Crítica
Ouvimos: The Beaches – “No hard feelings”

RESENHA: The Beaches voltam afiadas em No hard feelings: um punk divertido, pop e confessional, entre rancores amorosos e autozoeira descompromissada.
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Não tem nada mais bizarro do que encontrar alguém que não te vê há muito tempo, e, no fim da conversa, ouvir um “manda um abraço pra fulana!” (fulana, no caso, sua ex, que a tal pessoa não sabe que já virou história na sua vida faz tempo). Pior ainda: quando alguém decide abusar da indiscrição e pergunta: “quem terminou, você ou ela?” – e a bunda chutada foi a sua. Isso tudo aí vale para todos os pronomes (ela, ele, elx, etc): na vida, existe pouca coisa mais democrática que a sensação de constrangimento.
Na real, a questão aí é que, seja lá o que você arrumar pra responder, ou para comentar, já está explícito que se trata de um assunto delicado e espinhoso, e que seja lá o que tenha rolado, você saiu ferido/ferida. Aliás, mesmo que você não sinta mais nada pela pessoa em questão, nunca é agradável mexer em antigos sentimentos. Pois bem: o grupo canadense The Beaches, formado por quatro mulheres, prefere abordar esse tipo de assunto sem indiferença e sem fingimento. Já era assim no segundo disco, Blame my ex (2023) que estourou o hit Blame Brett. O ranço total e irrestrito continua no terceiro álbum, No hard feelings, um disco bem mais afirmativo que o anterior – e um álbum de punk feito por musicistas que têm Eurythmics, Pretenders e Fleetwood Mac nas suas memórias.
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Em No hard feelings, a vocalista e baixista Jordan Miller fala sobre masturbação e nostalgia (no punk pop oitentista Touch myself, dos versos “tenho medo de me tocar / porque quando faço isso / penso em você”), sobre amor e ódio em vibe de retroalimentação (o punk melódico Can I call you in the morning?, onde sobra até para os amigos e para a banda favorita do ex), sobre garotas que têm casos com garotas bissexuais que têm namorado (Did I say too much?), sobre algo que parece com um namoro rápido com uma fã (em Jocelyn, que evoca The Cure e New Order). E sobre passar a namorar mulheres aos 30 anos – na ótima Lesbian of the year, que lembra ABBA e o Queen do hit I want to break free.
Essa fileira de assuntos é entremeada com um clima de autozoeira e de diversão descompromissada, tudo em meio ao caos emocional do disco. Tanto que o fechamento rola com o punk festeiro Last girls at the party, com evocações de Ramones. Tem quem possa torcer o nariz para o fato de No hard feelings ser mais um disco de linha de produção do que um álbum de banda – as faixas têm diversos produtores e co-autores, incluindo gente acostumada a compor para Britney Spears e Sara Bareilles. Bobagem: mesmo com alguns poucos momentos não tão brilhantes (como rola em Fine, let’s get married e no pastiche de Pretenders de Dirty laundry), No hard feelings é um baita disco de rock.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: AWAL
Lançamento: 29 de agosto de 2025
Crítica
Ouvimos: Feeble Little Horse – “Bitknot”

RESENHA: Feeble Little Horse une noise, eletrônica e indie pop em Bitknot, disco ruidoso, melódico e melancólico sobre amores e desencontros.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Saddle Creek
Lançamento: 26 de maio de 2026
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O lance dessa banda de Pittsburgh é barulho – e o curioso é que o Feeble Little Horse consegue soar mais ou menos tranquilo mesmo operando no ruído. O terceiro disco deles, Bitknot, mantém a fórmula de vocais doces, distorções e ruídos eletrônicos, como se o som fosse uma intervenção em algo que já vem pronto. Ou como se originalmente uma doce canção de voz e violão pudesse se transformar em ruído maquínico – caso do garage rock Doorway e do pós-punk cerimonial de Poison, que abrem esse Bitknot.
Bitknot tem mais a ver com música-de-computador e com tendências altamente simplificadas de som do que com qualquer outra estileira, embora o FLH seja associado ao shoegaze. Rewind, a terceira faixa, voa em meio a sons de pássaros e vocais eletrônicos no estilo de Alvin e Os Esquilos – e tem um clima meio funkeado, meio sessentista. Ganha continuação na doce e dedilhada Shady, e no noise rock coolzaço de Dior, que recorre a imagens de filme indie para falar de amores em banho-maria.
- Resenhamos o disco Girl with fish, do Feeble Little Horse, aqui.
Uma estranha graça do Feeble Little Horse em Bitknot é que eles voltam com uma baita cara de trilha de filme indie decadente – aquela coisa meio cozida em relacionamentos ruins, indefinições pessoais, viagens sem grana e corações partidos. É o clima de todo o disco, ainda mais na segunda metade, de canções como a balada derretida Cradle, a psicodélica Paris, a estranhamente indie pop Upside down. E é aí que uma banda geralmente mais trabalhada no barulho ganha uma onda mais pop – já que o conceito de “música pra geral ouvir” tem ficado bem sombrio nos últimos tempos.
Pra compensar, tem o ruído de videogame de DMT. E a rajada lisérgica de guitarras e synths de Guts, com um cantarolar sampleado e ritmado, e versos quase surrealistas: “Passando a língua, os dedos e o polegar / você consegue sentir o gosto de Ohio de cabeça para baixo? / está impresso no painel, o jornal guarda o placar / culpe o lugar onde você cresceu”. Barulho boêmio cozido na doideira.
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Crítica
Ouvimos: Ugly Ozo – “Dive” (EP)

RESENHA: Ugly Ozo mistura indie, grunge e noise em Dive, EP confessional sobre depressão, solidão e autoconhecimento, com refrões marcantes.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Rex Recs
Lançamento: 1 de maio de 2026
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As coisas mudaram para o Ugly Ozo, que já foi quase um codinome da musicista Jessica Baker, da Ilha de Wight – hoje é um trio levado adiante por ela nos vocais, ao lado da irmã e baixista Boo Baker, e do baterista Tristan Northard. Dive, o novo EP, prossegue a trajetória confessional e ruidosa que surgiu em Stargirl, EP anterior (resenhado pela gente aqui).
O clima de Dive é de encontro, ou de reencontro, consigo própria, em meio a guitarras distorcidas, clima pesado (em todos os sentidos) e vocais que sugerem doçura pop. É o que rola na rappeada Hi, how are you?, canção sobre depressão e sobre dois “eus” brigando. E no clima barulhento e pop, lembrando o Nirvana (banda que tinha, por acaso, uma música chamada Dive) de Overkill. Uma música na qual Jessica diz que encarar a solidão às vezes é mais custoso emocionalmente do que continuar a manter um relacionamento cagado.
Tem ainda Jackpop, indie pop garageiro com recordações de River Euphrates, dos Pixies, e de bandas como Veruca Salt e Elastica – o tipo de canção que grudaria no ouvido ao tocar no rádio. Godspeed, unindo vibe folk, energia punk e climas sombrios, já abre falando que “estou perto dos meus amigos / mas meus inimigos estão mais perto”. O final, com Misery, une mais ondas sonoras herdadas dos Pixies, lado a lado com um vocal blase que lembra até o Cansei de Ser Sexy.
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Crítica
Ouvimos: Negative Summer – “Impossível não sentir nojo da sua cara”

RESENHA: Negative Summer mistura grindcore e black metal em um disco ultrarrápido, violento e sarcástico, que transforma ódio, ruído e humor em catarse.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 29 de junho de 2026.
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Antes de mais nada: o Negative Summer, uma banda de grindcore e black metal do Ceará, merecia fazer sucesso no Tik Tok com a maravilhosa faixa-título de seu novo disco. Ouvir versos como “que cena linda seria se um trator passasse por cima de você / compraria até pipoca pra ver / um caminhão de brita descarregado / devagar e sutilmente / em cima da sua cara horrorosa” acompanhados de uma base pesada e casca-grossa, é um prazer que deve ser sentido por todo mundo.
Impossível não sentir nojo da sua cara, o álbum do grupo, é pesado e agressivo em letras e músicas – e rápido, com dez faixas que no máximo passam de um minuto cada uma. A faixa-título, que tem esses versos aí do primeiro parágrafo, é um dos melhores exemplos, e o disco quase inteiro fica entre Napalm Death, Pungent Stench e Ratos de Porão, com batidas ágeis, vocais guturais e letras de puro ódio.
- Ouvimos: The High Curbs – High speed
Num disco com um título desses, as músicas não poderiam ficar atrás, então prepare-se para o ruído e o peso de Teu sorriso é falso, Não existirá comida, Autonecrocanibalismo, Te usando como esterco e outras músicas ágeis e violentas – a podreira do mundo é zoada em versos como “corporações te presentearam / com tumores e perfumes caros”. Há bom humor em alguns momentos, e pelo menos uma faixa de clima black total, In conspiracy with satan, em inglês.
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