Cultura Pop
Relembrando: Ultravox, “Systems of romance” (1978)

Nos dois primeiros discos, o Ultravox era, na verdade, Ultravox!, com esse ponto de exclamação no final, em homenagem à banda alemã Neu!. A gravadora da banda era a Island, o vocalista ainda era John Foxx e o guitarrista ainda era Stevie Shears, criativo e barulhento, mas considerado pela banda como um músico limitado para certos voos sonoros – e que depois iria parar no Magazine, a investida pop-experimental de Howard Devoto, ex-Buzzcocks.
A fase era de variedade: no primeiro disco (1977) o Ultravox apresentava influências e referências demais para soar como banda punk, e em vários momentos rezava na cartilha do glam (como em I want to be a machine) e do que viraria o pós-punk (Wide boys). Em Ha ha ha! (1977), o segundo, faziam pré-tecnopop (The man who die everyday), pré-hardcore (Fear in the western world) e até arriscavam uma bossa nova eletrônica e ruidosa (Hiroshima mon amour).
O grupo, ainda com Foxx nos vocais, dispensou Shears, e convidou para seu lugar Robin Simon – que de qualquer jeito só duraria dois anos por lá. E foi se aproximando gradativamente da new wave e dos sons sintetizados, mas com uma musicalidade ainda bastante marcada pela diversidade sonora dos primeiros anos. Ainda sob contrato com a Island, que já vinha se aporrinhando com as baixas vendagens do grupo, o Ultravox gravou seu melhor álbum da primeiríssima fase.
>>> Temos um episódio do nosso podcast Pop Fantasma Documento sobre a fase inicial do Ultravox
Systems of romance, o terceiro da banda (e primeiro sem ponto de exclamação), saiu em 8 de setembro de 1978 e realizava um sonho de Foxx, Robin, Billy Currie (teclados, violino), Warren Cann (bateria) e Chris Cross (baixo). O grupo, a fim de dar um tratamento mais eletrônico a algumas faixas, convidou Conny Plank, mago da produção da Alemanha e criador do som de bandas como Neu! e Kraftwerk para cuidar do disco. Era um excelente disco de transição entre o começo quase punk e a fase que fez com que muita gente encarasse a banda como uma formação de new wave e synthpop (ouvindo hoje, dá pra dizer que Vienna, disco seguinte, de 1980, com Midge Ure nos vocais, nem era tão discrepante assim, mas a banda passou a ter mais foco).
O terceiro disco do Ultravox era tão bom, na verdade, que a própria banda não entendeu nada quando, após seu lançamento, foi surpreendida pela Island com o bilhete azul. Era um álbum conceitual-sem-conceito, tipicamente art pop, em que a banda tentava pensar o que aconteceria se a cultura pop britânica tivesse se espelhado na Europa, e não nos Estados Unidos. Daí surgiram quase-tecnopops como Quiet men (sobre uma persona alternativa de John Foxx), Slow motion e Blue light, com o tom dado por linhas de teclados e programações.
Maximum acceleration, um krautrock inglês, tratava de relacionamentos como se fossem ações mecânicas. Some of them era o lado mais punk do álbum, lembrando The Damned. Uma das canções mais surpreendentes de Systems of romance, no entanto, era um solitário rock clássico e psicodélico: When you walk through me, um rock mod lembrando The Who, com ritmo chupado de Tomorrow never knows, dos Beatles.
O lançamento de Systems of romance foi marcado pela primeira turnê do Ultravox nos Estados Unidos – paga pela banda com dinheiro do próprio bolso, já que o quinteto nem sequer tinha mais uma gravadora. Em lugares como Nova York, viram de perto o caos urbano que invadia as letras do grupo desde o primeiro álbum. Mas com pouca grana e muito estresse na estrada, começou a rolar briga, e John Foxx acabou deixando o grupo, rumo a uma carreira solo bem sucedida – enquanto o grupo foi igualmente fazer bem mais sucesso com Midge Ure nos vocais. O Ultravox continuou sendo uma grande banda, mas a fase mutante do grupo inglês, que durou três álbuns, ainda é a maior surpresa de sua história.
Cultura Pop
George Harrison em 2001: “O que é Eminem?”

RESUMO: Em 2001, George Harrison participou de chats no Yahoo e MSN para divulgar All Things Must Pass; com humor, respondeu fãs poucos meses antes de morrer – e desdenhou Eminem (rs)
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução YouTube
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
“Que Deus abençoe a todos vocês. Não se esqueçam de fazer suas orações esta noite. Sejam boas almas. Muito amor! George!”. Essa recomendação foi feita por ninguém menos que o beatle George Harrison no dia 15 de fevereiro de 2001 – há 25 anos e alguns dias, portanto – ao participar de dois emocionantes chats (pelo Yahoo e pelo MSN).
O tal bate-papo, além de hoje em dia ser importante pelos motivos mais tristes (George morreria naquele mesmo ano, em 29 de novembro), foi uma raridade causada pelo relançamento remasterizado de seu álbum triplo All things must pass (1970), em janeiro de 2001. George estava cuidando pessoalmente da remasterização de todo seu catálogo e o disco, com capa colorida e fotos reimaginadas, além de um kit de imprensa eletrônico (novidade na época), era o carro-chefe de toda a história. O lançamento de um site do cantor, o allthingsmustpass.com, também era a parada do momento (hoje o endereço aponta para o georgeharrison.com).
Os dois bate-papos tiveram momentos, digamos assim, inesquecíveis. No do Yahoo, George fez questão de dizer que era sua primeira vez num computador: “Sou praticamente analfabeto 🙂 “, escreveu, com emoji e tudo. Ainda assim, um fã meio distraído quis saber se ele surfava muito na internet. “Não, eu nunca surfo. Não tenho a senha”, disse o paciente beatle. Um fã mais brincalhão quis saber das influências dos Rutles, banda-paródia dos Beatles que teve apoio do próprio Harrison, no som dele (“tirei todas as minhas influências deles!”) e outro perguntou sobre a indicação de Bob Dylan ao Oscar (sua Things have changed fazia parte da trilha de Garotos incríveis, de Curtis Hanson). “Acho que ele deveria ganhar TODOS os Oscars, todos os Tonys, todos os Grammys”, exultou.
A conta do Instagram @diariobeatle deu uma resumida no chat do Yahoo e lembrou que George contou sobre a origem dos gnomos da capa de All things must pass, além de associá-los a um certo quarteto de Liverpool. “Originalmente, quando tiramos a foto eu tinha esses gnomos bávaros antigos, que eu pensei em colocar ali tipo… John, Paul, George e Ringo”, disse. “Gnomos são muito populares na Europa. E esses gnomos foram feitos por volta de 1860”.
Ver essa foto no Instagram
A ironia estava em alta: George tambem disse que se começasse um movimento como o Live Aid ajudaria… Bob Geldof (!)., o criador do evento. Perguntado sobre se Paul McCartney ainda o irritava, contemporizou: “Não examine um amigo com uma lupa microscópica: você conhece seus defeitos. Então deixe suas fraquezas passarem. Provérbio vitoriano antigo”, disse. “Tenho certeza de que há coisas suficientes em mim que o irritam, mas acho que já crescemos o suficiente para perceber que nós dois somos muito fofos!”. Um / uma fã perguntou sobre o que ele achava da nominação de Eminem para o Grammy. “O que é Eminem?”, perguntou. “É uma marca de chocolates ou algo assim?”.
Bom, no papo do MSN um fã abusou da ingenuidade e perguntou se o próprio George era o webmaster de si próprio. “Eu não sou técnico. Mas conversei com o pessoal da Radical Media. Eles vieram à minha casa e instalaram os computadores. Os técnicos fizeram tudo e eu fiquei pensando em ideias. Eu não tinha noção do que era um site e ainda não entendo o conceito. Eu queria ver pessoas pequenas se cutucando com gravetos, tipo no Monty Python”, disse.
Pra ler tudo e matar as saudades do beatle (cuja saída de cena também faz 25 anos em 2026), só ir aqui.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.
Cultura Pop
No nosso podcast, os erros e acertos dos Foo Fighters

Você pensava que o Pop Fantasma Documento, nosso podcast, não ia mais voltar? Olha ele aqui de novo, por três edições especiais no fim de 2025 – e ano que vem estamos de volta de vez. No terceiro e último episódio, o papo é o começo dos Foo Fighters, e o pedaço de história que vai de Foo Fighters (1995, o primeiro disco) até There’s nothing left to lose (o terceirão, de 1999), esticando um pouco até a chegada de Dave Grohl e seus cometas no ano 2000.
Uma história e tanto: você vai conferir a metamorfose de Grohl – de baterista do Nirvana a rockstar e líder de banda -, o entra e sai de integrantes, os grandes acertos e as monumentais cagadas cometidas por uma das maiores bandas da história do rock. Bora conferir mais essa?
Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: encarte do álbum Foo Fighters). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.
(a parte do FF no ano 2000 foi feita com base na pesquisa feita pelo jornalista Renan Guerra, e publicada originalmente por ele neste link)
Ouça a gente preferencialmente no Castbox. Mas estamos também no Mixcloud, no Deezer e no Spotify.
Mais Pop Fantasma Documento aqui.
Cultura Pop
No nosso podcast, Alanis Morissette da pré-história a “Jagged little pill”

Você pensava que o Pop Fantasma Documento, nosso podcast, não ia mais voltar? Olha ele aqui de novo, por três edições especiais no fim de 2025 – e ano que vem estamos de volta de vez. No segundo e penúltimo episódio desse ano, o papo é um dos maiores sucessos dos anos 1990. Sucesso, aliás, é pouco: há uns 30 anos, pra onde quer que você fosse, jamais escaparia de Alanis Morissette e do seu extremamente popular terceiro disco, Jagged little pill (1995).
Peraí, “terceiro” disco? Sim, porque Jagged era só o segundo ato da carreira de Alanis Morissette. E ainda havia uma pré-história dela, em seu país de origem, o Canadá – em que ela fazia um som beeeem diferente do que a consagrou. Bora conferir essa história?
Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: Capa de Jagged little pill). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.
Ouça a gente preferencialmente no Castbox. Mas estamos também no Mixcloud, no Deezer e no Spotify.
Mais Pop Fantasma Documento aqui.








































