Crítica
Ouvimos: Terraplana, “Natural”

Tem algo acontecendo de muito sério com o Terraplana – e aliás não só com eles, mas também com a maneira como o shoegaze, esse estilo ruidoso e emparedado, é encarado no Brasil.
A banda curitibana conseguiu chamar atenção até do site gringo Stereogum com esse segundo álbum, Natural. Foram considerados “álbum da semana” e ganharam uma resenha bastante positiva, que abre com algumas notas de maldade sobre a existência de colecionadores de “shoegaze brasileiro”.
Seja como for, a hora é boa para os nerds do estilo: as nuvens de guitarras e os vocais perdidos do estilo musical, que já foram nada mais do que uma cena autocelebratória, são agora uma estética a ser aproveitada, e não um pequeno nicho – e isso tanto aqui quanto lá fora.
Natural vem em hora certa e, mesmo não sendo o melhor disco do Terraplana – o posto ainda está com a estreia Olhar pra trás, de 2023 – traz uma fase ótima de composições, e arranjos que, com algum esforço, acabam arrumando lugar para o som do grupo na prateleira do “rock brasileiro” (ou seja, do rock que pode encarar grandes shows e uma mídia maiorzinha).
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A faixa de abertura, Salto no escuro, já mostra bem isso: é quase um blues-shoegaze, com vocais doces no meio da melodia, que surgem como um sol entre as nuvens lá longe. Na sequência tem Amanhecer é tanto filha dos Pixies quanto de Drop Nineteens. Depois, tem Charlie, cuja intro de guitarra remete a Smells like teen spirit, do Nirvana, mas é só impressão – daí para diante, é uma música recheada com guitarras acinzentadas e vocais celestiais.
Agora, o auge dessa percepção menos anticomercial do Terraplana vem com Todo dia, canção de abertura quase baladeira, um pouco no clima do lado deprê do rock brasileiro dos anos 1980/1990. A letra, como acontece em alguns momentos desse disco, fala de algo que vai sumindo (no caso, um relacionamento), em falhas de comunicação que indicam que algo está prestes a sair de circulação.
Essa mesma vibe invade duas faixas bastante significativas do álbum: Desparecendo (note o nome) e Hear a whisper, com participação de Samira Winter. Esta, uma faixa cuja letra fala sobre a convivência com uma pessoa idosa que vai perdendo a memória – e que, lá pelas tantas, ganha um certo de transmissão de TV que se apaga, como no próprio clipe da música.
No restante, o Terraplana segue para o quase grunge em Horas iguais, para algo próximo do pós-punk em Airbag, e encerra o álbum com sua melhor faixa: Morro azul, canção com clima de mistério, costurado por um baixo que muda climas em momentos estratégicos, e por uma bateria-e-pandeirola bem velvetiana. Uma música que reforça a impressão de um momento bem especial para o grupo curitibano.
Nota: 8
Gravadora: Balaclava Records
Lançamento: 11 de março de 2025.
Crítica
Ouvimos: Haroldo Bontempo – “Haroldo Bontempo ao vivo em quarteto”

RESENHA: Haroldo Bontempo mistura samba-jazz, bossa e indie-folk em disco ao vivo de clima espontâneo, leve e criativo, cheio de improvisos e bom humor.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Cantores del Mundo
Lançamento: 3 de julho de 2026
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Rapaz, e você sabia que existe uma espécie de samba slacker? Pois é: o mineiro Haroldo Bontempo faz samba-jazz, música instrumental, e tem em sua música evocações que vão de Antonio Adolfo a João Donato – este, chegou a participar de Risada, uma música dele. Só que a música de Haroldo tem mais camadas: volta e meia você vai achar climas despojados que têm mais a ver com o Pavement, e vibes em que o samba vira indie-folk, ou o contrário.
Divulgado lá fora por nomes como Gilles Peterson (BBC), o multinstrumentista Haroldo decidiu destacar o lado instimista de seu som em um disco “ao vivo no estudio”. Ao vivo em quarteto traz o cantor e músico acompanhado por Bê Moura (bateria), Carol Ramalho (baixo elétrico) e Vinícius Mendes (flauta transversal e saxofone), e fazendo um som baseado em técnica, surpresas sonoras e fluxos de consciência. Há uma onda quase Odeon anos 1970 em sambas como Até que eu gosto de você. Ou em Brasil, 17h (em clima bossa-blues) e Manhãs no cais (que tem cara de, pode acreditar, Arnaldo Baptista).
- Ouvimos: Xico Chagas – xico-chagas_show_14_11_2025 (ao vivo)
Ao mesmo tempo, a impressão que dá é que Ao vivo em quarteto foi gravado em clima de surpresa até para os músicos, como se fosse um improviso “de luxo”. Sons como Na casa do jornalista, a espontânea Esperança e a bossa lo-fi em várias partes De volta a BH têm elementos que parecem brotar de repente na gravação. Risada, com letra otimista, lembra a fase RGE de Chico Buarque, e Pirraça, seguindo a linha de fluxo de consciência e observações do dia a dia nas letras, tem versos legais como “a esperança é sempre a última a se levantar do bar”.
No final, a zoeira de Seu Moacir, samba-jazz com cara pop e cima de Novos Baianos – em que cada integrante ganha um solo, e Haroldo manda recado para um “velho paulistano emburrado”. Um disco de ótimo astral.
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Crítica
Ouvimos: Brutalismus 3000 – “Harmony”

RESENHA: Brutalismus 3000 mistura gabber, hyperpop e punk em Harmony, disco acelerado e distópico, em que a pista de dança vira campo de batalha. E não apenas ela.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Live From Earth / Columbia
Lançamento: 26 de junho de 2026
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O produtor Theo Zeitner e a cantora Victoria Vassiliki Daldas formam o duo berlinense Brutalismus 3000. E se tem muita coisa do hyperpop que tem uma baita cara de new rave, tão aí esses dois dando aquela lembrada básica na onda gabber – aquele tecno aceleradíssimo e com cara de hardcore, que aqui ganha uma cara bem mais punk e lascada.
A cena gabber nunca desapareceu de fato, mas parece que muita gente só se deu conta agora de que faz sentido juntar batidas frenéticas e climas (vá lá) pop, como se fosse um chiptune intermitente. Harmony abre nessa onda, com o clima caótico de No friends in the company. E segue com a vibe sombria de Garland, e o esquema “Domingo Legal no MD” de A milli, Kairo, Mother bug e I bring my gun to the funcion (com Boys Noize).
Essa vibe de dançarinas de programa de auditório ligeiramente alteradas parece o norte do Brutalismus 3000. Aliás, da mesma forma que uma turma decidiu aumentar o bpm do funk, Theo e Victoria podem ser responsáveis por estabacos trágicos na pista de dança, graças ao beat quase vertiginoso de algumas faixas.
- Conheça também Punchbag, Fcukers, Media Puzzle e Underscores.
Parece música feita de sacanagem, e é. Afinal ,Theo começou a produzir de brincadeira no GarageBand e boa parte do material parece uma desculpa “dançante” para a dupla mandar bala num clima distópico, de todo mundo na ativa – e cheio de ritalin, tadala e mounjaro – enquanto o mundo acaba. Morning is for the happy, com letra narrada pela atriz Anna Taylor-Joy, parece um filme musicado em que a personagem se prepara para mais uma merda de dia lamacento (“a manhã é para os felizes / o dia é para os comportados”).
É quase um, digamos, blueprint distópico do disco – e a banda ainda tem uma música chamada Leonard Cohen, um batidão psicodélico em que um ser humano com alguma sensibilidade parece ser achado em meio à paranoia diária. O bate-estaca de Gore Louvre, por sua vez, põe sangue, tiro, porrada e bomba no museu. Provavelmente uma “visão de futuro” do duo.
O disco termina com as duas partes de Testo skin, um pula-pula violento, que parece fazer o chão rachar – a segunda parte é mais lenta, e mesmo assim tem esse mesmo clima. A onda do Brutalismus 3000 é a do corpo como campo de batalha: conflitos internos, traumas, padrões, masculindade tóxica. E Testo skin soa como se todos os “eus” de todos os personagens do disco estivessem saindo na porrada. Loucura.
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Crítica
Ouvimos: Cuir – “Monoface”

RESENHA: Banda de synth-punk francesa, o Cuir volta com o curto álbum Monoface e, entre teclados e climas ágeis, aponta para bandas como Angelic Upstarts e até o lado punk do Anthrax.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 19 de junho de 2026
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O Cuir é um curioso projeto musical francês, feito por um cara chamado Doug Zilla, veterano do hardcore local – e que para sua banda nova, adotou uma espécie de balaclava rosa. O som é synthpunk, quase tão distorcido quanto sintetizado, com letras no estilo que-se-foda. Monoface é um álbum com, digamos, jeito de EP – mais ou menos como o da banda punk brasileira Basttardz, também assunto nosso hoje.
O nome “monoface” é justamente porque todo o repertório, que dura 15 minutos, cabe em apenas um lado de disco. Já o som do novo disco, mesmo com os teclados, aproxima-se às vezes da mescla de metal e hardcore, com Majeur em l’aair, na abertura, lembrando Anti-social, o hit da banda francesa de hard rock Trust que o Anthrax imortalizou. E faixas como Derniète minute e Road trip lembram bandas como Angelic Upstarts, enquanto Rock’n roll, interim, chômage cai dentro do hardcore-synth. Aliás, dá pra perceber uma conexão forte com a oi! music no som deles, embora Doug não concorde com o rótulo.
Os synths surgem como uma curtição a mais, em meio ao peso punk do grupo – que ganha ar de Stranglers + Rancid em Blastover e Brûler les barrières, e dá uma lembrada em Billy Idol em Spleen. Como vocalista, Doug é quase um rapper cantando punk, com vocais quase sempre brigões e falados. Resta saber se vinil e K7 (o disco sai nos dois formatos) de Monoface vão ter música só no lado A. Ou no B.
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