram, onde Lana contou que o disco extra nasceu durante o mesmo processo criativo do sucessor de Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd. Segundo ela, o novo trabalho funciona como uma espécie de “companion album”, desenvolvido quase ao mesmo tempo que Stove.
- Os bastidores do raro Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, que ganha lançamento oficial
A cantora também afirmou que esse segundo disco surgiu das transformações pessoais e criativas que viveu nos últimos quatro anos, funcionando como uma espécie de contraponto ao álbum principal. Se tudo correr como planejado — e essa ressalva é indispensável quando o assunto é cronograma de Lana Del Rey — os dois discos devem ficar prontos em cerca de um mês para seguir para a prensagem em vinil.
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Ela também afirmou que ambos já têm capas prontas e descreveu os projetos como algumas das obras de que mais se orgulha. O álbum principal, Stove, continua reunindo os singles Henry, come on, Bluebird e White feather hawk tail deer hunter, além de outras músicas que ela vem mostrando ao vivo nos últimos meses. Tudo indica que First light, single lançado como single da trilha sonora do jogo 007 First Light, escrito em parceria com David Arnold, é só um projeto à parte e não estará no disco.
Embora Lana ainda não tenha confirmado um título para o álbum companheiro, fãs passaram a chamá-lo de Spyda após identificarem esse nome em uma das artes divulgadas pela cantora nas redes sociais (aliás, no Reddit, tem fãs reclamando que a imprensa tá caindo rapidamente numa suposição deles mesmos, os fãs)
Ainda não há datas de lançamento para nenhum dos dois discos. Mas, considerando o histórico recente da cantora, talvez seja prudente evitar tatuar qualquer título no braço até que eles realmente apareçam nas plataformas de streaming. Afinal, se um álbum já mudou de nome três vezes antes de nascer, nada impede que um quarto nome apareça antes do play.
Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.








































