Crítica
Ouvimos: Femme Falafel – “Dói-dói proibido”

RESENHA: Em Dói-dói proibido, Femme Falafel mistura rap e disco com humor e ironia; letras criativas, clima pop oitentista e visão própria do pop lusófono.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Revolve
Lançamento: 17 de outubro de 2025
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Tem um entrevista excelente com Raquel Pimpão, a mulher por trás do nome Femme Falafel, no site Scream & Yell – já vale a leitura só pela história do nome do projeto, que veio de um mal-entendido (Raquel mandou uma música chamada Femme fatale a uma amiga, que leu mal e entendeu “Femme Falafel”). O nome Dói-dói proibido, para quem não tem costume de ler, ver ou ouvir coisas ditas em português de Portugal, já cria uma imagem de brincadeira.
A rigor, a ideia de Raquel foi criar um disco alegre, focado no rap e na disco music, e no qual a tristeza não tenha vez – e o que poderia soar melancólico acaba soando irônico, zoeiro. Tanto que o disco é cheio de músicas que já chamam a atenção pelos títulos, como Romance feudal (cuja letra cita vários termos ligados ao feudalismo para falar de uma relação “fechada” e servil), o alt-pop Eletorcardiodrama e a vinheta Envenenados por mercúrio. Quando ela faz raps, às vezes parece que a letra não vai caber no espaço – e acaba sempre cabendo.
- Ouvimos: O Homem que Fugiu do Mundo – Sílfio
A vibe pop do Femme Falafel aponta para o pop brasileiro transante dos anos 1980 – Camada do ozone parece coisa de Lincoln Olivetti e Robson Jorge, e o mesmo rola com uma faixa curiosamente chamada Rio, que ainda tem lembranças de American boy, hit de Estelle. Depressão, com herança da disco music, tem versos como “o meu amor é como o capitalismo, crises cíclicas sem fim / é a auto-sabotagem da pobreza que há em mim / falhanço no amor, falhanço no trabalho / não sei o que vou fazer porque estou triste pra caralho”.
Uma curiosidade é a dance music hipnótica de Floresta da Amazónia (a letra é só a frase “parem de foder a Floresta da Amazónia” do começo ao fim). Tem Brasil no som e nas ideias de Femme Falafel, mas o principal é a visão bem diferente e variada do que é fazer rap e pop.
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Crítica
Ouvimos: Them In Uniform – “Them In Uniform”

RESENHA: Punk, garage rock e ecos dos anos 1980/90 se misturam no ótimo segundo álbum do Them In Uniform, entre angústia, peso e melodias grudentas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Argyle Records
Lançamento: 19 de junho de 2026
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A capa do álbum do Them In Uniform, grupo de Atlanta, Georgia, é um misto de “ruínas do ser humano” com imagem indie: vestuário cool, joguinho de cartas, bebida e (olha olha) um subtexto de apostas, ganhos e perdas. Them In Uniform é o segundo disco, e o mais bem resolvido até o momento. O som é basicamente punk e rock de garagem, volta e meia unindo anos 1980 e 1990, como nas guitarras de All in e no ska pós-punk de Curran St. Ou em Daydreams (Maladaptive), faixa em vibe meio Pixies, meio Weezer, mas que vai ganhando peso de rock pauleira.
O que mais chama a atenção no disco é que o Them In Uniform oscila entre a maldição sonora, e algo que você pode imaginar já ter tocado bastante no rádio lá por 1995, como nas guitarras distorcidas e sonhadoras da balada Looping, na sombria Showtime e no clima sexy e pesado de Like a man – música que une Nirvana, Hole e guitarras base herdadas do soul. Tem lembranças do Foo Fighters do começo em Senior year, punk espacial e tenso em Teeth e balada estradeira, meio pesada, meio soft rock, em 9 to 5.
- Ouvimos: Deaf Devils – Deaf Devils
O Them In Uniform arrumou uma boa maneira de soar diferente mesmo quando recorre a receitas nem tão originais – a solução parece sempre estar na mistura e no imaginário do grupo. Já as letras são retratos da batalha do dia a dia, um mundo em que o “lá fora” é um retrato do psicológico de cada um. Rola nas porradas de Looping (“a vida tem sido um ciclo / eu me levanto para cair de novo”), na falta de saídas de Daydreams (“quando o sol se põe / estou de joelhos / implorando por um ponto de apoio”) e nas várias vozes que parecem dominar a mente do personagem de Like a man. Já Senior year soa como 1979, dos Smashing Pumpkins, mas sem maldade (“eu gostaria de / poder voltar atrás e ser ingênua novamente”).
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Crítica
Ouvimos: Underscores – “U”

RESENHA: Hyperpop, synth pop, trap e dance music se misturam em U, disco em que o Underscores trata o pop como uma ilusão em constante mutação.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Mom + Pop
Lançamento: 20 de março de 2026
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Criado pela musicista April Harpey Gray, o Underscores é um projeto musical mutante: seu álbum anterior era mais “eletrorock” e tinha até elementos de folk (Wallsocket, de 2023). E dessa vez, ela ressurge podendo tranquilamente ser chamada de “hyperpop”. Isso porque U, o terceiro disco, segue à risca a receita o estilo. Ou seja: quanto mais melhor. Quanto mais “tropos narrativos” do pop, melhor. Quanto mais você não tenha vergonha ou dilemas em chamar o pop de “pop”, melhor – ainda que insira vibes “experimentais” aqui e ali.
U abre com Tell me (U want it) e basicamente chafurda no synth pop, deixando entrar referências de trap, e migrando para um pop bem alternativo e experimental – como uma viagem sonora em que uma coisa não exclui a outra. Music, na sequência, vai na mesma onda: clima pop e, ao mesmo tempo, bem distorcido, feito para a pista de dança e para a doideira individual, como rola também no pop realmente alternativo de The peace e no alt hip hop de Innuendo (I get U).
Os lados mais comerciais (digamos) de U surgem em faixas como o house Hollywood forever, o trap Wish U well e o som romântico e eletrônico de Lovefield. Rola até um clima latino no violão de Do it, mas é uma dance music bem saturada, um formato que parece ter sido eleito por April como o modelo de “ei, somos pop mas fazemos música estranha”. Mais ou menos a mesma coisa rola em Bodyfeeling, que poderia ser até uma música de boy band dos anos 1990, mas surge ultratexturizada.
- Ouvimos: Genghis Tron – Signal fire
As letras de U, por sua vez, são basicamente ressaca amorosa, cantada com raiva – mas simultaneamente são letras escritas como se fossem várias frases do Xwitter unidas, como em Hollywood forever, que tem frases como “talvez eu não esteja sendo sincera quando digo que é por amor/ talvez eu só queira material para meu elogio fúnebre”.
O Pitchfork diz que o Underscores faz parte da primeira geração de músicos para quem o único valor “é o valor memético” – nada a ver, porque músicas-meme são feitas há décadas. Mas o Underscores tem aquela coisa de ser um projeto que trata o pop como uma miragem que vai desaparecendo à medida que você chega perto. O lance é esse.
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Crítica
Ouvimos: Half Shadow – “Wind inside” (EP)

RESENHA: Folk espectral e psicodélico: Half Shadow mistura em Wind inside natureza, introspecção e ecos shoegaze em canções sobre cura e autodescoberta.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Antiquated Future
Lançamento: 6 de março de 2026
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Criado por Jesse Carsten, um músico de Portland, Oregon, o Half Shadow tem um som quase místico, inspirado pelo folk e por uma espécie de música fantasmagórica, em que vocais e percussões ganham clima quase de aparições. Wind inside tem som de mar, de mata, violões que parecem ventos e vocais tranquilos.
Esse é o clima de Wind inside part 1, a faixa de abertura. E quando chega Fruitless, a segunda faixa, mudam algumas coisas, já que o Half Shadow ganha uma aparência mista de folk californiano e de quase-shoegaze, feito com sons acústicos (um anti-shoegaze?), paredinha sonora e bateria perdida no eco.
Fruit, folk psicodélico com clima floydiano, efeitos de guitarra e uma percussão intermitente, que ganha ares de loop indiano na música, fala sobre a vontade de apreciar a vida, mesmo com os problemas e com a espera por um amanhã que sempre demora a chegar. No release, a faixa é apresentada de forma bem confessional: Fruit relata “um inverno de enfrentamento da doença mental, agachado junto à ‘lareira acesa’, para vislumbrar o retorno da luz, do amor-próprio e do transe acolhedor da primavera”.
Wind inside part 2 encerra o EP em clima soturno, de folk quase grunge – enquanto Carsten fala de descobertas assustadoras, memórias, mistérios e viagens ao que há de mais profundo.
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