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Crítica

Ouvimos: Hannah Frances – “Nested in tangles”

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Hannah Frances mistura folk e prog: ecos de Joni Mitchell, Judee Sill e Gentle Giant em Nested in tangles, disco sombrio sobre luto, dor familiar e confiança reconstruída.

RESENHA: Hannah Frances mistura folk e prog: ecos de Joni Mitchell, Judee Sill e Gentle Giant em Nested in tangles, disco sombrio sobre luto, dor familiar e confiança reconstruída.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Fire Talk
Lançamento: 10 de outubro de 2025

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Se você escutou qualquer coisa da cantora norte-americana Hannah Frances e algo te fez lembrar de Joni Mitchell e da banda progressiva Gentle Giant, faz sentido. Os vocais dela têm a extensão abençoada de Joni – e suas canções têm algo também de Judee Sill e Laura Nyro, em melodia e letra, sempre apontando para o lado mais intrincado da música e da vida.

Quanto ao Gentle Giant, o velho monolito progressivo foi citado até num release de disco dela – e álbuns como o novo Nested in tangles, seu sexto disco, dão pistas suficientes de que as experimentações progressivas e os climas mais sombrios são os preferidos dela. Muita coisa aqui faz lembrar também de King Crimson e até do Egberto Gismonti do soturno disco Academia de danças (1974), no sentido de que você pode estar ouvindo uma música tranquilamente e acabar embarcando numa viagem, caindo num poço sombrio ou sendo arrebatado musicalmente, numa segunda parte ou interlúdio que brotam de surpresa.

  • Ouvimos: Just Mustard – We were just here

O tema de Nested não é nada tranquilo: a morte precoce de seu pai havia dominado Keeper of the sherpherd (2024) e o novo álbum fala sobre como lidar com a morte de sua mãe – que por acaso foi uma mãe agressiva e ausente. A faixa-titulo, que abre o disco, soa como uma música de carrossel fantasma, com slide guitar, beat muito particular e uma letra, falada, que tem versos como “falhas que nunca foram minha culpa” e “acredito na ruptura como uma abertura, como um começo / acredito que há um caminho / acredito que posso aprender a confiar de novo, de novo e de novo”. Parece uma oração, parece uma frase repetida na terapia, parece algo dito para acalmar o coração em meio ao caos, a uma crise de pânico, ou a um perigo real.

Esse clima de paz em meio do pânico, e de aprender a confiar, surge em todas as faixas de Nested. Life’s work, com violão percussivo, vocal extenso e virtuosístico e metais que inserem notas de psicodelia, prega a necessidade de “reconciliar a criança através da família hostil”. A música-câmera-na-mão de Falling from and further, que abre como um folk-country formal e ganha aspecto mágico e experimental depois, parece tratar de uma malvinda recaída: “castelos de areia todos os dias / construídos novamente e depois destruídos”. Steady in the hand, country sombrio e tranquilo, refaz a confiança em meio aos destroços emocionais.

Faixas como Surviving you e The space between são bem diretas, mesmo que falem sobre sentimentos difusos: lá tem dor, desejo, saudade de casa, carências infantis, sobrevivência, superação, tudo misturado, numa onda sombria e espacial, de viagem sonora – encerrando com a carta sonora de Heavy light, música que chega a causar vertigem. O disco ainda tem temas instrumentais, com Beholden to e A body, a map, apontando para sons orientais ou para a psicodelia das matas.

Volta e meia, além de Joni Mitchell, Hannah lembra os truques vocais de Jeff Buckley, como se alguma dor fosse ser exorcizada pelo canto ou pelas letras. No fim, Nested in tangles é inteirinho uma sessão de exorcismo, com sonoridade pendular e cheia de surpresas.

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Crítica

Ouvimos: Ulrika Spacek – “Expo”

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Ulrika Spacek mistura rock, eletrônica e estranhamento digital em Expo, disco denso sobre tecnologia, solidão e experimentação sonora

RESENHA: Ulrika Spacek mistura rock, eletrônica e estranhamento digital em Expo, disco denso sobre tecnologia, solidão e experimentação sonora.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Full Time Hobby Music
Lançamento: 6 de fevereiro de 2026

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Li por aí que os integrantes da banda londrina de art rock Ulrika Spacek gravam discos, fazem shows mas ainda mantém seus empregos em áreas que não necessariamente têm a ver com música. Normal em se tratando de uma banda tão peculiar: nem sempre a música serve para pagar os boletos e ficar em dia com as contas. E Expo, o quarto disco, torna as coisas mais complexas até mesmo para quem tem na mente uma noção comum de “rock” (ainda que seja um rock artístico, psicodélico).

Se Expo vai garantir o pagamento do aluguel dos músicos, sabe deus. Mas já garante um lugar espaçoso para o Ulrika no meio da turma que, antes de qualquer coisa, vem usando a tecnologia para pensar – em tempos de IA, quando parece que a solução mais fácil é sapecar informações num chatbot, e em que até o pedreiro que faz obra na sua casa corre o risco de ser substituído por algum software. O repertório põe pra fora todo tipo de estranhamento com o mundo digital e com a puta solidão que vai enredando as pessoas.

Por outro lado, Rhys Edwards, Callum Brown, Joseph Stone, Syd Kemp e Rhys Jenkins, os cinco do grupo, estão bem longe de brigarem com a tecnologia (cá pra nós, dá pra perceber isso na história da banda). Expo é definido como “um diálogo entre o eletrônico e o analógico” e foi todo colado a partir de um arquivo de samples feito pelo próprio Ulrika Spacek. Vêm daí o stoner eletrônico e espacial de Picto, o loop de piano (que vai sendo acrescido de uma cadência entre o rock e o jazz) de I could just do it, a beleza tecnodélica de Build a box then break it e a marcha-rock (lembrando a cadência do Aphrodite’s Child) de This time I’m present. O clima é esse.

No decorrer do disco, o Ulrika faz jazz slacker (!) em Incomplete symphony, grunge viajante em Showroom poetry e soa como um Lou Reed robótico em Square root of none – sem falar na viagem sonora completa de A modern low. Já as tais letras do disco abordam esse tal isolamento por um viés bem humanista, como na quase auto-explicativa Build a box then break it, ou no desejo pelo mais puro mindfullness em This time I’m present – música que encerra com a frase “desta vez a soma de todas as partes será tudo”.

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Crítica

Ouvimos: Jonnata Doll e os Garotos Solventes + YMA – “Residência Risco #1” (EP)

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Residência Risco une Yma e Jonnata Doll em EP onírico e urbano, com pop mutante, clima cinematográfico e letras fortes entre violência e poesia crua.

RESENHA: Residência Risco une Yma e Jonnata Doll em EP onírico e urbano, com pop mutante, clima cinematográfico e letras fortes entre violência e poesia crua.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Risco
Lançamento: 10 de março de 2026

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Residência Risco é um projeto criado pelo selo independente RISCO para unir um / uma  artista do elenco com algum outro nome com quem ele não havia feito nenhum trabalho colaborativo ainda. A estreia rolou com duas usinas de invenção do pop-rock nacional: Yma soa quase como uma mescla de Kate Bush, Cate Le Bon e Rita Lee. E Jonnata Doll, com sua banda Garotos Solventes, é quase como uma mescla de fases diferentes de David Bowie: as sombras da era The man who sold the world (1970), a vibe rocker da era Spider From Mars e o clima experimental da fase Berlim.

  • Ouvimos: YMA – Sentimental palace

O EP que abre a série, gravado no Estúdio Canoa (SP), parece ter sido registrado num espaço grande e cheio de profundidades, para registrar uma música onírica e urbana simultaneamente. Tudo parece uma HQ cheia de histórias de sangue, violência e solidão, que se transforma em música no som marcial e psicodélico de Cuidado; no pop elegante e mutante, com ares de rock francês, de Domingo; e na vibe de trilha sonora, com emanações de Arctic Monkeys e The Last Shadow Puppets, de Calçadas.

Com títulos simples, as letras são ricas em imagens fortes e meio sangrentas – Domingo fala em “teu gosto / é chiclete de gilete”, enquanto Calçadas é violência do dia a dia, naturalizada (“a multidão se aglomerou / para ver as cinzas / disseram que conheciam / mas depois foram almoçar”). Uma parceria crua e elaborada, simultaneamente.

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Ouvimos: Motorists – “Never sing alone”

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No disco Never sing alone, Motorists mistura jangle e power pop à la anos 70/80, com guitarras ganchudas e clima nostálgico em músicas atemporais.

RESENHA: No disco Never sing alone, Motorists mistura jangle e power pop à la anos 70/80, com guitarras ganchudas e clima nostálgico em músicas atemporais.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: We Are Time
Lançamento: 6 de março de 2026

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Essa banda canadense faz jangle pop como se fazia a uma dada altura dos anos 1980 – e faz power pop seguindo a receita do Big Star em quase todos os momentos. A ideia do Motorists é fazer uma música que doa no coração, mesmo em momentos mais alegres e tranquilos, como na enérgica Cristobal e na balada beatle Scattered white horses, que abrem este Never sing alone.

O terceiro álbum do Motorists, de certa forma, não entrega muito a época em que foi feito – mais ou menos como rola com o Fangus, banda de acid rock da qual falamos outro dia aqui no site. Never sing alone parece imune às referências do punk, e quase todo o material poderia ter sido composto e gravado em 1972 ou 1973 – e a partir disso, poderia ter influenciado estilos como punk e glam rock. Tem algumas exceções, como Diogenes, som bem oitentista, que poderia ter sido lançado pela Rough Trade em 1984, e que combina synths e percussões eletrônicas. E a vibe quase The Clash + The Jam de PCSD.

Quando rola mais intensidade sonora, dá para lembrar de bandas como Be Bop De Luxe e até dos Kinks no começo dos anos 1970. É o que rola nos dedilhados de músicas como The damage (meio parecida com o começo do Teenage Fanclub também, e com uma ótima cadência de guitarra solo e bateria no final) e no encontro entre guitarra e piano que rola no riff de Stander. Criadores do estilo jangly como os Byrds ressoam, cobertos por um despojamento musical aparente, em faixas como Frogman, Reprise e a belíssima e sombria Anomaniacs – essa última, uma outra faixa que se comunica com os anos 1980, especificamente com a turma jangle pop da fitinha C-86.

Apostando em vocais bem tramados, bases ganchudas de guitarra e em solos de guitarra que trazem outras belezas para as músicas – e que soam mais como descobertas musicais do que apenas como solos – os Motorists ainda têm tempo de fazer lembrar bandas como The Who (a curtinha The man in the circular window, com som de cítara) e The Hollies (Next blue kings). Uma beleza do começo ao fim, para cantar junto com eles.

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