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Cultura Pop

Quando Melvins e Gene Simmons (Kiss) dividiram o palco

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Existem poucas bandas mais anticomerciais no universo do rock do que os Melvins. Inspiradora da onda de Seattle – a ponto de o grupo ter sido, posteriormente, ajudado por Kurt Cobain em diversos momentos – a banda liderada pelo cantor e guitarrista Buzz Osborne (o popular King Buzzo) nutre verdadeira paixão por uma turma que, em termos de vivência de marketing, é seu extremo oposto.

A paixão dos Melvins pelo Kiss já é velha conhecida. Em 1992, cada integrante da banda lançou um EP solo imitando aquela fornada de discos individuais dos membros do Kiss lançados em 1978. O trio que respondia pelo nome Melvins na época (Buzzo, Joe Preston e o ex-Nirvana Dale Crover) gravou três EPs com os nomes e as carinhas dos integrantes na capa, além do logo imitando o do Kiss. Os três disquinhos foram reeditados ano passado, e estão disponíveis em streaming.

Em 1993, época em que havia uma verdadeira corrida do ouro atrás do “próximo Nirvana”, a Atlantic pegou os Melvins – àquela altura uma banda de seis discos e carreira, er, consolidada no underground. Lançaram por lá o disco Houdini, tão anticomercial e sombrio que dá medo. E um dos discos mais importantes do chamado sludge metal, que une som pesado e rock clássico.

Houdini foi, teoricamente, co-produzido por Kurt Cobain. Seu nome está nos créditos, apesar de Buzz ter dito que Kurt não estava em condições de produzir disco algum, e que a banda (que havia tido Kurt como roadie no começo da carreira) simplesmente o destituiu do cargo e resolveu terminar tudo sozinha. O que importa é que, em sua estreia numa gravadora grande, os Melvins decidiram homenagear justamente o Kiss, regravando uma música da banda que não aparecia em seus set lists havia anos. Era Goin’ blind, do disco Hotter than hell (1974), o segundo deles.

https://www.youtube.com/watch?v=5Gi_C0png4E

A regravação do Kiss chegou até os ouvidos dos dois líderes da banda. Paul Stanley ligou para os Melvins e perguntou se podia tocar com eles – e ainda forçou para incluir Goin’ blind de volta nos shows da banda. “Bizarro isso, acabamos influenciando um pouco o Kiss”, recorda Buzz.

E quem tem boas recordações da união Kiss-Melvins é ninguém menos que o produtor americano Billy Anderson, que cuidou de discos dos próprios Melvins e de bandas como Sleep, High On Fire, Orange Goblin e até Ratos de Porão. Em 1993, ele estava na mesa de som dos Melvins no Hollywood Palladium e gravou (com câmera absolutamente bêbada) vários momentos da participação de ninguém menos que Gene Simmons, do Kiss, na apresentação.

Não tem só isso: por algum motivo que o próprio Billy não lembra, o vídeo vem com várias imagens enxertadas, gravadas em outros lugares. Tem também alguns minutos de tensão com Simmons nos bastidores (“ele acidentalmente trancou seu baixo nos bastidores e deveria estar no palco tocando com os Melvins; eu estava na mesa de som e não tinha ideia do que estava acontecendo”).

E é isso, muito embora o relacionamento de Buzz Osborne com os fãs do Kiss – e se bobear com a própria banda – tenha passado por atropelos nos últimos anos. Certa vez, foi perguntado sobre o fato de os integrantes mais recentes do Kiss (o guitarrista Tommy Thayer e o baterista Eric Singer) usarem a mesma roupa e maquiagem dos demitidos Ace Frehley e Peter Criss. Osborne respondeu dizendo que Frehley e Criss não passam de dois alcoólatras.

“Então eu não acho que Gene Simmons e Paul Stanley deveriam deixar esses dois idiotas arruiná-los”, afirmou. Os fãs reclamaram, foi pior. Buzz disse que não retirava uma só palavra e escreveu na Noisey o seguinte: “Será que os fãs do Kiss são tão estúpidos que acreditam que esses dois nunca foram doidões?”.

E o Melvins tá com disco novo, Pinkus abortion technician. Pega aí outra releitura deles: I wanna hold your hand, dos Beatles.

Cultura Pop

No nosso podcast. Rita Lee (e Roberto de Carvalho) entre 1980 e 1983

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No nosso podcast. Rita Lee (e Roberto de Carvalho) entre 1980 e 1983

No começo dos anos 1980, se bobear o Brasil tinha bem poucos seres humanos vivos que nunca tinham sequer ouvido falar de Rita Lee – uma cantora que, ao lado do marido Roberto de Carvalho, vendia muitos discos, tinha música em abertura de novela e ganhava especiais de TV no horário nobre. E como se não bastasse, era contratada do verdadeiro canhão de comunicação que era a Som Livre daquela época. Mesmo com a censura do fim do governo militar no contrapé, foi um período de shows inesquecíveis, muitos hits, álbuns lançados um atrás do outro, e uma verdadeira ritaleemania tomando conta do país.

Hoje no nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, damos um sobrevoo na trajetória de Rita e Roberto no começo dos anos 1980 – a época dos álbuns Rita Lee (mais conhecido como Baila comigo, 1980), Saúde (1981), Rita Lee & Roberto de Carvalho (mais conhecido como Flagra, 1982) e Bom bom (1983). Ouça em alto volume e escute os discos depois.

Século 21 no podcast: Jane Penny e Bel Medula.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (fotos: reproduções das capas dos álbuns de Rita entre 1980 e 1983). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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Crítica

Ouvimos: Alan Vega, “Insurrection”

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Ouvimos: Alan Vega, "Insurrection"

Alan Vega e sua ex-banda Suicide não eram apenas “rock industrial”. Eram música infernal, mostrando para todos os ouvintes que situações assustadoras eram vividas não apenas em filmes de terror, mas no dia a dia. No contato com vizinhos perturbados, na violência nossa de cada dia, na vida fodida dos debandados do capitalismo – que é o verdadeiro assunto de Frankie Teardrop, música assustadora lançada no epônimo primeiro disco da dupla formada por ele e Martin Rev, de 1977.

Vega viveu no limite: antes do Suicide ter qualquer tipo de sucesso, passou fome e enfrentou dificuldades. No palco, era do tipo que se cortava e saía sangrando dos shows. Seu som sempre teve ideais radicais, inclusive politicamente – ele chegou a ser atacado pela polícia ao participar de passeatas, e o Suicide homenageou Che Guevara na música Che. Dos dois integrantes do Suicide, hoje só Martin Rev vive para perturbar os ouvidos dos outros com som pesado, distorcido e sintetizado. Alan, que prosseguiu por décadas como lenda viva do punk e da música eletrônica, lançando discos e fazendo exposições de arte, teve um derrame em 2012 e morreu durante o sono em 2016.

Seu material como compositor, ironicamente, devia bastante às raízes do rock, e à postura de “herói” do estilo. O novaiorquino Alan era fanático por Iggy Pop e Stooges, e seu vocal variava entre dois uivos – o de Elvis Presley, cujo visual inicial trabalhado-no-couro passou a imitar, e evidentemente o de Iggy. Os primeiros álbuns solo de Alan variavam entre o synth-pop nervoso e uma espécie de rockabilly aceleradíssimo e violento (o melhor exemplo é a estreia epônima de Vega, lançada em 1980). Não custa lembrar que o som do Suicide, de fato, chegou a impressionar até mesmo Bruce Springsteen, que já disse ser (pode acreditar) fã da dupla.

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Insurrection é uma coletânea de gravações inéditas que estavam no baú de Alan. São músicas industriais e infernais feitas no fim dos anos 1990, todas falando sobre morte, sofrimento e contagem de mortos como se fosse algo natural, do dia a dia – e pensando bem, olhando os jornais e andando pelas ruas, é meio isso. É “bom de ouvir” dependendo do seu humor: é o disco das dançantes e góticas Sewer e Crash, do synth pop monocórdico Invasion, do pesadelo selvagem Cyanide soul e do lamento sonoro (de quase dez minutos) de Murder one.

Mercy é um estranho e assustador pedido de clemência, falando em gritos, anjos sangrando e tempestades sombrias. E nessa música o vocal de Alan lembra de verdade o de Elvis Presley, o que soa mais estranho ainda. Os beats são dados por uma percussão intermitente e tribal, seguida por uma batida eletrônica mais próxima do “dançante”. Soa mais insociável do que qualquer coisa lançada pelo Ministry ou pelo Alien Sex Fiend, por exemplo. Chains soa como entrar numa bizarra ressonância magnética de distorção. E Fireballer spirit oferece a mesma sensação, só que acrescida de barulhos eletrônicos.

Nota: 7,5
Gravadora: In The Red

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Cultura Pop

4 discos: Joy Division e seus “the best of”

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Peter Hook: "Roubamos muito o Kraftwerk"

O material não-lançado pelo Joy Division em LP dá (como aliás deu) um número considerável de coletâneas. Ainda que o grupo tenha só dois LPs para contar história (Unknown pleasures, de 1979, e Closer, de 1980). Mesmo que não seja um número maluco de coletâneas como acontece com o Who – que tem um monte de “the best ofs” com poucas diferenças entre um álbum e outro – quem quiser se abastecer de discos com faixas de singles, ou melhores sucessos do grupo, não fica sem opções. Pode achar por aí discos unindo músicas do JD e de sua continuação post-mortem, o New Order. Ou sets variados com gravações da BBC, faixas ao vivo, compactos e músicas mais conhecidas dos dois álbuns.

Comemorando os 46 não-redondos anos de Unknown pleasures (lançado em 15 de junho de 1979), tá aí uma lista condensadíssima – só quatro discos – de coletâneas que em algum momento valeram a pena para futuros fãs do grupo.

“WARSAW” (1981, RZM). Apesar do título, esse disco não traz só as sessões do grupo com seu primeiro nome. Dependendo da edição, tem as demos do Warsaw que depois foram lançadas já como Joy Division no EP An ideal for living (1978), as gravações feitas no período breve em que o Joy Division quase foi contratado pela RCA (igualmente em 1978) e o lado B As you said. As primeiras edições traziam as ondas de rádio da capa de Unknown pleasures ocupando quase toda a arte. Em Portugal, o disco chegou a ser lançado semioficialmente pelo selo Movieplay.

“SUBSTANCE (1978-1980) (1988, Factory). O correspondente do Substance do New Order levava para vinil e CD oficiais faixas obscuras de singles do grupo, incluindo material do pirata Warsaw. Além de faixas mais conhecidas lançadas em compacto, como Dead souls, Atmosphere e Love will tear us apart. O principal era que o disco mostrava, de maneira cronológica, o Joy partindo do punk para a quase neo-psicodelia, indicando que a banda talvez se tornasse uma ótima concorrente de grupos como Echo and The Bunnymen, Teardrop Explodes e Cocteau Twins caso o vocalista Ian Curtis não tivesse morrido (falamos desse disco aqui).

  • Temos episódios sobre New Order e Joy Division em nosso podcast.
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“PERMANENT” (1995, London). Lançada quando o antigo selo Factory já havia declarado falência e seu material estava nas mãos da London Records, essa coletânea teve grande valor quando lançada. Pelo menos por aproveitar o então recente retorno do New Order com o disco Republic (1993) e o hit Regret, e o começo da revalorização do rock inglês via Oasis, Blur, Elastica, Suede e vários outros nomes. Love will tear us apart aparecia em duas versões: a versão gravada no Pennine Studios, mais rara, lançada até então apenas no lado B do single original (e depois resgatada para uma versão expandida de Substance), e um novo mix.

“HEART AND SOUL” (1997, London). Para fãs extremamente roxos do JD, essa caixa quádrupla tem praticamente todo o material de estúdio que havia surgido do grupo até então. Nos dois primeiros CDs, Unknown pleasures e Closer surgem expandidos com material de compactos e coletâneas. O terceiro CD traz faixas de compactos, demos e sessões de rádio – incluindo as demos de Ceremony e In a lonely place, gravadas um mês antes da morte de Ian Curtis (essas músicas seriam depois gravadas pelo New Order). O quarto CD tem só material gravado ao vivo.

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