Crítica
Ouvimos: Tomemitsu, “Dream 2”

- Dream 2 é o quinto álbum de Tomemitsu – ou melhor, Martin Tomemitsu Roark, um músico que faz “gravações bedroom direto de Echo Park, Califórnia” (ou “um artista de dream pop que cria melodias lo-fi e mid-fi, que vão do sonolento e nebuloso ao tropical e saltitante”).
- O novo álbum é definido pelo texto de lançamento como “possivelmente o LP mais sonhador de Tomemitsu, se não o mais diverso. Entre as influências do novo álbum, ele enumera. “Criadores como Thelonoius Monk, João Gilberto, Daniel Johnston, Brian Eno, Bill Withers, Arthur Russell… todos eles foram imediatamente inspiradores para mim”, diz.
Tem algo, vá lá, terapêutico no som de Tomemitsu, um músico que se dedica a fazer bedroom pop em seu próprio estúdio, sempre soando entre os anos 1970 e 1980, e quase sempre parecendo que compõe com um filme na cabeça, ou que faz música para a/o ouvinte fazer seu próprio filme do dia a dia. Ele se interessa por sonhos (o assunto ocupa uma parte boa do disco que, ora bolas, se chama Dream 2), por amores contemplativos e um tanto platônicos, por sensações (boas) do dia a dia, e por climas perto do que as redes sociais andam chamado de delulu (o bom e velho otimismo delirante). E o som do disco acompanha as escolhas das letras.
Quick enough abre o disco com algo de bossa nova na composição, e de new wave no design musical, destacando os teclados e a letra algo surrealista (“tenho pensado em levantar/sair, ir embora/socorro, não consigo levantar/porque, querida, estou colado na sua imagem”). A quase faixa-título Do you dream too?, uma conversa em que o personagem destaca o quanto os sonhos são importantes para ele (“você também sonha?” é uma pergunta feita com naturalidade ao longo da faixa, como quem pergunta as horas, soando como recado ) é pop adulto psicodélico em tom de “perdidos do horizonte” – e um clima que lembra a trilha do clássico soft porn Emmanuelle.
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Por aí já dá para ter uma ideia do universo embevecedor de Tomemitsu, que prossegue com folk contemplativo e fluido (A little light on you), city pop (Losing my mind), uma música que abre com ruídos e com um violão lembrando In the beggining, de Emerson, Lake and Palmer (Do you know?) e até power pop (Dream queen). Tem ainda o folk groovado e irônico de Health insurance (“tentei te contar sobre a minha dor/talvez tenha sido difícil ouvir em meio à chuva/você só se importou com meu seguro de saúde/por que você não se importa com minha sanidade?”).
De qualquer jeito, em Dream 2, quando você acha que o clima não poderia ficar mais amigável e tranquilo, Tomemitsu surge com Pizza with you, um som sintetizado, grudento e simpático, lembrando um The Cure convertido ao dream pop, e falando sobre como é legal comer pizza com alguém (“eu quero comer pizza com você/eu vou até o local/para pegar você e uma fatia/e encher a cara com um pouco de pizza”). Distração e escapismo pop encapsulados em 40 minutos.
Nota: 8,5
Gravadora: Friends Of Friends
Crítica
Ouvimos: Pitty – “Pitty”

RESENHA: No sexto álbum, Pitty mistura guitarras pesadas, alt-pop, pós-punk e até tecnobrega. Entre ecos de Arctic Monkeys e Queens Of The Stone Age, a cantora fala de separações, amadurecimento e recomeços.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Deck
Lançamento: 16 de outubro de 2026
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Pitty, sexto e novo álbum da cantora baiana, é bom. Não é o melhor disco dela – a estreia Admirável chip novo (2003) e Chiaroscuro (2009) ganham o posto tranquilamente. Mas tem um papel importante na carreira dela: num país diversificado musicalmente como o Brasil, mostra uma ótima transição para uma vibe musical mais alt-pop, mais voltada a um rock simultaneamente pesado e elegante, dançante e cheio de guitarras. Já era algo que aparecia nos discos dela faz tempo, mas ficou claro que ela está em busca de uma mudança sonora mais forte e permanente do que a do disco Matriz (o mais recente, de 2019).
Mesmo com o peso quase punk + metal de Sobremesa, single e música de abertura – uma canção renovada e juvenil, em que Pitty basicamente volta no tempo como precursora de bandas como The Mönic e Eskröta – Pitty tá mais próximo do som de bandas como Arctic Monkeys e Fontaines D.C., e da diversidade que faz com que estes últimos gravem com Rosalía. Na real, em alguns momentos Pitty parece estar de olho tanto no alinhamento sonoro de bandas como Queens Of The Stone Age quanto nas mudanças que Anitta foi tendo ao longo da carreira.
Quem é fã de músicas como Teto de vidro ou só conhece as músicas mais roqueiras dela, talvez estranhe o beat dançante (com argamassa pós-punk) de Armadura, ou o pop climático de Caminhada, ou o namoro com o tecnobrega de “Amiga,” (dedicada a um amiga falsiane secreta, o que já rendeu altos debates na bolsa de fofocas). A Pitty sinistra e pop do hit Me adora dá as caras no metal cigano de Desobediente, no blues a la Black Keys de Álbum de casamento (uma música sobre sua recente separação, revivendo amarguras mas encerrando com uma proposta de paz) e no rock elegante e épico de Nó.
Essa Pitty reside também no pop alternativo de Pileque de poeta, com coprodução de Felipe Vassão, e num curioso momento David Bowie + Michael Jackson do disco, a ótima Sobriedade seletiva. Mas a variedade do álbum inclui também flertes com o stoner rock (a “canção da inimiga” Madame), com o rap e com o grunge (Prazer, universo, que traz algo brasileiro infiltrado no suíngue) e mergulhos no punk (Não à deriva).
Já nas letras, Pitty decidiu fazer canções com reflexões bem mais diretas e literárias do que no passado, além de inserir amadurecimentos, ganhos, perdas e danos no rol dos assuntos – como em Cuidada, canção dedicada à mãe, e que fala basicamente de amor e entendimento. Basicamente a Pitty de 2026 compreende não só o público dela, mas o que andou acontecendo no pop e no rock no Brasil no últimos anos – e escolheu o novo disco para dar um testemunho disso.
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Crítica
Ouvimos: Eels – “Cookie happened”

RESENHA: Inspirado no Cookie Monster, o Eels mistura folk, power pop e rock dos anos 1960 em Cookie happened. Entre ecos de Lou Reed, Dylan e Lennon, Mark Everett fala de finitude, esperança e recomeços.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: E Works / PIAS
Lançamento: 16 de outubro de 2026
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Mark Oliver Everett, criador do Eels, decidiu fazer de Cookie happened um disco em que o mote principal é o Cookie Monster da Vila Sésamo – e sua frase “eu não choro porque o biscoito acabou, eu sorrio porque o biscoito aconteceu”. Ou seja: basicamente é um disco contemplativo e positivo, em que o Eels lida com uma espécie de magia quase infantil, quebrada apenas pelo vocal grave e rascante de Mark. Muitas letras falam sobre seguir em frente, não ter nada a perder, não chorar pelo leite derramado – e All forgotten fala sobre uma estranha sensação de encontrar paz na finitude, ou na sensação de que daqui a algum tempo nada mais vai existir.
Essa coisa de “daqui a algum tempo estaremos todos mortos”, vamos dizer… Bom, você precisa ser bastante evoluído (dependendo de sua visão de “evolução”) para não ficar tenso com isso. Em termos de som, Cookie happened é um disco de rock sessentista jangling, com cordas mágicas e clima celestial, cujo pé-na-Terra vem de uma onda bem indie rock que serve como argamassa pra tudo. Mesmo em canções mais folk como Clobbered e I’m on standby (esta, marcada pelo som circular de um sintetizador anos 1980).
All forgotten tem uma beleza quase bossa – e uma vibe meio Lou Reed. Taking pictures é uma balada soul de piano, com lembranças de John Lennon. – e o folk rouco de Bamboozled again tem muito de Bob Dylan. O power pop de New story se comunica bastante com Elvis Costello e com uma versão mais introspectiva e tristinha do Weezer. Uma curiosidade sobre as letras é que Mark parece disposto a falar sobre política sem citar a própria – e muitas vezes disfarçando os comentários numa capa de “espiritualidade”, em que surgem choques de opções (o blues country Dum dums e The way I was made) e independência diante do que chamam “destino” (New story). Um disco que fala de esperança e amor apesar de tudo.
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Crítica
Ouvimos: Anfiteatro Babel – “Eletromelodramas vol. 2” (EP)

RESENHA: Em Eletromelodramas vol. 2, Anfiteatro Babel, o projeto de André Nectoux explora drones, sintetizadores e krautrock em três faixas instrumentais que criam cenários imaginários, entre a contemplação e a inquietação.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Chupa Manga Records
Lançamento: 21 de setembro de 2026
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Anfiteatro Babel é um projeto musical de experimentação sonora idealizado pelo músico e produtor brasileiro André Nectoux, de Porto Alegre. Eletromelodramas, por sua vez, é uma série baseada em cenários musicais – algo que o ouvinte vai acabar completando com sua própria mente durante a audição. Pode servir tanto para relaxar quanto para funções mais, vamos dizer, psicodélicas – como o drone eterno de órgão da faixa de abertura Phós ópsis.
Basicamente Eletromelodramas vol. 2 é composto pelo que André chama de “um novo trecho da corredeira de um rio sonoro” – e ele até fala do “como usar” essas três músicas no texto de lançamento. Spiegel’s birds, a segunda faixa, tem cara krautrock (são basicamente sintetizadores circulando no ouvido e fazendo acrobacias) e soa como um experimento feito com quem ouve o disco – quais são as reações que alguém tem diante desse som, que às vezes parece ganhar contornos mais sombrios?
O final, Melodrama II, é mais kraut ainda – às vezes parece a visita a um palácio, ou a um museu, ou a uma sala enorme. Tem tanto cara de música urbana quanto de tema musical para acompanhar o que sobrou após a destruição. Essa dualidade de cenas vindas da música é o mais bacana de Eletromelodramas vol. 2.
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