Crítica
Ouvimos: The Darkness, “Dreams on toast”

O Darkness talvez fosse hoje um clássico se tivesse se levado mais a sério ao longo do caminho – mas não teria a mesma graça, e não estaria permitido a eles zoar tanto certos padrões do rock. Dreams on toast, oitavo disco deles, é quase tão bom quanto Permission to land (2003), o primeiro álbum, e mantém o sarcasmo como melhor amigo de Justin Hawkins e seus camaradas.
Clichês de bandas como AC/DC e Status Quo surgem aqui e ali como homenagem – mas o senso de humor da banda é herdado do punk e do glam rock. Rock and roll party cowboy, que abre o disco, é um hard rock que sacaneia o estilo de vida rock’n roll, citando vários objetos de estimação de um roqueiro motoclubber típico (jaqueta de couro, Harley Davidson, isqueiro Zippo, Jack Daniels) e afirmando no refrão: “sou um roqueiro festeiro e cowboy / e não vou ler nenhum Tolstói” (!!). Walking through fire é boogie na estileira AC/DC, com riff lembrando vagamente Sweet child o’mine, do Guns N Roses.
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Agora, a cara própria do Darkness, no duro, são as canções glam e operísticas lembrando Queen. Como I hate myself, uma canção sobre um cara que partiu o coração de uma garota e se odeia, com uma desculpa pra lá de esfarrapada na letra: “eu realmente me odeio / então você não precisa”. Ou Don’t need sunshine – uma baladinha que, curiosamente, lembra mais Ed Sheeran que Queen, mesmo Justin sendo um fiel discípulo de Freddie Mercury e mesmo a banda pesando o som. Um David Bowie básico baixa no cabaré-rock de Hot on my tail e no glam pesado de Mortal dread (uma canção sobre envelhecimento). E um clima próximo do power pop – ainda que alguns decibéis acima – surge em The longest kiss, e um country glam dá as caras em Cool hearted woman.
O Darkness soa bem diferente do resto de Dreams on toast na épica The battle for gadget land, que é o mais próximo que o disco chega de ter uma ópera-rock – ainda que dure só três minutos e pouco. O som une rock clássico, emo, metal e hip hop, em partes diferentes. No final, a balada nostálgica Weekend in Rome volta combinando Queen e Sparks e entrega o que realmente é o The Darkness: a trilha sonora de uma pessoa que faz pose, mas que sofre muito e sonha muito. E o que é o glam rock senão isso?
Nota: 9
Gravadora: Cooking Vinyl
Lançamento: 28 de março de 2025.
Crítica
Ouvimos: Starly Kind – “Inferno (xe/xem)”

RESENHA: Starly Kind mistura lo-fi, screamo, pós-punk e psicodelia em Inferno (xe/xem), EP sombrio sobre angústia queer e demônios internos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: CorpoRAT Records
Lançamento: 8 de maio de 2026
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Musicista agênero do Oregon, Estados Unidos, que se radicou em São Paulo, Starly Lou Riggs criou a Starly Kind como veículo para uma música lo-fi e fantasmagórica. Um som que volta e meia ganha ares math rock, ou que se aproxima de um art rock em clima de pesadelo. Inferno (xe/xem) é um EP sobre demônios xamânicos, angústia existencial queer, dores acumuladas durante uma vida inteira – e sobre como é chamar o inferno de casa.
Starly kind, a faixa de abertura, é lo-fizaça, com glitches, clima dreamy e vocais torturados e gritados. Held me with soma a isso um clima mais ambient, em que vibrações screamo unem-se ao experimentalismo da música. Superanatural clutches fica entre a psicodelia e a no wave, com direito a uma guitarra próxima do som do Black Sabbath. Uma curiosidade e uma mudança de rumo vêm com Bloodlust rising, algo entre Beach Boys, Residents e Devo – seguida justamente pela onda reggae + dub + fantasmagoria de And the devil watched me dance in.
- Ouvimos: Delmore – Tão logo cada poste se ilumina
Demon dreams, que encerra o disco, é pós-punk mais do que tudo, e é a música mais bonita do EP – aliás lida com uma noção mais tranquila de “beleza” na melodia, ainda que também invista na vibe sombria das outras faixas. Um disco bem instigante, em todos os momentos.
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Crítica
Ouvimos: Duo Violeta – “Mar pequeno”

RESENHA: Duo Violeta mistura violão, escaleta e folk nordestino em Mar pequeno, disco contemplativo, viajante e cheio de imagens sonoras.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: The Citadel House
Lançamento: 22 de maio de 2026
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Se você for com muita sede ao pote no disco do Duo Violeta e chegar meio desavisado, pode acabar adorando o encontro do violão com a sanfona. Depois vai dar risada quando descobrir que André Sant’Anna e Rafael Campanaro, são na real, e respectivamente, o encontro da escaleta – teclado de sopro popularizadíssimo pelo reggae e pelo dub – com o violão. Mais que isso, as gravações tiveram vários testes de estúdio, que envolveram posicionamentos dos músicos, microfones diferentes e muitas experimentações sonoras.
- Ouvimos: Seera – Sarab (EP)
Mar pequeno tá bem longe de ser um disco experimental, mas passa perto. É um disco brasileiríssimo e quase sempre nordestino, que parece seguir o curso de um rio e contar uma história – já que as músicas parecem encadeadas e evocam imagens que soam do mesmo modo. Será marés, Na rede e O boto, no começo, são folk nordestino – sendo que a última insere clima sombrio e efeitos de tremolo na escaleta. Para a ilha é forró + jazz, mas tem algo de indie rock na sonoridade, até algo de Beatles no meio da melodia. Inverno no mar é balada, blues e folk, com final contemplativo e várias partes diferentes.
Esse clima de viagem sonora, que insere segmentos diferentes em canções curtas, chega no ápice na última faixa do álbum, Emergiu. Até lá, André e Rafael proporcionam surpresas como a melodia de À deriva, que chega a lembrar um soul no final. Ou a recriação da folclórica Peixe vivo, cujas linhas melódicas só se tornam claras lá pelas tantas. Ou o clima folk brasileiro de Náufrago. Um disco muito bonito.
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Crítica
Ouvimos: Soma Please – “Ballet” (EP)

RESENHA: Soma Please mistura synth pop, pós-punk e dream pop em Ballet, um EP que cruza Queen, U2, LCD Soundsystem e até samba indie.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Skud & Smarty
Lançamento: 14 de maio de 2026
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O Soma Please é um duo luso-britânico, formado pelos músicos Nuno Bracourt e Rob Williamson. Não chega a ser um som muito inovador, mas tem detalhes que conquistam de cara, já que Ballet, o EP, soa às vezes como um encontro entre estilos e épocas. Tipo o que rola com I’m a fan, entre o synth pop e uma onda que lembra o Queen, ou Love, um dream pop com peso. Pockets on my sleeves é pós-punk com alma oitentista, e algo de Radiohead e LCD Soundsystem misturado.
- Um tributo português a David Bowie
As duas últimas faixas do EP são as mais diferentonas do disco: Alone é um curioso pop meio samba, meio bossa, com cara indie e solar. What’s the score é mais ruidosa, abre com clima sombrio fake, e depois chega a lembrar um blues rock eletrônico. Ballet é um pequeno apanhado do som deles, e uma demonstração de sonoridades que estão no arquivo deles.
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