Cultura Pop
Lembra de Reproduction, estreia do Human League?

Tem quem (não é pouca gente, não) escute os primeiros discos do Human League e ache que se trata de outra banda. Os ares pop já estavam por lá, mas a sonoridade era bem mais vanguardista e dada a experimentalismos. As capas dos discos eram sombrias e inconclusivas.
Para a estreia Reproduction (1979), o Human League investiu no susto e na afronta. Escolheu mostrar na capa os pés de pessoas pisando sobre fotos de bebês nus (sim, deu merda e muita gente achou que a capa dava gatilhos, antes do termo existir). Na arte interna, fotos em clima assustador dos integrantes do grupo, Philip Oakey, Martyn Ware, Ian Marsh e Philip Adrian Wright (todos se revezando em vocais, teclados e efeitos).
Ware diz que a ideia da banda na capa foi apenas construir uma imagem distópica, como se tivesse sido tirada de um filme. Mas que quando viram o resultado, parecia bem mais agressivo e já não podiam fazer mais nada. E o som acompanha a distopia: quem está acostumado com músicas como Don’t you want me e com a sonoridade do terceiro disco, Dare, de 1981, vai se assustar em ver o HL fazendo blues eletrônico-gótico em Circus of death. A letra é uma brincadeira aterrorizante, que fala sobre a história de um palhaço que envenena toda a humanidade com uma droga chamada Dominion, e que convoca até o comissário Steve McGarrett, da série Hawaii 5-0, para ajudar.
A banda faz também eletro-pós-punk sombrio em Almost medieval e The path of least resistance, recebe um Kraftwerk com distorções em Blind youth (uma das faixas do disco que mais lembram o futuro do Human League). Lembram também um Velvet Underground sintetizado em The world before last. O lado B de Reproduction, por sua vez, era dominado por músicas enormes e curiosos medleys, como a união da autoral Morale… a You’ve lost that lovin’ feelin’ (sucesso dos Righteous Brothers), ou a junção de Austerity e Girl one. Já Zero as a limit encerrava o disco com bater sintetizado de palmas, clima robótico e uma letra que descrevia, quase matematicamente, os resultados de um sangrento acidente de carro.
O fim dos anos 1970, começo dos anos 1980, foi uma era boa para a música sintetizada – tanto na turma da aurora do synthpop quanto na galera dos inimigos do fim da disco. Artistas como Gary Numan e OMD faziam bastante sucesso, e o Human League veio a reboque disso, surgido em Sheffield (Inglaterra) em 1977. O grupo, que no começo teve o prazer de ver David Bowie afirmando que “assistir ao Human League é como assistir aos anos 1980”, soava bem mais estranho e futurista do que qualquer produção feita por Giorgio Moroder.
Diziam os integrantes que os produtores ingleses não sabiam como gravar esse tipo de som com peso e ambiência, o que causava tristeza na banda. De todo modo, o Human League era topetudo o suficiente para propor aos Talking Heads, para quem abririam uma tour, shows em que Oaken, Ware, Wright e Marsh não subiriam no palco e controlariam uma espécie de slide show sincronizado, enquanto davam autógrafos e conversavam com os fãs na plateia. David Byrne e cia não gostaram da ideia e tiraram o Human League da tour.
O ano de 1980 viu nascer o segundo disco do HL, Travelogue, puxado por uma curiosa versão de Only after dark, de Mick Ronson. Não era o melhor momento para o grupo, que não estava fazendo sucesso e investia em turnês trabalhosas. Ware e Oakey brigavam pelo conceito do grupo (o primeiro adotando uma postura mais experimental e o segundo desejando o sucesso pop) e discutiam até sobre se valia a pena usar um nome tão pouco conceitual quanto “Human League” ou não.
No meio da guerra, a banda se separou em duas partes. Dois quartos do grupo (Ware e Marsh) saíram para montar o Heaven 17, que encontrou seu lugar ao sol com um hit político, (We don’t need this) Fascist groove thang, e um ambiente cheio de referências (“Heaven 17” é o nome de uma banda pop de mentirinha citada no romance Laranja mecânica, de Anthony Burgess). Oakey e Wright ficaram e chamaram novos integrantes (os tecladistas Ian Burden e Jo Callis e as cantoras Joanne Catherall e Susanne Sulley, adolescentes na época, e recrutadas).
O grupo virou sexteto e aplacou as inseguranças de Oakley, que achava que a banda precisava de garotas para afastar a fama de “banda da qual só os garotos de casacos longos gostam”. Bob Last, empresário da banda, chegou a afirmar que sempre tinha achado que o Human League poderia render como o ABBA, e ficou feliz. Mas os fãs da antiga se dividem até hoje.
Cultura Pop
George Harrison em 2001: “O que é Eminem?”

RESUMO: Em 2001, George Harrison participou de chats no Yahoo e MSN para divulgar All Things Must Pass; com humor, respondeu fãs poucos meses antes de morrer – e desdenhou Eminem (rs)
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução YouTube
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“Que Deus abençoe a todos vocês. Não se esqueçam de fazer suas orações esta noite. Sejam boas almas. Muito amor! George!”. Essa recomendação foi feita por ninguém menos que o beatle George Harrison no dia 15 de fevereiro de 2001 – há 25 anos e alguns dias, portanto – ao participar de dois emocionantes chats (pelo Yahoo e pelo MSN).
O tal bate-papo, além de hoje em dia ser importante pelos motivos mais tristes (George morreria naquele mesmo ano, em 29 de novembro), foi uma raridade causada pelo relançamento remasterizado de seu álbum triplo All things must pass (1970), em janeiro de 2001. George estava cuidando pessoalmente da remasterização de todo seu catálogo e o disco, com capa colorida e fotos reimaginadas, além de um kit de imprensa eletrônico (novidade na época), era o carro-chefe de toda a história. O lançamento de um site do cantor, o allthingsmustpass.com, também era a parada do momento (hoje o endereço aponta para o georgeharrison.com).
Os dois bate-papos tiveram momentos, digamos assim, inesquecíveis. No do Yahoo, George fez questão de dizer que era sua primeira vez num computador: “Sou praticamente analfabeto 🙂 “, escreveu, com emoji e tudo. Ainda assim, um fã meio distraído quis saber se ele surfava muito na internet. “Não, eu nunca surfo. Não tenho a senha”, disse o paciente beatle. Um fã mais brincalhão quis saber das influências dos Rutles, banda-paródia dos Beatles que teve apoio do próprio Harrison, no som dele (“tirei todas as minhas influências deles!”) e outro perguntou sobre a indicação de Bob Dylan ao Oscar (sua Things have changed fazia parte da trilha de Garotos incríveis, de Curtis Hanson). “Acho que ele deveria ganhar TODOS os Oscars, todos os Tonys, todos os Grammys”, exultou.
A conta do Instagram @diariobeatle deu uma resumida no chat do Yahoo e lembrou que George contou sobre a origem dos gnomos da capa de All things must pass, além de associá-los a um certo quarteto de Liverpool. “Originalmente, quando tiramos a foto eu tinha esses gnomos bávaros antigos, que eu pensei em colocar ali tipo… John, Paul, George e Ringo”, disse. “Gnomos são muito populares na Europa. E esses gnomos foram feitos por volta de 1860”.
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A ironia estava em alta: George tambem disse que se começasse um movimento como o Live Aid ajudaria… Bob Geldof (!)., o criador do evento. Perguntado sobre se Paul McCartney ainda o irritava, contemporizou: “Não examine um amigo com uma lupa microscópica: você conhece seus defeitos. Então deixe suas fraquezas passarem. Provérbio vitoriano antigo”, disse. “Tenho certeza de que há coisas suficientes em mim que o irritam, mas acho que já crescemos o suficiente para perceber que nós dois somos muito fofos!”. Um / uma fã perguntou sobre o que ele achava da nominação de Eminem para o Grammy. “O que é Eminem?”, perguntou. “É uma marca de chocolates ou algo assim?”.
Bom, no papo do MSN um fã abusou da ingenuidade e perguntou se o próprio George era o webmaster de si próprio. “Eu não sou técnico. Mas conversei com o pessoal da Radical Media. Eles vieram à minha casa e instalaram os computadores. Os técnicos fizeram tudo e eu fiquei pensando em ideias. Eu não tinha noção do que era um site e ainda não entendo o conceito. Eu queria ver pessoas pequenas se cutucando com gravetos, tipo no Monty Python”, disse.
Pra ler tudo e matar as saudades do beatle (cuja saída de cena também faz 25 anos em 2026), só ir aqui.
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Cultura Pop
No nosso podcast, os erros e acertos dos Foo Fighters

Você pensava que o Pop Fantasma Documento, nosso podcast, não ia mais voltar? Olha ele aqui de novo, por três edições especiais no fim de 2025 – e ano que vem estamos de volta de vez. No terceiro e último episódio, o papo é o começo dos Foo Fighters, e o pedaço de história que vai de Foo Fighters (1995, o primeiro disco) até There’s nothing left to lose (o terceirão, de 1999), esticando um pouco até a chegada de Dave Grohl e seus cometas no ano 2000.
Uma história e tanto: você vai conferir a metamorfose de Grohl – de baterista do Nirvana a rockstar e líder de banda -, o entra e sai de integrantes, os grandes acertos e as monumentais cagadas cometidas por uma das maiores bandas da história do rock. Bora conferir mais essa?
Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: encarte do álbum Foo Fighters). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.
(a parte do FF no ano 2000 foi feita com base na pesquisa feita pelo jornalista Renan Guerra, e publicada originalmente por ele neste link)
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Cultura Pop
No nosso podcast, Alanis Morissette da pré-história a “Jagged little pill”

Você pensava que o Pop Fantasma Documento, nosso podcast, não ia mais voltar? Olha ele aqui de novo, por três edições especiais no fim de 2025 – e ano que vem estamos de volta de vez. No segundo e penúltimo episódio desse ano, o papo é um dos maiores sucessos dos anos 1990. Sucesso, aliás, é pouco: há uns 30 anos, pra onde quer que você fosse, jamais escaparia de Alanis Morissette e do seu extremamente popular terceiro disco, Jagged little pill (1995).
Peraí, “terceiro” disco? Sim, porque Jagged era só o segundo ato da carreira de Alanis Morissette. E ainda havia uma pré-história dela, em seu país de origem, o Canadá – em que ela fazia um som beeeem diferente do que a consagrou. Bora conferir essa história?
Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: Capa de Jagged little pill). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.
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