Crítica
Ouvimos: Portugal. The Man – “Shish”

RESENHA: Portugal. The Man aprofunda a fase experimental em Shish: disco pesado, ritualístico e pessoal, entre pós-rock, punk e psicodelia, longe do hit Feel It Still.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: KNIK / Thirty Tigers
Lançamento: 7 de novembro de 2025
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Certas bandas indies dos anos 2000 que pareciam “promissoras” (no sentido de que seriam lembradas como os Strokes são até hoje) resolveram que o melhor para elas seria seguir seu próprio caminho, sua própria intuição e não se deixar levar pelas facilidades. O Foster The People nunca mais conseguiu um hit como Pumped up kicks, mas tá aí até hoje lançando discos legais e fazendo acontecer do seu jeito. O Portugal. The Man conseguiu um hit “de festa” com Feel it still, música de 2017. Mas sempre foi uma banda psicodélica, experimental e alternativíssima – e preferiu que as coisas continuassem rolando desse jeito, em vez de ficar eternamente fazendo reprises de seu próprio som.
Vai daí que Shish, que já é o décimo disco (!) do Portugal. The Man, vai cada vez mais fundo nessa experimentação – aliás, vai tão fundo que, quem só conhece Feel it still, não vai conseguir reconhecer muita coisa aqui. O disco é quase um trabalho solo do líder John Baldwin Gourley, que fala sobre as lembranças de sua história no Alasca, onde nasceu e foi criado. Na real, faz isso em letra e música: o repertório de Shish é pesado, misterioso e cerimonial, sempre oscilando entre o post-rock e o punk.
Denali, a faixa de abertura, até chega perto de uma união entre metal, punk e glam rock, mas é basicamente uma paisagem do Alasca, transcrita em versos e melodia (“descendo o riacho carmesim / pego um floco de neve na minha língua / não consigo distinguir o que é vida real ou sonho”). Tem um filtro 60’s em faixas como Angoon e Knik, mas o principal são os vários segmentos que vão entrando como interferências, as evocações musicais que vão de Yoko Ono e Zombies a The Cure, as vozes fantasmagóricas de músicas como Shish. E os sons distorcidos e eletrônicos que surgem em faixas como Pittman ralliers e Tyonek.
No final de Shish, surge algo mais psicodélico e reconhecível por fãs tradicionais de rock , graças a um trio de faixas que soa como uma versão eletrônica-experimental dos Beatles. A primeira é o pop gospel Kokhanockers e a segunda, o rock orquestral Tanana. São duas músicas que ora lembram John Lennon, ora curiosamente fazem lembrar uma outra banda cujo trabalho acabou ofuscado por um hit massacrante – a anglo-americana Spacehog e seu sucesso In the meantime, cujo refrão parece ser citado nessas duas faixas.
Já no fim de Shish, em meio a evocações sixties, estilos imiscíveis como sass core e jazz rock dão as mãos na experimental Father gun – música com letra ambígua, que parece zoar o apego armamentista do norte-americano médio. “Irmãs, irmãos e outros / viva e morra pela arma / calma aí, se acalme, se acomode, se acomode, centurião / o mundo não é feito só de heróis e vilões / sem nada mais a defender / então vá com calma, você está sozinho”, dizem os versos. Shish é uma boa surpresa musical, que volta e meia faz lembrar o apetite por destruição e reconstrução de bandas como The Armed. E vale lembrar que o Portugal. The Man tá vindo aí.
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Crítica
Ouvimos: The Spoiled – “When it rains”

RESENHA: Darkwave italiano do The Spoiled aposta em clima sombrio, referências clássicas e pouca originalidade, mas constrói um disco coeso e atmosférico com When it rains.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Avant! Records
Lançamento: 17 de abril de 2026
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E o darkwave italiano, como vai? A julgar por When it rains, álbum do The Spoiled – projeto do músico, cantor e compositor Giovanni Santolla – vai bem, obrigado. O som do The Spoiled tá bem longe de ser original, mas por outro lado, darkwave está bem distante de ser um desses estilos que fabricam uma banda original a cada esquina.
O clima é aquele comum ao estilo: teclados, baixo à frente, guitarra econômica, beat motorizado próximo do punk, em faixas como Sad eyes, angry eyes, Not my cure, Fall in love with a ghost e a faixa-título. Muita coisa em When it rains segue aquela onda de sangue e terror comumente associada ao universo gótico – afinal, é o disco da já citada Fall in love with a ghost, da cerimonial Two souls apart (frases convidativas como “puxe a faca e me veja sangrar”, “me esfaqueie pelas costas”, entre os versos), do sofrimento de The night you burn e da ameaçadora Watch me bleed.
- Ouvimos: Friko – Something worth waiting for
Lembranças de bandas com The Cure, Nine Inch Nails, Sisters of Mercy (essa, especialmente em Dead wasted girl) e até o New Order do álbum Movement (1981) são o motor do The Spoiled, musicalmente falando – com direito a vocais que lembram diretamente os de Trent Reznor em The fault was you e um som bastante linkado ao Cure na eletrônica Crush e na deprê pós-punk de Say goodbye. Tem ainda Just a dream away, que apesar do nome, é uma vinheta com total clima de pesadelo. The Spoiled é um universo sombrio muito bem montado.
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Crítica
Ouvimos: Dusty Lucite – “Shmaltz”

RESENHA: Dusty Lucite, projeto de HL Stratton-Kuhta, lança Shmaltz: nove faixas sobre o amor em várias formas, entre psicodelia, grunge, folk e lo-fi.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Lawn Moaner Records
Lançamento: 1º de maio de 2026
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A banda Dusty Lucite, de Portland, é uma criação da guitarrista HL Stratton-Kuhta, com colaborações do marido (N. Kuhta) e do filho (EA Kuhta). HL faz som na guitarra desde 1996, veio do “berço suburbano do movimento grunge de Seattle” e foi bastante influenciada por uma show do Radiohead que assistiu na adolescência, mas sua banda surgiu só há dez anos, quando conseguiu uma interface de áudio.
Após abordar os horrores da pandemia no álbum Normal harder (2024), HL volta resolvendo uma questão pessoal séria em Shmaltz, o novo disco. Recebeu uma mensagem de uma parceira musical que dizia: “na dúvida, faça canções de amor” – e temas românticos, particularmente, nunca a haviam interessado, até porque achava que num mundo musical predominantemente masculino, era o que se esperava de uma mulher compositora.
- Ouvimos: Webb Chapel – Vernon manner
O resultado são as nove canções de Shmaltz, disco que vê o amor por um ponto de vista bem completo, já que fala de “amor verdadeiro, amor materno, amor fadado ao fracasso, toda a gama de possibilidades do amor”, em clima meio psicodélico + sixties, meio punk. Soa às vezes como um B-52s minimalista, como em Heroic dose, música sobre uma espécie de dating psicodélico. The gloss if unshed tears (In Paul Giamatti’s eyes), uma baladinha psicodélica, é amor cagado virando raiva (“seus olhos me perfuraram e apagaram o amor que costumávamos compartilhar, e eu desapareci / não há como prever o que acontecerá conosco”).
- Ouvimos: Jody Glenham – Still here (EP)
All you love’n é college rock anos 1990, só que referenciado em girl groups de três décadas antes, para falar de um amor que é “como uma revolução” e que acaba saindo pior que a encomenda (“você me manipula como um tambor, eu acabo atordoada, completamente entorpecida / eu ando de um lado para o outro nessas noites sem dormir”). Vai por aí o clima de Shmaltz, disco que fala de paixões, amores e outras obsessões de uma maneira bem pouco usual, emendando na poesia grunge a la PJ Harvey no dream pop Wooden pins, num clima mais reconfortante na faixa-título (uma balada escapista de clima folk e etéreo) e numa vibe sombria na letra de Butternut squash (cuja melodia é de canção soul lo-fi).
Essa onda “baixa fidelidade” dá as caras também em faixas como All I need e na vibe fugitiva de Doesn’t matter, um folk-rock a la Pixies (“encontre seu lugar a tempo de ver botas militares marchando / abrindo um pequeno caminho / e então o mar o leva embora / eles estão lá fora, vivendo a vida, cegos pela tensão / mas não importa agora, não importa”). Tudo termina com o clima punk de A piece of my mind, guitar rock que parece uma tentativa de anarquizar a herança de bandas como Aerosmith e Led Zeppelin.
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Crítica
Ouvimos: Blood Wizard – “Lucky life” (EP)

RESENHA: Lucky life, novo EP do Blood Wizard, mistura pós-punk, folk e dream pop, com clima de dúvida e espera. Curto, mas variado e bem amarrado.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Sad Club
Lançamento: 16 de abril de 2026
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“O som do Blood Wizard opera em linhas nada finas localizadas entre Lou Reed e Mazzy Star, entre Primal Scream e Velvet Underground, entre o indie britânico dos anos 1980 e o vanguardismo de David Bowie nos anos 1970”. Foi o que falamos desse grupo criado pelo músico Cai Burns quando resenhamos o álbum Grinning william (2024). Lucky life, EP novo do grupo – primeiro lançamento desde o álbum anterior – vai nessa onda, com algumas variações.
- Ouvimos: Crocodylus – Limbo, please be good to me
É um disco de pós-punk, ainda que as maquinações do estilo apareçam unidas a outras estileiras sonoras. E o “vida sortuda” do nome soa mais como uma brincadeira em que Cai e a cantora Faye Rita Robinson parecem estar eternamente esperando pelo dia de amanhã – como no indie rock doce e tranquilo da faixa-título. I know you well, pós-punk com cara folk e um riff de teclado meio anos 1980, é uma canção misteriosa, em que conhecer bem alguém é sinal de que você sabe como se aproveitar dessa pessoa.
Essas dúvidas surgem a todo momento no disco. Scared of the dark, por exemplo, não é nem um pouco reconfortante para quem está com medo do escuro. Essa balada shoegaze está mais para aqueles momentos em que não há saída a não ser deitar na cama e pensar em como as coisas deveriam ser. A bela Daydreaming, balada-blues com certa cara de R.E.M., é sobre querer muito voltar pra casa – mas lá pelas tantas rola um certo ar de que só restou aquilo… Com essas faixas e com o dream pop celestial e voador de Lick the big star, dá pra dizer que o Blood Wizard fez um disco curto e completo.
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