Crítica
Ouvimos: The Charlatans – “We are love”

RESENHA: Charlatans revisitam passado em We are love: disco emotivo, hauntológico, mistura britpop e reflexão sobre tempo, fim e memória musical.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: BMG
Lançamento: 31 de outubro de 2025
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Quem é fã dos Charlatans há anos vai se emocionar bastante com We are love, 14º disco do grupo britânico. Como tem sido comum em discos de bandas britânicas veteranas (do Pulp ao Bush) a banda do cantor Tim Burgess oferece no novo álbum um encontro consigo própria – que acaba vazando para as letras e músicas.
Para começar, We are love marca a volta da banda ao Rockfield Studios, no País de Gales – o grupo não gravava lá desde o disco Tellin’ stories (1997), marcado pela morte do tecladista Rob Collins, num acidente de automóvel em 22 de julho de 1996 (o músico estava a caminho do estúdio Monnow Valley, também na região de Rockfield, onde a banda fazia gravações, quando perdeu o controle de seu automóvel, que terminou por capotar num barranco).
Além disso, a hauntologia, termo cunhado pelo filósofo francês Jacques Derrida para designar fantasmas culturais ou sociais, é um dos temas que inspiraram We are love. E nessa, pessoas e lugares queridos aproximaram-se mesmo sem serem exatamente convidados, porque já estavam lá. Stephen Street, Fred Macpherson e Dev Hynes (Blood Orange) produziram o disco e ajudaram a banda na tarefa de filtrar os fantasmas – provavelmente com uma mão pesadíssima de Dev, conhecido por sua sonoridade imersiva, triste e cheia de lembranças pessoais e musicais.
O material do disco novo é marcado do começo ao fim pelo sentimento de que é preciso estar preparado (ou pelo menos um pouco preparado) para o fim de tudo. As letras falam sobre cortinas que podem se fechar (Kingdom of ours), sobre aceitação (“este é o lugar / estes são os dias”, no refrão da faixa-título) e sobre a velha dúvida do “quando é que tudo acaba?” (“não sei a hora / mas posso adivinhar o dia / estou me sentindo fraco / perdi meu caminho”, na autoexplicativa You can’t push the river).
Na real, temas como morte, envelhecimento e lembranças da juventude são comuns no rock britânico desde a era dos Beatles – mas no caso de We are love, esses assuntos surgem com menos depressão e tristeza do que parece. O próprio nome We are love (“somos amor”) já soa como uma confissão de destemor, de que aconteça o que acontecer, tudo foi tentado. Everything now, no fim do disco, soa como uma sentença, ou resumo da história (“olhe para cima e voe / precisamos pausar este filme agora / precisamos aprender a deixar ir / é verdade”). Uma música de quase sete minutos, que poderia estar no repertório do Blur ou do Pulp, com clima viajante e cordas vertiginosas no final.
Musicalmente, os Charlatans voltam resumindo anos de britpop em 46 minutos, e recordando sons que fazem lembrar as eras de ouro de The Verve, Stone Roses e eles próprios. Há psicodelia e beats suingados em Kingdom of ours, Deeper and deeper e For the girls, mistério e clima elegante em You can’t push the river, climas lembrando The Hollies em Many a day a heartache. A faixa-título tem som smithiano, guitarra lembrando Johnny Marr, mas o clima evocado aqui é o do jangle pop.
Além dissio, há algo de Byrds e algo de Velvet Underground na bela Out on our own, e uma vibe herdada diretamente de Tomorrow never knows (Beatles) adorna as reminiscências de Glad you grabbed me. E Appetite, por sua vez, combina toques bem pós-punk na guitarra com uma musicalidade que lembra John Lennon e George Harrison. No fim das contas, a hauntologia dos Charlatans transformou We are love em memória musical, e em letras simples, emocionais e tocantes. Dá até para deixar vir à tona suas próprias memórias ouvindo o disco.
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Crítica
Ouvimos: Make – “Exegesis at the end of time”

RESENHA: Após dez anos, o Make retorna com Exegesis at the end of time: doom e sludge sombrios, lentos e apocalípticos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 12 de junho de 2026
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The end of the night, faixa de abertura de Exegesis at the end of time, disco novo da banda estadunidense Make, começa quase “em silêncio”: há ruídos que vêm de longe, mas o som vai evoluindo com repetições e riffs circulares. O peso só chega lá pelos seis minutos, com vocal gutural e caos sonoro, até encerrar aos onze minutos.
- Ouvimos: Slift – Fantasia
Essa descrição aí meio que dá conta de explicar qual é o universo do Make, uma banda que não lançava discos há dez anos – mas cujos discos, cá pra nós, requerem um pouco mais de tempo de absorção. Exegesis tem seis longas faixas e é marcado por um peso funéreo e introvertido, entre estilos como sludge e doom metal. As misteriosas The judge e Forking paths têm esse grau de “sinistrosidade”, que às vezes pode ser confundido com tranquilidade aparente. Já Chimera cria um astral psicodélico no disco, com suas guitarras agudas e desnorteantes.
Como tudo é bem grave em Exegesis, vale citar que a mixagem deixa claro de onde vem cada som, e não permite que músico algum fique sem ser devidamente ouvido – a ideia não é enterrar sons numa massa bruta musical, vamos dizer assim. O álbum é completado com duas faixas sombrias, The spectacle e The augur, que dão a ideia de um disco conceitual sobre o fim de tudo. Ou sobre a paz de cada um sendo absorvida pelo apocalipse urbano.
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Crítica
Ouvimos: Paulo Metello – “Normandia”

RESENHA: Paulo Metello mistura pós-punk, psicodelia, dream pop e folk em Normandia, álbum lo-fi que vai do contemplativo ao dançante.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Paranoia Musique
Lançamento: 22 de maio de 2026
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O carioca Paulo Metello cita bandas como Echo & The Bunnymen e The Jesus and Mary Chain ao lado de grupos como The Church e Psychedelic Furs nas referências de seu novo álbum, Normandia. Dá uma boa animada em fãs de pós-punk clássico e rock gótico – aliás, nomes bem recentes como Rocket entraram igualmente na receita do álbum.
Mesmo soando bem mais “humano” que alguns discos anteriores dele, Normandia é uma viagem lo-fi em torno do pós-punk e da psicodelia, com vocais “de transmissão” em faixas percussivas como Behind blue skies e baladas dream pop como Flamingo. Além do drone punk de Cine Longobardo.
- Ouvimos: Deafkids – Cicatrizes do futuro
Normandia ainda migra para o folk contemplativo (na faixa-título) e para climas espaciais (nas celestes Velvet old light, Lady in sun dress e Guarda la bella luna). Duas curiosidades são Hello heaven, que parece ter algo de David Bowie e Neil Young, e a vibe dançante e underground de Drinking stars, com batida herdada de Justify my love (Madonna) e vocal rappeado.
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Crítica
Ouvimos: Trompas – “Anxiety” (EP)

RESENHA: Sludge e stoner sufocantes marcam a estreia do Trompas. Anxiety transforma isolamento, peso e melancolia em riffs graves e som sombrio.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 19 de junho de 2026
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Liderado pelo ex-CPM 22 Wally, o Trompas não tem rigorosamente nada a ver com a ex-banda do músico – Anxiety, o EP de estreia, fica entre o sludge metal e o stoner, e a “ansiedade” do titulo não é figura de linguagem. O material do EP é realmente asfixiante e o Trompas é uma banda “de pandemia”, inspirada pela falta de comunicação da época. Já o som tem algo do Anthrax em 1993 (do disco Sound of white noise), e tem muito dos discos mais pesados de bandas como Melvins.
- Ouvimos: Make – Exegesis at the end of time
O lado do alambrado ocupado pelo Trompas é o da música grave, quase depressiva, com ritmo lento e riffs sombrios – como em Ten year hate e no blues desconstruído de Lost again. Fading face remete a memórias que vão se apagando, com sonoridade lenta e grave, enquanto Trip é uma viagem quase doom metal, em clima triste. Já Anxiety, a faixa-título, é o retrato gritado do isolamento lá por 2020 – em música, letra e clipe.
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