Lançamentos
Radar: João Gordo e Asteroides Trio, B+P, Serafim, Cristal, Fellini

É, a semana começou – somos contra, porque o fim de semana sempre é maravilhoso. Mas até que nosso trabalho é agradável (risos), já que é ouvir música, falar dela, conhecer coisas novas, lembrar de sons antigos e unir tudo com uma linha do tempo bem forte. E lá vai o primeiro Radar nacional da semana, abrindo com o encapetamento total de João Gordo e Asteroides Trio.
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JOÃO GORDO E ASTEROIDES TRIO, “PÊGO”. No começo de 2026, sai (pelas gravadoras Neves Records e All Music Matters) o disco da nova loucura do cantor do Ratos de Porão – sua associação com o Asteroides Trio, mais rock’n roll que a estileira pesadíssima do RxDxPx. Hallucinogenum infernale, o álbum, é adiantado com um single inspirado no Motörhead, Pêgo, com direito a um clipe de terror, ligado ao universo de Zé do Caixão (foi por acaso dirigido por Rubens Lima, discípulo do criador de À meia-noite levarei sua alma). No vídeo, o batera do Asteroides, Leandro Franco (também co-autor do roteiro do clipe ao lado de Rubens), interpreta um viciado em crack que sofre nas profundezas do inferno. João Gordo interpreta Satanás, ao lado da atriz Juliana Seabra, que também fez a maquiagem do clipe.
B+P, “PRECISO ME ENCONTRAR”. Aqui no Radar, evitamos dar regravações ou covers – mas não resistimos a essa versão que o duo de trip hop brasileiro criado por Ana Blancato e André Paumgartten fez do clássico do sambista Candeia, imortalizado por Cartola a ponto de muita gente achar que se trata de uma canção do autor de As rosas não falam. A dupla faz questão de ressaltar que a ideia é ir, em poucos minutos, do trágico ao cômico, e André diz que a música sempre foi seu jeito particular de contar histórias – o que já garante o clima quase teatral da versão.
“Quando idealizei o B+P com a Ana, botei na minha cabeça que a voz dela tinha todo um peso e sentimento que me remetiam aos discos clássicos do Cartola. Apesar dessa música ter sido composta por Candeia, a versão do Cartola me pega de jeito e eu sempre quis fazer uma versão dela”, diz André, anunciando também que em breve teremos um segundo álbum do duo (B+P – Blancato e Paumgartten, a estreia, saiu em março).
SERAFIM, “EQUINÓCIO”. O álbum desse cantor e compositor alagoano, Aqui pra nós, está previsto para o ano que vem. Até lá, ele adianta o disco com singles como Equinócio, música suave, com acordeom, surgida quando Serafim leu uma matéria afirmando que o momento do ano em que o sol corta o equador celeste e o dia e a noite têm a mesma duração.
“A música fala por si, mas se fosse destacar uma mensagem é que temos sempre que olhar pra dentro da gente pra fazer as coisas que a gente quer – e precisa. O sentimento que quis passar é o de buscar dentro da gente a força pra mudar o que está fora”, explica Serafim, que abordou temas como renascimento, coragem e autoconhecimento na letra da canção.
CRISTAL, “SOUTH SIDE”. No Sul do país, existe uma população negra bastante mobilizada – e que historicamente sempre enfrentou muito racismo, em meio à forte colonização europeia da região. A rapper gaúcha Cristal decidiu abordar o tema em sua música nova, South side, cuja letra expressa temas como preconceito, siingularidade e resiliência em versos fortes como “ruas secas de vida / pelos bairros do Sul, negros esquivam de armadilhas / caminhando com a morte, cavalos levam polícia / coronéis e fazendas acorrentam nossa brisa”.
A música ressalta a força de várias famílias e comunidades que resistiram durante décadas, inclusive a própria família da rapper, que serviu de inspiração. A produção da faixa foi feita por WillsBife e MDN Beatz.
FELLINI, “PERCO O AR”. Se você leu o nome “Fellini” lá em cima e já se animou com a possibilidade de existir uma música nova da banda indie paulistana, calma – Fellini, no caso, é a cantora e compositora Andressa Fellini, que acaba de lançar o EP Dance no meu quarto. E Perco o ar é um synthpop com um início de batidão funk, mirando posteriormente num som próximo da house music, mas com clima gelado e flutuante dado pelos teclados.
O disco já está sendo elaborado desde 2021, mas as gravações iniciaram em 2023, no estúdio caseiro dela. Bezerra, produtor indicado duas vezes ao Grammy Latino, a ajudou nesse processo. “A metodologia do home studio, desde as primeiras ideias até a finalização, criou as condições ideais para construir uma relação de intimidade e escuta. Foi nesse espaço que conseguimos desenhar o caminho que o EP precisava seguir”, afirma Fellini.
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Crítica
Ouvimos: Jenny On Holiday – “Quicksand heart”

RESENHA: Entre luto e descobertas, Jenny On Holiday estreia com synthpop e dream pop oitentista em Quicksand heart, disco íntimo sobre vulnerabilidade e prazer.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Transgressive Records
Lançamento: 9 de janeiro de 2026
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“Coração de areia movediça” é uma boa metáfora para falar de profundidades sentimentais, ou de fragilidades, ou de perdas – e esses três temas surgem o tempo todo em Quicksand heart, estreia solo de Jenny Hollingworth, que faz parte da dupla de synthpop mutante Let’s Eat Grandma.
Jenny, usando hoje o alegre nome de Jenny On Holiday, passou por um acontecimento nada feliz em 2019: seu namorado morreu em 2019 de câncer ósseo. O luto chegou a fazer parte da lista de temas de Two ribbons, último álbum do Let’s Eat Grandma (2022), mas como ela própria disse num papo com o jornal The Independent, era preciso esperar até o momento em que o principal fosse se divertir fazendo música. Quicksand heart tem até um pouco de luto nas letras, mas boa parte do material fala de descobertas pessoais, tanto na vida quanto no sexo, no amor, no trabalho e em tudo que possa mexer com a vulnerabilidade.
- Ouvimos: Nastyjoe – The house
Musicalmente, Jenny abraçou tanto a mescla de synthpop e dream pop, com teclados cintilantes e vibe oitentista evidente, que é quase impossível não pensar em Kate Bush, Fleetwood Mac e The Cure ao ouvir o disco. Essa onda surge na abertura com Good intentions, dá as caras nos riffs de guitarra e baixo da faixa-título e na vibe saturada e sonhadora de Appetite – música que fala bem diretamente sobre apetite sexual feminino, culpa e autoestima.
Every ounce of me, Pacemaker e These streets I know usam teclados gelados para falar de um mundo gelado, em que o estresse acaba virando combustível e a melancolia pode inspirar atitudes e canções. O New Order mais baladeiro e tranquilo dos discos mais recentes dá as caras em faixas como a tristonha Dolphins, além das razoáveis Push e Groundskeeping.
Nem tudo funciona 100% em Quicksand heart e dá para dizer que a segunda metade do disco traz menos canções que conquistam de cara, mas Jenny compensa na ambiência das músicas e na verdade inserida nos vocais e nas letras. O “casamento consigo própria” da capa – e vale dizer que o Let’s Eat Grandma não acabou – vem funcionando.
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Crítica
Ouvimos: Julieta Social – “Julieta”

RESENHA: Entre caos e conforto, o Julieta Social estreia com um pop alternativo aberto a referências, letras afiadas e climas que vão do indie ao soul psicodélico.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Seloki Records
Lançamento: 30 de janeiro de 2026
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Tem muito caos, mas também tem muito conforto no som do Julieta Social – uma banda/mini-coletivo de quatro integrantes, que sempre chama convidados para participar das gravações e tenta fazer com que sua sonoridade seja a mais aberta possível. Tanto que Julieta, o primeiro álbum, pode ser definido tranquilamente apenas como música pop, ou até como pop alternativo, que aponta para várias referências e busca não facilitar tanto as coisas para quem ouve.
- Ouvimos: Vá – Pra domingo (EP)
Julieta é o disco do single Casos de Colômbia, que assume referências de Radiohead e Chico Buarque, mas também mistura emanações de Arctic Monkeys e guitarras em clima de blues pós-punk. A faixa tem participação de Mariana Estol nos vocais, e uma letra que mete o dedo na ferida das expectativas que, muitas vezes, não representam nada (“nunca que você vai encontrar dentro do armário / algo lendário, é tudo vestuário / sabe aquela luz que a gente vê de madrugada / é quase nada, mas satisfaz a alma”).
Abrindo o disco, Casos de Colômbia serve de balizador para faixas poéticas como o soul psicodélico de Nuvem nua, o easy listening esparso de Dorme pra ver se me esquece, o pop rock radicalmente brasileiro de Quem nunca quis demais e Um tempo pra pensar – estas duas lembrando um pouco o som praiano de Lulu Santos e Charlie Brown Jr. Também cede espaço para a vibe sixties de Ce la vie e para o clima alt-disco de Como te dizer, que traz lembranças de Arctic Monkeys, Khruangbin e Mamalarky.
Do meio pro fim do disco, o Julieta Social aposta numa vibe indie-pop que tem muito de Tim Maia (Rubbish shuffle), em climas sonhadores e existenciais (Astronauta, Fome) e num bloco dançante com guitarra base e baixo à frente (Poodle marciano), que serve como demonstração de possibilidades instrumentais do grupo. Em meio a tantas ideias, o Julieta Social faz de seu primeiro álbum uma celebração das incertezas – e da beleza que nasce delas.
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Crítica
Ouvimos: Just Mustard – “We were just here”

RESENHA: Shoegaze fantasmagórico e gótico: o irlandês Just Mustard mistura ruído, poesia e psicodelia em We were just here, disco que foge de rótulos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Partisan Records
Lançamento: 24 de outubro de 2025
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Shoegaze e rock gótico são primos bem próximos, mas em vários momentos, é comum que bandas curtam misturar nuvens de guitarras e climas ensolarados – como se o sol fosse sair a qualquer momento. O grupo irlandês Just Mustard, que tem na voz de Katie Ball uma de suas maiores armas e atrativos, opera numa onda de shoegaze fantasmagórico, como se as microfonias e saturações servissem mais para confundir do que para explicar.
A opção da banda vem dando tão certo que eles já foram escolhidos pelo The Cure para abrir shows, e em We were just here, seu terceiro disco, escapam completamente de qualquer rótulo musical unindo vários elementos. Pollyanna, na abertura, poderia até ser uma canção do The Cure ou até do Jesus and Mary Chain: tem início ruidoso, bateria maquínica, teclados, ruído de vento – como se algo cobrisse tudo – e vocal doce, quase bossanovístico. A letra dessa música, assim como de boa parte do disco, é um primor de poesia e contemplação: “quando você vai brincar / onde os pássaros mais doces choram? / estou vendo, não sonhando / estou vendo, não sonhando agora”.
- Ouvimos: Equipe de Foot – Small talk
Não é escapismo, já que parece um doce encontro com a realidade. E que surge também na viagem sonora fantasmagórica de Endless deathless, no quase trip hop + shoegaze de Silver (cuja letra absolutamente psicodélica diz: “luzes prateadas dançando ao redor do seu rosto / não consigo acompanhar o ritmo”) e no dream pop tranquilo de Dreamer. Já a faixa-título é quase hi-NRG, dançante, com início eletronificado e synthpopizado, só que tudo bastante sonhador e psicodélico – encerrando com uma rajada de microfonia daquelas.
Uma ouvida com atenção no Just Mustard revela que o som deles tem bastante a ver com uma certa onda que tomou conta do rock inglês e norte-americano nos anos 1980. Foi quando de uma hora para outra começaram a falar em neo-psicodelia e várias bandas apareciam unindo climas pós-punk a vibrações bem sixties – bandas como Primal Scream, The Pastels e até mesmo o Jesus and Mary Chain tinham a ver com isso.
Essa onda surge no clima enevoado, quase como se você tivesse dificuldade para enxergar na neblina, de Somewhere. Também está no drone, que chega a lembrar uma orquestra se aquecendo, que toma conta de The steps. Por outro lado, We were just here é inteirinho baseado numa espécie de som de ferro rangendo, que aparece em várias faixas, e ganha mais espaço em Out of heaven, a última faixa. Um lado pós-punk também vai surgindo em canções como Dandelion e That I might not see. Essas faces, juntas e equilibradas, formam o clima sonoro de uma das bandas mais legais da atualidade.
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