Crítica
Ouvimos: Guerrinha – “Pobre papigaquígrafo”

RESENHA: Guerrinha lança EP cujo nome é um trava-língua, com som rico: mistura ambient, prog e percussões afro, com clima experimental, jazzístico e cenários envolventes.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 17 de março de 2026
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Até mesmo o próprio Guerrinha (o músico Gabriel Guerra) dá uma travada quando escreve o nome de seu EP novo no Instagram. E por aí dá pra ver grafias diferentes do título, com acento nas letras “a” e “i” (a julgar pela capa do disco e pela maneira como ele foi cadastrado nas plataformas, ambas as grafias são oficiais).
Seja como for, ao contrário de momentos anteriores em que o som dele chegou a fazer lembrar um city pop bem experimental e jazzístico, o som de Pobre papigaquígrafo tem mais a ver com algo que fica entre o progressivo e o ambient com percussões afro, drones, sons de steel drums, e algumas distorções – não no sentido de saturações sonoras, mas de perturbação de padrões.
- Ouvimos: Juvi – O sonho da lagosta
Esse é o som de faixas com títulos curiosos como Então se criou uma possibilidade, Ou fada ou pagoda?, e o quase post rock Conglomerado dazeitonas – em algum momento dos anos 1980, até por causa da percussão, essa música ganharia o rótulo de “world music” ou algo do tipo. Mil consequências mergeadas, que faz lembrar o som do álbum Exposição popular (2024), tem percussão forte, ao lado do baixo, num clima quase jazz soul, ou smooth jazz, só que instrumental. Seis por oitentesco é uma estranha valsa sombria e ambient, e Castas bloqueadas por uma sombra, uma espécie de jazz progressivo, tem sons de flauta e sugere um passeio pelas matas.
No Instagram, Guerrinha adianta sobre Pobre papigaquígrafo que “esperem drones, esperem fretless, esperem a flauta, esperem a percussão tao ralentada que parece ter vinda do pântano”, e diz que o disco é tão difícil de ouvir quanto pronunciar o nome dele. Exagero: tem muitos cenários musicais bem atraentes no EP.
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Crítica
Ouvimos: Make – “Exegesis at the end of time”

RESENHA: Após dez anos, o Make retorna com Exegesis at the end of time: doom e sludge sombrios, lentos e apocalípticos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 12 de junho de 2026
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The end of the night, faixa de abertura de Exegesis at the end of time, disco novo da banda estadunidense Make, começa quase “em silêncio”: há ruídos que vêm de longe, mas o som vai evoluindo com repetições e riffs circulares. O peso só chega lá pelos seis minutos, com vocal gutural e caos sonoro, até encerrar aos onze minutos.
- Ouvimos: Slift – Fantasia
Essa descrição aí meio que dá conta de explicar qual é o universo do Make, uma banda que não lançava discos há dez anos – mas cujos discos, cá pra nós, requerem um pouco mais de tempo de absorção. Exegesis tem seis longas faixas e é marcado por um peso funéreo e introvertido, entre estilos como sludge e doom metal. As misteriosas The judge e Forking paths têm esse grau de “sinistrosidade”, que às vezes pode ser confundido com tranquilidade aparente. Já Chimera cria um astral psicodélico no disco, com suas guitarras agudas e desnorteantes.
Como tudo é bem grave em Exegesis, vale citar que a mixagem deixa claro de onde vem cada som, e não permite que músico algum fique sem ser devidamente ouvido – a ideia não é enterrar sons numa massa bruta musical, vamos dizer assim. O álbum é completado com duas faixas sombrias, The spectacle e The augur, que dão a ideia de um disco conceitual sobre o fim de tudo. Ou sobre a paz de cada um sendo absorvida pelo apocalipse urbano.
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Crítica
Ouvimos: Paulo Metello – “Normandia”

RESENHA: Paulo Metello mistura pós-punk, psicodelia, dream pop e folk em Normandia, álbum lo-fi que vai do contemplativo ao dançante.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Paranoia Musique
Lançamento: 22 de maio de 2026
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O carioca Paulo Metello cita bandas como Echo & The Bunnymen e The Jesus and Mary Chain ao lado de grupos como The Church e Psychedelic Furs nas referências de seu novo álbum, Normandia. Dá uma boa animada em fãs de pós-punk clássico e rock gótico – aliás, nomes bem recentes como Rocket entraram igualmente na receita do álbum.
Mesmo soando bem mais “humano” que alguns discos anteriores dele, Normandia é uma viagem lo-fi em torno do pós-punk e da psicodelia, com vocais “de transmissão” em faixas percussivas como Behind blue skies e baladas dream pop como Flamingo. Além do drone punk de Cine Longobardo.
- Ouvimos: Deafkids – Cicatrizes do futuro
Normandia ainda migra para o folk contemplativo (na faixa-título) e para climas espaciais (nas celestes Velvet old light, Lady in sun dress e Guarda la bella luna). Duas curiosidades são Hello heaven, que parece ter algo de David Bowie e Neil Young, e a vibe dançante e underground de Drinking stars, com batida herdada de Justify my love (Madonna) e vocal rappeado.
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Crítica
Ouvimos: Trompas – “Anxiety” (EP)

RESENHA: Sludge e stoner sufocantes marcam a estreia do Trompas. Anxiety transforma isolamento, peso e melancolia em riffs graves e som sombrio.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 19 de junho de 2026
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Liderado pelo ex-CPM 22 Wally, o Trompas não tem rigorosamente nada a ver com a ex-banda do músico – Anxiety, o EP de estreia, fica entre o sludge metal e o stoner, e a “ansiedade” do titulo não é figura de linguagem. O material do EP é realmente asfixiante e o Trompas é uma banda “de pandemia”, inspirada pela falta de comunicação da época. Já o som tem algo do Anthrax em 1993 (do disco Sound of white noise), e tem muito dos discos mais pesados de bandas como Melvins.
- Ouvimos: Make – Exegesis at the end of time
O lado do alambrado ocupado pelo Trompas é o da música grave, quase depressiva, com ritmo lento e riffs sombrios – como em Ten year hate e no blues desconstruído de Lost again. Fading face remete a memórias que vão se apagando, com sonoridade lenta e grave, enquanto Trip é uma viagem quase doom metal, em clima triste. Já Anxiety, a faixa-título, é o retrato gritado do isolamento lá por 2020 – em música, letra e clipe.
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