Cultura Pop
Fala aí: “Luan Santana comete ato de covardia com Paula Fernandes que poucos vêem”

Oi.
A partir de agora, o POP FANTASMA vai colocar uns textos mais opinativos de vez em quando, de gente que tá a fim de comentar sobre alguma coisa (ou várias) coisas que estejam acontecendo, ou que querem chamar a atenção para alguma coisa. Vamos começar com um papo sobre mercado fonográfico e música sertaneja. O texto é meu e de Chris Fuscaldo, juntos e shallow now 🙂 .
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Que o Brasil está polarizado politicamente, a gente já sabia. Que muita gente não gosta da obra de Paula Fernandes, também. Mas que tanto bolsominions quanto petralhas acreditariam que Luan Santana não participou da gravação do DVD da cantora e compositora porque sua gravadora não o liberou… por essa não esperávamos.
Desde o lançamento da gravação em que Luan canta com Paula, a convite dela, sua versão para o hit do filme Nasce uma estrela, acompanhamos o desenrolar do caso e ficamos atentos a como os jovens artistas brasileiros se comportariam diante das críticas, troças e piadas que a música ganhou. Ao percebermos que a maioria das pessoas estavam engrossando o coro do cantor enquanto nós concordávamos em nossas reflexões, decidimos que era hora de escrever algo sobre o assunto juntos e shallow now.
Juntos é o nome da versão que Paula Fernandes escreveu para a música composta por Lady Gaga junto a outros autores – e interpretada por ela e Bradley Cooper no filme que rendeu à cantora americana o Oscar de melhor canção original junto com Mark Ronson, Anthony Rossomando e Andrew Wyatt. Na hora de fazer o refrão da versão em português, Paula manteve o “shallow now” do original. O resultado foi um “juntos e raso agora” (só que com esse final em inglês) que não bateu bem para ninguém, e que virou piada.
Antes, Shallow já havia recebido outros 31 prêmios – Grammys, Bafta, Globo de Ouro e outros – batendo todos os recordes. Gostemos ou não da letra em português, ela passou pelo crivo da própria Lady Gaga e foi liberada para registro dessa maneira. De acordo com o que foi divulgado, Luan falou para Paula que não havia curtido a parte em inglês. Ela respondeu que não poderia mais mexer, afinal, todo o processo de aprovação teria que ser reiniciado. O site Hugo Gloss reporta que Luan tentou alertar Paula mais de uma vez para o fato de que “juntos e shallow now” não combinavam igual a “tá tranquilo, tá favorável” ou “na rua, na chuva, na fazenda”. O astro sertanejo tentou, mas não conseguiu fazer valer suas opiniões.
Como todos que trabalhamos no mercado musical sabemos, há uma burocracia nesse vai e vem e sempre um alto risco de os mais fortes (nesse caso, qualquer norte-americano o é mais do que qualquer brasileiro) cansarem da fadiga e desistirem da negociação. Aquela era a hora de Luan dizer: “Olha, Paula, gosto muito de você, mas prefiro então não participar da gravação. Chame outra pessoa”. Só que ele não fez isso e, ao entrar no estúdio para registrar sua voz (diga-se de passagem, menos grave do que a da parceira), cumpriu a primeira parte do combinado. O resto da história, todo mundo já sabe: depois de “juntos e shallow now” sofrer uma enxurrada de críticas e virar motivo de piada em todas as redes sociais do Brasil, Luan desistiu de participar da gravação do DVD.
Segundo o próprio Hugo Gloss, Luan voltou atrás e descumpriu o combinado por recomendação de sua gravadora, a Som Livre, já que a canção havia tido repercussão negativa. Ao saber que não teria o parceiro no show ao vivo, Paula gravou um vídeo quase chorando, em que explicava que não poderia contar mais com Luan na gravação. A cantora disse que muito pensou sobre convidar outro artista para fazer o dueto com ela e decidiu pedir para que a plateia assumisse o lugar de Luan e cantasse com ela.
A atitude de Luan deu margens a comentários e piadas machistas sobre o trabalho da Paula. Gerou um burburinho estranho, em que o que se dizia é que a Som Livre achava que Luan deveria se concentrar na divulgação de seu DVD. O que faltou tanto Luan quanto Som Livre dizer – e os que comentaram sem refletir sobre o assunto – foi que ele havia combinado anteriormente de participar do tal DVD da Paula. Sair de fininho dessa maneira foi, no mínimo, uma atitude covarde.
Vamos lá: isso aí é o que a gente vê quando lê sobre artistas cujo verdadeiro objetivo, ainda que seja algo “artístico”, não é a cultura. Que Luan Santana é um grande nome do mercado musical brasileiro, ninguém duvida. Leia novamente a frase anterior e repare que estamos dizendo que ele é um “grande nome do mercado”. Imagine se o empresário de uma cantora como a Zélia Duncan ia falar para ela: “Zélia, não acho legal você cantar isso aí, não”. E ela ia escutar e obedecer. Imagine se a Zélia, se fosse o caso, não ia chegar para a Paula e falar: “Paula, isso tá uma merda, muda pelo amor de Deus ou eu desisto”.
Não sabemos em que condições o tal acerto entre Luan e Paula foi feito inicialmente, só que houve um acordo entre as partes, que depois foi deixado de lado. De qualquer jeito, dá para imaginar o que aconteceria se o maior empreendimento da história do pop nacional, Roberto Carlos, fizesse o mesmo tipo de acerto com outro cantor, e visse que tinha um “shallow now” a engolir pela frente. Roberto é conhecido pelo detalhismo e por não ter problemas em dizer que não gostaria de cantar determinado verso. Com certeza ele sairia antes de colocar a voz.
No caso do Luan, honestamente, parece que, mesmo achando o verso uma droga, ele quis garantir os milhares de reais em direitos conexos que a promessa de hit lhe garantiria. Já que ele topou gravar a música em estúdio, o bonito seria ele chegar e falar: “Olha, foda-se, eu já me comprometi com ela e vou cantar essa merda desse ‘juntos e shallow now’. O DVD não é meu, é dela, só vou cantar e cair fora”. Qualquer outra atitude é, na boa, extremamente feia. E covarde.
Tem algo muito bizarro nessa história do Luan e da Paula, que serviu para alimentar bastante os sites de notícias por algumas semanas, mas que só mostra o quanto nosso show business está (incrivelmente) menos “artístico”. Participações em discos alheios viraram um grande negócio a ponto de alguns artistas serem eternos coadjuvantes de feats. O problema é que, na hora de criar algo que realmente seja um grande encontro, isso não está funcionando. Ainda mais quando as coisas são pensadas, marketeadas e realizadas de maneira extremamente troncha. E quando uma das partes envolvidas resolve cair fora e não cumprir o que já havia sido acordado.
Só nos resta desejar melhor sorte à Paula Fernandes na escolha de seus refrãos e de seus parceiros. Enquanto isso, a gente vai escrevendo juntos e shallow now para mostrar que, entre jornalistas e escritores, o sonho ainda não acabou.
CHRIS FUSCALDO é escritora, jornalista e cantora/compositora, trabalhou em O Globo, Extra, Rolling Stone e hoje edita o blog Garota FM em seu site pessoal. É autora dos livros Discobiografia Legionária e Discobiografia Mutante.
RICARDO SCHOTT sou eu mesmo.
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.
Cultura Pop
R.E.M. recorda os 44 anos do primeiro contrato com uma gravadora

No dia 31 de maio de 1982, a gravadora I.R.S. enviava um press release avisando que havia assinado com o R.E.M., “uma banda de Athens, Georgia, aclamada pela crítica”. E já anunciava que no dia 26 de agosto sairia o EP Chronic town, com as faixas 1,000,000, Stumble, Wolves, lower, Gardening at night e Carnival of sorts (Boxcars). A foto de imprensa, em preto e branco, trazia Peter Buck (guitarra), Mike Mills (baixo), Bill Berry (bateria) e Michael Stipe (vocais) com visual pós-adolescente.
“O EP vai ser seguido por um álbum no ano que vem. O R.E.M. planeja fazer uma turnê pelo Oeste do país durante o verão, seguida pelos estados da Costa Leste e do Canadá durante o Outono”, avisava a gravadora, oferecendo também o contato da empresária Betsy Alexander, primeira pessoa a cuidar profissionalmente do grupo, ajudando em contatos, logística e gestão. O release só errava na ordem das músicas do EP, que possivelmente ainda não estava decidida (Chronic town também saiu dividido em duas partes, com lado A nomeado Chronic town e lado B com nome Poster torn)
O contrato era de longo prazo e previa cinco discos – ou seja, tudo que saiu do grupo até Life’s rich pageant, o quarto álbum, de 1986. Depois disso, o grupo renegociou e lançou o quinto disco, Document, de 1987 – mas acabou migrando para a Warner e terminando o contrato com a coletânea Eponymous (1988).
A I.R.S. tinha sido criada em 1979 por Miles Copeland III, irmão de Stewart Copeland, baterista do The Police. O selo vinha da cena punk/new wave britânica e funcionava como uma espécie de ponte entre o underground e uma estrutura profissional de distribuição via A&M (a gravadora do Police, por acaso).
Na época em que o R.E.M. assinou, a I.R.S. já tinha grupos como Wall of Voodoo, Oingo Boingo, The Go-Go’s e The English Beat. Era um selo muito ligado a college radio, pós-punk, new wave e à ideia de independência artística. Depois, virou praticamente sinônimo do rock universitário americano dos anos 1980 por causa do próprio R.E.M.
A entrada da banda na gravadora aconteceu muito por conexões da cena. O empresário/agente Ian Copeland, irmão de Miles e Stewart, já acompanhava o grupo desde os primeiros shows em Athens. O baterista Bill Berry tinha trabalhado para Ian em Macon como roadie e serviços-gerais, e mantinha contato com ele. Isso ajudou o R.E.M. a conseguir shows de abertura para bandas maiores, como The Police e Gang of Four, até chamar atenção da I.R.S.
E olha o post comemorativo do R.E.M. aí.
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Cultura Pop
George Harrison em 2001: “O que é Eminem?”

RESUMO: Em 2001, George Harrison participou de chats no Yahoo e MSN para divulgar All Things Must Pass; com humor, respondeu fãs poucos meses antes de morrer – e desdenhou Eminem (rs)
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução YouTube
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“Que Deus abençoe a todos vocês. Não se esqueçam de fazer suas orações esta noite. Sejam boas almas. Muito amor! George!”. Essa recomendação foi feita por ninguém menos que o beatle George Harrison no dia 15 de fevereiro de 2001 – há 25 anos e alguns dias, portanto – ao participar de dois emocionantes chats (pelo Yahoo e pelo MSN).
O tal bate-papo, além de hoje em dia ser importante pelos motivos mais tristes (George morreria naquele mesmo ano, em 29 de novembro), foi uma raridade causada pelo relançamento remasterizado de seu álbum triplo All things must pass (1970), em janeiro de 2001. George estava cuidando pessoalmente da remasterização de todo seu catálogo e o disco, com capa colorida e fotos reimaginadas, além de um kit de imprensa eletrônico (novidade na época), era o carro-chefe de toda a história. O lançamento de um site do cantor, o allthingsmustpass.com, também era a parada do momento (hoje o endereço aponta para o georgeharrison.com).
Os dois bate-papos tiveram momentos, digamos assim, inesquecíveis. No do Yahoo, George fez questão de dizer que era sua primeira vez num computador: “Sou praticamente analfabeto 🙂 “, escreveu, com emoji e tudo. Ainda assim, um fã meio distraído quis saber se ele surfava muito na internet. “Não, eu nunca surfo. Não tenho a senha”, disse o paciente beatle. Um fã mais brincalhão quis saber das influências dos Rutles, banda-paródia dos Beatles que teve apoio do próprio Harrison, no som dele (“tirei todas as minhas influências deles!”) e outro perguntou sobre a indicação de Bob Dylan ao Oscar (sua Things have changed fazia parte da trilha de Garotos incríveis, de Curtis Hanson). “Acho que ele deveria ganhar TODOS os Oscars, todos os Tonys, todos os Grammys”, exultou.
A conta do Instagram @diariobeatle deu uma resumida no chat do Yahoo e lembrou que George contou sobre a origem dos gnomos da capa de All things must pass, além de associá-los a um certo quarteto de Liverpool. “Originalmente, quando tiramos a foto eu tinha esses gnomos bávaros antigos, que eu pensei em colocar ali tipo… John, Paul, George e Ringo”, disse. “Gnomos são muito populares na Europa. E esses gnomos foram feitos por volta de 1860”.
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A ironia estava em alta: George tambem disse que se começasse um movimento como o Live Aid ajudaria… Bob Geldof (!)., o criador do evento. Perguntado sobre se Paul McCartney ainda o irritava, contemporizou: “Não examine um amigo com uma lupa microscópica: você conhece seus defeitos. Então deixe suas fraquezas passarem. Provérbio vitoriano antigo”, disse. “Tenho certeza de que há coisas suficientes em mim que o irritam, mas acho que já crescemos o suficiente para perceber que nós dois somos muito fofos!”. Um / uma fã perguntou sobre o que ele achava da nominação de Eminem para o Grammy. “O que é Eminem?”, perguntou. “É uma marca de chocolates ou algo assim?”.
Bom, no papo do MSN um fã abusou da ingenuidade e perguntou se o próprio George era o webmaster de si próprio. “Eu não sou técnico. Mas conversei com o pessoal da Radical Media. Eles vieram à minha casa e instalaram os computadores. Os técnicos fizeram tudo e eu fiquei pensando em ideias. Eu não tinha noção do que era um site e ainda não entendo o conceito. Eu queria ver pessoas pequenas se cutucando com gravetos, tipo no Monty Python”, disse.
Pra ler tudo e matar as saudades do beatle (cuja saída de cena também faz 25 anos em 2026), só ir aqui.
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