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Último disco do The Fall vira disputa sobre o legado de Mark E. Smith

RESUMO: Post script usa vocais inéditos de Mark E. Smith e chega como o último disco do The Fall, mas a noiva do músico contesta o lançamento e diz que ele queria encerrar a banda em New facts emerge (2017).
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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Até onde é legítimo terminar o disco de alguém que morreu? A pergunta ronda Post script, álbum que sai em 2 de outubro e está sendo anunciado como o “último disco oficial” do The Fall. Só que tem gente bem próxima de Mark E. Smith, criador do grupo (1957-2018), dizendo que não é exatamente assim.
Uma delas é Pamela Vander, noiva e última empresária de Smith. Ela afirma que o músico já havia decidido, antes de morrer, que New facts emerge, de 2017, seria o ponto final da discografia do The Fall. E Pamela não gostou nada de ver outro álbum aparecendo quase nove anos depois.
A história, contada pelo jornal britânico The Guardian, fica mais complicada quando se olha para a origem das gravações. Quando Post script foi anunciado, em junho, circulou a informação de que suas nove faixas vinham das últimas sessões do The Fall antes da morte de Smith, em janeiro de 2018. Só que os vocais foram gravados bem antes, entre 2001 e 2014. Ed Blaney e Simon “Ding” Archer pegaram esse material e criaram novos acompanhamentos.
É aí que Vander vê o problema. “Eles estão vendendo isso como ‘o último álbum’, então as pessoas vão pensar que Mark o fez em seu leito de morte, mas nada disso (em termos de vocais) foi feito depois de New facts emerge”, afirmou.
Ela diz, inclusive, que guarda as verdadeiras últimas gravações de Smith — entre elas, imagine só, uma versão de Material girl, hit da Madonna. Para Vander, lançar o material antigo não seria um problema se ele fosse apresentado como parte dos arquivos do cantor. O que ela questiona é colocar The Fall na capa.
“A vida de Mark era complicada e ele era muito desorganizado quando se tratava de proteger seu legado. Eu era a empresária e nem sei quem detém os direitos sobre o nome ‘The Fall’. É uma tentativa de ganhar dinheiro fácil, apenas uma coletânea de sobras. Eu não me importaria se fosse lançado como ‘o arquivo de Mark E. Smith’ ou algo assim, mas há algo eticamente errado em lançá-lo como The Fall. Há algo eticamente errado em lançá-lo como The Fall”, diz.
Post script, vale dizer, tem a aprovação do espólio de Smith e será lançado pela Cog Sinister, gravadora criada por Mark em 1987. 30 degrees, a primeira amostra do disco, saiu em junho. Vá lá que Blaney e Archer também não são dois sujeitos que simplesmente encontraram umas fitas de Mark E. Smith e resolveram fazer um disco. Blaney tocou no The Fall no começo dos anos 2000, virou empresário e gerente de turnê do grupo, e ainda gravou com Smith o álbum Smith and Blaney, em 2008. Archer foi baixista da banda entre 2003 e 2004 e trabalhou como produtor ou engenheiro em oito dos nove últimos discos do The Fall.
Blaney diz que a ideia de Post script nasceu justamente dessa proximidade. “A intenção ao fazer este disco era prestar uma homenagem à altura de Mark/The Fall, porque os vocais estavam lá, esperando para serem bem aproveitados”, afirmou. E rebateu a acusação de Vander de que o projeto seria uma “tentativa de ganhar dinheiro”: “Palavras como ‘ganhar dinheiro em cima disso’ me fazem rir. Foi uma questão de amor e respeito por Mark: ele era o The Fall, e os vocais de Mark foram gravados como The Fall, por isso o disco está sendo lançado como The Fall”.
Archer, por sua vez, passou 12 anos acumulando gravações de Smith — algumas delas feitas de maneiras bastante pouco cerimoniosas. “Regularmente registrávamos as ideias mais recentes de Mark sobre qualquer base que ele achasse adequada naquele momento: um drone, uma batida de bateria, a cappella ou até no corredor, para testar a acústica”, escreveu no Facebook (o jornal diz que ele preferiu não dar entrevista). Algumas dessas ideias viravam músicas. Outras ficavam esperando. O material de Post script nasceu desse segundo grupo.
Ao ser contatado pelo The Guardian para comentar o assunto, Rob Ayling, diretor da Cog Sinister, disse que “o álbum fala por si só”. Archer também diz que houve confusão em torno da palavra “final”. “Nenhum de nós está tentando ser a formação definitiva. A palavra ‘definitiva’ na declaração original tinha a intenção de indicar que este será o último LP com gravações de estúdio inéditas”, escreveu. E antes de ser perguntado, ele respondeu à pergunta inevitável: isso é mesmo The Fall? “É The Fall? Bem, Mark é o The Fall, então sim, são músicas do The Fall. Se você não está convencido, não compre”, afirmou.
Vander inicialmente preferiu ficar fora da discussão por estar há anos afastada dos negócios da banda. Ela viveu com Smith nos últimos três anos da vida dele, pintou a capa de New facts emerge e cuidou do músico durante sua luta contra o câncer. Mas acabou decidindo falar porque “isso estava me consumindo. Sinto que ainda é meu trabalho defender Mark”.
Se Mark E. Smith era, como diz Archer, o The Fall, basta existir uma gravação inédita dele para existir uma música inédita do The Fall? Mesmo que Smith, segundo Vander, tenha preferido encerrar a discografia da banda em 2017? Seja como for, Post script tá marcado para 2 de outubro.
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Grimes mistura IA, religião e distopia em “Accelerando”, primeira faixa de “Psy opera”

RESUMO: Grimes apresenta Accelerando, primeiro single de Psy opera, álbum sobre inteligência artificial, guerras, religião e relacionamentos. O clipe traz androides, fogueiras e imagens distópicas.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Divulgação
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Inteligência artificial, guerras, religião, ex-namorados problemáticos e até a turma do looksmaxxing — aquela obsessão da internet por melhorar a aparência física. Grimes resolveu colocar tudo isso no mesmo disco. A cantora canadense acaba de lançar Accelerando, primeira amostra de Psy opera, álbum que ainda não tem data de lançamento, mas já promete uma boa dose de esquisitice.
O novo single vem acompanhado de um clipe que parece reunir várias ideias de filmes distópicos numa tacada só. Grimes aparece enrolada em correntes, é queimada numa fogueira e ainda empunha uma arma no meio de uma batalha entre androides. A letra não fica atrás: tem referências a lobotomia americana, Van Gogh e um convite para que alguém a devore. O título da música, aliás, pode ser uma referência a Accelerando, romance de ficção científica publicado por Charles Stross em 2005.
Grimes havia anunciado Psy Opera em abril, numa entrevista à revista Interview, revelando inclusive os títulos de duas músicas: The light ages e Eve is online. Agora, o material de divulgação explica um pouco melhor a ideia do álbum. Segundo o texto, o disco vai abordar tudo o que a cantora testemunhou como uma “mulher da história” durante seu afastamento da música pop. E isso inclui desde os debates sobre inteligência artificial até guerras consideradas imorais e relacionamentos que não deram certo.
A relação de Grimes com a inteligência artificial, por sinal, já vem de alguns anos. Em 2023, ela chegou a oferecer metade dos royalties a quem conseguisse criar uma música de sucesso usando uma versão de sua voz gerada por IA. No ano seguinte, participou da série A brief history of the future, da PBS, defendendo que a tecnologia poderia ajudar a revelar novos talentos musicais. Para ela, quando todo mundo tiver acesso a ferramentas capazes de produzir material com qualidade profissional, a diferença estará na criatividade de cada artista.
A cantora também abriu um canal no Instagram chamado Eve is online e divulgou um trailer de Psy opera que transforma o Evangelho de João numa história futurista sobre máquinas e divindades. “No princípio era a palavra, e a palavra era deus. E o homem fez deus à sua imagem, e Deus abraçou a natureza do homem”, diz a narração. Em seguida, descreve um Éden construído em metal, iluminado por luz artificial capaz de rivalizar com o sol.
Psy opera será o primeiro álbum de Grimes desde Miss Anthropocene, de 2020, e também o primeiro lançamento por seu próprio selo, Nazgul Recording LLC, criado depois de sua saída da Columbia Records. Pelo que ela mostrou até agora, a volta ao pop não será exatamente discreta.
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Instagram não para de recomendar “Higher”, do Creed – e nem sabe por quê

RESUMO: Higher, hit do Creed lançado em 1999, virou sugestão recorrente de música nos Stories do Instagram. A plataforma admite que há um problema no algoritmo e tenta descobrir como resolvê-lo.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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Aparentemente, o Creed está aparecendo onde ninguém chamou. Quem costuma colocar música nos stories do Instagram pode ter esbarrado em Higher, hit lançado pela banda em 1999, entre as primeiras sugestões da plataforma. Até aí, tudo bem. O problema é que a faixa aparece o tempo todo, mesmo quando não tem absolutamente nada a ver com o que está sendo publicado.
A insistência começou a chamar a atenção dos usuários, que passaram a desconfiar de alguma campanha promocional do Creed. Afinal, seria uma maneira e tanto de fazer uma música de quase 30 anos voltar à cabeça das pessoas. Só que, pelo visto, nem o Instagram entende direito o que está acontecendo.
A história foi parar na CNN americana, que procurou a plataforma para saber de onde vinha tanto amor pelo Creed. A resposta foi curiosa: depois de investigar o caso, o Instagram descobriu que Higher estava sendo sugerida a muito mais gente do que deveria. A empresa informou que seus engenheiros estão tentando resolver o problema, mas não explicou o que fez a música ganhar tamanha preferência do algoritmo.
Lançada como primeiro single de Human clay (1999), segundo álbum do Creed, Higher foi o primeiro sucesso do grupo a entrar no Top 10 americano. A faixa voltou a circular com força nas redes sociais nos últimos anos, acompanhando uma onda de nostalgia pelo rock da virada dos anos 1990 para os 2000 e o retorno da banda aos shows, em 2024.
Agora, quase três décadas depois, o Creed conseguiu uma coisa que muita banda adoraria: entrar na trilha sonora da vida de milhares de pessoas sem que ninguém tivesse pedido. Nem mesmo o Instagram.
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Samuel Amaro transforma implicância amorosa em clipe inspirado no city pop

RESUMO: Em Eu ia, Samuel Amaro mistura referências ao city pop e imagens de câmeras antigas para contar uma história de amor reprimido, em que provocar o outro é mais fácil do que admitir os sentimentos.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Lírica Aragão e Pietro Saura / Divulgação
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Implicância também pode ser declaração de amor – pelo menos em Eu ia, música do paranaense Samuel Amaro que acaba de ganhar clipe. A faixa faz parte do álbum de estreia Músicas surpreendentemente comuns, melancólicas e feitas para dormir, e seu vídeo mistura referências de city pop dos anos 1980 com uma história sobre gente que prefere provocar a admitir o que sente.
Filmado em Maringá (PR), o clipe acompanha três tentativas do protagonista de se aproximar de seu par romântico. Em todas, o medo de se expor acaba atrapalhando as coisas. A produção é da Bolinha de Gude Produções, com direção e edição de Lírica Aragão e Pietro Saura, e aposta numa imagem inspirada em handycams e câmeras analógicas.
“A ideia do clipe nasceu para traduzir em imagens essa minha obsessão pelo city pop e essa ponte entre o retrô e o contemporâneo. A história retrata esse amor reprimido, daquela pessoa que se irrita e se opõe a tudo que o outro faz só para esconder o que sente, como a Helga faz com o Arnold no desenho dos anos 90. É sobre se proteger atrás da implicância em cena para não ter que lidar com a própria vulnerabilidade”, explica Samuel.
Eu ia foi gravada no home studio do próprio músico, em Maringá. O esquema caseiro acabou chegando também às filmagens: numa das cenas, a equipe precisou segurar manualmente uma cortina que aparece no cenário porque não havia suporte para prender o varão.
Em atividade desde 2018, Samuel lançou anteriormente os EPs Morno (2020) e Sintoma (2022). O músico também produz sob o nome Qumma, projeto voltado ao lo-fi. Eu ia traz João Manoel, da banda Jovens Ateus, na guitarra, Luiz Júnior no baixo e mixagem e masterização de Maurício Mendes.
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