Dirigido em 2011 pela cineasta e roteirista Andrea Blaugrund Nevins, The other f… word já andou sendo exibido aqui no Brasil, no Canal Bis. Foi jogado por alguém no YouTube e está aí embaixo.

Um conselho para qualquer pessoa que curta documentários sobre rock e cultura pop: NÃO dê mole e assista logo. The other f… word, aliás, deve ser assistido por qualquer homem que, em algum dia da vida, se sentiu meio inadequado perante a sociedade, a família, os amigos e a cidade onde vive, e pretende se tornar pai um dia. O doc recorda histórias de quinze músicos e esportistas ligados ao som e ao estilo de vida do punk rock, que tiveram filhos – e as surpresas e situações inusitadas que a paternidade trouxe a eles.

Parece natural imaginar que, na hora em que a paternidade aparece, qualquer cara que não tenha uma pedra no lugar do coração vira homem feito, amadurece e dá um jeito de criar as crianças como pode. Nem tanto: imagina no caso de um sujeito, como Flea (Red Hot Chili Peppers), que vivia largado nas ruas desde os 13 anos e já encarou a prisão algumas vezes antes dos 18, por posse de drogas ou delinquência. Ou no caso de Mark Hoppus (Blink 182), que já apareceu correndo pelas ruas sem roupa num clipe (sintomaticamente, o de What’s my age again). O músico (da banda Bad Religion) e empresário (da gravadora Epitaph) Brett Gurewitz, hoje um coroa de aparência tranquila, é quem melhor resume a questão. “O punk significava nunca amadurecer e crescer. Mas um dia você cresce. E aí?”.

Mais: para entender, pense na situação de músicos como os da cena punk californiana, na qual o tom era dado pela ebulição hormonal, pelo comportamento de tribo e pelo sentimento de inferioridade (em relação aos surfistas e ratos de academia locais). Uma turma que vivia no limite, ia para shows sem saber se estariam vivos para voltar para casa e perdia amigos aos borbotões, seja por drogas, seja pela violência nas ruas.

O próprio Flea lembra que, no começo dos anos 1980, uma cena comum nos shows do Black Flag eram as inúmeras brigas nas quais os fãs eram esmurrados e nocauteados, apenas por terem o cabelo ou a roupa assim ou assado. “As pessoas não somente tomavam porrada, elas acabavam no hospital. Havia ambulâncias transportando os fãs após os shows a todo momento!”, espanta-se o músico, que aparece tocando piano com sua filha, a musicista e fotógrafa Clara, de 28 anos, e lembrando do dia em que, numa visita à escola dela, foi confundido com um delinquente juvenil qualquer.

Justamente pelo contraste entre “vida punk” e “vida de pai de família”, não faltam histórias engraçadas ou até meio dramáticas. Mark Hoppus lembra do dia em que, lavando o carro do pai, ousou colocar uma fita cassete dos Descendents, com a provocativa música Parents (“pais, porque eles não calam a boca?/eles são uns babacas”) – o suficiente para o paizão arrancar a fita do console, espatifá-la no chão e pisar em cima.

Jim Lindberg (Pennywise) é flagrado arrumando as malas antes de entrar em turnê e conta em detalhes as tristezas de ter uma profissão que exige que ele deixe as filhas em casa e caia na estrada. É obrigado pelas meninas a levar várias bonecas Barbie de lembrança na mochila. E mostra alguns apetrechos indispensáveis a um punk de família, como álcool gel (“aperto um monte de mãos por dia”) e um trimmer, para cortar pelos de nariz (“na minha idade, nasce cabelo nuns lugares estranhos”). Art Alexakis, do Everclear, lembra que cresceu numa casa em que as pessoas berravam o tempo todo, e procura não manter esse hábito na frente dos filhos. “Deixo para gritar no palco”, diz.

E aqui tem uma entrevista de 2011 com a diretora (em inglês).