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Crítica

Ouvimos: Florist, “Jellywish”

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O Florist é “um projeto de amizade, vindo das montanhas Catskill” – uma região montanhosa do sul de Nova York, onde se localiza a cidade de Bethel, que abrigou em 1969 o festival de Woodstock. É também um grupo que mexe com as seguranças e as dúvidas de quem o escuta. Jellywish, segundo disco do Florist, é sem dúvida um disco que estabelece uma relação de proximidade com o/a ouvinte, entre violões, teclados, percussões discretas e os vocais angelicais de Emily Sprague.

Mas aí você escuta Levitate, a primeira faixa, um folk tranquilo relacionado com Joan Baez, e depara com os versos: “todo dia eu acordo, espero pela tragédia / humanidade desequilibrada / alguma coisa deveria ser prazerosa quando o sofrimento está em toda parte”. Have heaven, folk percussivo na onda de Peter Gabriel e Cat Stevens, mas com certo design sombrio, prega que “logo logo não seremos nada mais do que um desenho animado / flutuando pelo universo”. Jellyfish, folk meio Bob Dylan meio Joan Baez, com guitarra coberta de efeitos e pandeirola, enxerga a luz no fim do túnel (“sua vida vale muito / destrua o sentimento de que você não é o suficiente”), mas faz pausa dramática depois do verso “nada é garantido, só a morte”.

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E é nesses extremos que vai patinando Jellywish, um disco de consolo, mas que fala de sofrimento e dureza como se os músicos da banda tivessem 60 anos, e não uns trinta e poucos. Started to glow é um folk irremediavelmente triste que prega “estou pensando em morrer de novo / é a única coisa que visita minha cabeça”. Em This was a gift, Emily despedaça a voz cantando que “você pode me descrever como se sente estando vivo? / só os mortos sobrevivem”.

O som de Jellywish vai ficando menos introspectivo e pouca coisa mais “pra cima” no clima Wilco-Nando Reis de All the same light, na infantil Sparkle song e na ligeiramente esperançosa Our hearts in a room. Mas a cara do disco é mesmo formada por músicas como Moon, sea, devil, balada folk com micropontos de Knockin on heaven’s door (Bob Dylan) e versos que descrevem a total falta de conexão: “eu olho para fora, há alguém aí? / posso ver através desse véu? / ou estou sozinho agora?”. Ouça quando nada puder te deixar mal.

Nota: 7,5
Gravadora: Double Double Whammy
Lançamento: 4 de abril de 2025.

Crítica

Ouvimos: Martin Carr – “What future”

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Resenha: Martin Carr – “What future”

RESENHA: Martin Carr troca o britpop dos The Boo Radleys por eletrônica, dub e experimentalismo político em What future.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Sonny Boy Records
Lançamento: 1 de maio de 2026

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Principal letrista dos Boo Radleys até 1999 (ano em que deixou a banda), Martin Carr lembra bem pouco o som do grupo em seu trabalho solo – que é predominantemente eletrônico e experimental. What future, o novo álbum, segue a trilha do radicalismo sonoro e da porrada política, misturando notícias de TV, gravações aleatórias, beats eletrônicos e ondas que chegam perto do reggae e do dub. Ele diz inclusive que o disco surgiu da necessidade de mostrar em vez de contar, e que percebeu que suas letras sempre foram sobre a mesma coisa.

Martin passou um bom tempo trabalhando com trilhas pra TV e dá pra sentir um pouco disso no clima telejornal de Amerikkka is not your friend, tema eletrônico e experimental que ganha ares de dub e post rock, e no loop de percussões e sons melódicos de Canton rockers. Connie Converse is playing at my house, por sua vez, abre lembrando um teste sonoro, mas vai ganhando um beat de soul andarilho, e uma onda de beleza musical do meio para o fim. Diana F e Hex vão do pot rock eletrônico ao blues infernal e distorcido.

What future tem ainda as sombras e luzes de In the hall e New Brighton Baths 1983, mas une dub, ambient e festa soul em She came in through the Overton window e Strange now, encerrando com o synth-não-pop da faixa-título, uma música dançante e fria. Mal dá pra reconhecer o britpop dos Boo Radleys aqui, e Martin Carr busca um caminho bem novo pra sua música.

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Crítica

Ouvimos: Ghost Valley – “Ghost Valley” (EP)

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Resenha: Ghost Valley – “Ghost Valley” (EP)

RESENHA: Post-rock minimalista e doce: Ghost Valley mistura ambient, pós-punk e synth pop em climas belos e hipnóticos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Bud Tapes
Lançamento: 4 de abril de 2026

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“Vale Fantasma” é um ótimo nome. O Ghost Valley vem de Portland, Oregon, e faz algo próximo do post-rock. É um som (vá lá) experimental, sem dúvida, mas é bonito, doce e minimalista. Como na abertura com El matador e na onda ambient de Glass nebula / Furnace creek, com teclado ambient na introdução, e toques musicais que lembram o Kraftwerk da era Autobahn (1974), em que a banda ainda usava guitarras. Aos poucos, essa música vai ganhando dedilhados e até uma guitarra slide tipicamente pinkfloydiana.

Vão rolando modificações aos poucos no contexto do Ghost Valley: Vampyre é pós-punk introvertido e chuvoso, com beat mais do que minimalista e guitarra circular – uma música que parece ter sido gravada num quarto. Fear & loathing é quase progressiva, com guitarras em clima relax e um baixo que ajuda a dar sensação de completude no arranjo – até que ganha mais peso, intensidade e ar de interferência sonora. Tem ainda o synth pop doce de Topanga e o drone celestial de Airline sunset, com oito minutos. Uma beleza.

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Crítica

Ouvimos: Tears Of A Martian – “Light II dark”

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Resenha: Tears Of A Martian – “Light II dark”

RESENHA: Tears Of A Martian mistura neo soul, indie e pop punk em estreia nostálgica, densa e elegante, com ecos de Amy Winehouse, Smiths e Khruangbin.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 8 de maio de 2026

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O Tears Of A Martian é um projeto musical criado por uma cantora e compositora de Detroit chamada Arianna Bardoni. O nome é usado por ela desde 2018, já rendeu alguns singles e EPs, e Light II dark é o primeiro álbum. Apesar do clima meio punk da capa, o som tem uma onda bem mais variada. Arianna, na voz e na guitarra, e a turma que toca com ela faz uma espécie de neo soul + jazz + pop punk, quase como se o disco fosse pensado para ser lançado em 1997 ou 1998, mas esperando para ser complementado por algum produtor mainstream. Faixas como o soul esparso Knock me down e o r&b indie e minimalista Dik têm clima de época, mas simultaneamente têm arranjos cheios de eco e ambiência, que apontam até para bandas como Khruangbin.

Músicas como Tower e Spotless mind fazem com guitarras quase limpas, baixo e bateria uma recriação da estileira soul-folk que tornou Corinne Bailey Rae famosa, enquanto Men é um rock + r&b oitentista com guitarras lembrando Smiths e interpretação análoga à de Amy Winehouse, mas bem mais contida. Um lado mais roqueiro, denso e tenso se avizinha do Tears Of A Martian em duas músicas que não abandonam o lado neo soul do projeto, Litltle blue flowers e Reel / Real. Nas letras, Arianna vai do amor ao humor em poucos minutos.

Light II dark é um disco bem underground e o Tears Of A Martian são o tipo de banda que ainda não foi abraçada pela coolzice indie. É a melhor hora pra se descobrir uma banda – mas por enquanto o som esparso e as guitarras tranquilas (na maior parte do tempo) são a cara do grupo, e algo a não ser perdido na mão de algum produtor.

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