Crítica
Ouvimos: Black Country, New Road, “Forever howlong”

Esqueça completamente aquele Black Country, New Road dos primeiros tempos. O BCNR do novo disco Forever howlong tem mais a ver com bandas como Beatles, Moody Blues e Pretty Things, e até com o lado operístico do 10cc (de faixas como Une nuit à Paris) do que com qualquer sonoridade mais destrutiva. Boa parte do álbum poderia ter sido arranjada por George Martin.
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Um exemplo: o single Besties, um hino à amizade e à sororidade, lembra Beatles no arranjo, na melodia, no título (quando deparei com a faixa numa plataforma, li mal lido e entendi “Beatles” mesmo) e nas linhas vocais claramente decalcadas de My love, de Paul McCartney. Outros: Two horses parece ter se inspirado em Because, do Abbey Road, e faixas como Socks e The big spin parecem mexer no legado do começo dos Wings.
Isso é ruim? O disco é ruim? Claro que não – talvez tudo só soe mais confuso para quem era fã da fase inicial, com o vocalista Isaac Wood. O Black Country New Road faz questão de expor sua nova fase orquestral em fotos de divulgação que fazem com que a banda se pareça menos com um grupo de rock, e mais com um grupo de música antiga prestes a fazer um concerto numa igrejinha em Ouro Preto – com direito a meninas de um lado e meninos do outro.
Faixas como Salem sisters mexem simultaneamente com o lado “espacial” dos Beach Boys e com uma espécie de soft rock orquestral, enquanto faixas como Mary soam próximas de bandas como Jefferson Airplane. Há algo de evidentemente perturbador em faixas como Happy birthday, basicamente uma zoação em cima de moleques bem-nascidos que se sentem vítimas do mundo, e no som de cavalaria de For the cold country. O clima mágico da faixa-título lembra algo de Judee Sill e até de Suzanne Vega, e muita coisa do disco, em geral, tem aquele mesmo clima da fusão entre progressivo e jazz que marcou bandas como Soft Machine, Focus e até o Yes, em alguns momentos.
No fim das contas, Forever howlong deixa mais dúvidas do que certezas. As novas letras do Black Country New Road soam estranhas, meio sem filtro, com uma beatitude meio esquisita – aquela coisa típica de quem cruzou a linha fina entre a consciência e a chatice, um mal do qual o Arcade Fire e até o U2 sofreram em alguns momentos. As qualidades do disco valem a pena, mesmo talvez não sendo o que se esperava ouvir deles, e o que mais chama a atenção é a ousadia. Nesse quesito, ganham vários pontos.
Nota: 8
Gravadora: Ninja Tune
Lançamento: 4 de abril de 2025
Crítica
Ouvimos: Cuir – “Monoface”

RESENHA: Banda de synth-punk francesa, o Cuir volta com o curto álbum Monoface e, entre teclados e climas ágeis, aponta para bandas como Angelic Upstarts e até o lado punk do Anthrax.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 19 de junho de 2026
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O Cuir é um curioso projeto musical francês, feito por um cara chamado Doug Zilla, veterano do hardcore local – e que para sua banda nova, adotou uma espécie de balaclava rosa. O som é synthpunk, quase tão distorcido quanto sintetizado, com letras no estilo que-se-foda. Monoface é um álbum com, digamos, jeito de EP – mais ou menos como o da banda punk brasileira Basttardz, também assunto nosso hoje.
O nome “monoface” é justamente porque todo o repertório, que dura 15 minutos, cabe em apenas um lado de disco. Já o som do novo disco, mesmo com os teclados, aproxima-se às vezes da mescla de metal e hardcore, com Majeur em l’aair, na abertura, lembrando Anti-social, o hit da banda francesa de hard rock Trust que o Anthrax imortalizou. E faixas como Derniète minute e Road trip lembram bandas como Angelic Upstarts, enquanto Rock’n roll, interim, chômage cai dentro do hardcore-synth. Aliás, dá pra perceber uma conexão forte com a oi! music no som deles, embora Doug não concorde com o rótulo.
Os synths surgem como uma curtição a mais, em meio ao peso punk do grupo – que ganha ar de Stranglers + Rancid em Blastover e Brûler les barrières, e dá uma lembrada em Billy Idol em Spleen. Como vocalista, Doug é quase um rapper cantando punk, com vocais quase sempre brigões e falados. Resta saber se vinil e K7 (o disco sai nos dois formatos) de Monoface vão ter música só no lado A. Ou no B.
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Crítica
Ouvimos: Basttardz – “Tramas & traumas”

RESENHA: Banda maranhense Basttardz une peso, introspecção, punk, funk e até piseiro nas curtíssimas faixas do curto álbum Tramas & traumas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Brisa Rec
Lançamento: 13 de julho de 2026
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Seguindo a onda do álbum pequeno, Tramas & traumas, terceiro disco da banda maranhense Basttardz, é curtinho (oito faixas, 15 minutos) e foca no punk e no hardcore com misturas inusitadas e letras introspectivas. O som une hardcore e estilos como funk e rap (na faixa-título e em favelas), parte para o reggae punk em O inconsciente coletivo e insere até algo de piseiro, forró e reggamuffin em músicas como Vitrine e Do culto ao lucro.
O som do grupo é pensado como um mergulho, tanto no som quanto no universo deles – que inclui temas como influencers que surgem do nada, violência, exclusão, drogas de 2026 (na ótima letra de Tarja preta, que fala de aditivos usados para trabalhar, produzir, estudar, dormir e se deixar manipular) e memórias amargas que ganham espaço como traumas, anos depois. Tem inovação no som e um clima herdado da vulnerabilidade do emo Midwest, embora na prática o Basttardz faça uma música com bem mais foco em peso e beats.
- Ouvimos: Arlomine – Francis Frankenstein
Nas letras de Tramas & traumas, o grupo também une depressão e falta de grana. O desespero diante do capitalismo dá o tom de músicas como Desconstrução, que, inspirada em Construção, de Chico Buarque, encerra o disco olhando para quem já está quase desistindo de tudo.
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Crítica
Ouvimos: Francis Of Delirium – “Run, run pure beauty”

RESENHA: Entre shoegaze, dream pop e soft rock, Francis Of Delirium cria um álbum de melodias etéreas, ruído elegante e atmosfera cinematográfica.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Dalliance Recordings
Lançamento: 29 de maio de 2026
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Jana Bahrich, musicista radicada em Luxemburgo, responde pelo codinome Francis Of Delirium – que basicamente significa sonho, construções melódicas baseadas no mesmo delírio que surge no nome do projeto. Run, run pure beauty, o segundo álbum, tem elementos associáveis ao que normalmente é chamado de “shoegaze” e “dream pop” – no caso desse último, ele serve como um bom rótulo, por causa dos vocais mágicos e do clima quase voador das melodias.
Aliens, a música de abertura, tem o mesmo clima geralmente associável ao shoegaze, com guitarras em nuvem – mas Jana tem o cuidado de associar a seu som um mistério musical dado pelo uso de instrumentos de orquestra, que dá a algumas faixas um ar análogo ao de Ocean rain, o sombrio disco de 1984 do Echo and The Bunnymen.
- Ouvimos: Divers – Odd dog in the capital
O disco prossegue na beleza de Out tonight e da faixa-título – esta, com cordas em vibe meio beatle, lembrando as espirais de I am the walrus. Mas a partir daí surgem lados diferentes do Francis, que investe em aclimatações soft rock, em faixas como Higher, Little black dress e Sucker punch. Tudo combinado com a disposição para o barulho, já que Open up your mouth to love, por exemplo, une tranquilidade sonora, dada pelos violões, a um clima shoegaze leve.
Por causa disso tudo aí, tem momentos em que o som do Francis chega a lembrar uma versão mais indie dos Cranberries – ou o Mazzy Star com ambições mais épicas. Essa impressão dá bastante as caras em Requiem for a dying day. Em outras occsiões, o lado pós-punk do projeto dá uma escalada, como no baixo-à-frente e no clima meio Eurythmics de Damned, ou no noise-pop anos 1990 de It’s a beautiful life. No geral, um som muito bem concebido e montado.
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