Connect with us

Crítica

Ouvimos: Jefté, “Poeta do caos”

Published

on

Ouvimos: Jefté, "Poeta do caos"
  • Poeta do caos é o álbum de estreia do cantor cearense Jefté. Ele conta que o disco fala sobre experiências e emoções vividas por ele durante um período conturbado, em que atravessou a pandemia e um divórcio. “O disco vai desde a solidão e tristeza até a aceitação e reencontro consigo mesmo”, diz o texto de lançamento.
  • Ele conta que muito da energia do disco vem de sua mudança para São Paulo. “Me vi ali sentado na Praça Roosevelt, no centro de SP, rodeado de gente, mas sem minha própria companhia. Estava a pagar os meus pecados, e a culpa me atravessava. Aquele caos que era só meu e, ali, a música e a poesia me salvaram”, diz Jefté.
  • A produção e direção artística são de Lucas Cirillo. Jefté, Gabriel Iglesias, Samuel Silva e Yuri Costa fizeram co-produções.

Em seu álbum de estreia, Jefté propõe uma sonoridade que vai da MPB experimental ao acréscimo de estilos como samba-rock, samba-reggae, ciranda, ambient e até soul nacional. No bolero eletrônico Faz doer, ele parece tentar soar parecido com Cassiano, e tem algo parecido com o violão de Jorge Ben em Arrudeio, cuja batida posteriormente fica entre o som baiano e o tecnobrega.

Na abertura, a faixa-título, um poema-vinheta, mostra que o álbum mistura descobertas musicais e pessoais, em meio a onda sonoras e frases como “sejam bem vindos aos meus gatilhos” e “pobre, preto, nordestino, sem pedigree, a vida me pariu poeta do caos”. Há também outro poema lido no álbum, Ambulante de Capricórnio, que chegou a ficar conhecido nas redes sociais.

Dança surge com cara de ciranda eletrônica, trazendo mais elementos do caos do dia a dia na letra (“essa guerra lá fora que tudo destroi/o mundo se acabando na frente de nós”). Fevereiro tem algo de marcha lenta de Carnaval, em tom leve e com programações eletrônicas discretas. O lado poético do disco evolui para um rap com participação de Rico Dalasam, Efeito borboleta, marcado por ritmos orientais.

Poeta do caos encerra com uma cantiga em tom nordestino, Benedito, falando sobre amor livre e incondicional. E com o clima quase dream pop de Par imperfeito, lembrando a produção dos álbuns de Moses Sumney.

Nota: 8
Gravadora: Dorsal Musik
Lançamento: 31 de outubro de 2024.

 

Crítica

Ouvimos: Tanya Donelly e Chris Brokaw – “The undone is done again” (EP)

Published

on

Resenha: Tanya Donelly e Chris Brokaw – "The undone is done again" (EP)

RESENHA: The undone is done again une medieval, pós-punk e folk sacro num EP etéreo e inesperado de Tanya Donelly e Chris Brokaw.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Fire Records
Lançamento: 17 de abril de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

“Ei, isso é muito específico, não acham?”, devem ter ouvido Tanya Donelly e Chris Brokaw quando anunciaram seu desejo de gravar um EP dedicado à música medieval e antiga. A líder do Belly (e ex-Breeders e Throwing Muses) e o ex-Codeine e ex-Come, digamos, surpreendem pela escolha. Esse tipo de som está mais próximo dos grupos de estudo histórico de música do que do indie rock – muito embora nem seja estranho imaginar artistas do pós-punk envolvidos com esse tipo de som.

A Legião Urbana enamorou-se da “música antiga” em V (1991), David Sylvian (ex-Japan) experimentou harmonias modais em discos solo, o Dead Can Dance (banda da 4AD, selo ao qual Tanya esteve ligada por anos) achou razões para existir em torno da música ritualística e medieval. E a história de The undone is done again é bem despretensiosa: surgiu de um evento beneficente de fim de ano para o qual os dois haviam sido convidados a apresentar algum trabalho – quando Tanya sugeriu o trabalho em duo, ouviu de Chris que ele estava ouvindo música medieval.

A gravação foi feita num estúdio de verdade (nada de “bedroom medieval”) e Tanya usou um aplicativo de tradução para não se perder. The undone is done again, enfim, tem quatro madrigais cantados em latim (!) e gravados de modo etéreo, com a voz bela e voadora de Tanya e a guitarra esparsa e cheia de eco de Chris. Daí músicas como Novus annus adiit se tornam mágicas sem muito esforço, com vocal camerístico e som sacro, além da letra falando das ótimas promessas de ano novo. Já Sainte Nicholaes, possivelmente a canção mais antiga do EP, atribuída ao eremita inglês do século XII, São Godric de Finchale (como aponta o The Quietus), tem algo de Björk e Nico, nos vocais e no clima imersivo.

Na segunda metade do EP, In hoc anni circulo tem guitarra circular e sacra, chegando a soar como um órgão. E tem ainda Plaudat letitia, canção curiosa, com vocal quase hispânico e guitarra em clima de faroeste. No fim das contas, uma curiosa lembrança das verdadeiras vibrações do natal e do ano novo – e uma espécie de “comemoração raiz” das duas datas.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Tiê – “Esgotada”

Published

on

Resenha: Tiê – “Esgotada”

RESENHA: Tiê transforma Esgotada em disco íntimo sobre maternidade, cansaço e afeto, misturando MPB setentista e pop suave.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Rosa Flamingo / Warner
Lançamento: 20 de maio de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Esgotada, novo álbum de Tiê, é curto – menos de trinta minutos, dez músicas, algumas delas são vinhetas que deixam entrever algo dos bastidores do disco. Na verdade trata-se de um projeto em dois atos, já que Amorosa, a continuação, sai no segundo semestre. A ideia do trabalho é mostrar dois lados diferentes da maturidade de Tiê, hoje mãe, dividida entre si própria e toda a carga mental que vai tomando espaço no dia a dia. E, na real, dividir a conversa sobre maternidade, esgotamento e limites com o público.

No geral, não é de hoje que os discos de Tiê têm uma certa onda de cuidado geral, de sentimento coletivo. Rola até mesmo em canções absolutamente pessoais como Assinado eu e Na varanda da Liz – aliás, rola justamente por causa da vibe “pessoal” dessas músicas. Esgotada aumenta esse sentimento de conversa, de identificação, em faixas como Minha história e Tempo pra mim. São músicas sobre as coisas boas e desgastantes do dia a dia, e sobre a vontade de voltar no tempo. Ou de pelo menos ter uma relação melhor com ele.

Tempo pra mim, uma toada moderna e tranquila, faz um pedido de calma no meio do caos diário – encerrando com uma batida percussiva de coração. Outros assuntos vão surgindo: o bolero folk Atitude, com Adriana Calcanhotto, é sobre falar e não ser ouvida. Ainda e A verdade dói são sobre eternos desencontros. Altar, uma música bastante carioca (citando Santa Teresa e Copacabana na letra) é uma tentativa de ajudar alguém a passar por dificuldades.

Criando o que pode ser chamado de um disco amigo, Tiê faz de Esgotada um álbum tranquilo e emocional, dividido entre modernizações da MPB setentista (Minha história, Altar, Tanto faz) e algumas ondas mais pop (o piano Rhodes e o clima dançante de Contato, a balada blues de Ainda). Tem um clima ligeiramente beatle em algumas faixas – que já havia até no hit Na varanda da Liz. Como qualquer disco lançado em duas partes, Esgotada tem um certo ar de mixtape, de algo que ainda falta surgir – um certo risco a ser corrido. Mas a mensagem foi passada.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Boris – “Dronevil – example -” (relançamento)

Published

on

Resenha: Boris – “Dronevil – example -” (relançamento)

RESENHA: O Boris revisita o caos de seu álbum Dronevil em versão mais prática: drone, doom e ruído extremo para quem ama barulho experimental.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 7,5
Gravadora: Relapse Records
Lançamento: 19 de agosto de 2025

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

O Boris é um trio japonês extremamente barulhento – quase uma materialização da doideira ruidosa e misteriosa do Les Rallizes Dénudés – e que grava e lança discos compulsivamente. O som une drone, sludge metal, doom metal, psicodelia e música assustadora em geral (volta e meia o som fica mais violento sem aviso prévio). Ultimamente a banda anda revisitando seus discos antigos e voltando do passeio com algumas surpresas e lançamentos comemorativos. Foi daí que veio Dronevil – example-, um “retrabalho” em cima de seu disco de 2005, Dronevil.

Dronevil era um disco duplo cujos álbuns podiam ser ouvidos em separado, mas a ideia era que o ouvinte desse um jeito de tocar os dois discos ao mesmo tempo – adaptando aquela ideia maluca do Flaming Lips para o álbum quádruplo Zaireeka, de 1997. O disco passou por algumas mudanças nos relançamentos: nomes de faixas foram trocados, músicas foram acrescentadas, a capa, originalmente um desenho de Stephen O’Malley, da banda Sunn O))), foi mudada. A versão “example” continua sendo dupla, mas junta os dois discos originais num só para ninguém ter o trabalho de usar dois CDs (ou dois aparelhos de som, dois celulares, duas caixas) para escutar o pacote todo.

E aí que não tem como falar de Dronevil sem falar termos como “atmosférico”, “experimental”, sendo que cada faixa é atmosférica e experimental de um jeito. A associação com o Sunn O))) faz todo sentido, já que o som do Boris tem dois lados: ou é puro drone, ou cai no sludge e doom metal, com sons que lembram o Godzilla se movimentando e pisando em prédios.

Loose x Red começa dando medo: uma guitarra “tranquila”, um prato de bateria que vai se tornando foco de terror, microfonias e um som gelado que vai tomando a frente, dando um clima de sonambulismo. Giddiness throne x Evil wave form é menos insinuante e mais agressiva, mas com clima fantasmagórico, com ruído geral lá pelas tantas.

Nem falei, mas vale avisar: são quatro faixas com cerca de 20 minutos cada. Interference demon x The evilone which sobs, abre no drone e se torna quase um blues metal triste. O final é com A bao a qu, “single” de 17 minutos incluído no disco, e mixado com o material menos metálico de Dronevil. Uma música cuja curva é em formato de sino: drone + metal+ som que vai silenciando aos poucos. Tem que amar barulho e experimentalismo para curtir Boris de verdade.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

 

Continue Reading

Acompanhe pos RSS

Resenha: Tanya Donelly e Chris Brokaw – "The undone is done again" (EP)
Crítica43 minutos ago

Ouvimos: Tanya Donelly e Chris Brokaw – “The undone is done again” (EP)

Resenha: Tiê – “Esgotada”
Crítica52 minutos ago

Ouvimos: Tiê – “Esgotada”

O DIIV está no elenco do Balaclava Fest em 2026 (Foto: Coley Brown / Divulgação)
Urgente2 horas ago

Balaclava Fest aumenta de tamanho em 2026 e anuncia line-up

Resenha: Boris – “Dronevil – example -” (relançamento)
Crítica3 horas ago

Ouvimos: Boris – “Dronevil – example -” (relançamento)

Resenha: Pentelho – “Adesivo de Ferrari” (EP)
Crítica4 horas ago

Ouvimos: Pentelho – “Adesivo de Ferrari” (EP)

Fishbone - Foto: Justin Hammer / Divulgação
Urgente6 horas ago

Fishbone em São Paulo em outubro: corra pra comprar os ingressos!

Listening Sessions BR: KL Jay e Dani Pimenta promovem escuta ativa de discos em SP
Urgente7 horas ago

Listening Sessions BR: KL Jay e Dani Pimenta promovem escuta ativa de discos em SP

Nubya Garcia vai fazer show na Casa Natura Musical (Foto: Mariana Pires / Divulgação)
Urgente8 horas ago

Cinema, literatura, jazz e Mês do Orgulho na Casa Natura Musical

Pattie Boyd: fotógrafa
Urgente22 horas ago

Pattie Boyd, ex-esposa de George Harrison: “Ninguém desses filmes dos Beatles falou comigo”

Nitamortei (Foto: Divulgação)
Urgente23 horas ago

Nitamortei: voz e performances unidas para quem curte Laurie Anderson e Slits

Roberta Zerbini - Foto: Wladimir Fontes / Direção de arte: Fernanda Zerbini
Urgente24 horas ago

“Bota o coração na frente”, diz Roberta Zerbini em single novo

Rivers Cuomo (Foto: Birgit Fostervold / Wikimedia Commons)
Urgente1 dia ago

Rivers Cuomo solta (acidentalmente?) várias covers no YouTube

Linda Perry (Foto: Reprodução Instagram)
Urgente1 dia ago

Linda Perry: em entrevista, porrada no Green Day e no Whitesnake (e implicância com Courtney Love)

Pablo Vermell e Supervão (Foto: Divulgação)
Urgente1 dia ago

Pablo Vermell relê música sua com o Supervão – e surge “Luzes que vão passando”

Resenha: War On Women – “Time under tension”
Crítica1 dia ago

Ouvimos: War On Women – “Time under tension”

Resenha: Lowsunday – “Ghost machine black EP”
Crítica1 dia ago

Ouvimos: Lowsunday – “Ghost machine black EP”

Resenha: Culture Wars – “Don’t speak”
Crítica1 dia ago

Ouvimos: Culture Wars – “Don’t speak”

Resenha: Tangolo Mangos – “Pedágios y caronas”
Crítica1 dia ago

Ouvimos: Tangolo Mangos – “Pedágios y caronas”