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Crítica

Ouvimos: Jennie, “Ruby”

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Ouvimos: Jennie, “Ruby”

Seguindo numa mescla de trap, funk e phonk (com todas aquelas misturas entre hip hop e jazz que o estilo apresenta), Jennie soa bastante convincente em sua estreia solo, Ruby. E convencer, vá lá, é o principal objetivo de qualquer artista pop. Você acaba nem se lembrando de que se trata de uma integrante do grupo feminino coreano Blackpink, porque ela soa como se tivesse sido descoberta agora, e tivesse vindo das ruas, não da veradadeira máquina de fazer dinheiro que é o k-pop.

Ela também consegue jogar direitinho o jogo de cantoras como Charli XCX, Rihanna e Doechii (por sinal, esta última, uma convidada do álbum), mesmo nos momentos do disco em que ela não parece estar entregando nada de muito novo, É o que acontece em Like Jennie, batidão autorreferente que surge no disco após uma introdução de piano e voz, evoluída para um arranjo de orquestra bem interessante.

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Ruby não deixa de apostar em climas análogos ao dream pop – como em Start a war, uma balada “fria” com vocais e teclados cheios de eco, e que depois ganha um clima de sonho encantado, como nas músicas da Disney. Uma música que, vá lá, convence, mesmo que no fundo seja aquele tipo de melodia que você já ouviu em mil lugares, mas que aqui parece revigorada.

Doechii, convidada de luxo num projeto como esse, dá as caras num dos maiores momentos de, digamos, ousadia do álbum: a ágil Extra L tem um refrão ótimo, é extremamente valorizada pelo rap da convidada, e tem uma letra na qual o empoderamento vem lado a lado com a zoeira moleque (Extra L, por sinal, é “extra large”). Dua Lipa, por sua vez, surge em Handlebars, uma música de ressaca amorosa com tom soft rock leve e ritmo sinuoso na voz e nas batidas, em que as duas dividem vocais numa onda que, mal comparando, chega a lembrar as canções de amor e desamor divididas pelas “patroas” do sertanejo.

Ruby também é o disco do pop pesado, levado adiante por vocais meio latinos, de With the IE (Way up) – uma daquelas músicas que você ouve e já imagina as coreografias. E do tom sombrio e sexy de Seoul city. E também da balada nebulosa FTS, aberta com um piano blueseiro, e seguindo com teclados em tom dramático. E também do quase nu-metal leve de Zen. Já Damn right, um r&b leve e sinuoso cantado com Kali Uchis e Childish Gambino, vai no mesmo clima de “letras de sexo” de Seoul city – e acaba, musicalmente, sendo o maior destaque do álbum.

O maior gol de Ruby é brigar por atenção no universo pop trazendo um mais-do-mesmo bem realizado e bem feito – muita coisa não é exatamente inovadora, mas é montada por Jennie e sua turma de modo a construir uma personagem sexy, empoderada, amadurecida, brigona e com uma voz que ganha peso em vários momentos. Dá para ouvir e deparar com vários futuros hits.

Nota: 8
Gravadora: ODDATELIER/Columbia
Lançamento: 7 de março de 2025.

Crítica

Ouvimos: Kiss – “Kiss Destroys Anaheim ’76” (ao vivo)

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Kiss resgata show histórico de 1976 no álbum "Destroys Anaheim ’76"

RESENHA: Gravado diante de mais de 42 mil fãs em 1976, Kiss Destroys Anaheim ’76 recupera um show histórico com som restaurado por Eddie Kramer e toda a teatralidade da banda.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Universal Music
Lançamento: 21 de agosto de 2026

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O Kiss não era um sucesso evidente até o extremamente bem sucedido duplo ao vivo Alive (1975). A ponto de a gravadora Casablanca não estar tão certa assim de que foi bom negócio contratar a banda. Destroyer, quarto disco do grupo (1976), já pegou clima de jogo quase ganho: foi uberproduzido (pelo rato de estúdio Bob Ezrin), chegou a uma turma enorme e bateu recordes de vendagens.

Quando Gene Simmons, Paul Stanley, Ace Frehley e Peter Criss encararam mais de 42 mil fãs no Estádio de Anaheim, na Califórnia, em 20 de agosto de 1976, aquilo era atestado de que tinha dado certo, pelo menos até ali. Três anos antes, o grupo havia ganhado 50 dólares para fazer um show no Queens, em Nova York, para meia-dúzia de gatos-pingados, se tanto.

Kiss Destroys Anaheim ’76 passou décadas sendo pirateado e ouvido com qualidade péssima – chega agora às plataformas e a formatos físicos oficiais depois de um belo trato nas fitas multipista originais. Trato este realizado pelo mesmo sujeito que gravou o show em 1976, o experiente Eddie Kramer. O novo ao vivo do Kiss só parece um show resgatado após 50 anos porque, em 1976, o único “tratamento” a ser feito numa gravação dessas era botar a banda no estúdio pra regravar uma porrada de coisas.

O som de Kiss Destroys Anaheim ’76 é real: desafinações, desencontros ao vivo, falas meio louconas, estrondos de pirotecnia, banda feliz igual pinto no lixo. Já o repertório, olhando hoje, não tinha como dar errado, mas naquela noite muita coisa era novidade para grandes plateias: Detroit rock city, King of the night time world, Let me go rock’n roll, Rock and roll all nite, God of thunder, Shout it out loud, Deuce.

Tinha também os solinhos de cada integrante: Ace (guitarra) arrebentou, o acrobático Peter (bateria) ameaçava chupar deslavadamente o solo de In a gadda-da-vida, do Iron Butterfly, Gene (baixo) fez poucas notas e “ok, isso é um solo”, Paul (guitarra base) nem tentou. O Kiss performático já havia nascido um tempo antes, mas tinha virado caso sério há pouco tempo.

O Kiss trazia como novidade uma noção de rock como espetáculo – e como evento que precisa de interação com a plateia. Os Rolling Stones faziam isso, e botavam o público pra dançar, mas o Kiss criava conexões que não existiam antes: tinha humor de história em quadrinhos, maquiagem usada num contexto não-glam, mito do heroi. Era circo, mas não era “o pum do palhaço” (ai).

Não era “rock adulto”, mas não era infantil – muito embora, com o tempo, as coisas mudassem a ponto da imagem da banda parecer patética demais para adultos e “proibida pra menores” demais pra crianças. Antes que essa estranha confusão surgisse, eram só quatro caras maquiados encantando mais de 40 mil fãs. E voltando hoje do túnel do tempo.

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Crítica

Ouvimos: Firefriend – “Redshift”

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Resenha: Firefriend – “Redshift”

RESENHA: Em Redshift, o Firefriend reúne garage rock, drone e psicodelia em gravações ao vivo que transformam ruído, repetição e reverberação em uma viagem sombria e espacial.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 10 de junho de 2026

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A banda paulistana Firefriend está acostumada a caminhos ruidosos e sombrios – ano passado, soltou inclusive dois álbuns complementares, Blue radiation e Fuzz, que se dividiam em drones estranhos e garage rocks com cara de Stooges. Agora é a vez de Redshift, álbum que parece unir as duas experiências. Foi “gravado ao vivo em uma única sessão em São Paulo, em 16 de novembro de 2025”, sem direito a overdubs (“apenas primeiras tomadas”).

Uma epígrafe parece resumir o clima de “derretimento” sonoro do material: “O universo não é estático. Tudo está se desintegrando…”. O som de Redshift é garageiro, baseado em ruídos e riffs repetitivos, apontando para uma música noturna e, às vezes, dançante – como o caso de Spearhead, filha da era Honey’s dead, do The Jesus and Mary Chain (1992), e de My Bloody Valentine. Dust devil é viagem psicodélica sombria e meditativa, com beat fluido e “perdido no espaço”, vocais e guitarras reverberando.

Acid rain high-speed clouds abre em clima de drone, embarca no noise-rock e depois num hardcore psicodélico (!) – na real uma cacofonia lisérgica, com tudo ao redor girando. O clima volta a ficar calmo na viagem de Cosmic background radiation e na onda sombria e garageira, com beat dançante, de Dreamscapes. Já Afterhours, no final, é como se o Velvet Underground decidisse investir no rock estradeiro, feito para ouvir de fones numa moto (opa, sim, tem a ver com o sumido Black Rebel Motorcycle Club) – mas lembra até um U2 maldito no fim.

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Crítica

Ouvimos: Rocketsuit Rogue – “Hello, apocalypse”

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Resenha: Rocketsuit Rogue – “Hello, apocalypse”

RESENHA: Vindo do Zebrahead, Matty Lewis estreia como Rocketsuit Rogue com Hello, apocalypse, disco que cruza punk, hard rock, ska e humor apocalíptico em canções rápidas e explosivas.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 7,5
Gravadora: Double Helix Records / SBAM Records
Lançamento: 21 de agosto de 2026

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Rocketsuit Rogue é o codinome de Matty Lewis, cantor, compositor e guitarrista presente durante vários anos na história do Zebrahead, grupo pop-punk que promove mesclas com hip hop (tem quem chame de punk-rap) e que, a bem da verdade, não chega a ser o tipo de banda imperdível. Nos anos 90 chegaram a lançar uma música, Get back, em que diziam “tenho que arrumar dinheiro como meu mano Trump” – uma patacoada da qual se arrependeram anos depois (dá pra alegar que nos anos 1990 Donald Trump era só um empresário, mas naquela época, já era uma companhia das piores).

Hello, apocalypse, sua estreia solo sob o codinome, tem um tom mais pesado, satírico e rock hero do que sua banda fazia supor – o som lembra uma união de grupos como Motörhead, Green Day, Ramones, Pennywise, e alguns clássicos do pré-pop punk, como Vice Squad. A agilidade sonora e o link com temas espaciais e/ou apocalípticos em faixas como Watch the world just fall apart, Better off dead, a explosiva Our last parade e o skacore Artificial ignorance, além de um certo pé na canoa do hard rock, garantem que o / a ouvinte vá deparar com canções legais.

Matty diz que o “alô, apocalipse” do título não é necessariamente o fim do mundo, mas qualquer sensação de “tudo acabado” do dia-a-dia. Algo que bate em canções como o power pop + ska-punk de The best last day on Earth e em hinos punk de fôlego, como Take me home e Goodbye paradise.

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