Lançamentos
Radar: Mild Orange, Peach Fuzz, Levitation Room e mais sons novos internacionais

Nesse novo Radar internacional, uma novidade: privilegiamos sons achados por acaso no YouTube e nas plataformas digitais, além de tudo que mandaram para a gente. As novas novidades estrangeiras do Pop Fantasma estão aí, indo do country-indie do Mild Orange à psicodelia sarcástica do Kazaizen (que chegou pelo Groover). Bora?
- Apoie a gente e mantenha nosso trabalho (site, podcast e futuros projetos) funcionando diariamente.
- Mais Radar aqui.
MILD ORANGE, “RIGHT OR WRONG”. Da Nova Zelândia, o Mild Orange cultiva um som que eles próprios chamam de “melodias derretidas”. A escolha do nome do grupo vem da cor: laranja, dizem eles, é um tom que estimula o otimismo. Right or wrong, o novo single, vem nessa toada: country-indie, inspirado, servindo como uma lufada de luz e ar em um quarto escuro. Versos como “vamos fazer desta casa / o nosso lar” embalam a canção com doçura e esperança. Pode ir sem medo.
PEACH FUZZ, “WORLD WHOLE FOOLED”. Essa banda absurda da Austrália faz power pop e punk com melodias que pegam de cara – e uma certa sujeira, dosada, no som. O single novo, World whole fooled, é uma doce e ágil canção que, na letra, manda bala em algum idiota que engana bem, mas que sempre acaba mostrando sua verdadeira identidade. “Está claro para mim que a maneira como você vê a vida / é através de uma lente onde tudo é preto e branco / que maneira de começar uma briga / você esconde bem, mas isso deve acabar / pelo menos você não fala merda na frente de todos os meus amigos”. Porrada!
TINLICKER feat. HERO BALDWIN, “I STARTED A FIRE”. O duo holandês de música eletrônica, prestes a subir no palco do Coachella e dar início a uma nova turnê, retorna em boa companhia: o produtor londrino Hero Baldwin entra no jogo com eles numa faixa dançante, enevoada, quase etérea. I started a fire fala – segundo o próprio Hero – “sobre a perda da confiança e do amor, sobre alguém que observa você desmoronar só para proteger o próprio orgulho”. A pista é suave, mas o drama é profundo. Há burburinhos sobre um novo álbum vindo aí. Fique atento.
LEVITATION ROOM, “IT HAPPENS ALL THE TIME”. Direto de Los Angeles, a Levitation Room volta com um single novo que carrega ecos explícitos da Plastic Ono Band de John Lennon – mais especificamente por conta de uma guitarra solo com efeito rotativo, ideia do guitarrista Gabe Fernandez. Mas… é impossível não pensar em Gal Costa nos tempos de Fa-tal, e não é exagero: o som reverbera Pepeu Gomes, Lanny Gordin, e todo aquele clima lisérgico que morava nos palcos do Brasil setentista. Aumente o volume e mergulhe.
VIRGINIA TO VEGAS, “HEAVEN TONIGHT”. Projeto musical do Canadá, o Virginia To Vegas faz pop adulto-contemporâneo com cara de 2025, e com vários daqueles ganchos musicais que grudam na mente. Derik Baker, o criador da banda, deu a Heaven tonight uma cara de música de sonho, com teclados e corais “voando” em torno do ouvinte, e uma letra que fala sobre “fechar a porta, fechar as persianas e deixar o mundo lá fora, com alguém que você ama”.
KAZAIZEN, “MR. MUSK”. Projeto criado pelo músico norte-americano Jonny Kasai, o Kazaizen prepara um álbum, Sky fish fly, para julho. O som é basicamente synthpop psicodélico e doidão – e pelo que dá para ver pelo single Mr. Musk, o sarcasmo é o melhor amigo deles. A letra conta a história do dia em que Elon Musk decide ir para Marte, encontra marcianos psicodélicos iluminados, e os ETs dizem educadamente para o dono da Tesla se mandar e voltar para seu planeta – e ainda mandam que ele cuide primeiro da Terra, “antes de se aventurar no cosmos com intenções destrutivas”
Foto/desenho Mild Orange: Reprodução Bandcamp
Crítica
Ouvimos: Jenny On Holiday – “Quicksand heart”

RESENHA: Entre luto e descobertas, Jenny On Holiday estreia com synthpop e dream pop oitentista em Quicksand heart, disco íntimo sobre vulnerabilidade e prazer.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Transgressive Records
Lançamento: 9 de janeiro de 2026
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
“Coração de areia movediça” é uma boa metáfora para falar de profundidades sentimentais, ou de fragilidades, ou de perdas – e esses três temas surgem o tempo todo em Quicksand heart, estreia solo de Jenny Hollingworth, que faz parte da dupla de synthpop mutante Let’s Eat Grandma.
Jenny, usando hoje o alegre nome de Jenny On Holiday, passou por um acontecimento nada feliz em 2019: seu namorado morreu em 2019 de câncer ósseo. O luto chegou a fazer parte da lista de temas de Two ribbons, último álbum do Let’s Eat Grandma (2022), mas como ela própria disse num papo com o jornal The Independent, era preciso esperar até o momento em que o principal fosse se divertir fazendo música. Quicksand heart tem até um pouco de luto nas letras, mas boa parte do material fala de descobertas pessoais, tanto na vida quanto no sexo, no amor, no trabalho e em tudo que possa mexer com a vulnerabilidade.
- Ouvimos: Nastyjoe – The house
Musicalmente, Jenny abraçou tanto a mescla de synthpop e dream pop, com teclados cintilantes e vibe oitentista evidente, que é quase impossível não pensar em Kate Bush, Fleetwood Mac e The Cure ao ouvir o disco. Essa onda surge na abertura com Good intentions, dá as caras nos riffs de guitarra e baixo da faixa-título e na vibe saturada e sonhadora de Appetite – música que fala bem diretamente sobre apetite sexual feminino, culpa e autoestima.
Every ounce of me, Pacemaker e These streets I know usam teclados gelados para falar de um mundo gelado, em que o estresse acaba virando combustível e a melancolia pode inspirar atitudes e canções. O New Order mais baladeiro e tranquilo dos discos mais recentes dá as caras em faixas como a tristonha Dolphins, além das razoáveis Push e Groundskeeping.
Nem tudo funciona 100% em Quicksand heart e dá para dizer que a segunda metade do disco traz menos canções que conquistam de cara, mas Jenny compensa na ambiência das músicas e na verdade inserida nos vocais e nas letras. O “casamento consigo própria” da capa – e vale dizer que o Let’s Eat Grandma não acabou – vem funcionando.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.
Crítica
Ouvimos: Julieta Social – “Julieta”

RESENHA: Entre caos e conforto, o Julieta Social estreia com um pop alternativo aberto a referências, letras afiadas e climas que vão do indie ao soul psicodélico.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Seloki Records
Lançamento: 30 de janeiro de 2026
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
Tem muito caos, mas também tem muito conforto no som do Julieta Social – uma banda/mini-coletivo de quatro integrantes, que sempre chama convidados para participar das gravações e tenta fazer com que sua sonoridade seja a mais aberta possível. Tanto que Julieta, o primeiro álbum, pode ser definido tranquilamente apenas como música pop, ou até como pop alternativo, que aponta para várias referências e busca não facilitar tanto as coisas para quem ouve.
- Ouvimos: Vá – Pra domingo (EP)
Julieta é o disco do single Casos de Colômbia, que assume referências de Radiohead e Chico Buarque, mas também mistura emanações de Arctic Monkeys e guitarras em clima de blues pós-punk. A faixa tem participação de Mariana Estol nos vocais, e uma letra que mete o dedo na ferida das expectativas que, muitas vezes, não representam nada (“nunca que você vai encontrar dentro do armário / algo lendário, é tudo vestuário / sabe aquela luz que a gente vê de madrugada / é quase nada, mas satisfaz a alma”).
Abrindo o disco, Casos de Colômbia serve de balizador para faixas poéticas como o soul psicodélico de Nuvem nua, o easy listening esparso de Dorme pra ver se me esquece, o pop rock radicalmente brasileiro de Quem nunca quis demais e Um tempo pra pensar – estas duas lembrando um pouco o som praiano de Lulu Santos e Charlie Brown Jr. Também cede espaço para a vibe sixties de Ce la vie e para o clima alt-disco de Como te dizer, que traz lembranças de Arctic Monkeys, Khruangbin e Mamalarky.
Do meio pro fim do disco, o Julieta Social aposta numa vibe indie-pop que tem muito de Tim Maia (Rubbish shuffle), em climas sonhadores e existenciais (Astronauta, Fome) e num bloco dançante com guitarra base e baixo à frente (Poodle marciano), que serve como demonstração de possibilidades instrumentais do grupo. Em meio a tantas ideias, o Julieta Social faz de seu primeiro álbum uma celebração das incertezas – e da beleza que nasce delas.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.
Crítica
Ouvimos: Just Mustard – “We were just here”

RESENHA: Shoegaze fantasmagórico e gótico: o irlandês Just Mustard mistura ruído, poesia e psicodelia em We were just here, disco que foge de rótulos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Partisan Records
Lançamento: 24 de outubro de 2025
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
Shoegaze e rock gótico são primos bem próximos, mas em vários momentos, é comum que bandas curtam misturar nuvens de guitarras e climas ensolarados – como se o sol fosse sair a qualquer momento. O grupo irlandês Just Mustard, que tem na voz de Katie Ball uma de suas maiores armas e atrativos, opera numa onda de shoegaze fantasmagórico, como se as microfonias e saturações servissem mais para confundir do que para explicar.
A opção da banda vem dando tão certo que eles já foram escolhidos pelo The Cure para abrir shows, e em We were just here, seu terceiro disco, escapam completamente de qualquer rótulo musical unindo vários elementos. Pollyanna, na abertura, poderia até ser uma canção do The Cure ou até do Jesus and Mary Chain: tem início ruidoso, bateria maquínica, teclados, ruído de vento – como se algo cobrisse tudo – e vocal doce, quase bossanovístico. A letra dessa música, assim como de boa parte do disco, é um primor de poesia e contemplação: “quando você vai brincar / onde os pássaros mais doces choram? / estou vendo, não sonhando / estou vendo, não sonhando agora”.
- Ouvimos: Equipe de Foot – Small talk
Não é escapismo, já que parece um doce encontro com a realidade. E que surge também na viagem sonora fantasmagórica de Endless deathless, no quase trip hop + shoegaze de Silver (cuja letra absolutamente psicodélica diz: “luzes prateadas dançando ao redor do seu rosto / não consigo acompanhar o ritmo”) e no dream pop tranquilo de Dreamer. Já a faixa-título é quase hi-NRG, dançante, com início eletronificado e synthpopizado, só que tudo bastante sonhador e psicodélico – encerrando com uma rajada de microfonia daquelas.
Uma ouvida com atenção no Just Mustard revela que o som deles tem bastante a ver com uma certa onda que tomou conta do rock inglês e norte-americano nos anos 1980. Foi quando de uma hora para outra começaram a falar em neo-psicodelia e várias bandas apareciam unindo climas pós-punk a vibrações bem sixties – bandas como Primal Scream, The Pastels e até mesmo o Jesus and Mary Chain tinham a ver com isso.
Essa onda surge no clima enevoado, quase como se você tivesse dificuldade para enxergar na neblina, de Somewhere. Também está no drone, que chega a lembrar uma orquestra se aquecendo, que toma conta de The steps. Por outro lado, We were just here é inteirinho baseado numa espécie de som de ferro rangendo, que aparece em várias faixas, e ganha mais espaço em Out of heaven, a última faixa. Um lado pós-punk também vai surgindo em canções como Dandelion e That I might not see. Essas faces, juntas e equilibradas, formam o clima sonoro de uma das bandas mais legais da atualidade.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.






































