Lançamentos
Urgente!: Hüsker Dü ressurge em caixa gravada ao vivo em 1985

Se você estranhou essa quantidade de discos ao vivo do Hüsker Dü surgindo nas plataformas – já são dois EPs e um álbum, incluindo as partes 1 e 2 de um show dado no mitológico First Avenue, em Minneapolis, em 30 de janeiro de 1985 – existe uma explicação para isso. O selo Numero Group anunciou que esse material todo, além de alguns discos que estão para sair nas plataformas, vai virar um box chamado The miracle year, com gravações ao vivo do grupo feitas há 45 anos. O material sai em 4 discos de vinil em 7 de novembro e já tá em pré-venda.
Por sinal, 1985 foi um dos anos mais produtivos da história do grupo: o Hüsker Dü lançou os discos New day rising e Flip your wig – e tudo pouco tempo depois de soltar o álbum clássico Zen arcade (1984). Foi também a época em que o Hüsker Dü, em definitivo, se tornaria uma banda mais melódica, fazendo a transição definitiva do hardcore original para sons que influenciariam estilos como o grunge, o emo e o punk pop dos anos 1990.
Também foi um período em que Bob Mould, Grant Hart e Greg Norton não apenas se tornaram uma banda super independente em estúdio (Flip your wig foi inteiramente produzido por Bob e Grant) como também chamaram a atenção da Warner. Tanto que Flip, por muito pouco, não acabou lançado pela multinacional, que assinou com a banda ainda em 1985 – a banda acabou decidindo deixar o álbum com a independente SST e entregou o excelente Candy apple grey para a nova gravadora.
Vale dizer que em 2011, uma parte considerável do acervo do Hüsker Dü se perdeu por causa de um incêndio. “É preciso considerar como uma espécie de milagre secundário que as fitas da First Avenue de 1985 tenham sobrevivido. Elas entregam o auge do Dü a todo vapor, através de material já amado, ainda a anos de consolidar totalmente seu status como um modelo para o futuro arranha-céu do rock alternativo”, afirma a própria Numero Group no texto de lançamento. Por sinal, o release tem apenas uma fala de Greg Norton – aparentemente, Bob Mould não se importou, liberou, mas não se envolveu.
Olha aí a lista de faixas de The miracle year aí. Além das faixas ao vivo, o set vem com um livro de luxo de 36 páginas detalhando o 1985 do Hüsker Dü. “Qual é o som de uma lenda sendo escrita?”, se pergunta o selo (e, ei, temos um episódio do nosso podcast sobre a fase Warner no trio).
SIDE A
1. New day rising
2. It’s not funny anymore
3. Everything falls apart
4. The girl who lives on heaven hill
5. I apologize
6. If I told you
7. Folklore
SIDE B
1. Every everything
2. Makes no sense at all
3. Terms of psychic warfare
4. Powerline
5. Books about UFOs
6. Broken home, broken heart
7. Diane
SIDE C
1. Hate paper doll
2. Green eyes
3. Divide and conquer
4. Pink turns to blue
5. Eight miles high
SIDE D
1. Out on a limb
2. Helter skelter
3. Ticket to ride
4. Love is all around
More Miracles
SIDE E
1. Don’t want to know if you’re lonely
2. I don’t know for sure
3. Hardly getting over it
4. Sorry somehow
5. Eiffel tower high
SIDE F
1. What’s going on
2. Private plane
3. Celebrated summer
4. All work and no play
SIDE G
1. Keep hanging on
2. Find me
3. Flexible flyer
4. Sunshine superman
5. In a free land
6. Somewhere
SIDE H
1. Flip your wig
2. Never talking to you again
3. Chartered trips
4. The wit and the wisdom
5. Misty modern days
Crítica
Ouvimos: Douglas Germano – “Branco”

RESENHA: Em Branco, Douglas Germano mistura samba, Nordeste e experimentação para cutucar a elite: disco político, inventivo e feito para provocar.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 19 de setembro de 2025
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“A Zelite não gosta de forró/ A Zelite no samba, que caô”, diz Zelite, samba nordestino do novo disco do paulista Douglas Germano, Branco. A elite (que surge na faixa como trocadilho) fecha os olhos para estilos como o piseiro e para as renovações da música nordestina – mas cai dentro do que pode ser considerado cult, do que tem passe livre. A mesma elite que…
Bom, milhares de eventos poderiam ser citados aqui, mas vale dizer que Branco, novo disco de Douglas, é tudo ao mesmo tempo: experimentação, samba, nordeste, dedo na cara, verdades nada secretas. Douglas disse (num papo com ninguém menos que Tárik de Souza) ter feito tudo sozinho no estúdio, com alguns convidados e parceiros (Luiz Antonio Simas, Roberto Didio e Alfredo Del Penho entre eles), e que decidiu usar instrumentos de percussão onde eles necessariamente não seriam usados.
Com um clima sonoro que soa primo simultaneamente de Tom Zé e João Bosco, Douglas abre Branco com Na ronda, samba de umbanda com sons rangendo em meio aos acordes, ruídos que lembram algo trilhado no aço. Zelite, além de desmascarar pessoas, cria imagens (“surfista de trem faz vagão virar mar”), enquanto a ágil Tudo é samba, com Loretta Colucci nos vocais, lembra algo feito para Elis Regina. Ramo tem orações e diálogos entre o narrador e uma rezadeira, e a percussiva Ruge leão, troveja Xangô ganha ares de samba-enredo. Uma das faixas que mais ganharam beleza com o coral de dez integrantes que surge no disco.
Mais climas nordestinos surgem em Ode do pode ou não pode, 19 de março e nas evocações de Lenine na melodia e no arranjo de Xaxará. Bala perdida é um samba sombrio, comparando traçantes a luzes na escuridão, enquanto Desbancando Gordon Banks é um samba agitado, cuja letra visita vários mundos ao mesmo tempo. Uma surpresa é Branco, ijexá tocado no piano – cuja mixagem destaca o instrumento como condutor das melodias.
E já que as plataformas digitais não dão ficha técnica, não tem problema: Branco é encerrado com Branco áudio encarte, trazendo todos os créditos do disco em meio a violão e percussão. O fim de um disco feito para cutucar consciências.
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Crítica
Ouvimos: These New South Whales – “Godspeed”

RESENHA: Godspeed mostra os australianos do These New South Whales fazendo um caldeirão de punk: pós-punk, Ramones e anos 1990, som instintivo, cheio de referências.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 28 de novembro de 2025
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Vindo da Austrália, o These New South Whales faz parte de uma geração mais recente do punk – na qual entram também grupos como Home Front e Spiritual Cramp. No caso deles, que lançam agora o quarto álbum, Godspeed, o resultado está mais para um cozidão bem feito e bem atualizado de referências. Ainda que até faça falta a procura de uma onda mais inovadora (território, por sinal, do Home Front), é um som mais instintivo – por sinal, Instinct, segunda faixa de Godspeed, tem guitarra estiligando e sonoridade que une Iggy Pop e Ramones.
A romântica Miss her varia entre pós-punk e Buzzcocks + Ramones. Big machine (a melhor do disco e a que tem mais cara de hit) e R.I.P. me aludem à nova leva de bandas pós-punk. Músicas como a faixa-título e Ecstasy aludem ao rock dos anos 1990, unindo punk, grunge e evocações de Pixies e Therapy?, enquanto a ágil Birdbrain alude a T.S.O.L. e a New Model Army.
Uma curiosidade em Godspeed é Nobody listens, uma espécie de punk sofisticado levado adiante por piano, voz e cordas, e que faz lembrar Changes, hit do Black Sabbath. Já as letras do álbum seguem o mesmo esquema de apelo aos instintos, recomendando mandar um foda-se para as expectativas alheias (Be what U wanna be e justamente Instinct), afastar FDPs de plantão (R.I.P me e a faixa-título) e coisas do tipo. O fato de unir referências e fases do estilo faz o TNSW soar às vezes como uma colcha de retalhos punk – mas os acertos são maiores.
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Crítica
Ouvimos: Jubba – “Caminhos tortos” (EP)

RESENHA: Jubba estreia com o EP Caminhos tortos, lo-fi e shoegaze à la Mac deMarco e DIIV, transformando inquietações em canções deprês e sensíveis.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Slowrecords
Lançamento: 28 de novembro de 2025
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Inspirado em nomes como Mac deMarco e nos cenários lo-fi e shoegaze dos anos 2010 – e volta e meia lembrando a música de bandas como DIIV – Jubba estreia no EP Caminhos tortos pondo música e barulho em deprês, inquietações e altos e baixos pessoais.
O conceito do disco é basicamente a busca de caminhos pessoais, ainda que de forma totalmente distante dos padrões. Tanto que a abertura é com os ruídos e o beat eletronico leve de Ode aos esquisitinhos, música de versos como “eles esperam que eu caia / que eu fique na merda pra sempre” e “não vou mais fingir quem sou”. Climas deprês e vibes da “vida de artista” surgem em Empregos reais, balada de guitarra e de percussão eletrônica, que acaba ficando próxima do pós-punk e do eletrorock, com direito a citação de Teatro dos vampiros, da Legião Urbana.
Há algo de Legião também em Flores no meu quarto, música com beat eletrônico seco, que depois vira algo quase ambient, com guitarras e teclados – quase na cola do final de Fábrica, penúltima música do segundo álbum do grupo, Dois (1986) – e cuja letra fala sobre beleza na amargura e no isolamento. Sensível ganha ares de trip hop, com direito a uma segunda parte bem mais hipnótica. Climas herdados do hip hop lo-fi surgem nos efeitos sonoros de A sensação. No final, a triste balada experimental Eu não sei dizer adeus propõe seguir em frente.
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