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Cultura Pop

Oito biografias do barulho

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Oito biografias do barulho

Ao que consta, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa (que é hoje!) foi criado pela Unesco em 1993, e serve para lembrar (e protestar) contra as arbitrariedades cometidas contra jornalistas ao redor do mundo. Sendo assim, nada mais justo do que o POP FANTASMA aproveitar o dia para recordar oito biografias ligadas à música que causaram muitas dores de cabeça a seus biografados, ou que têm conteúdo bastante controverso, ou que revelaram a verdade por trás de muitas carreiras.

“ROBERTO CARLOS EM DETALHES” – PAULO CÉSAR DE ARAÚJO. O tipo de livro cujo making of daria outro livro – aliás, deu, já que PC escreveu O réu e o Rei. Proibido por Roberto Carlos, não voltou às livrarias até hoje, embora Paulo já tenha escrito um outro livro sobre Roberto, que acabou de sair. Ao que consta, mais do que a revelação de detalhes (sem trocadilho), Roberto ficou mesmo irritado foi com a possibilidade de alguém poder lançar um livro sobre sua história. “É um patrimônio meu!”, reclamou.

“O REI E EU” – NICHOLLAS MARIANO. O livro do ex-mordomo de Roberto Carlos contando minúcias do dia a dia do cantor foi proibido, recolhido e nunca mais saiu. O editor Roberto Pinheiro Goldkorn foi processado e o autor quase foi para a cadeia. Mas hoje, o livro está por aí em PDF (só googlar). Bem pequeno e possível de ser lido em poucas horas, fala do suposto apetite sexual do rei, da grana que entrava por causa dos shows (Roberto teria esquecido um saco de dinheiro atrás de um guarda-roupas, certa vez) e até da existência de um filho ilegítimo do cantor – que aliás, anos depois, teria a paternidade reconhecida.

>>> Veja também no POP FANTASMA: A mulher que devorou “Roberto Carlos”, o livro

“CAETANO – UMA BIOGRAFIA” – CARLOS EDUARDO DRUMMOND, MARCIO NOLASCO. A dupla de autores começou os trabalhos enviando uma carta (não havia e-mail ainda) ao irmão de Caetano. O livro foi engavetado, rolou uma história de que Caetano não gostara do resultado e proibiu, e os autores souberam que a editora (a Objetiva) desistira do projeto. Mas o livro retornou anos depois por outra editora (Seoman), inclusive com autorização de uso de fotos. Entre as descobertas do livro, o fato de que Caetano tem algo em comum com David Bowie: os dois tiveram empregos em agências de publicidade antes da fama. Detalhe: a ideia original de Drummond e Nolasco era fazer uma biografia de Roberto Carlos (desistiram, claro).

“HIS WAY: UMA BIOGRAFIA NÃO-AUTORIZADA DE FRANK SINATRA” – KITTY KELLEY. O nome dessa jornalista americana causa pânico em muitos famosos. Afinal, ela já escreveu livros bem reveladores sobre Elizabeth Taylor, Oprah Winfrey, Nancy Reagan (retratada como uma esposa infiel e viciada em astrologia). His way, que saiu no Brasil pela Record (e cujo título é uma piada cruel com o hit My way) mostrava o cantor americano como um bêbado violento, associado à máfia, filho de uma mulher que teria criado um serviço de aborto clandestino (um escândalo na época em que saiu o livro). Sinatra tentou impedir o lançamento o quanto pôde. Mas depois desistiu.

>>> Veja também no POP FANTASMA: Tão leiloando um livro de receitas fake de Andy Warhol

“LED ZEPPELIN: QUANDO OS GIGANTES CAMINHAVAM SOBRE A TERRA” – MICK WALL. O livro Hammer of the gods, de Stephen Davis, pode ter sido um tanto falacioso e exagerado ao contar histórias bizarras sobre o grupo inglês. Wall, jornalista com anos de trabalho, também não economizou em histórias escrotas sobre o Led, boa parte delas envolvendo o baterista John Bonham. O músico é visto no livro saindo na porrada com (e tentando arrancar o olho de) um integrante da equipe do promotor Bill Graham, agredindo repórteres e avançando para cima de uma divulgadora da gravadora Atlantic. Num ponto mais ameno, tem também o relato completo da paixão de Jimmy Page por ocultismo.

“ROCK WIVES” – VICTORIA BALFOUR. Esse livro nunca saiu no Brasil, embora seu lançamento, em 1984, aparecesse em revistas como a Manchete, com matérias cheias de fotos. Victoria, em seu primeiro (único?) livro, explorou o dia a dia tenso das esposas, namoradas e groupies de rock stars. Tinha lá a louca vida de Bebe Buell (mulher de Todd Rundgren e namorada de Steve Tyler, Elvis Costello e outros), a tristeza de Susie Rotolo (namorada descartada de Bob Dylan) e a barra segurada por Marilyn Wilson (que parou a carreira de cantora para cuidar do marido, Brian Wilson).

>>> Veja também: POP FANTASMA apresenta Jimmy Page no Brasil, de Leandro Souto Maior

“GUNS N’ROSES: THE MOST DANGEROUS BAND IN THE WORLD” – MICK WALL. Uma matéria no site Beat faz questão de lembrar que, ao contrário do que se diz por aí, o jornalista Wall não foi citado na lista de inimigos de Axl da música Get in the ring por causa desse livro. A biografia do Guns escrita por ele saiu um ano depois do par de discos Use your illusion (1991). Já a canção surgira após a publicação de uma entrevista que o cantor dera para ele, na qual havia falado mais do que devia. Mas Axl chegou a ameaçar Wall de morte por causa desse livro – que aliás é até bem ameno e foca só em entrevistas com a banda.

“MICK JAGGER – NÃO AUTORIZADO – SEM CORTES” – CHRISTOPHER ANDERSEN. Esse livro teve tempo de causar polêmica duas vezes, e um dos escândalos envolve o Brasil. Andersen descreveu o cantor dos Rolling Stones como um control freak, maníaco por sexo e cruel com todo mundo que chega perto dele. Pelas contas de quem lê o livro, Jagger passou mais tempo na vida fazendo sexo do que cantando. A lista de parceiros tem de Marianne Faithfull, Anita Pallenberg, David Bowie e Bette Midler (que negou tudo), a Eric Clapton e Mick Taylor. A primeira edição saiu em 1993. Mas a segunda, ampliada e com título mudado para A vida louca e selvagem de Jagger, fez barulho no Brasil por ter tido trechos da edição nacional suprimidos. Aliás, os tais trechos entravam em detalhes do relacionamento de Jagger com a apresentadora Luciana Gimenez (que negou envolvimento na edição).

 

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Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

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O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).

“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.

Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.

Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.

“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.

“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.

E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.

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R.E.M. recorda os 44 anos do primeiro contrato com uma gravadora

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R.E.M. recorda os 44 anos do primeiro contrato com uma gravadora

No dia 31 de maio de 1982, a gravadora I.R.S. enviava um press release avisando que havia assinado com o R.E.M., “uma banda de Athens, Georgia, aclamada pela crítica”. E já anunciava que no dia 26 de agosto sairia o EP Chronic town, com as faixas 1,000,000, Stumble, Wolves, lower, Gardening at night e Carnival of sorts (Boxcars). A foto de imprensa, em preto e branco, trazia Peter Buck (guitarra), Mike Mills (baixo), Bill Berry (bateria) e Michael Stipe (vocais) com visual pós-adolescente.

“O EP vai ser seguido por um álbum no ano que vem. O R.E.M. planeja fazer uma turnê pelo Oeste do país durante o verão, seguida pelos estados da Costa Leste e do Canadá durante o Outono”, avisava a gravadora, oferecendo também o contato da empresária Betsy Alexander, primeira pessoa a cuidar profissionalmente do grupo, ajudando em contatos, logística e gestão. O release só errava na ordem das músicas do EP, que possivelmente ainda não estava decidida (Chronic town também saiu dividido em duas partes, com lado A nomeado Chronic town e lado B com nome Poster torn)

O contrato era de longo prazo e previa cinco discos – ou seja, tudo que saiu do grupo até Life’s rich pageant, o quarto álbum, de 1986. Depois disso, o grupo renegociou e lançou o quinto disco, Document, de 1987 – mas acabou migrando para a Warner e terminando o contrato com a coletânea Eponymous (1988).

A I.R.S. tinha sido criada em 1979 por Miles Copeland III, irmão de Stewart Copeland, baterista do The Police. O selo vinha da cena punk/new wave britânica e funcionava como uma espécie de ponte entre o underground e uma estrutura profissional de distribuição via A&M (a gravadora do Police, por acaso).

Na época em que o R.E.M. assinou, a I.R.S. já tinha grupos como Wall of Voodoo, Oingo Boingo, The Go-Go’s e The English Beat. Era um selo muito ligado a college radio, pós-punk, new wave e à ideia de independência artística. Depois, virou praticamente sinônimo do rock universitário americano dos anos 1980 por causa do próprio R.E.M.

A entrada da banda na gravadora aconteceu muito por conexões da cena. O empresário/agente Ian Copeland, irmão de Miles e Stewart, já acompanhava o grupo desde os primeiros shows em Athens. O baterista Bill Berry tinha trabalhado para Ian em Macon como roadie e serviços-gerais, e mantinha contato com ele. Isso ajudou o R.E.M. a conseguir shows de abertura para bandas maiores, como The Police e Gang of Four, até chamar atenção da I.R.S.

E olha o post comemorativo do R.E.M. aí.

 

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Um post compartilhado por R.E.M. (@rem)

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George Harrison em 2001: “O que é Eminem?”

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George Harrison (Reprodução YouTube)

RESUMO: Em 2001, George Harrison participou de chats no Yahoo e MSN para divulgar All Things Must Pass; com humor, respondeu fãs poucos meses antes de morrer – e desdenhou Eminem (rs)

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução YouTube

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“Que Deus abençoe a todos vocês. Não se esqueçam de fazer suas orações esta noite. Sejam boas almas. Muito amor! George!”. Essa recomendação foi feita por ninguém menos que o beatle George Harrison no dia 15 de fevereiro de 2001 – há 25 anos e alguns dias, portanto – ao participar de dois emocionantes chats (pelo Yahoo e pelo MSN).

O tal bate-papo, além de hoje em dia ser importante pelos motivos mais tristes (George morreria naquele mesmo ano, em 29 de novembro), foi uma raridade causada pelo relançamento remasterizado de seu álbum triplo All things must pass (1970), em janeiro de 2001. George estava cuidando pessoalmente da remasterização de todo seu catálogo e o disco, com capa colorida e fotos reimaginadas, além de um kit de imprensa eletrônico (novidade na época), era o carro-chefe de toda a história. O lançamento de um site do cantor, o allthingsmustpass.com, também era a parada do momento (hoje o endereço aponta para o georgeharrison.com).

Os dois bate-papos tiveram momentos, digamos assim, inesquecíveis. No do Yahoo, George fez questão de dizer que era sua primeira vez num computador: “Sou praticamente analfabeto 🙂 “, escreveu, com emoji e tudo. Ainda assim, um fã meio distraído quis saber se ele surfava muito na internet. “Não, eu nunca surfo. Não tenho a senha”, disse o paciente beatle. Um fã mais brincalhão quis saber das influências dos Rutles, banda-paródia dos Beatles que teve apoio do próprio Harrison, no som dele (“tirei todas as minhas influências deles!”) e outro perguntou sobre a indicação de Bob Dylan ao Oscar (sua Things have changed fazia parte da trilha de Garotos incríveis, de Curtis Hanson). “Acho que ele deveria ganhar TODOS os Oscars, todos os Tonys, todos os Grammys”, exultou.

A conta do Instagram @diariobeatle deu uma resumida no chat do Yahoo e lembrou que George contou sobre a origem dos gnomos da capa de All things must pass, além de associá-los a um certo quarteto de Liverpool. “Originalmente, quando tiramos a foto eu tinha esses gnomos bávaros antigos, que eu pensei em colocar ali tipo… John, Paul, George e Ringo”, disse. “Gnomos são muito populares na Europa. E esses gnomos foram feitos por volta de 1860”.

A ironia estava em alta: George tambem disse que se começasse um movimento como o Live Aid ajudaria… Bob Geldof (!)., o criador do evento. Perguntado sobre se Paul McCartney ainda o irritava, contemporizou: “Não examine um amigo com uma lupa microscópica: você conhece seus defeitos. Então deixe suas fraquezas passarem. Provérbio vitoriano antigo”, disse. “Tenho certeza de que há coisas suficientes em mim que o irritam, mas acho que já crescemos o suficiente para perceber que nós dois somos muito fofos!”. Um / uma fã perguntou sobre o que ele achava da nominação de Eminem para o Grammy. “O que é Eminem?”, perguntou. “É uma marca de chocolates ou algo assim?”.

Bom, no papo do MSN um fã abusou da ingenuidade e perguntou se o próprio George era o webmaster de si próprio. “Eu não sou técnico. Mas conversei com o pessoal da Radical Media. Eles vieram à minha casa e instalaram os computadores. Os técnicos fizeram tudo e eu fiquei pensando em ideias. Eu não tinha noção do que era um site e ainda não entendo o conceito. Eu queria ver pessoas pequenas se cutucando com gravetos, tipo no Monty Python”, disse.

Pra ler tudo e matar as saudades do beatle (cuja saída de cena também faz 25 anos em 2026), só ir aqui.

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