Crítica
Ouvimos: Wolf Alice – “The clearing”

RESENHA: Wolf Alice busca o sossego pop em The clearing, mas entrega um disco entre o indie e o mainstream, cheio de boas ideias e tensões.
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Começar uma resenha falando primeiro o nome do produtor, e depois o do artista… Bom, isso é feio pra burro, mas tendo o experiente Greg Kurstin por trás das gravações de seu quarto disco, The clearing, o Wolf Alice deixa claro que a ideia é estourar ou estourar. O grupo britânico tem fãs à beça, é adorado em seu país de origem, tem músicos ótimos e uma vocalista sensacional (Ellie Rowsell), mas até agora não se tornou uma “coisa” pop de verdade, com tamanho gigante.
O site Pitchfork afirmou que o grande problema do Wolf Alice é que a banda nunca tinha conseguido ter uma música dessas que as pessoas vão gostar de cantarolar, e que até os pais dos fãs vão conhecer. Faz sentido: os discos anteriores eram cheios de candidatos ao posto, mas a coisa não andava. Para compensar, The clearing basicamente põe a banda na linha easy listening + pop clássico + soft rock que vem dando super certo do indie ao mainstream – o que já poderia garantir ao grupo esse fator pop até debaixo d’água.
O tal candidato a superhit dessa vez é Bloom baby bloom, uma espécie de ELO + Queen selvagem, com um piano irresistível dando o ritmo – e dando também peso ao lado de bateria e guitarra. Saiu em single e ganhou clipe. The clearing tem qualidades aos montes, mas o que muitas vezes parece pop no novo disco do Wolf Alice, na verdade, é o destaque pop do indie – que é bem melhor do que fazer parte do fim da fila do mainstream.
É o que rola por exemplo no Elton John fantasmagórico de Thorns, no pop de rádio jazzístico e mágico de Just two girls, e na vibe Todd Rundgren + Hollies + Elton John, mas com som pesado e distorcido, de Bread butter tea sugar. Você consegue gostar bastante dessas músicas. O problema é imaginá-las furando o bloqueio do mundo ultrapop, que requer uma noção bem exata da linha fina entre o banal e o sofisticado.
As músicas mais bonitas do disco dão um ar de “essa é a minha banda” para o Wolf Alice, o que indica que no fundo, o grupo tem menos vontade de virar uma sensação pop do que parece – nessa onda, tem o country de Leaning against the wall, a tristezinha de Play it out e Midnight song, o clima sixties de Safe in the world e Passenget seat… E tem também a ótima The sofa, música que possivelmente foi criada pela banda (ao lado do produtor Greg Kurstin) com a mesma intenção de ultrapassar limites. Ganhou até clipe estiloso.
Talvez dê certo – alias The sofa tem um apelo heartland bem interessante na letra, com Ellie dizendo que não quer domesticar “a coisa selvagem” nela, e que não trocaria seu sossego britânico pelo agito da Califórnia. Ok, soa como se Ellie, na busca de algo que possa causar identificação no público norte-americano, estivesse tentando encontrar algo parecido com Nashville ou com Nova Jersey lá pelo Norte de Londres. Fazendo abstração, parece uma baita forçação de barra.
Uma curiosidade em The clearing é White horses, música cantada pelo baterista Joel Amey, com clima maníaco herdado do krautrock e letra falando de um assunto bem espinhoso – como sua mãe e sua tia foram adotadas, ele não sabia direito as histórias de sua origem. Uma música de vibe pesada num disco pretensamente tranquilo, e um sinal de que o Wolf Alice talvez esteja tentando calar algo que grita dentro deles. The clearing provavelmente não vai ser o grande salto do Wolf Alice, mas vai acabar levando a banda a algo diferente e bom. A ver.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: RCA/Sony Music
Lançamento: 22 de agosto de 2025
Crítica
Ouvimos: Automatic – “Is it now?”

RESENHA: Automatic mistura synthpop gelado e pós-punk dançante em Is it now?: muitas referências, mas identidade própria e letras de recusa ao padrão.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Stones Throw Records
Lançamento: 26 de setembro de 2025
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Formado pelo trio Izzy Glaudini, Halle Saxon e Lola Dompé, o Automatic faz música como se criasse seu próprio som – ou como se usasse referências apenas na base do “eu achei legal, mas mudaria tudo”. Ouvindo Is it now?, é meio claro que bandas como Slits, Japan e Suicide foram ouvidas pelas três em algum momento (nesse papo na comunidade do reddit Indie Heads, Gary Numan foi igualmente citado), mas a colagem foi realizada de um jeito tão particular que dá para imaginar que se usassem IA, iam enlouquecer o sistema.
Vai daí que o synthpop estilingado e pontiagudo delas envolve pós-punk dançante e sustentado pelo baixo (Black box, Lazy, o beat eletrônico rudimental de Don’t wanna dance, o voo controlado de The prize), sons que lembram Ultravox, Talking Heads e o começo sombrio do Human League (PlayBoi, Smog summer, o eletropop alemão de Country song), coisas entre o pós-punk e a psicodelia (a flautinha de mq9, a vibe quase dub de Mercury). O teclado entra para dar uma onda “gelada” em meio ao clima bem pé-no-chão do baixo e da bateria, como se cumprisse a cota de climas mais viajantes no som. De bandas mais novas, dá para perceber algo linkado a Bravery e Arctic Monkeys na faixa-título, marcada também por vocais maquinados e onda meio krautrock.
Na letra de Is it now?, a faixa-título, dá para sentir que o Automatic propõe antes de tudo um manifesto estético – da mesma forma que Re-make / Re-model, do Roxy Music, propunha mudar tudo e enxergar beleza onde o movimento hippie poderia ver caretice ou sujeira. “Corte o cabelo com tesoura de cozinha / novo visual, uma imagem diferente / de segunda mão, não de televisão / shoppings, eles te tornam cruel”, avisam elas. Don’t wanna dance mostra que elas, de fato, não querem se parecer com todo mundo: “as luzes estão me cegando / eu não quero dançar, estou me escondendo / cada momento aqui me lembra que / eu não quero dançar”. Um “não é não” musical, de fino trato e em alto volume.
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Crítica
Ouvimos: Carlos Dafé, Adrian Younge – “Carlos Dafé JID025”

RESENHA: Carlos Dafé e Adrian Younge unem soul e samba em JID025, disco setentista, orquestral e psicodélico que reencontra passado e presente.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Jazz Is Dead
Lançamento: 17 de outubro de 2025
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Enxergando o soul e o balanço brasileiros como um precioso álbum de figurinhas, o norte-americano Adrian Younge vem fazendo uma série de lances especiais: vem por aí um álbum gravado ao lado de Antonio Carlos & Jocafi, e já saíram discos feitos com Hyldon e Dom Salvador, além de um solo cheio de convidados. E tem também JID025, gravado ao lado de Carlos Dafé, uma das melhores vozes da história da MPB, e um dos compositores mais hábeis no oscilar entre soul e samba.
JID025 parece um disco que Dafé adoraria ter lançado nos anos 1970: Amor enfeitiçado, logo na abertura, tem psicodelia nos acordes de guitarra, mudanças de tom e clima de abertura antiga de novela. E um pouco de paz, com recordações do som de Cassiano, lembra tema de filme policial. Bloco da harmonia tem metais e cordas vibrando junto com a percussão, além de lembranças do lado sambista de Dafé, compositor já gravado por Alcione e Nana Caymmi – embora a canção ganhe clima sombrio no fim. Jazz está morto une jazz, soul e grandiloquência herdada de Isaac Hayes e do Marvin Gave do disco What’s going on (1971). Cítara e harpa marcam o início de Verdadeiro sentimento, balada como as dos discos setentistas de Dafé.
Do começo ao fim, JID025 soa como um flashback turbinado e ácido, que também aponta para o Funkadelic em O baile funk vai rolar, e ganha ar voador em É real… é verdade, no samba orquestral Esse som é verdadeiro e na declamada Como entender o amor. Um reencontro entre passado e presente.
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Crítica
Ouvimos: Period Bomb – “Cuntageous”

RESENHA: Period Bomb, de Camila Alvarez, retoma o riot grrrl com inclusão e barulho experimental. O EP Cuntageous mistura egg punk e críticas diretas ao machismo.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Crass Lips Records
Lançamento: 2 de dezembro de 2025
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No Brasil ainda não tem muita gente comentando a respeito do Period Bomb – uma pena. Esse projeto estadunidense criado pela musicista Camila Alvarez reavivou o cenário riot grrrl em Los Angeles nos últimos 15 anos, e já lançou discos como Permanently wet (2020) e o EP 24-carat clit (literalmente, “clitóris de 24 quilates”, que saiu em janeiro do ano passado). Um dos trabalhos dela foi ajudar a incluir mulheres trans e mulheres negras que se sentiram excluídas das ondas riot grrl anteriores – como a própria Camila conta nessa entrevista.
- Ouvimos: Ratboys – Singin’ to an empty chair
Cuntageous, o EP mais recente do Period Bomb, não economiza em duas coisas: sons experimentais e dedo na cara de homens babacas. Em alguns momentos lembra Yoko Ono, em outros parece um som ligado também à onda egg punk, de teclados distorcidos e sujos. Cunty boy (“garoto cuzão”) tem vocais afinados, mas prontos para zoar e meter o malho – lado a lado com programação eletrônica e teclados. Parking ticket junta teclados maníacos e voz com vibe fantasmagórica de brincadeira. Birth of labubu zoa uma das manias de 2025 em clima sonoro que mistura Devo, Yoko Ono e Young Marble Giants.
O Period Bomb faz também samba latino experimental em espanhol, Porriquitico, lembrando Mutantes – e lembrando também o quanto o “não é não” é difícil no dia a dia. No final, os 40 segundos da vinheta-título, fazendo questão de explicar que a babaquice masculina é bastante contagiosa. E é.
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