Cultura Pop
10 Minute Warning: quando Duff McKagan fez parte da onda de Seattle

Não fosse por Duff McKagan, do Guns N Roses, Stone Gossard (Pearl Jam) não teria aprendido a tocar guitarra. Bom, quase isso: o músico sempre credita a uma banda punk chamada 10 Minute Warning, formada em Seattle em 1982, e que incluía o futuro baixista da banda de Sweet child o’mine em sua formação, o fato de ter começado a se dedicar ao instrumento.
O 10 Minute Warning surgiu cedo demais para fazer parte da onda de Seattle e não chegou a desfrutar nem um pouco do sucesso que as bandas da cidade norte-americana passaram a fazer. Na real, surgiu no cenário quando a “cena” de Seattle não era nem exatamente uma cena, nem tinha um número de artistas suficiente para dominar mercado algum.
Apesar de ter feito sucesso numa banda de hard rock criada em Los Angeles, Duff nasceu em Seattle e deu seus primeiros passos no rock por lá. Até aquele momento, tivera grupos como The Vains, que chegou a gravar um single em 1980, e The Living, que abriu para bandas como Hüsker Dü. Tocou também bateria nos Fastbacks e no The Fartz, que depois virou o 10 Minute Warning.
O 10 Minute durou até 1984 e pertence àquele número significativo de bandas que existiram ou não existiram, dependendo do seu ponto de vista. Duff (guitarra, durante o período curto em que passou pelo grupo) Steve Verwolf (vocais), Paul Solger (guitarra), David Garrigues (baixo) e Greg Gilmore (bateria) fizeram poucos shows e tiveram formação variável. Chegaram a ter Henry Rollins, do Black Flag – por sinal idolatrado em Seattle – na plateia. O futuro cantor da Rollins Band chegou a dizer que a banda reunia influências de psicodelia o suficiente para ser considerada um Hawkwind punk.
O 10 Minute Warning chegou a ter promessas de gravação do selo Alternative Tentacles, de Jello Biafra, e gravou um disco que nunca foi lançado, com músicas como Last dream, Again, Life, Stooge, Necropolitan affair, Echoes, Disraeli, Heaven, Woke up dreaming e Memories gather dust. além de uma releitura de The Nile song, do Pink Floyd. Também gravou demos em 1983.
O material foi pirateado, chegou às mãos de alguns fãs e de curiosos alguns anos depois e está no YouTube. Nas demos de 1983, a formação era Duff McKagan e Paul Solger nas guitarras, Greg Gilmore na bateria, Steve “Swad” Verwolf nos vocais e David Garrigues no baixo.
No disco arquivado de 1984, Duff já não estava mais no grupo e a formação era Steve Verwolf (vocais), Paul Solger (guitarra), Daniel House (baixo) e Greg Gilmore (bateria). Olha aí a tal versão deles para Nile song.
Disco de verdade do 10 Minute Warning, só mesmo em 1998. Nessa época, Duff já tinha saído do Guns N Roses,voltado para Seattle, se reconectado com antigos amigos, e esbravejava para quem pudesse ouvir o quanto Axl Rose tinha cagado com a história da banda, que estava atrasada havia vários anos para lançar um novo disco – que seria Chinese democracy, lançado apenas em 2008.
“O grupo se tornou autoritário, só valia a opinião de Axl”, afirmou num papo com a Bizz em junho de 1999. “Axl se tornou egocêntrico porque diversas pessoas ficam babando seu ovo, dizendo que ele sempre está certo. Elas têm medo dele porque não querem perder seus empregos. Se eu ficasse com Axl, estaria contradizendo minha personalidade”.
Duff foi procurado pelo selo Sub Pop com a proposta de lançar um disco do 10 Minute Warning, porque a gravadora já havia lançado todos os grupos históricos de Seattle, menos a banda de Duff. Reuniu-se com Paul Solger (guitarra), David Garrigues (baixo) e Greg Gilmore (bateria) e, na falta de Steve Werwolf (que havia sido preso com drogas e ainda cumpria mandado), convidou Christopher Blue para o vocal. 10 Minute Warning saiu em 5 de maio de 1998 pela Sub Pop com nove faixas, entre elas músicas que haviam sido gravadas por The Fartz, Is this the way e Buried.
McKagan disse que a ideia não era sair em turnê, e na época ele amargava dois problemas piores do que uma futura tour de sua ex-banda: o Guns cagado e o engavetamento de seu segundo disco solo, Beautiful disease (1999), perdido no meio da fusão entre a PolyGram e a Universal. De qualquer jeito rolaram alguns shows. Olha eles aí no festival Pain In The Grass, em Seattle, em 1998.
https://www.youtube.com/watch?v=oWSnrVAgxDA
Cultura Pop
“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.
Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.
Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.
O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.
Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.
Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.
Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.
“Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.
Cultura Pop
R.E.M. recorda os 44 anos do primeiro contrato com uma gravadora

No dia 31 de maio de 1982, a gravadora I.R.S. enviava um press release avisando que havia assinado com o R.E.M., “uma banda de Athens, Georgia, aclamada pela crítica”. E já anunciava que no dia 26 de agosto sairia o EP Chronic town, com as faixas 1,000,000, Stumble, Wolves, lower, Gardening at night e Carnival of sorts (Boxcars). A foto de imprensa, em preto e branco, trazia Peter Buck (guitarra), Mike Mills (baixo), Bill Berry (bateria) e Michael Stipe (vocais) com visual pós-adolescente.
“O EP vai ser seguido por um álbum no ano que vem. O R.E.M. planeja fazer uma turnê pelo Oeste do país durante o verão, seguida pelos estados da Costa Leste e do Canadá durante o Outono”, avisava a gravadora, oferecendo também o contato da empresária Betsy Alexander, primeira pessoa a cuidar profissionalmente do grupo, ajudando em contatos, logística e gestão. O release só errava na ordem das músicas do EP, que possivelmente ainda não estava decidida (Chronic town também saiu dividido em duas partes, com lado A nomeado Chronic town e lado B com nome Poster torn)
O contrato era de longo prazo e previa cinco discos – ou seja, tudo que saiu do grupo até Life’s rich pageant, o quarto álbum, de 1986. Depois disso, o grupo renegociou e lançou o quinto disco, Document, de 1987 – mas acabou migrando para a Warner e terminando o contrato com a coletânea Eponymous (1988).
A I.R.S. tinha sido criada em 1979 por Miles Copeland III, irmão de Stewart Copeland, baterista do The Police. O selo vinha da cena punk/new wave britânica e funcionava como uma espécie de ponte entre o underground e uma estrutura profissional de distribuição via A&M (a gravadora do Police, por acaso).
Na época em que o R.E.M. assinou, a I.R.S. já tinha grupos como Wall of Voodoo, Oingo Boingo, The Go-Go’s e The English Beat. Era um selo muito ligado a college radio, pós-punk, new wave e à ideia de independência artística. Depois, virou praticamente sinônimo do rock universitário americano dos anos 1980 por causa do próprio R.E.M.
A entrada da banda na gravadora aconteceu muito por conexões da cena. O empresário/agente Ian Copeland, irmão de Miles e Stewart, já acompanhava o grupo desde os primeiros shows em Athens. O baterista Bill Berry tinha trabalhado para Ian em Macon como roadie e serviços-gerais, e mantinha contato com ele. Isso ajudou o R.E.M. a conseguir shows de abertura para bandas maiores, como The Police e Gang of Four, até chamar atenção da I.R.S.
E olha o post comemorativo do R.E.M. aí.
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