Lançamentos
Radar: Pablo Vermell, Ebony, Fellini, Karnak, Ottopapi, Acústico 1Kilo

Eita: quase não tem Radar hoje porque essa sexta-feira tá cheia de novidades (boas). Mas deu tempo, e aproveitamos para falar que no indie rock e no indie pop brasileiro também tem edição deluxe. Tá aí Pablo Vermell, preparando a versão estendida de seu álbum Futuro presente, que não nos deixa mentir. E ainda tem mais. Ouça e repasse!
Texto: Ricardo Schott – Foto (Pablo Vermell): Sofi Frozza / Divulgação
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PABLO VERMELL, “NA ESPERA (DE UM COMETA OU DE UM RAIO)” (CLIPE). Em 2026, sai a versão deluxe de Futuro presente, álbum de estreia do cantor santista – que foi resenhado pela gente aqui. Entre as novidades, o disco expandido vai ter as participações da banda Supervão, do tecladista Lauiz (Pelados) e da cantora argentina Livia Bonelli. Na espera, a jovemguardista faixa de abertura do disco, ganha versão estendida e também um clipe, dirigido pela cantora e cineasta Sofi Frozza, que transforma parques e ruas de São Paulo em um cenário de contemplação.
No original lançado em Futuro presente, a música se chamava apenas Na espera – e agora ganha o subtítulo De um cometa ou de um raio. “A ideia é sinalizar a espera de algo incerto. “O videoclipe e a música falam sobre essa sensação de esperar algo que pode chegar de repente, ou talvez nunca, e como esses momentos moldam a nossa percepção do tempo”, conta Pablo, que pôs o subtítulo na faixa justamente para reforçar essa ideia.
EBONY, “EXTRAORDINÁRIA” (CLIPE). Casca-grossa é pouco: oscilando entre funk e rap, KM2, disco da rapper Ebony, é um suco cruel da realidade (resenhamos aqui). Com nome fazendo referência à violenta Queimados, na Baixada Fluminense (chamada por ela e amigos de “KM-dois”), o disco une sexo, beats pesados, tiros, machismo, abusos, crueldades e desigualdades do dia a dia. Extraordinária, uma das faixas mais empoderadas do álbum, acaba de ganhar um clipe, com direção de Aisha Mbikila e produção musical de Pep Starling. A faixa tem sido um sucesso enorme nos shows de Ebony, que leva sua KM2: A tour para o Viaduto de Madureira, no Rio de Janeiro, no dia 12 de dezembro
FELLINI, “BAILA” (CLIPE). Nada a ver com a banda paulistana de músicas como Rock europeu e Teu inglês: a Fellini em questão é a cantora pop Andressa Fellini, que estreou recentemente com o EP Dance no meu quarto, e agora põe nas plataformas o clipe de uma das principais faixas, Baila. A música é um synth-alt-pop do tipo que gruda na mente – e o clipe evoca a estética das antigas gravações feitas com câmera de vídeo analógica.
O vídeo teve captação, direção e roteiro do designer de moda e artista plástico paraibano Rodrigo Evangelista, e traz a cantora em casa e circulando pelo seu bairro, Higienópolis, em São Paulo. “São trechos simples e confessionais. É quase como se fosse um diário visual, onde a estética não encobre intimidade, mas potencializa”, diz ela.
KARNAK, “A GENTE JÁ ERA” (CLIPE). Os karnakianos e as karnakianas podem comemorar – A gente já era, uma das melhores faixas do novo álbum da banda, Karnak mesozóico (que resenhamos aqui), acaba de ganhar clipe. A banda está em casa: o diretor é ninguém menos que Rafael Terpins, sobrinho de Tico Terpins – o fundador do Joelho de Porco, banda cuja filiação à música e ao humor a torna quase uma precursora do Karnak.
A música é um rock abrasileirado e variado, cuja letra prega que “se não tivesse mistério no mundo eu acho que não seria legal / que graça teria aqui se a gente soubesse o que tem lá? / então vamos viver o tempo da gente até a estrela se apagar”. Um manifesto do disco e da liberdade criativa do numeroso grupo paulistano liderado por André Abujamra.
OTTOPAPI, “RUIM DA CUCA”. Um dos criadores do selo Seloki Records, Otto Dardene, o popular Ottopapi, já havia aparecido aqui no Radar com seu single de estreia, Perdi o controle – que ganhou até um clipe. Dessa vez ele volta com a curtinha Ruim da cuca, punk rock com cara sixties, e evocações que vão de Ramones e Superchunk a The Cure. É uma canção de amor, mas nem tanto, porque o narrador-personagem prefere nem ver a pessoa que lhe tira do sério. Ou melhor, ele até quer ver, mas… Melhor evitar. “Eu não quero ver seu rosto / na minha cara nem de perto / eu não posso mas eu quero / cê me deixa ruim da cuca”, canta ele, em meio aos backing vocals de Marina Reis.
MC FAEL, CASLU E DOISP, “VOCÊ QUIS ASSIM” (ACÚSTICO 1KILO). Os três rappers, ao lado do violonista Felipe Rasta, unem-se nessa faixa gravada para o Projeto Acústico 1Kilo, que põe violões na união de rap, trap e romantismo do trio. 1Kilo, se você nunca ouviu falar, é geralmente tido como uma “banda” de rap. E na real está mais para uma “banca”, um coletivo de rappers que também funciona como empresa e gravadora, e que já tem tido milhões de views com seus hits, além de ter sido um dos precursores da onda do rap acústico. O clipe de Você quis assim foi gravado em meio à natureza de Niterói (RJ), usando câmeras e drones, com os três literalmente alagados, mas tranquilamente rimando sentados em cadeiras.
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Crítica
Ouvimos: Jenny On Holiday – “Quicksand heart”

RESENHA: Entre luto e descobertas, Jenny On Holiday estreia com synthpop e dream pop oitentista em Quicksand heart, disco íntimo sobre vulnerabilidade e prazer.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Transgressive Records
Lançamento: 9 de janeiro de 2026
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“Coração de areia movediça” é uma boa metáfora para falar de profundidades sentimentais, ou de fragilidades, ou de perdas – e esses três temas surgem o tempo todo em Quicksand heart, estreia solo de Jenny Hollingworth, que faz parte da dupla de synthpop mutante Let’s Eat Grandma.
Jenny, usando hoje o alegre nome de Jenny On Holiday, passou por um acontecimento nada feliz em 2019: seu namorado morreu em 2019 de câncer ósseo. O luto chegou a fazer parte da lista de temas de Two ribbons, último álbum do Let’s Eat Grandma (2022), mas como ela própria disse num papo com o jornal The Independent, era preciso esperar até o momento em que o principal fosse se divertir fazendo música. Quicksand heart tem até um pouco de luto nas letras, mas boa parte do material fala de descobertas pessoais, tanto na vida quanto no sexo, no amor, no trabalho e em tudo que possa mexer com a vulnerabilidade.
- Ouvimos: Nastyjoe – The house
Musicalmente, Jenny abraçou tanto a mescla de synthpop e dream pop, com teclados cintilantes e vibe oitentista evidente, que é quase impossível não pensar em Kate Bush, Fleetwood Mac e The Cure ao ouvir o disco. Essa onda surge na abertura com Good intentions, dá as caras nos riffs de guitarra e baixo da faixa-título e na vibe saturada e sonhadora de Appetite – música que fala bem diretamente sobre apetite sexual feminino, culpa e autoestima.
Every ounce of me, Pacemaker e These streets I know usam teclados gelados para falar de um mundo gelado, em que o estresse acaba virando combustível e a melancolia pode inspirar atitudes e canções. O New Order mais baladeiro e tranquilo dos discos mais recentes dá as caras em faixas como a tristonha Dolphins, além das razoáveis Push e Groundskeeping.
Nem tudo funciona 100% em Quicksand heart e dá para dizer que a segunda metade do disco traz menos canções que conquistam de cara, mas Jenny compensa na ambiência das músicas e na verdade inserida nos vocais e nas letras. O “casamento consigo própria” da capa – e vale dizer que o Let’s Eat Grandma não acabou – vem funcionando.
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Crítica
Ouvimos: Julieta Social – “Julieta”

RESENHA: Entre caos e conforto, o Julieta Social estreia com um pop alternativo aberto a referências, letras afiadas e climas que vão do indie ao soul psicodélico.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Seloki Records
Lançamento: 30 de janeiro de 2026
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Tem muito caos, mas também tem muito conforto no som do Julieta Social – uma banda/mini-coletivo de quatro integrantes, que sempre chama convidados para participar das gravações e tenta fazer com que sua sonoridade seja a mais aberta possível. Tanto que Julieta, o primeiro álbum, pode ser definido tranquilamente apenas como música pop, ou até como pop alternativo, que aponta para várias referências e busca não facilitar tanto as coisas para quem ouve.
- Ouvimos: Vá – Pra domingo (EP)
Julieta é o disco do single Casos de Colômbia, que assume referências de Radiohead e Chico Buarque, mas também mistura emanações de Arctic Monkeys e guitarras em clima de blues pós-punk. A faixa tem participação de Mariana Estol nos vocais, e uma letra que mete o dedo na ferida das expectativas que, muitas vezes, não representam nada (“nunca que você vai encontrar dentro do armário / algo lendário, é tudo vestuário / sabe aquela luz que a gente vê de madrugada / é quase nada, mas satisfaz a alma”).
Abrindo o disco, Casos de Colômbia serve de balizador para faixas poéticas como o soul psicodélico de Nuvem nua, o easy listening esparso de Dorme pra ver se me esquece, o pop rock radicalmente brasileiro de Quem nunca quis demais e Um tempo pra pensar – estas duas lembrando um pouco o som praiano de Lulu Santos e Charlie Brown Jr. Também cede espaço para a vibe sixties de Ce la vie e para o clima alt-disco de Como te dizer, que traz lembranças de Arctic Monkeys, Khruangbin e Mamalarky.
Do meio pro fim do disco, o Julieta Social aposta numa vibe indie-pop que tem muito de Tim Maia (Rubbish shuffle), em climas sonhadores e existenciais (Astronauta, Fome) e num bloco dançante com guitarra base e baixo à frente (Poodle marciano), que serve como demonstração de possibilidades instrumentais do grupo. Em meio a tantas ideias, o Julieta Social faz de seu primeiro álbum uma celebração das incertezas – e da beleza que nasce delas.
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Crítica
Ouvimos: Just Mustard – “We were just here”

RESENHA: Shoegaze fantasmagórico e gótico: o irlandês Just Mustard mistura ruído, poesia e psicodelia em We were just here, disco que foge de rótulos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Partisan Records
Lançamento: 24 de outubro de 2025
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Shoegaze e rock gótico são primos bem próximos, mas em vários momentos, é comum que bandas curtam misturar nuvens de guitarras e climas ensolarados – como se o sol fosse sair a qualquer momento. O grupo irlandês Just Mustard, que tem na voz de Katie Ball uma de suas maiores armas e atrativos, opera numa onda de shoegaze fantasmagórico, como se as microfonias e saturações servissem mais para confundir do que para explicar.
A opção da banda vem dando tão certo que eles já foram escolhidos pelo The Cure para abrir shows, e em We were just here, seu terceiro disco, escapam completamente de qualquer rótulo musical unindo vários elementos. Pollyanna, na abertura, poderia até ser uma canção do The Cure ou até do Jesus and Mary Chain: tem início ruidoso, bateria maquínica, teclados, ruído de vento – como se algo cobrisse tudo – e vocal doce, quase bossanovístico. A letra dessa música, assim como de boa parte do disco, é um primor de poesia e contemplação: “quando você vai brincar / onde os pássaros mais doces choram? / estou vendo, não sonhando / estou vendo, não sonhando agora”.
- Ouvimos: Equipe de Foot – Small talk
Não é escapismo, já que parece um doce encontro com a realidade. E que surge também na viagem sonora fantasmagórica de Endless deathless, no quase trip hop + shoegaze de Silver (cuja letra absolutamente psicodélica diz: “luzes prateadas dançando ao redor do seu rosto / não consigo acompanhar o ritmo”) e no dream pop tranquilo de Dreamer. Já a faixa-título é quase hi-NRG, dançante, com início eletronificado e synthpopizado, só que tudo bastante sonhador e psicodélico – encerrando com uma rajada de microfonia daquelas.
Uma ouvida com atenção no Just Mustard revela que o som deles tem bastante a ver com uma certa onda que tomou conta do rock inglês e norte-americano nos anos 1980. Foi quando de uma hora para outra começaram a falar em neo-psicodelia e várias bandas apareciam unindo climas pós-punk a vibrações bem sixties – bandas como Primal Scream, The Pastels e até mesmo o Jesus and Mary Chain tinham a ver com isso.
Essa onda surge no clima enevoado, quase como se você tivesse dificuldade para enxergar na neblina, de Somewhere. Também está no drone, que chega a lembrar uma orquestra se aquecendo, que toma conta de The steps. Por outro lado, We were just here é inteirinho baseado numa espécie de som de ferro rangendo, que aparece em várias faixas, e ganha mais espaço em Out of heaven, a última faixa. Um lado pós-punk também vai surgindo em canções como Dandelion e That I might not see. Essas faces, juntas e equilibradas, formam o clima sonoro de uma das bandas mais legais da atualidade.
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