Crítica
Ouvimos: Josh Freese – “Just a minute vol. 2”

RESENHA: Josh Freese lança Just a minute vol. 2: 25 faixas em 25 minutos, punk veloz, zoeiro e criativo, além do rótulo de baterista mais requisitado do rock.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Loosegroove Records
Lançamento: 28 de novembro de 2025
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Ex-baterista de uma porrada de bandas, Josh Freese se arrisca a chegar aos 60 anos (tem 53 hoje) sendo lembrado como “aquele ex-baterista dos Foo Fighters”, por causa do clima meio estranho que ficou após Dave Grohl dispensar seus serviços. Ele tocou também no Devo, e hoje divide seu tempo entre o Nine Inch Nails e a posição de batera temporário no Weezer, o que já dá uma boa ideia do que você encontra no novo disco solo dele, Just a minute vol. 2 (o volume 1 saiu em 2021).
O disco traz 25 faixas em 25 minutos (!), o som predominante é rock básico com cara punk, e volta e meia é possível achar faixas que poderiam estar no repertório do Devo ou do Weezer, como a zoeira Our famous drummer (sua história contada de modo irônico em econômicos 59 segundos), a ruidosa vinheta Burden e a brincalhona I didn’t know I recorded with Avril – esta, fala sobre sua participação em duas faixas do disco de estreia de Avril Lavigne, Let go, de 2002: ele disse em entrevistas que foi ao estúdio, gravou duas faixas, esqueceu delas e só se deu conta de que havia gravado no disco quando um amigo disse ter visto seu nome nos créditos.
- Ouvimos: Trauma Ray – Carnival (EP)
De modo geral, Just a minute vol. 2 tem mais “canções” acabadas que o primeiro volume, geralmente apontando para o punk e para a união dele com outros sons, como no jazz-punk de Disneyland is open, no clima punk-melódico de Wasted with the ween, Mapped out, Cybertruck LOL e Nothing to you e na deprê sombria de Heroin storm. Ou na eletronicazinha Kenny Loggins’ naked wedding (isso realmente aconteceu: o intérprete do tema do filme Footloose realmente se casou sem roupa em 1992 – sua futura esposa também estava pelada) e no curioso pedido de desculpas de Apology to Daniel Johnston.
Tem também Skeletons on the wall, paródia de Riders on the storm, dos Doors, o quase hardcore Somehow I like Lou Reed, que explora a relação pessoal de amor e ódio que Josh tem com a música do autor de Walk on the wild side: “ele era um gênio, um oportunista, um poeta, um maluco ou tudo isso junto? / ele usa heroína, fuma anfetamina (…) / eu ouço o tempo todo / nunca me importei se ele rimava ou se sabia tocar / ele te dá o que tem, o que você precisa / Andy Warhol é um tremendo mentiroso”. Um disco criativo e que escapa bastante de mostrar Josh apenas como um dos bateristas mais requisitados do rock – mostra ele como um cara gozador e multitarefa.
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Crítica
Ouvimos: Punho de Mahin – “Entre a penitência e a ruptura”

RESENHA: Afropunk direto e político: Punho de Mahin alterna luta e esperança em Entre a penitência e a ruptura, disco sobre racismo, classe e resistência negra.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Deck
Lançamento: 27 de fevereiro de 2026
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O punk raras vezes olhou para a experiência da pessoa negra – na real o próprio rock pisa muito na bola nesse quesito. Uma das exceções mais conhecidas vem do Brasil: Inocentes, banda cujo líder Clemente Nascimento escreveu músicas como Tambores e O homem negro. Por acaso o recém-recuperado Clemente é o produtor do segundo disco do Punho de Mahin, banda cuja razão de existir é exatamente a criação de sons afropunk e de letras que falam de dia a dia, resistência negra, batalhas históricas e reparações.
Entre a penitência e a ruptura é o segundo disco do Punho de Mahin. A banda o enxerga como um disco com duas partes – a primeira mais focada na luta, no sangue derramado, enquanto a segunda bate fundo na esperança de dias melhores. Os dois temas meio que se alternam, pairando sobre faixas como Meritomentira (falando sobre garotos “lavando carros que não podem comprar” e fuzis no morro), Vão (sobre o dia a dia acidentado da classe trabalhadora), Marcus Vinicius da Maré (sobre as mortes nas operações policiais) e Respiro (sobre o respeito às subjetividades da pessoa negra).
- Ouvimos: MC Taya – Histeria agressiva 100% neurótica vol. 2 – Muito mais neurótico (EP)
Em alguns momentos, o Punho faz lembrar uma evolução turbinadíssima da época da complicação Grito suburbano, de 1982 – Marcus Vinicius da Maré, aliás, tem muito do Ratos de Porão da época hardcore-metal de Cada dia mais sujo e agressivo (1987). O grupo não se prende a nenhum receituário punk: Violação, com seis minutos, abre o disco numa onda quase afropunkjazz, com metais, guitarra, baixo e bateria. Natália Matos, a vocalista, inicia a canção com dados sobre a população carcerária feminina, à moda de Sobrevivendo no inferno, dos Racionais MCs (1997), em meio a improvisos sonoros, e depois o clima pesa.
O segundo disco do Punho de Mahim é também o disco do hardcore Linha tênue (sobre as opressões do dia a dia) de sons feminista e antirracistas como Ei, mulher! e Dandara (cujo andamento faz lembrar Chico Science e Nação Zumbi) e de uma espécie de rock-enredo, 13 de maio, sobre o não-planejamento político e social das consequências da Lei Áurea. Discurso direto e som direto.
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Crítica
Ouvimos: Pelos – “Noturnas”

RESENHA: Noturnas, quinto álbum do Pelos, equilibra pós-punk, soul e MPB mineira, com tons sombrios e referências que vão do Clube da Esquina ao encontro entre o grunge e o afrobeat.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 28 de agosto de 2025
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Já ouviu falar do fenômeno do fogo de Santelmo? É uma descarga elétrica que aparece para navegadores durante viagens e que simboliza um sinal de boa sorte – e que em Santelmo, música da banda mineira Pelos, surge para simbolizar temas como fugas, passagens, travessias pessoais. É o single que puxa Noturnas, quinto álbum da banda. Robert Frank, cantor do grupo (e também guitarrista e pianista da banda), é um velho conhecido de quem assistiu à série Hit Parade (Canal Brasil) – ele era o Missiê Jack, o espertíssimo dono de gravadora do seriado. Nessa faixa, sua voz soa como a de Milton Nascimento, mas sempre equilibrado entre o dream pop e o Clube da Esquina.
Ele e Heberte Almeida (guitarra), Kim Gomes (guitarra), Pablo Campos (bateria e percussão) e Thiago Pereira (baixo), os cinco integrantes da banda mineira Pelos, têm uma onda sonora que quase sempre, caminha entre pós-punk, o soul e a própria MPB mineira. Às vezes o som ganha uma cara sombria, mais introspectiva, como na própria Santelmo e em Incêndios – mas em seguida a banda encaixa voos musicais como os de Outros azuis, que faz lembrar Cassiano e os experimentos de Adrian Younge ao gravar com artistas brasileiros no selo Jazz Is Dead.
O lado mais soul do Pelos gera uma curiosidade grunge-afrobeat, com batida frenética e sujeira sonora, que é Noites nômades. Gera também o pós-punk + pós-disco No coração do mundo, que deve tanto a Skowa e a Máfia quanto a Gang Of Four – da mesma forma que The Cure e Joy Division escondem-se nas sombras de Acaiaca, e a selvagem e percussiva Panorama tem estilhaços de Robert Smith e Milton Nascimento. Rola até um Pink Floyd leve na balada poética e quase progressiva Da beira de tudo. Mas o grande lance do Pelos em Noturnas é equilibrar tons góticos e sensibilidade local.
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Crítica
Ouvimos: Vegas Water Taxi – “Long time caller, first time listener”

RESENHA: Vegas Water Taxi cruza alt-country e slacker rock em Long time caller, first time listener, com letras sarcásticas sobre hipsters, gen Z e high society indie.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: PNKSLM Recordings
Lançamento: 6 de fevereiro de 2026
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Formado pelo trio Ben Hambro (guitarra, vocais, baixo, sintetizador e piano), Fred Lawton (baixo, guitarra e vocais) e Charlie Meyrick (bateria, guitarra, baixo e vocais) – e complementado em alguns momentos com Rhodi Brooks (pedal steel guitar) e Molly Shields (vocais) – o Vegas Water Taxi surgiu para ser o pesadelo de novos hipsters, esquerdomachos e adultos não-funcionais de plantão.
Vale dizer que Long time caller, first time listener, segundo álbum dessa banda britânica, tem um som bastante agradável para novos ouvidos indies: é uma mescla de alt-country, slacker rock e, às vezes, clima hipnótico herdado do Velvet Underground. Quase sempre soa como um encontrão sonoro entre Wilco, Weezer e Pavement, todos debruçados sobre os repertórios de Tom Petty e dos Rolling Stones fase 1971/1972. Jerry, a melhor faixa, mistura country, beat herdado de Bo Diddley e ótimas guitarras. Jolene (não é uma releitura da música de Dolly Parton) é country agradável cavalgando no Pé-de-pano.
- Ouvimos: Gorillaz – The mountain
Já as letras são pura zoeira com o high society da música e adjacências. Na abertura, Brat summer conta a história de uma garota que tentou viver seu próprio “verão Brat” e acabou presa. Chateau photo fala de um coitado que levou um pé na bunda, trocado por um assessor de imprensa (ou um sujeito das big techs, a letra muda o personagem) e teve uma foto vexaminosa vazada. New irish boyfriend alude a mais pés na bunda e a uma garota que arrumou um namorado “primo do Kneecap”. Tem ainda a autoexplicativa Ozempic (Celebrity weight loss anxiety blues): “enquanto você contava corvos (“counting crows”, no original), eu contava calorias / se eu dissesse que odeio meu corpo, você me julgaria? / bem, eu vou aprender a ser DJ e vou emagrecer / e vou a um clube de sexo / tenho um ego para inflar”, gracejam.
Vai por aí a onda do Vegas Water Taxi, que ainda batizou um country rock feroz de Jamie xx (“então me diga que me ama, Jamie xx / me abrace forte e me leve para a cama / porque eu quero que você me ame e quero que você se importe / com a burocracia do escritório e o comprimento do meu cabelo”). Em NTS, sobra zoeira para os playboys gratiluz da gen Z: “estamos deitados na cama / Khruangbin tocando e você acariciando minha cabeça / coçando aquela coceira / ele vai me mostrar seu novo toca-discos de 30 centímetros (…) / você é meus olhos bem abertos / minha ficha do metrô / você é a razão pela qual parei de fumar”. Para chorar de rir.
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