Como você já deve saber, Adam West, o eterno Batman da série de TV, saiu de cena nesta sexta (09) aos 88 anos, após uma longa batalha contra a leucemia. O ator nascido em Walla Walla, Washington, em 19 de setembro de 1928 (seu nome verdadeiro era William West Anderson) participou de um monte de seriados, fez filmes e muitas dublagens – mais recentemente, passou por animações como Padrinhos Mágicos e Uma Família da Pesada. Mas o Homem-Morcego, que encarnou entre 1966 a 1968, acabou virando sua principal atuação – no Brasil, a série foi reprisada várias vezes.

Dos anos 1990 para cá, West também foi descoberto pelo mundo dos videogames. Em 1996, fez atuações no jogo de simulação Golden Nuggett, do PlayStation. Sua voz apareceu também em games como XIII, Scooby Doo! Unmasked e Champions Online. Em 2014, interpretou ele mesmo, e também a versão anos 1960 do seriado Batman, no game Lego Batman 3: Beyond Gotham.

E pra quem não sabe, o universo dos videogames tem uma dívida de gratidão com Adam West. O ator norte-americano gostava bastante de games e em julho de 1983 – ano de lançamento, pela Nintendo, do hoje clássico Mario Bros. – expressou seu entusiasmo por eles, num artigo para a revista Videogaming and Computergaming Illustrated. O texto figurava na seção de editorialistas convidados, ao lado de um artigo escrito pelo intérprete do herói mascarado Cavaleiro Solitário, Clayton Moore. Se você ama e valoriza verdadeiramente videogames, prepare-se para levar um susto: o eterno Batman previu que em algum tempo eles seriam mais do que apenas diversão.

“Mexo em computadores já há muito tempo. Tive computadores de mesa em Robinson Crusoé Em Marte, e aprendi num episódio da série de TV A Quinta Dimensão que você não consegue sobreviver no Planeta Vermelho sem eles. Também tive computadores no meu capuz de Batman, na série de TV. Tivemos um Batsorter Digital, Um Decrifrador de Escrita Secreto químico e elétrico, um gravador intergalático e outros implementos bem avançados.

Em 1966, quando Batman estava em sua terceira temporada, isso tudo era ficção científica. Computadores eram brinquedos de pesquisadores do MIT, satélites eram apenas para que houvesse comunicação com pioneiros da Apollo ou da Gemini. O único “cabo” no qual eu conseguia pensar era o que carregava os impulsos telefônicos direto da Europa, ou para ela (e agora isso foi substituído por um esquema eficiente de satélites).

Videogames? Nos anos 1960, isso era compreendido como To Tell The Truth ou What’s My Line? (jogos televisivos clássicos norte-americanos, no modelo do que é feito até hoje por Silvio Santos).

Hoje em dia, muito do aparato que tínhamos em Batman – só que com nomes menos imponentes – é fato. E somos sortudos por causa disso.

Minha fascinação atual por videogames não deriva da afeição pessoal. Prefiro fazer exercícios e esquiar do que jogar videogames. Mas é uma preferência pessoal, não um juízo de valor. Costumo pensar que videogames são uma maneira ideal de expandir as fronteiras da imaginação dos jovens.

Tome como exemplo o Batman. Nosso programa sempre dá boa audiência toda vez que é exibido, e fico feliz de vez que as audiências relativamente sofisticadas de hoje apreciam a união particular de humor e ação que colocamos em cada episódio. E ainda assim, eu gostaria de ver um videogame que mostrasse Batman como ele foi concebido em 1939: uma criatura sombria da noite.

Mais uma vez digo que eu, pessoalmente, gostaria mais de fazer o personagem do que de jogar o videogame. Mas para todas as outras pessoas que não têm essa opção, videogames são uma excelente maneira de experimentar a emoção e o desafio de ser uma extraordinária figura como essa.

Desnecessário dizer que personagens de aventura deveriam ser apenas uma das facetas dos videogames. Da mesma forma que uma pintura nos permite olhar as faces e as almas das pessoas de outras eras, ou um livro permite que nos demoremos nos pensamentos de pessoas da História ou da ficção, videogames podem expandir nossa consciência de como o mundo é, ou de como ele poderia ser.

É um meio que ainda está em sua infância, mas leia isso de novo em alguns anos e veja se essa previsão não virou verdade: à medida que os videogames forem amadurecendo, nós iremos amadurecer”.

Você lê a edição da revista inteira nesse arquivo de PDF aqui (obrigado, Internet). Uma usuária do Twitter fez uma print do texto de West e postou – confira abaixo.