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Ouvimos: Roberta Lips, “En plein coeur” (EP)

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Ouvimos: Roberta Lips, “En plein coeur”

Quarteto francês formado por mulheres, o Roberta Lips parece um desvio punk-garage rock das riot grrls, com referências óbvias tanto de Bikini Kill quanto de Blondie e Runaways – e até The Damned e Ramones. O EP En plein coeur tem energia próxima da new wave em vários momentos, cabendo punk rocks com órgão e promessas de dancinhas malucas. É o som que brota de faixas como Roberta Lips (a banda tem uma música com seu próprio nome), Cafard e 9 meses.

No final a faixa-título consiste numa guitarra wah-wah que vai crescendo e se sobressaindo na faixa, ao lado de baixo, bateria e vocais. O clima confessional do disco já começa pela capa, com um telefone fora do gancho – En plein coeur, por sinal, abre com um ruído de ligação, e encerra com um telefone ocupado.

Nota: 7,5
Gravadora: Le Cepe Records/Modulor
Lançamento: 28 de março de 2025.

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Crítica

Ouvimos: Swans – “Newly sentient being” (ao vivo)

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Resenha: Swans – “Newly sentient being” (ao vivo)

RESENHA: Em Newly sentient being, o Swans encerra uma fase com quase três horas de drones, ruídos, marchas fúnebres e psicodelia. Michael Gira comanda tudo como um estranho mestre de cerimônias.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Young God / Mute
Lançamento: 2 de outubro de 2026

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Não conte com Michael Gira e os Swans se não for pra afrontar os ouvintes um pouquinho. O duplo ao vivo Newly sentient being é pura afronta – e pura beleza, para quem resolver enfrentar as quase três horas (!) de música que a banda distribui nos dois discos. Pequeno detalhe: o disco começa com The end of forgetting, que dura quase quarenta minutos (!). E se pra você tá pouco, tem a faixa-título, de 53 minutos.

No texto de lançamento, Gira diz que a banda passa a adotar uma postura mais “humilde e intimista” a partir de agora, e que Newly sentient being encerra o período quase transcendental no qual a banda embarcou a partir de 2010, quando decidiu voltar. Foi uma época, vá lá, certa: o Swans voltou tendo algo de bandas sem limite como King Gizzard and The Lizard Wizard, mas com a mesma crueza e o mesmo potencial de susto de fases anteriores.

  • Mais Swans no Pop Fantasma aqui.

No disco, Gira age quase como um pastor ou cerimonialista, falando em línguas estranhas, ou simplesmente fazendo declarações absurdas como Jim Morrison. The end of forgetting viaja em sons de baixo, rangidos, guitarras slide, vocais fantasmagóricos e num clima quase de ambient aterrorizante – como num rio correndo que leva para um lugar muito sombrio. Chega a se parecer com um cântico hare krishna dedicado ao desert rock, enquanto The merge tem guitarras que lembram Velvet Underground e Syd Barrett, e uma batida quase pós-hardcore, desembocando depois numa imensa marcha fúnebre.

Para quem quer “pouquinha” música, Paradise is mine (14 minutos!) é quase um reggae funéreo, com clima cerimonial, e The end of regretting (quinze) ganha ares de blues celestial e satânico. A faixa-título é sombra e terror sonoros, com – já que falamos de Jim Morrison – Michael Gira fazendo lembrar o “is everybody in?” de The celebration of the lizard, dos Doors. Música, arte e mistério.

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Crítica

Ouvimos: Sorosoro – “Riffs lentos vol.1 – Debaixo do céu”

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Resenha: Sorosoro – “Riffs lentos vol.1 – Debaixo do céu”

RESENHA: O Sorosoro abandona por um momento o emo e o shoegaze para mergulhar em drones, psicodelia e ruído em Riffs lentos vol. 1 – Debaixo do céu, disco de quatro faixas que passa de uma hora.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Seloselo
Lançamento: 21 de setembro de 2026

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O som do Sorosoro, uma banda de Blumenau (SC), costuma unir estilos como post-rock, slowcore, Midwest emo, shoegaze e math rock – foi assim que eles se apresentaram recentemente no álbum Eu e você ou Tudo que eu não quero que você saiba, lançado em março (e resenhado aqui). Riffs lentos vol.1 – Debaixo do céu, segundo álbum lançado pela banda em 2026, vai para um lado bem diferente, experimental e ruidoso. Aliás um lado associável ao de Newly sentient being, disco duplo ao vivo lançado pelos Swans uma semana depois do disco deles sair.

Riffs lentos faz lembrar um texto que saiu há bastante tempo no Pop Fantasma sobre pessoas que jogavam clássicos do pop e do rock no YouTube com velocidade 800% diminuída (time-stretched version). Essa lentidão faz com que tudo pareça um ambient desértico, ou versões de músicas como Tomorrow never knows (Beatles) com pitch diminuidíssimo. O álbum tem quatro faixas apenas, mas prepare-se para ocupar os ouvidos por mais de uma hora: Acima do mar, uma viagem sonora tão relaxante quanto tensa e rangida, dura nada menos que 41:23 (!). Nem caberia num lado de LP.

Debaixo do céu, com 10:20, abre o disco com rangidos, sons que lembram violinos e algo que parece um cavaquinho sendo manipulado. Preso na Terra soa como uma trilha para o Alexandre da novela A viagem (1994), com vozes fantasmagóricas e possuídas tomando conta de quase toda a faixa – cabendo alguns ruídos depois. A menor faixa do álbum, Pegando fogo, se desenrola em meio à psicodelia garageira, com gravação de demo antiga.

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Ouvimos: Alabama Shakes – “I must be dreaming”

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Resenha: Alabama Shakes - "I must be dreaming"

RESENHA: Após 11 anos, o Alabama Shakes retorna com I must be dreaming, disco em que soul, blues e psicodelia embalam letras sobre amor, racismo, trabalho e a política dos EUA.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Island
Lançamento: 28 de agosto de 2026

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O Alabama Shakes volta depois de onze anos. Sendo que, durante esse tempo, a vocalista Brittany Howard quase deu uma de Stevie Nicks. Ou seja: se tornou aquele tipo de cantora que, em carreira solo, faz coisas tão boas que consegue formar um fã clube numeroso com muita gente que nunca havia ouvido a banda dela.

A dúvida, diante disso tudo, era saber como aconteceria um possível retorno do grupo. I must be dreaming, que incrivelmente é só o terceiro disco deles (o Alabama Shakes já começou tão “maduro” que muita gente deve pensar que eles têm uma discografia numerosa como a dos Black Keys), desfaz qualquer ilusão sobre a banda ter perdido o, vá lá, bonde da história. Não apenas a banda não perdeu nada, como Brittany voltou cantando com intensidade e raiva, sobre temas que vão do amor à política calhorda do governo Trump.

Tea time, logo no começo, é sophisti-afropop, com percussões de chamada, falando que “a paz não nasce do sofrimento”, e lembrando de batalhas ganhas não pelo derramamento de sangue, mas pela coragem de dizer não. I feel hope coming é uma balada venturosa e quase psicodélica, ganhando ares de soul e de soft rock na sequência, em que Brittany fala de resistência, racismo e exploração trabalhista (“eles nos derrubam, nos deixam malucos / nos deixam doentes, nos chamam de preguiçosos / eu não quero sua lei marcial, eu quero ar limpo / não quero inimigos que nem existem”, mandando bala na criação de inimigos imaginários, que nunca foi uma questão só do Brasil).

Tem ainda American dream, blues soul forte em que o tal “sonho americano” do título vira um baita delírio – na verdade, nesse caso, é um tema que merecia uma letra até mais analítica, como as que Tom Morello andou fazendo em seu novo álbum solo. O Alabama Shakes, aliás, volta falando de amor com uma força bem maior do que nos discos anteriores, em meio ao clima ultratexturizado de Another life, à onda blues andarilha de Garden e à psicodelia de Tied to you. Como cantora negra e queer, Brittany sabe que falar de amor é falar de política, de apagamento e de empoderamento – é o tom dado em letras e vocais, mesmo quando isso não é falado diretamente.

Musicalmente, há surpresas bem legais em I must be dreaming, e que deixam o álbum com um aspecto de sonho, de viagem sonora – rola na psicodelia quase voadora de How love’s supposed t go, na onda sombria de Time e em Easy, dream pop de beat quase casual. Friends é o lado bittersweet do grupo – aliás, uma música que lembra discretamente a fase baladeira de Alice Cooper, no fim dos anos 1970. No geral, um retorno bem forte e, dada a animação com que Brittany já vinha encarando a carreira solo, inesperado.

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