Crítica
Ouvimos: Marta Del Grandi – “Dream life”

RESENHA: No álbum Dream life, Marta Del Grandi mistura memórias, política e fantasia num pop sofisticado entre dream pop, folk e ambient, com voz em primeiro plano.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Fire Records
Lançamento: 30 de janeiro de 2026
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Cantora e compositora italiana, Marta Del Grandi avisou, ao lançar o single Alpha Centauri, que Dream life, seu terceiro disco, seria diferente em vários aspectos de seu álbum anterior, Selva (2023). “Dream life tem uma abordagem mais contemporânea, com letras que tocam em questões políticas e sociais, uma narrativa pessoal mais explícita e um som pop mais definido. É mais como um fotolivro, mais nítido e detalhado”, conta ela, que também se inspirou num livro que leu, e que trouxe memórias bem antigas de seu tempo de escola.
Essas memórias aparecem unidas em Dream life com viagens às estrelas, recordações de família, vitórias e derrotas do dia a dia, e coisas que (felizmente) foram deixadas para trás. Amores idos, gatilhos e tempo desperdiçado tomam conta de You could perhaps, a faixa de abertura, que trilha Dream life num corredor especial, com referências de Kate Bush, Laurie Anderson, Peter Gabriel, Cate Le Bon e pop alternativo em geral – todas surfando ondas entre o dream pop, o ambient e o industrial (por causa da percussão).
Dream life é um disco que fala de embates com o que muita gente entende como sendo “vida real”. Na faixa-título, uma marcha folk que lembra Lou Reed (e depois ganha clima bubblegum), Marta tenta olhar nos olhos da realidade e ver o que ela pode dizer a respeito da vida (“se eu a deixar vagar livremente / onde ela irá nos levar?”), além de recordar coisas que ouviu ao longo do tempo a respeito de fantasias pessoais.
Antarctica tem algo de pós-punk, de jazz rock e de Yoko Ono, com vocais que soam como um coro grego, e uma letra em que Marta dialoga consigo própria, sem saber como lidar com um passado que queima por dentro (“o tempo em que passo me preparando para ter vantagem / requer muitos cubos de gelo e a Antártida está derretendo”).
São duas faixas que inserem o ouvinte no universo do disco, que musicalmente ainda esbarra no synthpop sonhador (20 days of summer), no folk imagético lembrando Laura Nyro e Judee Sill (Alpha Centauri) e até numa espécie de balada roqueira espacial (a charmosa Show shaped cloud, com clima herdado do jazz e vibe noturna). Neon lights, que fala de criaturas fantásticas e intuições proféticas, é uma música companheira, tranquila – ainda que tenha aspecto experimental e sombrio, distorções e ritmo bem particular.
Dream life destaca bastante a voz de Marta e também o bom trânsito dela entre estilos difíceis e sofisticados – a noturna Some days, perto do fim, é um tema que oscila entre o jazz e o clássico. Oh my father, no final, tem violão discreto e um vocal luminoso que vai se abrindo ao longo da música, ganhando sopros e um beat acústico e seco depois. A letra, por sua vez, resume o sentimento de estranheza do disco, em versos dedicados a seu pai: “será que sou velha demais para estar tão assustado e perdido? / eu já deveria ter aprendido a navegar por estes mares / mas quando as águas sobem, as ondas simplesmente me engolem”. Um som musical e existencial.
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Crítica
Ouvimos: Grace Inspace – “Heavy hair” (EP)

RESENHA: EP Heavy hair, de Grace Inspace, mistura alt-pop introspectivo, referências indie e letras pessoais sobre peso emocional e fragilidade.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: TODO
Lançamento: 27 de fevereiro de 2026
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Existe uma noção de “viagem pop”, que passa necessariamente pela introspecção, e que surge em Heavy hair, EP novo da cantora e compositora de alt-pop Grace Inspace. Sunshine kid, seu disco anterior (vendido pelas plataformas digitais como álbum, embora seja na prática pouco maior que Heavy hair), também ia na mesma onda, mas ainda era um disco totalmente associável ao indie rock e uma noção mais (digamos) “tranquila” de pop alternativo.
Heavy hair veio de um desenho que ela fez de si própria quando criança, com uma cabeleira tão enorme que parecia deixar sua cabeça pesada – e que parecia concentrar nos fios um peso emocional enorme. Parece um bom contraste com o nome de uma cantora que se diz “Grace no espaço”, e não é por acaso que ela abre o EP com Helium balloom, canção de voz e violão cuja letra é uma metáfora para algo que fica pairando, mas que já não tem o mesmo peso e significado que tinha antes. Meteor, com participação de Luna Li, tem vocal meio jazzístico, clima bittersweet e cordas.
Unirivaled parece trazer elementos de Weezer, Pixies e Velvet Underground para o disco, numa onda meio sixties. A letra parece trazer um diálogo entre duas pessoas que veem a mesma situação de fragilidade de formas diferentes, sendo que uma delas parece bastante traumatizada (“você disse que deixa todo mundo te intimidar / é irônico, mas é verdade / duvidam da minha força até ela ficar dormente e subutilizada”). Climas lembrando os discos solo de Kim Gordon e as viagens pop underground de Beck tomam conta das ruidosas Emergency contact e Blurry.
Já Keeper, no final, é um curioso folk de ninar, em que Grace convida alguém a entrar na sua vida, mesmo que a pessoa não possa entender tudo que ela já viveu (“alguns momentos nebulosos na minha memória / coisas que eu preferiria não ver”). Se musicalmente ainda há ajustes a fazer nas viagens pop de Grace, liricamente ela conseguiu arrumar maneiras bem originais de colocar suas questões pessoais em música.
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Crítica
Ouvimos: Geologist – “Can I get a pack of Camel Lights?”

RESENHA: Geologist faz disco experimental e hipnótico com hurdy gurdy, drones e climas sombrios — belo, ousado e às vezes repetitivo.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Drag City
Lançamento: 30 de janeiro de 2026
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Tem gente que sempre quis fazer um baita álbum pop – e tem gente como Brian Weitz, integrante do Animal Collective, que aparentemente sempre teve o sonho de fazer um disco tão ousado quanto The marble index, o segundo disco de Nico (1968). Se o nome do disco dele sugere uma saída rápida para abastecer os vícios e depois voltar para o trabalho, Can I get a pack of Camel Lights?, álbum que Brian assina como Geologist, é viciante só pra quem curte drones, sons hipnóticos e música feita para testar os limites de quem ouve.
Can I get é baseado no fascínio de Brian pela sanfona-de-roda, ou simplesmente hurdy gurdy, aquele instrumento que inspirou a canção Hurdy gurdy man, de Donovan. Um detalhe é que, apesar do nome da faixa, Hurdy gurdy man não apresenta ninguém tocando o tal instrumento – o que parece ser a tal sanfona-de-roda é uma tambura, aquela cítara de braço longo. Já a tal sanfona é uma traquitana renascentista que pode produzir sons tão belos quanto irritantes (vai depois no YouTube ver os vídeos de gente tocando a tal sanfona, que mais parece uma mistura de cítara, rabeca e órgão de igreja de bolso).
- Ouvimos: MINTTT – Mixtape da prensa hidráulica
Aqui quase sempre as coisas ficam entre o hipnótico e o sombrio. O tal hurdy gurdy aparece combinado com teclados e percussão (Oracle road), com beats eletrônicos, teclados e uma guitarra meio banguela tocada pelo filho de Brian (a estranha e meio grunge Government job), com mais beats, distorções e design sonoro próximo do pós-punk e do post-rock (a ótima Tonic, com baixo e bateria, além de sons vindos do que parece ser uma guitarra, e também a ruidosa e marcial RV envy). Vai por aí.
Há músicas que começam num ritmo, e terminam por criar seus próprios ritmos, como no compasso ternário de Not trad, transformado em algo quase indianista, e no jazz-bossa espiritualista que vai surgindo de Color in the B&W. Tudo isso aí torna o disco do Geologist uma experiência boa, ainda que as coisas fiquem meio repetitivas justamente na faixa mais extensa – Compact mirror / Last names, de nove minutos, que mesmo assim dá uma boa acordada quando se torna um pesadelo de distorções.
O Geologist solta ainda uma música que poderia fazer parte da trilha de algum filme no estilo de A montanha sagrada, de Alejandro Jodorowsky (Pumpkin festival), quatro minutos de improvisos (a bela e cinemática Shelley Duvall) e vibes sonoras que fazem lembrar os primeiros tempos do Neu! (nos sete minutos minimalistas, urgente e viajantes de Sonora). Tudo bem específico e muito bonito.
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Crítica
Ouvimos: Low Blows – “Low Blows”

RESENHA: Low Blows mistura darkwave e pós-punk à la The Cure, com clima sombrio, vocais graves e letras angustiadas. Funciona melhor no escuro.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 8 de janeiro de 2026
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Vindo de Barcelona, na Espanha, o Low Blows é uma daquelas bandas que dão susto logo no comecinho do disco. Tudo por causa da faixa de abertura: Vacio, que inicia com pouco barulho, e logo dá uma explodida com beat eletrônico, baixo agudo, teclados e clima darkwave, bem próximo da atual fase do Cure.
Segundo disco do grupo, lançado seis anos depois da estreia Cruel, Low Blows tem muito do The Cure, pelo menos no que diz respeito às guitarras econômicas e climáticas, e ao tom solene e meio fúnebre das músicas. Os teclados não têm o ecumenismo sonoro do grupo de Robert Smith, os vocais de Carlos Vergara são bem graves, o repertório surge mergulhado numa piscina de eco. As letras, quase todas em inglês, são pedidos de socorro: SOS, Fix me (“conserte-me / minha vida está em suas mãos”, diz Carlos), I hate, Cracks, Overrated – nada exatamente próximo da poesia de Ian Curtis (Joy Division), mas tudo dentro da tradição do som gótico e eletrônico.
Essa tradição, vá lá, geralmente aponta para um detalhe desse tipo de som: são bandas quase sempre muito parecidas, com influências iguais (só uma emanação de heavy metal aqui, outra ali pra dar diferença) e caminhos que muitas vezes levam para os mesmos lugares. O Low Blows compensa isso criando climas sonoros realmente sombrios – coisa que o AFI, na sua guinada darkwave com o álbum Silver bleeds the black sun… não fez de forma convincente.
Músicas como Misleading blind, a dura e seca Cracks (que vai ganhando clima pós-punk e vaporoso depois), o instrumental Intermezzo, a vibe Interpol + Joy Division de Go!, além da pesada I hate (na qual o vocal de Vergara lembra bastante o de Ian Curtis) vão para essa onda, que atira de verdade o / a ouvinte nas sombras e numa vibe quase misantrópica. Os vocais em espanhol, que iniciaram o disco com Vacío, voltam no fim de Low Blows com… o eletrorock Fin. No geral, um som que funciona melhor no escuro.
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