“O que era psicodélico nos anos 1960 – descobrir o que está em seu cérebro – é cibernético nos anos 80. Você precisa de acesso a alta tecnologia”, pregava em 1987 ninguém menos que o antigo guru do LSD, Timothy Leary.

Nos anos 1980, os ares yuppies davam cara nova a uma série de ícones da contracultura, do desbunde e da loucura dos anos 1960. Era o que explicava o Grateful Dead fazendo sucesso de verdade (e pela primeira vez) com um canção sobre maturidade, A touch of grey. Ou Lou Reed voltando como garoto propaganda de uma marca de motos. Ou Iggy Pop ganhando um disco de ouro com Blah blah blah (1986). Aliás, tomando um avião e indo para um certo país da América Latina, tinha aqui Rita Lee firme na parceria com Roberto de Carvalho, e Raul Seixas transmutado em astro infantil com O carimbador maluco.

PALESTRANTE

E voltando lá para os Estados Unidos, havia Leary desfrutando do status de palestrante top e showman. E ganhando “até US $ 4.000 por uma aparição na faculdade e US $ 1.500 por shows em clubes de comédia quando as aulas acabam”, como diria uma matéria do Orlando Sentinel. Leary havia feito amizade com uma figura bem estranha, o radialista conservador G. Gordon Liddy, e a dupla nada dinâmica fazia palestras desde 1982.

A ideia era que cada um defendesse pontos de vista antagônicos. No caso, o guru do ácido falava sobre temas como aborto, direitos da comunidade gay e meio ambiente. Pode parecer bizarro hoje em dia, mas essa turnê de palestras fez com que o caixa de Timothy engordasse e ele tivesse uma velhice bem confortável. E com que se interessasse, anos antes da internet virar o dia a dia de todo mundo, por realidade virtual.

A FUTIQUE DO TIMOTHY LEARY

Em 1983, Timothy Leary montou a Futique Inc, uma empresa multimídia que concebia computadores e programas interativos que seguiam o conceito de “headware”. Em seguida, saiu a atividade de estreia da empresa. Era Timothy Leary’s mind mirror, um programa que permitia que você criasse “um retrato de sua personalidade, de seus compatriotas ou de uma pessoa fantasiosa. Você pode comparar essas personalidades e, em seguida, testar seu próprio know-how psicológico. E colocar sua criação de personalidade em várias situações – jardim de infância, um clube de travestis – e prever como isso vai reagir. Então o programa avalia você”. No fim da década, Leary já era visto dando declarações como “os computadores pessoais são o LSD dos anos 1990”, por aí.

NA MTV

O interesse de Leary por novas tendência e seu trânsito entre jovens o levou, em 1987, a se tornar (olha só!) VJ convidado da MTV. A sequência apresentada por Leary incluía Let’s dance, de David Bowie. Aliás, esse era um clipe que ele considerou “realmente pesado”. E que, para Leary, “tem algo a ver com o terceiro mundo e a exploração pelo primeiro mundo, e nossa esperança de que o terceiro mundo fique para trás das câmeras e comece a fazer parte da era cibernética”. Em seguida, vem nada menos que o clipe super high tech de Hard woman, de Mick Jagger.

Isso aí é um trechinho da aparição de Leary na MTV apresentando o clipe de Musique non stop do Kraftwerk. Em seguida, Leary aproveitou para vender um pouco seu peixe. O papa do ácido explicou que o clipe de Jagger tinha efeitos de computador criador por John Whitney Jr (cabeça da Digital Productions, empresa de animação da Califórnia que também fizera efeitos para o filme Labirinto). E que o do Kraftwerk era dirigido pela artista visual Rebecca Allen, pioneira de trabalhos gráficos com computadores.

“São clipes históricos porque é o computador que está colocando a ação na tela. Isso significa que dentro de um ano nossos programas estarão permitindo que você use um computador caseiro e barato como um Amiga, para criar suas próprias animações e seus próprios programas da MTV”, revela.

Via That Eric Alper

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