Lançamentos
Radar: Zeferina e Mateus Aleluia, Rogério Skylab, Jeniffer Nascimento, Gustavo da Lua, Asfixia Social, Crise

Lá vem o primeiro Radar nacional da semana, destacando a música-orixá de Zeferina, com participação de Mateus Aleluia – numa seleção que inclui também o manifesto da atriz-cantora Jeniffer Nascimento, a porradaria sonora de Rogério Skylab e muita coisa ótima. Bora ouvir? Ouça e repasse.
Texto: Ricardo Schott – Foto (Zeferina): Daniel Fagundes / Divulgação
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ZEFERINA E MATEUS ALELUIA, “XANGÔ ALAPALÁ”. “Esta música é uma oferenda, um chamado para que o olho da justiça ancestral esteja sempre aberto. Xangô não é cego: ele vê, sente e corrige o mundo. É a força que atravessa gerações e continua a nos guiar hoje”, sentencia a cantora Zeferina, que homenageia o orixá, e toda uma história de comunhão e ancestralidade, em sua nova música, Xangô Alapalá. Uma canção que surgiu como um presente, em meio a lembranças de pessoas que partiram, e ao luto por um amigo querido.
“A energia me dizia: grava essa música”, relembra Zeferina, que traz Mateus Aleluia (Tincoãs) fazendo uma narração na faixa – além do filho do músico, Mateus Aleluia Filho, fazendo os sopros da música. Malka Julieta produziu a música e se responsabilizou por arranjo, piano, guitarra, teclados e bateria eletrônica. E ainda tem o clipe, dirigido por Daniel Fagundes – autor do roteiro junto com a própria cantora.
ROGÉRIO SKYLAB, “TODO MUNDO COMENDO TODO MUNDO”. “E você vai continuar fazendo música?”, perguntou-se certa vez Rogério Skylab. A melhor resposta é: Skylab lança disco após disco, vem fazendo shows lotados, angariando cada vez mais fãs e fazendo de seu trabalho uma central de podridão musical – e tomando para si o domínio da narrativa “politicamente incorreta”, antes que algum minion o faça. O jazz eletrônico maldito-surubeiro Todo mundo comendo todo mundo adianta a finalização da Trilogia da putrefação, prevista para sair em 28 de novembro.
JENIFFER NASCIMENTO, “É PRECISO TER CORAGEM”. Ela é a Dita da novela Eta mundo melhor!. E além de atriz, é poeta e cantora. Jeniffer Nascimento lança agora o single É preciso ter coragem, um samba que surgiu de um poema feito por ela há alguns anos – e que virou música a partir da parceria dela com Arthur Marques, compositor de músicas como Dona de mim, de Iza.
Jeniffer percebeu que seus versos precisavam virar música assim que leu o poema no festival Negritudes. “A repercussão foi tão forte que senti que ele precisava virar canção — é quase um manifesto de empoderamento da mulher”, conta Jeniffer. “Desde pequena eu sabia que o caminho era longo / foi preciso correr tanto / até que eu entendi”, canta ela, antes de declamar: “Você merece ser amada, ser a CEO de uma fábrica, ser sua própria empresária. Ser o futuro da nossa nação. Não tenha medo do não, pois tu merece o sim”.
GUSTAVO DA LUA, “VOE ALTO”. Percussionista da Nação Zumbi, Gustavo une reggae, hip hop, dub e música afro-brasileira em sua nova música solo. Voe alto é um single que começou a ser composto durante a pandemia, no mesmo período em que o músico lançou dois outros singles, Eu nasci do mar e Abrindo os caminhos. “É uma música que fala sobre ter confiança na intuição de que a sua vida é comandada por você. Como diz o refrão: ‘É você com você mesmo’”, diz Gustavo, que graças aos efeitos criados por ele, Emilio Mizão (guitarra) e Davi Indio (produção, mixagem, masterização, baixo, teclado e MPC), surge mandando bala na psicodelia das matas.
ASFIXIA SOCIAL, “CAPOEIRA-KARATÊ”. Hardcore e capoeira (e karatê) unidos no novo single e no novo clipe dessa banda. O vídeo de Capoeira-karatê foi gravado no Favela do Boqueirão, no Centro Cultural Sabotage Vive, espaço que mantém vivo o legado do rapper Sabotage. A roda de capoeira Peniel (liderada por Mestre Caxambú) participa jogando, batendo palmas e tocando, enquanto a banda apresenta a música. “Foi tudo no flow, a roda girava, o som ecoava e parecia que todo mundo já sabia o que fazer”, conta Thiko Garcia, guitarrista.
Já a letra surgiu de um (triste) episódio vivido pela banda, que quase foi censurada por um secretário de cultura ao participar de um evento na Grande São Paulo – o sujeito queria barrar o Asfixia Social por causa das mensagens politizadas das letras. Para sobreviver nas ruas e enfrentar os monstros do sistema, “o cara tem que ter / o caráter e o karatê”, brinca a música.
CRISE, “QUANTO TEMPO”. Banda de Sorocaba (SP), criada inicialmente como um projeto idealizado pela artista visual e cantora Cristine Siqueira em parceria com o baixista e produtor Gabriel Pasin (e hoje virada em quinteto), o Crise faz shoegaze quase raiz: ruídos, melodia, vocal doce, guitarras em formato de nuvem. Por favor me perdoe, as más notícias finalmente chegaram, o próximo disco da banda, sai em 2026. A melancólica Quanto tempo é outra faixa a anunciar o álbum que está vindo aí.
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Crítica
Ouvimos: Douglas Germano – “Branco”

RESENHA: Em Branco, Douglas Germano mistura samba, Nordeste e experimentação para cutucar a elite: disco político, inventivo e feito para provocar.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 19 de setembro de 2025
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“A Zelite não gosta de forró/ A Zelite no samba, que caô”, diz Zelite, samba nordestino do novo disco do paulista Douglas Germano, Branco. A elite (que surge na faixa como trocadilho) fecha os olhos para estilos como o piseiro e para as renovações da música nordestina – mas cai dentro do que pode ser considerado cult, do que tem passe livre. A mesma elite que…
Bom, milhares de eventos poderiam ser citados aqui, mas vale dizer que Branco, novo disco de Douglas, é tudo ao mesmo tempo: experimentação, samba, nordeste, dedo na cara, verdades nada secretas. Douglas disse (num papo com ninguém menos que Tárik de Souza) ter feito tudo sozinho no estúdio, com alguns convidados e parceiros (Luiz Antonio Simas, Roberto Didio e Alfredo Del Penho entre eles), e que decidiu usar instrumentos de percussão onde eles necessariamente não seriam usados.
Com um clima sonoro que soa primo simultaneamente de Tom Zé e João Bosco, Douglas abre Branco com Na ronda, samba de umbanda com sons rangendo em meio aos acordes, ruídos que lembram algo trilhado no aço. Zelite, além de desmascarar pessoas, cria imagens (“surfista de trem faz vagão virar mar”), enquanto a ágil Tudo é samba, com Loretta Colucci nos vocais, lembra algo feito para Elis Regina. Ramo tem orações e diálogos entre o narrador e uma rezadeira, e a percussiva Ruge leão, troveja Xangô ganha ares de samba-enredo. Uma das faixas que mais ganharam beleza com o coral de dez integrantes que surge no disco.
Mais climas nordestinos surgem em Ode do pode ou não pode, 19 de março e nas evocações de Lenine na melodia e no arranjo de Xaxará. Bala perdida é um samba sombrio, comparando traçantes a luzes na escuridão, enquanto Desbancando Gordon Banks é um samba agitado, cuja letra visita vários mundos ao mesmo tempo. Uma surpresa é Branco, ijexá tocado no piano – cuja mixagem destaca o instrumento como condutor das melodias.
E já que as plataformas digitais não dão ficha técnica, não tem problema: Branco é encerrado com Branco áudio encarte, trazendo todos os créditos do disco em meio a violão e percussão. O fim de um disco feito para cutucar consciências.
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Crítica
Ouvimos: These New South Whales – “Godspeed”

RESENHA: Godspeed mostra os australianos do These New South Whales fazendo um caldeirão de punk: pós-punk, Ramones e anos 1990, som instintivo, cheio de referências.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 28 de novembro de 2025
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Vindo da Austrália, o These New South Whales faz parte de uma geração mais recente do punk – na qual entram também grupos como Home Front e Spiritual Cramp. No caso deles, que lançam agora o quarto álbum, Godspeed, o resultado está mais para um cozidão bem feito e bem atualizado de referências. Ainda que até faça falta a procura de uma onda mais inovadora (território, por sinal, do Home Front), é um som mais instintivo – por sinal, Instinct, segunda faixa de Godspeed, tem guitarra estiligando e sonoridade que une Iggy Pop e Ramones.
A romântica Miss her varia entre pós-punk e Buzzcocks + Ramones. Big machine (a melhor do disco e a que tem mais cara de hit) e R.I.P. me aludem à nova leva de bandas pós-punk. Músicas como a faixa-título e Ecstasy aludem ao rock dos anos 1990, unindo punk, grunge e evocações de Pixies e Therapy?, enquanto a ágil Birdbrain alude a T.S.O.L. e a New Model Army.
Uma curiosidade em Godspeed é Nobody listens, uma espécie de punk sofisticado levado adiante por piano, voz e cordas, e que faz lembrar Changes, hit do Black Sabbath. Já as letras do álbum seguem o mesmo esquema de apelo aos instintos, recomendando mandar um foda-se para as expectativas alheias (Be what U wanna be e justamente Instinct), afastar FDPs de plantão (R.I.P me e a faixa-título) e coisas do tipo. O fato de unir referências e fases do estilo faz o TNSW soar às vezes como uma colcha de retalhos punk – mas os acertos são maiores.
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Crítica
Ouvimos: Jubba – “Caminhos tortos” (EP)

RESENHA: Jubba estreia com o EP Caminhos tortos, lo-fi e shoegaze à la Mac deMarco e DIIV, transformando inquietações em canções deprês e sensíveis.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Slowrecords
Lançamento: 28 de novembro de 2025
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Inspirado em nomes como Mac deMarco e nos cenários lo-fi e shoegaze dos anos 2010 – e volta e meia lembrando a música de bandas como DIIV – Jubba estreia no EP Caminhos tortos pondo música e barulho em deprês, inquietações e altos e baixos pessoais.
O conceito do disco é basicamente a busca de caminhos pessoais, ainda que de forma totalmente distante dos padrões. Tanto que a abertura é com os ruídos e o beat eletronico leve de Ode aos esquisitinhos, música de versos como “eles esperam que eu caia / que eu fique na merda pra sempre” e “não vou mais fingir quem sou”. Climas deprês e vibes da “vida de artista” surgem em Empregos reais, balada de guitarra e de percussão eletrônica, que acaba ficando próxima do pós-punk e do eletrorock, com direito a citação de Teatro dos vampiros, da Legião Urbana.
Há algo de Legião também em Flores no meu quarto, música com beat eletrônico seco, que depois vira algo quase ambient, com guitarras e teclados – quase na cola do final de Fábrica, penúltima música do segundo álbum do grupo, Dois (1986) – e cuja letra fala sobre beleza na amargura e no isolamento. Sensível ganha ares de trip hop, com direito a uma segunda parte bem mais hipnótica. Climas herdados do hip hop lo-fi surgem nos efeitos sonoros de A sensação. No final, a triste balada experimental Eu não sei dizer adeus propõe seguir em frente.
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