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Cultura Pop

Sinal de Alerta: a abertura de novela mais punk da televisão brasileira

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Sinal de Alerta: a abertura de novela mais perturbadora da televisão brasileira

Exibida pela Globo entre 1978 e 1979, a novela Sinal de alerta mexeu em vespeiros um tanto complexos para a época.

Até aquele período, o tema “ecologia” aparecia em uma música ou outra do Roberto Carlos – isso para ficar nos produtos populares do Brasil. Não havia nem sequer um partido verde no país (o PV data de 1985). E temas como “poluição” e “meio ambiente” só apareciam mesmo em reportagens de telejornal, que davam ao grande público a sensação de que aquilo tudo era numa galáxia distante daqui.

Agora volte para o começo dos anos 1970 e analise o fato de que o cardápio do “milagre brasileiro” (e da ditadura militar) incluía arrocho geral em operários e fábricas trabalhando ininterruptamente. Nesse cenário, a Globo pôs no horário experimental das 22h uma trama (escrita por Dias Gomes) que falava da poluição das grandes cidades, da fumaça das chaminés das fábricas e da prepotência dos capitães de indústria. Por sinal, personificados em Tião Borges, o dono da poluidora fábrica de inseticidas Ferlitit e personagem de Paulo Gracindo.

Os fãs de aberturas de novelas e de trilhas sonoras também ganhavam uma surpresa com Sinal de alerta. Nas chamadas das novas tramas, era comum que a emissora apresentasse o elenco ao som da música da abertura – que era sempre um lançamento. Quem visse os comerciais da futura novela, com a demonstração do elenco, ouviria Salve o verde, balanço que Jorge Ben havia composto para o Quarteto Em Cy cantar. Uma outra inovação da novela já vinha nas chamadas: o nome Sinal de alerta não aparecia, apenas a máscara contra gases que simbolizava a trama.

No LP da trilha nacional, Salve o verde ocupava exatamente o local destinado às músicas de abertura nos antigos LPs (se você nunca tinha reparado, elas sempre encerravam o lado A). Mas na abertura, a Globo optou por não usar trilha e utilizar um som que mais parecia uma versão folhetinesca de Revolution 9, dos Beatles, com vários ruídos colados. E várias imagens que misturavam desenhos, fotos e uso de modelos.

Pode ter passado despercebido para muita gente, mas a abertura de Sinal de alerta levava para a TV brasileira algo parecido com o estilo gráfico das animações de Terry Gilliam para o Monty Phyton’s flying circus.

O velho slogan televisivo do “no ar, mais um campeão de audiência!” não funcionou para Sinal de alerta. A novela foi bastante criticada, não gerou muito Ibope e deixou o horário das 22h parado por alguns anos.

Com as greves do ABC paulista dobrando a esquina, a Globo insistiu em ambientar a história de Sinal de alerta no Rio. Isso pode ter servido para tranquilizar a censura, mas cortou parte do realismo da trama. Dias Gomes, não custa lembrar, havia se inspirado no dia a dia insalubre de um bairro de São Paulo para escrever o texto. Por sinal, a novela nem sequer revelava o nome do bairro carioca onde ficava a fábrica, “para não desvalorizá-lo” (dizia o autor a O Globo em 31 de julho de 1978).

Sinal de Alerta: a abertura de novela mais perturbadora da televisão brasileira

Várias imagens da abertura

A abertura de Sinal de alerta hoje, no entanto, é bastante lembrada – mais recentemente, por causa do YouTube, que a imortalizou. E marcou época por levar experimentação e uma arte quase punk à TV brasileira. O POP FANTASMA decidiu procurar os três criadores da abertura, Hans Donner, Rudi Böhm e Sergio Liuzzi, e reconstruir a história do trabalho.

Praticamente as mesmas perguntas foram feitas aos três. Böhm e Liuzzi responderam por escrito e Hans enviou um áudio por intermédio de seu assessor de imprensa. Optamos por contar tudo como uma história oral, com os temas envolvidos e tudo o que foi falado/escrito.

O COMEÇO

SERGIO LIUZZI. Entrei na Globo como assistente de cenografia. Havia trancado a Faculdade de Arquitetura na ilha do Fundão. Soube que dois alemães estavam preparando uma grande mudança na identidade visual da televisão. Conheci o Hans através do designer Nilton Nunes que já trabalhava na Globo há alguns anos. Fizemos a abertura de uma novela de época (das seis) que teve boa aceitação. A área que o Nilton trabalhava transferiu-se para o prédio recém-inaugurado numa sala ao lado do Hans. A partir daí, com o tempo nos aproximamos e tornei-me seu assistente.

RUDI BÖHM. Para encurtar a longa história, caso contrário, seria uma novela, eu trabalhava, neste época de 1972, como designer de televisão austríaca sob a direção de Erich Sokol. Ele era um excelente designer e fantástico chargista da Playboy e depois da Kronenzeitung em Viena.

Hans e eu nos conhecemos em Viena. Logo depois ele voltou do Brasil pela primeira vez. Como ele não sabia nada de animação e eu já trabalhava com desenhos animados e filmes de animação, ele me convidou para animar seus primeiros logotipos na Globo.

Ele voou de volta ao Rio com este primeiro filme de 35 mm, que foi em 1973. Pouco depois, em 1974, a Globo me convidou para uma consulta e logo depois mandou um contrato de trabalho como diretor de arte. Nossa área de trabalho foi dividida em duas divisões. O logotipo e o design corporativo era com o Hans e, mais tarde, com a ajuda de Sergio. E a minha parte estava o design em movimento. Nisso, Nilton Nunes, que era um editor de vídeo, foi um importante ajudante. Também naquela época, tínhamos ajuda de Cissa Guimarães. Era nossa estagiária.

Além de aberturas de novelas, que eram produzidas em cinema, minha área era a criação das chamadas, pré-censuras, vinhetas, inter-programas e aberturas para séries de TV. A primeira abertura da novela Bravo foi em 1975, depois veio Estúpido cupido (1976), Espelho mágico, Nina (1977), O pulo do gato, Dancin days, Sinal de alerta (1978). Depois Pecado rasgado, Marrom glacé, Malu mulher, Plantão de polícia, Carga pesada (tudo em 1979), e todas as vinhetas da programação.

Nessa época, no Fantástico, fui produzido por Guga, irmão do Boni, na Blimp Filmes, de São Paulo. E ainda todos os jornais, como Jornal Nacional, Jornal Hoje, Jornal da Globo, Globo Repórter, Carnaval, etc.

No começo, não havia nenhuma câmera de animação tipo Oxberry no Brasil. Então eu voei de outubro a janeiro para Nova York e Los Angeles, onde criei e produzi o jogo das vinhetas anuais, em estúdios de cinema. E o resto do ano o meu tempo foi preenchido com produção de aberturas. O restante foi feito em vídeo com Nilton, Hans e Sergio.

HANS DONNER. Olha, difícil de imaginar que alguém me pergunte de um trabalho feito há 400 anos… Porque é assim que eu me sinto. Nas primeiras décadas, daquele ano de 1978, cada ano contava como dez. Depois cada ano virou 20, 30 em termos de contagem de tempo. Mas óbvio que eu me lembro de todos esses projetos, porque foram o início, literalmente, de mexer com a sensação e a emoção de todos os brasileiros.

Foi uma das aberturas que ficaram na memória, muitas pessoas devem se lembrar de Sinal de alerta. E naquele mesmo ano de 1978, eu preparei uma mulher saindo da banana (na abertura do humorístico O planeta dos homens). Hoje, nas minhas palestras, eu resumo e destaco os trabalhos mais impactantes, e com certeza a Wilma Dias (modelo da abertura) saindo da banana faz parte dessa seleção de dez ou doze aberturas que fazem as pessoas viajarem no tempo.

TECNOLOGIA NA TV, ANOS 1970

HANS DONNER. Era nítido para onde o mundo estava caminhando quando usamos aquelas imagens na abertura. O Rudi era um gênio, dominava uma máquina que custava 500 mil dólares e que a Globo comprou imediatamente quando eu pedi. E ainda tínhamos um assistente como o Sergio.

SERGIO LIUZZI. Até meados dos anos 1980, a computação gráfica dava seus primeiros passos. As abertura das novelas, telejornais e programas eram feitas em vídeo, de forma bastante rudimentar, ou em animação – Sinal de alerta – numa truca operada pelo Rudi, que a Globo alugava. A truca fazia as animações quadro a quadro em película, um processo demorado e extremamente complexo, porém com infinitos recursos.

RUDI BÖHM. A abertura de Sinal de alerta foi o primeiro trabalho e, de alguma forma, o único (na época não havia computador) onde eu combinava muitas técnicas. O material básico era fotografia de stop-motion e filmagens de time-lapse em fotografia.

O personagem principal era Claudinho, meu assistente de São Paulo na época. Aliás, um personagem maravilhoso.

O trabalho fotográfico e o material básico de filme ao vivo foram produzidos pela Lynxfilm. Lá tinha a única câmera de time-lapse do América do Sul. O material fotográfico foi inflado em Cibacrome (transparências), e depois composto com máscaras de Kodalith (papel fotográfico).

Só tinha uma câmera de animação (Oxberry) no Brasil. Era de Josef Reindl, um checo. A empresa chamava se Truca, na Rua Abolição, Bela Vista, que possuía a primeira câmera de animação inglesa, uma Nilson-Hardell. A imagem ao vivo foi combinada com o material stop motion na imagem aérea. No final, combinamos o material pré-trucado com as máscaras no banco óptico. E essa máquina chamava-se truca.

Hoje em dia tudo soa um pouco chinês, mas era um trabalho emocionante de quebra-cabeça que exigia muita paciência e perseverança.

Depois que meu storyboard foi aceito por Boni e pelo diretor Walter Avancini, o que aconteceu imediatamente, mudei-me para o Hotel Jaraguá, São Paulo, na Rua Martins Fontes. E comecei a produção. Carlito Maia, que trabalhava para a Globo na época, foi uma grande ajuda. Além de fazer uma maravilhosa introdução à culinária italiana em São Paulo!

Lembro-me de uma visita do Boni, dois, três dias antes do término do trabalho para ver a abertura na moviola. Ninguém havia visto esse trabalho antes.

Em um domingo chuvoso, a ponte aérea foi fechada. Eu voei para o Rio com um jato particular e o material entrou segunda-feira no ar.

HANS DONNER. Eu me lembro daquela cena em que quis mostrar a poluição da Lagoa Rodrigo de Freitas. Puxei aquele “pano de lama” na frente da câmera para inserir naquela cena porque na época planejava-se concretar a Lagoa e construir prédios, o que graças a Deus não aconteceu. A poluição virou de fato o que estávamos mostrando naquela época.

NADA DE MÚSICA-TEMA, SÓ RUÍDOS

RUDI BÖHM. Desde o início do meu trabalho como animador, sempre fiz meu próprio som para meus filmes. Para mim, não havia outra opção e Boni tinha 100% de confiança no meu trabalho. E imediatamente concordou com essa versão.

HANS DONNER. Foi incrível descobrir que um cara como o Boni permitiria que usássemos apenas uma máscara sem colocar escrito “sinal de alerta”. O Boni foi impressionante: aceitou que não colocássemos música, como em todas as novelas. Só ruídos. Isso já era uma loucura.

SERGIO LIUZZI. De todas as aberturas que participei, com o Hans (a maior parte) e com o Rudi, Sinal de alerta foi a mais ousada, uma vez que o conteúdo tratava de um tema até então inédito nas telenovelas – problemas do cada vez mais acentuado desordenamento urbano que afetavam os moradores dos grandes centros.

O Rio de Janeiro desde o início dos anos 80, vinha num processo acelerado de  desconstrução. Estávamos no final dos anos 80, e as questões ligadas ao meio ambiente não tinham a relevância e exposição diária nos meios de comunicação que têm hoje. Não existia internet. A questão ambiental não era tema de primeira página. A Eco 92 (que participei de uma exposição coletiva no MAM) só aconteceria 12 anos depois. Lembro-me que uma ou duas cenas do roteiro da abertura foram retiradas a pedido da direção. A trilha sonora ficou perfeita, em total sintonia com as imagens.

INFLUÊNCIA DE TERRY GILLIAM E MONTY PHYTON. TEVE?

SERGIO LIUZZI. Tomei conhecimento do Monty Python muitos anos depois. Honestamente não é definitivamente a minha praia. Devo ter visto umas duas vezes.

RUDI BÖHM. Sempre fui um fã de Terry Gilliam, desde o início. Eu amei e amo seu senso de humor e sátira. Hans e Sergio tinham um visão mais acadêmica e laqueada de design, um pouco como uma camada de pomada brilhante para os cabelos.

HANS DONNER. As trucagens na Oxberry foram um pouco inspiradas neles sim, e nessa linha se fez vários trabalhos.

INFLUÊNCIA DE “REVOLUTION 9”, DOS BEATLES. TEVE?

SERGIO LIUZZI. Agradeço pela analogia com Revolution 9, dos Beatles, mas honestamente, nunca passou por minha cabeça tal referência e acho que tampouco pelo Hans ou pelo Rudi. É possível que tenha havido, mas de forma totalmente inconsciente. Afinal somos da geração Beatles e Rolling Stones.

RUDI BÖHM (perguntado sobre se concordava com a comparação com a música dos Beatles) Concordo sim. Para mim, a arte em movimento só funciona com o conceito. Esta é a única maneira de explicar algo para o público e, às vezes (?!), permitir uma mudança na sociedade. Por esse motivo, mais tarde, trabalhei em várias TVs públicas no Brasil, o que me trouxe uma grande satisfação.

REPERCUSSÃO NA GLOBO

SERGIO LIUZZI. As propostas sempre eram levadas pelo Hans para que o Boni aprovasse. Não me lembro de nenhum comentário desfavorável. Creio que a abertura, quando apresentada para aprovação, teve uma ou duas passagens retiradas, mas não fizeram uma grande diferença. O tema da novela, por si só, já levantava algumas questões polêmicas.

RUDI BÖHM. Como eu disse, exceto o Boni, ninguém viu o trabalho até um dia antes de ir ao ar. Tanto quanto me lembro, não houve queixa. Naquela época, a poluição era um (quase) problema para o futuro. Dias Gomes, um homem sábio, era um dos poucos a tocar nesse tendão de Aquiles.

Foi também a primeira novela cujo logotipo era um desenho e não uma rotulação.

GRAVANDO O SOM.

RUDI BÖHM. Gravamos os trechos de ruídos no estúdio da Rita Lee, no Leblon. Guto Graça Mello foi responsável pelo gerenciamento técnico. Depois trouxe o material para São Paulo via fita magnética de 17 1/2 e montei na Moviola as bandas sonoras. Depois misturamos e mixamos no Estúdio Álamo na Vila Madalena. Uma cópia em som óptico foi desenvolvida e uma redução para 16mm foi feita com o internegativo de 35mm. Naquela época, a Globo ainda não possuía um telecine de 35 mm que transferia o filme para o vídeo.

SERGIO LIUZZI. As músicas das aberturas já chegavam definidas. As trilhas sonoras eram comercializadas pela gravadora Som Livre, uma empresa do grupo Globo. Não sei se a trilha de Sinal de alerta, distribuída pela Som Livre, incluía os ruídos usados na abertura – creio que não (não, os ruídos ficaram apenas na abertura).

TRABALHO EM CONJUNTO

RUDI BÖHM. Hans e Sergio fizeram o logotipo. Nada mais.

SERGIO LIUZZI. O primeiro contato que tínhamos com as novelas era feito através de uma sinopse com uma ou duas páginas. Os textos chegavam em português, sem tradução. Em Sinal de alerta, fizemos um storyboard a partir de anotações das idéias e propostas de cada um. A partir da narrativa que criamos, o Rudi construiu as imagens na Oxberry (truca).

O PÚBLICO FICOU IMPACTADO?

SERGIO LIUZZI. Não dava tempo para ter esse tipo de avaliação, nem tampouco interesse. Nosso ritmo de trabalho era intenso.

RUDI BÖHM. Foi realmente a única e provavelmente a última abertura que teve uma mensagem para o público. Não era um papel de embrulho para um produto, como os outros.

É claro que a plateia ficou chocada, mas eles entenderam o conteúdo.

Naquela época, não havia um Bolsonaro, dizendo coisas estúpidas.

DEPOIS DE “SINAL DE ALERTA”.

HANS DONNER. Nem me pergunte onde estão o Rudi e o Sergio, são 40 anos. De vez em quando escuto que um deles virou fazendeiro, cuida de escolas no interior de São Paulo… Foram pessoas que fizeram parte dos primeiros trabalhos, usando o desespero dos sinais que estavam por vir, e que hoje estão vendo o quanto valeu alertar as pessoas. Alertá-las que elas iriam ser transportadas dentro de latas de sardinha, ou sendo empurradas, como no Japão é praxe. Ou tendo memória dos prédios sendo arrancados com guindaste.

SERGIO LIUZZI. No segundo ano de faculdade, desisti definitivamente da Arquitetura, e dei muita sorte de ter trabalhado com o Hans. Com ele aprendi que design é persistência e dedicação. Os três anos e meio que trabalhamos lado a lado me deram a base para que eu partisse para outras aventuras (no design gráfico). Tive um escritório de design por vinte anos. Pude, então, “passear” por diversos segmentos, atendendo clientes das mais diferentes áreas e conhecer outros ótimos designers. Foi um desafio, mas valeu a pena.

RUDI BOHM. Hoje, minha vida cotidiana tem muitas facetas.

Dirigir vídeos documentais, escrever livros, fazer fotos e pintar exposições, cozinhar, trabalhar na minha carpintaria e cuida da manutenção da Escola e da biblioteca de Associação Apecatu.

Manutenção significa telefone, hidráulica, eletricidade, cadeiras, mesas… Dá para se divertir! Dá para se divertir! Entre no site www.rudibohm.com.br e/ou www.apecatu.org.br para ver mais.

HANS DONNER. Se vocês me levaram de volta para 1978 e acharam que o Sinal de alerta foi uma premonição, respondo que o verdadeiro Sinal de alerta eu fiz em 1992.

Foi a abertura da novela Deus nos acuda, quando veio na minha cabeça mostrar como nosso país ia ser roubado. E representei tudo com uma lama invadindo uma festa de roubalheira milionária em Brasília, em que a lama estava vindo até a boca e ninguém estava nem aí. Infelizmente ela entrou na nossa boca e o Brasil foi roubado.

Coloquei nessa abertura um sinal de alerta, de um presidente que foi impichado por comprar Ferraris e Porsches. A CNN botou um jornalista na minha sala na Globo para falar dessa abertura. Era um sinal de que só deus pode ajudar a gente. Essa abertura deveria ter tido o subtítulo “sinal de alerta”, mas ninguém se tocou. Estamos no fundo do poço e nosso país foi roubado do mapa múndi. Foram imagens que entraram além da retina, mas não entraram no estômago, para que cuidassem mais do nosso país.

Mais sobre Sinal de alerta aqui e aqui.
Aqui, o contexto político da novela.

Veja também no POP FANTASMA:
– O grito: aquela novela perturbadora da Globo ganhou tese de doutorado

Cultura Pop

Billy Corgan e Butch Vig juntos no estúdio de novo após 33 anos

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Billy Corgan e Butch Vig juntos no estúdio de novo após 33 anos

RESUMO: Billy Corgan e Butch Vig retomam a parceria de Gish e Siamese dream em Black stars, faixa da trilha de Jogos vorazes. Um reencontro com o produtor que ajudou a criar o som do Smashing Pumpkins. Relembre o histórico.

Texto: Ricardo Schott – Fotos: Reprodução

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Imagine você entrar num estúdio com Billy Corgan, no começo dos anos 1990, e descobrir que ele quer gravar uma música com dezenas de guitarras. E que, se uma delas não soar exatamente como ele imaginou, vai ter que fazer tudo de novo. Agora imagine que o produtor, em vez de mandar o sujeito sossegar, acha a ideia ótima. Pois era mais ou menos assim que funcionava a parceria entre o Smashing Pumpkins e Butch Vig. E, 33 anos depois, os dois resolveram repetir a experiência.

A novidade é Black stars, música lançada nesta sexta-feira (16) e incluída na trilha sonora de Jogos vorazes: Amanhecer na colheita. A trilha completa sai em 13 de novembro, uma semana antes da estreia do filme. É a primeira gravação lançada pelo Smashing Pumpkins com produção de Vig desde o álbum Siamese dream, de 1993. A faixa também entrou no repertório da atual turnê Rats in the cage.

A história dos dois começou em 1990, quando o Smashing Pumpkins gravou Tristessa, compacto lançado pela Sub Pop, sob a produção dele. Isso foi antes de Vig produzir Nevermind, do Nirvana (1991). Corgan gostou do cara logo de primeira. Numa entrevista à Tape Op, contou que o produtor não tinha pose, trabalhava pra caramba e não se assustava com as ideias que ele e o baterista Jimmy Chamberlin levavam para o estúdio. Pelo contrário: parecia gostar da complicação.

Foi assim que chegaram a Gish (1991), álbum de estreia da banda, primeiro no qual trabalharam juntos. Corgan queria um disco com peso, psicodelia, melodias bonitas e guitarras aparecendo de todos os lados – um baita rock de arena, com ambiência, totalmente o oposto daquela onda da época, de simplesmente colocar quatro músicos numa sala e apertar o botão de gravar. Vig comprou a ideia e ajudou a organizar tudo aquilo. Dá para ouvir o resultado em Siva, Rhinoceros e Daydream, três músicas bem diferentes que parecem fazer parte do mesmo universo.

Só que os dois tinham um problema: não sabiam a hora de parar. Corgan contou à Rolling Stone italiana que Vig pegava pesado com afinação, ritmo e vocais. Fazia Billy cantar a mesma parte tantas vezes que ele começava a achar que não sabia cantar. O engraçado é que, olhando para trás, o vocalista reconhece que aquela cobrança fez toda a diferença.

Em Siamese dream (1993), o segundo disco, a situação ficou ainda mais complicada. A banda já tinha uma gravadora grande esperando resultados, Billy passava por uma fase emocional difícil e os integrantes não se entendiam nada bem. Foram gravar em Atlanta, mas os problemas viajaram com a banda nas malas.

Corgan acabou tocando praticamente todas as guitarras e boa parte dos baixos. Algumas músicas ganharam tantas camadas que Vig precisava descobrir como fazer tudo caber na mixagem. Era guitarra em cima de guitarra, com mais uma guitarra aparecendo quando você achava que já tinha acabado. E, se alguma coisa não estivesse perfeita, lá iam eles gravar de novo. O disco demorou, custou caro e deu um trabalhão. Só que saiu dali Siamese dream, com Cherub rock, Today, Disarm e vários clássicos.

Corgan nunca escondeu o quanto Vig foi importante. Nos textos da reedição de Siamese dream, em 2011, escreveu: “Butch me apoiou o tempo todo nessa visão maluca”. E completou: “Butch era a única pessoa que poderia ter feito aquele disco conosco, porque o respeitávamos tanto que queríamos estar à altura dos padrões elevados dele”.

Mas aí chegou a hora de fazer o duplo Mellon Collie And The Infinite Sadness (1995), e Billy resolveu mudar tudo. Chamou Flood e Alan Moulder para produzir, porque queria sair daquela maneira de trabalhar. Numa entrevista ao Grammy.com, explicou que Vig havia ajudado a construir uma versão quase idealizada do Smashing Pumpkins. Flood queria outra coisa: ouvir a banda como ela realmente soaria nos shows.

E não, a troca não aconteceu por causa de alguma briga. Em 2011, perguntaram a Corgan se ele toparia trabalhar novamente com Vig. “Eu amo Butch e temos uma relação muito boa. Adoraria. Ele provavelmente é uma das únicas pessoas com quem eu voltaria a entrar em estúdio”, respondeu. Vig também sempre pareceu adorar Corgan, embora já tenha declarado algumas vezes que o músico foi “um pentelho” no estúdio (quem conhece a história de Billy sabe que isso é um nome até carinhoso).

Pois bem: demorou 15 anos para aquela declaração virar realidade. Black stars coloca novamente os dois no estúdio, agora com décadas de experiência acumulada e sem a obrigação de repetir o que fizeram em 1993.

Ainda não há indicação de que a parceria vá render um álbum inteiro. Por enquanto, é uma música para uma trilha sonora. Mas já dá para imaginar a cena: Billy aparece com uma ideia complicada, Butch escuta, pensa um pouco e resolve que dá para melhorar. E lá vem outra guitarra…

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Cultura Pop

Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

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Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

RESUMO: Antes da fama, o U2 tocou Out of control na TV irlandesa vestido de palhaço. Tem gente achando que é obra da IA, mas não é não.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução

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No comecinho de sua história, prestes a fazer as primeiras gravações, o U2 fez um vídeo de Out of control na TV irlandesa em clima de circo, com maquiagens faciais e roupas de palhaço. Tá aí o vídeo.

O vídeo é de 1979 e pertence aos arquivos da RTÉ, emissora pública irlandesa – e pelo que a emissora diz, apareceu no programa Our times. Já teve gente levantando a hipótese de ser obra de IA. Não é, pelo visto. “Embora a estética crua e a qualidade amadora das possam levar os espectadores a questionar a sua autenticidade, este vídeo específico foi documentado e discutido pela comunidade de fãs do U2 como uma peça genuína da história da banda”, diz um comentário publicado no canal do YouTube @DutchU2Fan.

Não foi a primeira vez que a banda esteve na atração: em 13 de novembro de 1978, tocaram a música The fool, numa apresentação que acabou sendo reprisada em 27 de novembro. Aliás, a primeira vez que Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton foram à RTE rolou em 2 de março de 1978, quando ainda se chamavam The Hype – na ocasião, foram a programa Youngline e cantaram Street mission.

Além das maquiagens, Bono surge usando apetrechos teatrais e fazendo caras e bocas para a câmera – em alguns momentos, tudo parece uma cena de humorístico brasileiro dos anos 1970. E naquela altura, Out of control era praticamente o cartão de visitas do U2. Em agosto de 1979, o radialista Dave Fanning apresentou três músicas do grupo em seu programa na RTÉ — Out of control, Stories for boys e Boy/Girl — e deixou os ouvintes escolherem qual delas deveria ocupar o lado A do primeiro lançamento da banda. Out of control venceu. No mês seguinte, as três músicas apareceram no EP Three, cuja primeira edição teve mil cópias numeradas.

A canção também tinha uma origem bastante pessoal. Bono a escreveu quando completou 18 anos, pensando no desconforto de perceber que dois dos acontecimentos mais importantes da existência estão totalmente fora das nossas mãos: ninguém decide nascer e, em última instância, também não controla a própria morte.

Agora: por que diabos eles estão vestidos daquele jeito?

Bom, não há, pelo menos na documentação conhecida sobre a apresentação, uma explicação de Bono, The Edge, Adam Clayton ou Larry Mullen Jr. para as roupas, mas maquiagens e os apetrechos. Também não aparece nos arquivos disponibilizados pela RTÉ uma justificativa para o figurino. Pode ter sido uma ideia do programa, uma brincadeira da própria banda ou simplesmente parte da estética daquela atração

O vídeo pertence a uma fase realmente embrionária do U2, que ainda traria uma apresentação no programa Aspects Of rock em setembro de 1979, tocando Life on a distant planet. Em janeiro de 1980, a banda chegou ao Late late show com Stories for boys. E pouco depois, aquela banda de garotos que ainda podia surgir fantasiada na televisão começaria a gravar a estreia Boy, lançada em outubro de 1980. Um primeiro passo na construção do U2 que a gente conhece hoje.

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Cultura Pop

Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

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Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

RESUMO: O Nirvana recebeu o Video Vanguard Award no VMA e entrou numa história que começou em 1984 com Beatles e David Bowie. Entenda como surgiu e por que o prêmio mudou ao longo das décadas.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução

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O Nirvana voltou ao VMA neste domingo (27) para receber um prêmio que, de certa forma, conta a própria história da MTV. Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear subiram ao palco para buscar o Video Vanguard Award, homenagem pelo conjunto da obra audiovisual da banda.

Recebendo a honraria, os mais ilustres três ex-integrantes vivos da baanda entraram numa lista que começou com Beatles e David Bowie e, ao longo de mais de quatro décadas, passou por Madonna, Michael Jackson, R.E.M., Beastie Boys, U2, Beyoncé e vários outros.

Mas o que exatamente é o Video Vanguard? Bom, temos duas respostas, uma curta e uma longa. A resposta curta: é uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra do VMA, dedicado a artistas que tiveram impacto importante sobre o videoclipe e a cultura pop. Não está ligado a um vídeo específico lançado naquele ano e nem sequer é entregue em todas as edições.

A resposta longa é… a própria história do prêmio. E é a melhor resposta, já que o prêmio nasceu junto com o próprio VMA, em 1984. E não custa lembrar que nessa época videoclipe ainda era uma linguagem em formação e a MTV tinha apenas três anos. Na primeira cerimônia, só pra você ter uma ideia, David Bowie ganhou o prêmio, e houve menção especial aos Beatles e a Richard Lester, que dirigiu os filmes Help e A hard days night, do quarteto.

No caso dos Beatles e Lester, a escolha reconhecia especialmente a importância dos filmes do grupo para aquilo que, anos depois, se consolidaria como a linguagem do videoclipe – e da mesma forma, Bowie havia desenvolvido muito do idioma dos clipes vários anos antes. Na real, como ainda nem sequer havia uma “história” do videoclipe, era fundamental apontar quem havia ajudado a inventar aquela nova linguagem.

Nos anos seguintes, por sua vez, já estava claro que o grande lance era premiar quem já estava fazendo história ali mesmo, com a linguagem dos clipes. Em 1985, ganharam o prêmio David Byrne (então apenas o líder dos Talking Heads) e os diretores Russell Mulcahy e Godley & Creme. Madonna recebeu em 1986. Peter Gabriel, em 1987.

Detalhe: Michael Jackson ganhou em 1988 e, a partir de 1991, seu nome passou a ser associado oficialmente à honraria, que durante décadas ficou conhecida como Michael Jackson Video Vanguard Award. Em 2019, a MTV silenciosamente, mas nem tanto, tirou o nome do astro do prêmio. Nesse ano, a vencedora foi a rapper Missy Elliott.

Na década seguinte, a lista parece quase um resumo do período em que rock e MTV andavam grudados. Bon Jovi recebeu o Vanguard em 1991; Guns N’ Roses, em 1992; Tom Petty e Rolling Stones, em 1994; R.E.M., em 1995; Red Hot Chili Peppers, em 2000; U2, em 2001; e Duran Duran, em 2003. Exceções à regra: em 1997 o rapper LL Cool J levou a estatueta pra casa. No ano seguinte, os Beastie Boys ganharam o prêmio.

Depois, o perfil foi mudando junto com a própria MTV e com a cultura pop. Britney Spears, Justin Timberlake, Beyoncé, Kanye West, Rihanna, Pink, Jennifer Lopez e Missy Elliott estão entre os homenageados. Nos últimos anos vieram Nicki Minaj, Shakira, Katy Perry e Mariah Carey. Agora o prêmio volta ao rock com o Nirvana.

Dá pra dizer que poucos grupos carregam uma ligação tão evidente com a era clássica da MTV. Smells like teen spirit não apenas virou um dos clipes mais associados aos anos 1990 como ajudou a transformar a imagem do rock no canal. Come as you are, In bloom e Heart-shaped box reforçaram uma identidade visual que misturava estranheza, humor, desconforto e uma boa dose de antipatia pelos padrões do estrelato.

No VMA deste ano, coube a Chuck D, do Public Enemy, entregar o prêmio. Novoselic aproveitou o discurso para colocar Kurt Cobain no centro da história e lembrou que muitas ideias dos vídeos vinham da visão artística do vocalista. Para ele, a permanência do Nirvana também tem relação com uma busca do público por autenticidade.

Grohl, Novoselic e Smear receberam a homenagem sem Cobain, morto em 1994, mas com sua imagem aparecendo durante a cerimônia. A escolha fecha um círculo curioso: uma banda que ajudou a definir a MTV dos anos 1990 recebe, mais de três décadas depois, um prêmio criado justamente para reconhecer quem mudou a maneira de juntar música e imagem.

Mais do que um troféu para quem acumulou clipes famosos, o Video Vanguard começou como uma homenagem a quem empurrou o videoclipe para algum lugar novo. E sua lista de vencedores acabou registrando também as mudanças da própria MTV: dos Beatles e dos diretores pioneiros ao domínio do rock, daí às grandes estrelas do pop e do hip hop.

Agora o Nirvana entrou nessa história. Digamos que, para uma banda que chegou à MTV parecendo não pertencer àquele mundo, demorou bastante.

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