Cultura Pop
Aquela vez em que Tim Hardin virou vocalista do Can

Cantor-compositor fora de época nos anos 1960 (a onda dos cantautores folk começaria só na década seguinte), Tim Hardin foi uma das atrações menos comentadas do festival de Woodstock. Uma das primeiras contratações do selo Verve Forecast (braço pop-rock da jazzística Verve), ele fazia sucesso com canções como If I were a carpenter e How can we hang on to a dream.
Sua apresentação no festival (que só foi lançada nas plataformas digitais recentemente) acabou ficando de fora do álbum triplo de Woodstock por ter sido considerada caótica e apagada, já que ele estava drogado demais para conseguir manter o foco na ocasião. Isso porque Hardin – cujo show ganhou, mesmo assim, alguns minutos no filme do festival – não era precoce só por encarar as plateias munido apenas de voz e violão, numa época em que poucos faziam isso. Tim se viciara em heroína em 1965, num período em que a droga ainda não era tão popular ainda entre roqueiros.
Tim (que só para adiantar o final triste, morreu de overdose em 1980, aos 39 anos) manteve carreira discográfica prolífica até 1973. Gravou uma dezena de discos por selos como Verve, Columbia e Antilles. Durante a década, concentrou-se mais nos shows, sempre enfrentando crises provocadas pelas drogas. Um ajudante chamado Peter Gilmour foi contratado para manter certa segurança de que Hardin iria nos shows, não estaria muito louco e conseguiria ficar OK para subir no palco.
Foi esse mesmo Peter Gilmour que ajudou a promover um dos encontros mais estranhos da história do rock: o de Hardin com a banda de krautrock Can. Sim, porque Hardin foi vocalista do Can (!) por dois shows.
O Can estava sem vocalista após a saída de Damo Suzuki, que gravou alguns dos álbuns mais marcantes do grupo alemão. Os vocais passaram a ser divididos pelos integrantes Michael Karoli, Holger Czukay e Irmin Schmidt. Gilmour apresentou o Can a Hardin (que, na época, vivia na Inglaterra para aproveitar o tratamento com metadona fornecido gratuitamente pelo Serviço Nacional de Saúde, para dependentes de heroína) e esse encontro improvável ocupou duas datas em palcos londrinos: 21 de novembro na Hatfield Polytechnic e 23 de novembro no Drury Lane Theatre.
A biografia All gates open: The story of Can, de Rob Young e Irmin Schmidt, define o som que saiu de alguns desses encontros como “blues direto e reto com sintetizadores da era espacial”, destacando o som etéreo do Can em contraste com o som “de raiz” de Tim Hardin.
O que uniu mesmo o grupo e o cantor, na verdade, nem foi Gilmour: foi o apetite de Tim e do vocalista e violinista Michael Karoli por substâncias ilegais. Após o ajudante de Hardin fazer as honras, os dois foram correr atrás de drogas e acabaram num salão de hotel, tocando e conversando. Karoli sugeriu que Hardin subisse no palco com eles no dia seguinte. Ninguém do Can achou a ideia ruim. A primeira apresentação, da Hatfield Polytechnic, foi totalmente improvisada.
“De certa forma, deu certo e não deu”, contou Irmin no livro. Isso porque o músico tinha certo cagaço (justificado) da fama de junkie de Hardin. Karoli era usuário ocasional, inclusive de heroína, mas pelo menos subia no palco com o grupo e nunca tinha colocado o Can em problemas (a não ser quando algum traficante fazia o músico esperar por horas e alguma coisa embolava o meio de campo do grupo). Ainda assim ficou bacana. Rolou até uma versão de treze minutos de The lady came from Baltimore no Drury Lane.
O blog Exile On Moan Street divulgou há um tempinho um arquivo zipado com as músicas desses shows do Can com Hardin, mais algumas raridades do grupo alemão. Foi um encontro bem estranho e bacana, mas que não acabou muito bem: testemunhas contam que logo depois do show do Drury Lane, Tim e Holger Czukay começaram uma discussão violenta que descambou para a briga, e terminou com o cantor de If I were a carpenter atirando um aparelho de TV contra o parabrisa de um carro. Ninguém se recorda bem dos motivos da discussão, mas a parceria acabou aí.
Já que você chegou até aqui, pega aí o Can em 1975 no Old Grey Whistle Test, tocando Vernal equinox, com Irmin Schmidt dando golpes de karatê (?) no teclado.
https://www.youtube.com/watch?v=GVHDKs-AgB0
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.
Cultura Pop
R.E.M. recorda os 44 anos do primeiro contrato com uma gravadora

No dia 31 de maio de 1982, a gravadora I.R.S. enviava um press release avisando que havia assinado com o R.E.M., “uma banda de Athens, Georgia, aclamada pela crítica”. E já anunciava que no dia 26 de agosto sairia o EP Chronic town, com as faixas 1,000,000, Stumble, Wolves, lower, Gardening at night e Carnival of sorts (Boxcars). A foto de imprensa, em preto e branco, trazia Peter Buck (guitarra), Mike Mills (baixo), Bill Berry (bateria) e Michael Stipe (vocais) com visual pós-adolescente.
“O EP vai ser seguido por um álbum no ano que vem. O R.E.M. planeja fazer uma turnê pelo Oeste do país durante o verão, seguida pelos estados da Costa Leste e do Canadá durante o Outono”, avisava a gravadora, oferecendo também o contato da empresária Betsy Alexander, primeira pessoa a cuidar profissionalmente do grupo, ajudando em contatos, logística e gestão. O release só errava na ordem das músicas do EP, que possivelmente ainda não estava decidida (Chronic town também saiu dividido em duas partes, com lado A nomeado Chronic town e lado B com nome Poster torn)
O contrato era de longo prazo e previa cinco discos – ou seja, tudo que saiu do grupo até Life’s rich pageant, o quarto álbum, de 1986. Depois disso, o grupo renegociou e lançou o quinto disco, Document, de 1987 – mas acabou migrando para a Warner e terminando o contrato com a coletânea Eponymous (1988).
A I.R.S. tinha sido criada em 1979 por Miles Copeland III, irmão de Stewart Copeland, baterista do The Police. O selo vinha da cena punk/new wave britânica e funcionava como uma espécie de ponte entre o underground e uma estrutura profissional de distribuição via A&M (a gravadora do Police, por acaso).
Na época em que o R.E.M. assinou, a I.R.S. já tinha grupos como Wall of Voodoo, Oingo Boingo, The Go-Go’s e The English Beat. Era um selo muito ligado a college radio, pós-punk, new wave e à ideia de independência artística. Depois, virou praticamente sinônimo do rock universitário americano dos anos 1980 por causa do próprio R.E.M.
A entrada da banda na gravadora aconteceu muito por conexões da cena. O empresário/agente Ian Copeland, irmão de Miles e Stewart, já acompanhava o grupo desde os primeiros shows em Athens. O baterista Bill Berry tinha trabalhado para Ian em Macon como roadie e serviços-gerais, e mantinha contato com ele. Isso ajudou o R.E.M. a conseguir shows de abertura para bandas maiores, como The Police e Gang of Four, até chamar atenção da I.R.S.
E olha o post comemorativo do R.E.M. aí.
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Cultura Pop
George Harrison em 2001: “O que é Eminem?”

RESUMO: Em 2001, George Harrison participou de chats no Yahoo e MSN para divulgar All Things Must Pass; com humor, respondeu fãs poucos meses antes de morrer – e desdenhou Eminem (rs)
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução YouTube
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“Que Deus abençoe a todos vocês. Não se esqueçam de fazer suas orações esta noite. Sejam boas almas. Muito amor! George!”. Essa recomendação foi feita por ninguém menos que o beatle George Harrison no dia 15 de fevereiro de 2001 – há 25 anos e alguns dias, portanto – ao participar de dois emocionantes chats (pelo Yahoo e pelo MSN).
O tal bate-papo, além de hoje em dia ser importante pelos motivos mais tristes (George morreria naquele mesmo ano, em 29 de novembro), foi uma raridade causada pelo relançamento remasterizado de seu álbum triplo All things must pass (1970), em janeiro de 2001. George estava cuidando pessoalmente da remasterização de todo seu catálogo e o disco, com capa colorida e fotos reimaginadas, além de um kit de imprensa eletrônico (novidade na época), era o carro-chefe de toda a história. O lançamento de um site do cantor, o allthingsmustpass.com, também era a parada do momento (hoje o endereço aponta para o georgeharrison.com).
Os dois bate-papos tiveram momentos, digamos assim, inesquecíveis. No do Yahoo, George fez questão de dizer que era sua primeira vez num computador: “Sou praticamente analfabeto 🙂 “, escreveu, com emoji e tudo. Ainda assim, um fã meio distraído quis saber se ele surfava muito na internet. “Não, eu nunca surfo. Não tenho a senha”, disse o paciente beatle. Um fã mais brincalhão quis saber das influências dos Rutles, banda-paródia dos Beatles que teve apoio do próprio Harrison, no som dele (“tirei todas as minhas influências deles!”) e outro perguntou sobre a indicação de Bob Dylan ao Oscar (sua Things have changed fazia parte da trilha de Garotos incríveis, de Curtis Hanson). “Acho que ele deveria ganhar TODOS os Oscars, todos os Tonys, todos os Grammys”, exultou.
A conta do Instagram @diariobeatle deu uma resumida no chat do Yahoo e lembrou que George contou sobre a origem dos gnomos da capa de All things must pass, além de associá-los a um certo quarteto de Liverpool. “Originalmente, quando tiramos a foto eu tinha esses gnomos bávaros antigos, que eu pensei em colocar ali tipo… John, Paul, George e Ringo”, disse. “Gnomos são muito populares na Europa. E esses gnomos foram feitos por volta de 1860”.
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A ironia estava em alta: George tambem disse que se começasse um movimento como o Live Aid ajudaria… Bob Geldof (!)., o criador do evento. Perguntado sobre se Paul McCartney ainda o irritava, contemporizou: “Não examine um amigo com uma lupa microscópica: você conhece seus defeitos. Então deixe suas fraquezas passarem. Provérbio vitoriano antigo”, disse. “Tenho certeza de que há coisas suficientes em mim que o irritam, mas acho que já crescemos o suficiente para perceber que nós dois somos muito fofos!”. Um / uma fã perguntou sobre o que ele achava da nominação de Eminem para o Grammy. “O que é Eminem?”, perguntou. “É uma marca de chocolates ou algo assim?”.
Bom, no papo do MSN um fã abusou da ingenuidade e perguntou se o próprio George era o webmaster de si próprio. “Eu não sou técnico. Mas conversei com o pessoal da Radical Media. Eles vieram à minha casa e instalaram os computadores. Os técnicos fizeram tudo e eu fiquei pensando em ideias. Eu não tinha noção do que era um site e ainda não entendo o conceito. Eu queria ver pessoas pequenas se cutucando com gravetos, tipo no Monty Python”, disse.
Pra ler tudo e matar as saudades do beatle (cuja saída de cena também faz 25 anos em 2026), só ir aqui.
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