Lançamentos
Radar: Elza Soares, .Pontonemo, Pra Gira Girar, Cidade Dormitório, Terno Rei e Lô Borges

Sextou, o fim de semana já é uma realidade, e mesmo com algum atraso – passamos o dia divulgando a volta do Pop Fantasma Documento por aí – hoje tem Radar nacional, abrindo com um show inteiro de Elza Soares que acaba de sair no YouTube. Muita coisa legal saiu durante a semana, até aproveitando o Dia da Consciência Negra (dia 20 de novmebro). Aliás tem saído tanta coisa legal que provavelmente o Radar vai ganhar mais espaço ainda, com mais sons ao longo dos dias. Bora com a gente nessa?
Texto: Ricardo Schott – Foto (Elza Soares): Denise Ricardo / Divulgação
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ELZA SOARES, “MEU GURI” (AO VIVO). Elza Soares (1930-2022) conseguiu realizar o sonho de eternizar sua música no Theatro Municipal de São Paulo, numa apresentação histórica e intimista, para 50 pessoas. O show, gravado, virou um misto de show e documentário, Elza ao vivo no Municipal, que foi exibido pelos canais TNT e HBO Max em 2023 e que chegou nesta semana ao YouTube.
A regravação de Meu guri, de Chico Buarque, abre o audiovisual, trazendo Elza vestida de dourado – e se apresentando não ainda no palco, mas num dos salões do teatro, ao lado do pianista Fabio Leandro. É um clipe à parte, mostrando a entrada do teatro e trazendo depoimentos de Elza – que por sinal, corta Meu guri antes da parte final, em que o personagem da faixa é encontrado morto, dando à faixa um final feliz, de trabalho, sonhos e música.
.PONTONEMO. “ECO”. Vindo de Caxias do Sul (RS) esse trio promete o EP Polo de Inacessibilidade do Pacífico para o início de 2026 – e investe num som que tem características de dreampop, shoegaze, emo, pós-punk… Enfim, estilos da mesma “família”, unidos numa sonoridade climática e introspectiva. O disco é adiantado pelo single Eco, que “dá continuidade à jornada de Nemo, o protagonista que habita esse espaço mental e oceânico”, define a banda, mostrando que há um personagem na história das canções do trio.
“Se em ponto nemo, single anterior da banda, lançado em maio, a travessia se iniciava no reconhecimento do isolamento, agora ele enfrenta as tormentas internas: ressentimentos, cobranças cruéis e uma violência autoinfligida que reverbera como ondas sobre si mesmas”, define o grupo.
PRA GIRA GIRAR, “DEIXA A GIRA GIRAR”. Formado por Álvaro Lancellotti, Michele Leal, Alan de Deus, Pedro Costa, Zé Manoel, Zero Telles (in memoriam), Diego Gomes, Kassin e Ana Magalhães, o coletivo Pra Gira Girar surgiu de uma ideia de Alvaro, de criar um show com a obra dos Tincoãs. Show esse que fez bastante sucesso e ainda não saiu de cartaz – neste fim de semana, rolam apresentações no Manouche (hoje mesmo, dia 21) e na Praia de Itaipu, em Niterói (amanhã, sábado, dia 22).
Acontece que o show virou disco – já saiu o single com a regravação de Atabaque chora, e agora chega às plataformas a versão de Deixa a gira girar, um dos maiores sucessos dos Tincoãs, gravado por eles em 1973. Há um álbum inteiro vindo por aí, ainda sem data para sair, mas prometido para breve. O lançamento é do selo Amor in Sound, encabeçado pelo produtor Mario Caldato Jr (que faz também a mixagem) e pela diretora artística Samantha Caldato.
CIDADE DORMITÓRIO, “BARCO AMNÉSIA”. A banda sergipana formada por Fábio Aricawa, Yves Deluc, João Mários e lllucas retorna em tom sonhador e mágico com seu novo single, Barco Amnésia – uma espécie de pérola pós-punk e psicodélica, com clima perdido, imagético e marítimo. Guitarras quase voadoras (que ganham peso lá pelas tantas) e vocais na cola dos Beach Boys são as maiores atrações da faixa, composta quando Deluc viu um barco chamado Amnésia entre as estruturas abandonadas do antigo cais do Catamarã, no município de São Cristóvão, que fica na região metropolitana de Aracaju. Barco Amnésia adianta o terceiro álbum da banda, que sai em 2026 pelo selo Matraca.
TERNO REI E LÔ BORGES, “RELÓGIO”. A faixa “mais elegante” do disco novo do Terno Rei, Nenhuma estrela, segundo a própria banda – e uma faixa que, no disco, já ganhou a participação do saudoso Lô Borges. Lô voltou a se encontrar com o grupo num momento bastante especial: a participação do Terno Rei no Sonastério Ilumina, session gravada no estúdio mineiro Sonastério.
A sessão rendeu um EP ao vivo que já está nas plataformas – e tudo pode ser assistido também no YouTube, inclusive a parceria com o cantor mineiro. De emocionar.
Lançamentos
Radar: Guilherme Arantes, Day Limns, Volver, Luís Perdiz, Roupa Nova, J4mpa

Prepare os ouvidos porque o Radar nacional desta sexta é puro luxo pop: novas de Guilherme Arantes e Roupa Nova, além das releituras que o grupo pernambucano Volver fez dos clássicos da jovem guarda. Só que ainda tem mais pop por aqui: tem a nova de Day Limns, a balada sixties de Luís Perdiz e a MPB folk-indie-brega de J4mpa. Ouça sem moderação e passe adiante!
Texto: Ricardo Schott – Foto (Guilherme Arantes): Leo Aversa / Divulgação
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GUILHERME ARANTES, “LIBIDO DA ALMA”. Preparado para lançar seu disco novo, Interdimensional, em 15 de janeiro de 2026, Guilherme volta lembrando o criador bossa-jazz-soul que fez músicas como Aprendendo a jogar, Coisas do Brasil e o lado-B A noite (do disco Coração paulista, de 1979). Em Libido da alma, single que adianta o disco, Guilherme evoca João Gilberto cantando, e vai na correnteza oposta da Wave, de Tom Jobim, imortalizada justamente por João: fala da possibilidade de ser feliz sozinho, em versos como “desapego / pois não preciso mais lembrar tudo que é desafeto / quando estiver mais leve e prosseguir de peito aberto”.
Tem mais: acompanhado pelo trio Alexandre Blanc (guitarra), Milton Pellegrin (bicho) e Gabriel Martini (bateria), Guilherme opera na faixa um monte de traquitanas eletrônicas que fazem a alegria dos fãs de tecnologia musical vintage. Lá tem um Elka Rhapsody de 1974, um órgão Hammond C3, um teclado Clavinet D3 Honner com pedal wah wah, piano Rhodes Mark V, além do piano Yamaha CP70 com flanger Mutron – esse último, praticamente uma marca do pop feito pelo paulistano. Acostumado a compor seus discos sozinho (e às vezes a fazer shows usando apenas seus teclados e baterias eletrônicas) dessa vez o ex-estudante de arquitetura Guilherme assina até a capa do single, feita a partir de uma foto tirada por sua esposa Márcia Arantes.
DAY LIMNS, “O SOL”. Ex-participante da batalha The Voice Brasil, Day decidiu recentemente comemorar sete anos de carreira. Ela preferiu nem esperar a data redonda dos dez anos: focou logo na simbologia do número 7, que representa ciclos de profundidade, autoconhecimento e revelação na numerologia. Sua nova música, Sol, nasce desse entendimento.
“Quando percebi que minha história tinha sido vivida em sete capítulos, entendi que esse não era um fim — era um espelho. Sol nasce desse reconhecimento: o de que minhas sombras não me seguram mais. Elas me sustentam”, reflete. O som une trap, dream pop e vibrações hyperpop.
VOLVER, “EU SOU TERRÍVEL”. Sucesso quase privativo de Roberto Carlos (embora já tenha sido gravado até por Gal Costa), Eu sou terrível surge puxando Volver canta Jovem guarda, audiovisual lançado pela banda recifense Volver – um projeto que chegou primeiro aos palcos, e depois ao YouTube, em áudio e clipes. Para quem conhece o som do grupo, nada de estranho: Volver é uma banda cuja onda é a dos Beatles entre 1964 e 1966, ou do relacionamento entre power pop e cultura mod, mas com acenos nada ligeiros a estilos como grunge e psicodelia. A jovem guarda já reside no som deles faz tempo, e agora ganha a cara do grupo.
LUÍS PERDIZ, “MUITOS ANOS NESSE ANO”. Cantor, escritor e poeta, Luís prepara o disco Corações de condomínio para o primeiro semestre de 2026 – e já soltou o single Terra quente, que apareceu aqui mesmo no Radar. Muitos anos nesse ano é o lado sixties e até meio jovem-guardista do cantor e compositor – uma balada que fala sobre as reflexões de final de ano, com produção e arranjos assinados por Renato Medeiros e Lucas Gonçalves
“Bob Dylan, Raul Seixas e Rita Lee são entidades que sempre visitavam minha cabeça, quando estava compondo. Sinto que este single é de certa forma um complemento do último lançamento: um outro ponto de vista na sonoridade e no discurso, abordando, agora, o desencontro”, conta ele.
ROUPA NOVA, “O RECADO”. Se você é fã do veterano grupo pop carioca, prepare a caixa de lenços: no novo single, O recado, o Roupa Nova homenageou o saudoso vocalista Paulinho (1952-2020). Vale avisar que não é uma música triste: é um gospel com ar beatle, em que Nando, Cleberson Horsth, Ricardo Feghali, Kiko e Serginho Herval (hoje complementados pelo novo vocalista Fábio Nestares) mandam uma mensagem para o amigo, em versos como “guarda o meu lugar ao seu lado / que a roda do tempo trilha sempre uma só direção / leva o violão afinado, um sorriso aberto / e vou lembrando o refrão da canção” e “apesar de não te ver nunca mais / se a nossa alma segue em paz / então tá tudo bem”. A faixa faz parte do novo EP da banda, que chega às plataformas em janeiro.
J4MPA, “SERENO” / “EU SÓ QUERIA QUE MEU VERÃO CHEGASSE”. Cantor e compositor do sertão paraibano, J4mpa considera que seu trabalho não é meramente musical: ele entrega “abraços em formato digital”, com a ideia de confortar quem escuta. Seus dois novos singles, que adiantam o álbum que está por vir, falam de amores, dores, lembranças e esperanças, num tom que varia do indie-brega ao folk. “Sereno captura a quietude da noite e o jeito como ela revela pensamentos que não cabem nas horas corridas do dia. Nesse espaço macio, olha-se para dentro não para reviver feridas, mas para compreender seus próprios caminhos, afetos e expectativas”, conta ele sobre o primeiro single da leva.
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Crítica
Ouvimos: Luvcat – “Vicious delicious”

RESENHA: Luvcat estreia com Vicious delicious, disco de pop nostálgico e lânguido, entre Hollywood vintage, art-pop e sombras pós-punk, com poucos tropeços.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: AWAL
Lançamento: 31 de outubro de 2025
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Luvcat é a segunda encarnação – e o segundo ato de carreira – da britânica Sophie Morgan Howarth, nascida em Liverpool em 1996, e que tem três EPs de folk alternativo lançados como Sophie Morgan. Rola um subtexto pós-punk/britpop na história dela: ainda com seu nome anterior, ela abriu uma turnê dos Waterboys e foi ajudada pelo baixista do The Verve, Simon Jones. Luvcat, seu novo nome artístico, é uma referência ao sucesso do The Cure, The lovecats.
Vale citar que folk e pós-punk são estilos que até aparecem em Vicious delicious, estreia de Luvcat, mas são secundários ou terciários num manifesto pop que, basicamente, é tão nostálgico da velha Hollywood quanto os discos de Lana Del Rey, e tão “lânguido” quanto Lana e Billie Eilish – e cuja estética mexe com as mesmas estranhices pop de vários lançamentos de hoje.
- Ouvimos: Angélica Duarte – Toska
É um álbum pop, feito com um alvo à frente, mas com princípios básicos que o tornam às vezes mais próximo do art-pop, como na sexy e latina Lipstick, no soft rock Alien (música sobre inadequação, drogas e introspecção, com versos como “sempre fui uma de nós / garotinha verde em seu próprio mundo”), a experimentação reggae-pós-punk-gore de Matador (“eu queria amor / mas você quis sangue”). E na onda sofisticada de Dinner @ Brasserie Zedel, com heranças da música francesa, e He’s my man, alt-folk com recordações de Jacques Brel, Scott Walker e David Bowie do começo.
Tem um lado sombrio no disco, como no folk mórbido de Laurie, música de amor tristonho com metais, violão e cordas. Ou na vertigem de The Kazimier Garden, e ono clima meio Siouxsie + David Bowie de Emma Dilemma. Faz parte da lista de sensações visitadas por Luvcat, no disco, embora haja também uma canção que poderia concorrer ao Eurovision (a faixa-título) e algo que faz lembrar o lado praiano e desértico do Roxy Music (Love & money).
Lá pelas tantas, dá para se perguntar até o que o dispensável hard rock country Blushing, que lembra Bon Jovi, está fazendo no disco, já que Vicious delicious, mesmo com uma certa confusão conceitual e musical, tem lados melhores para apresentar.
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Crítica
Ouvimos: Ira Glass – “Joy is no knocking nation” (EP)

RESENHA: EP maníaco do Ira Glass, Joy is no knocking nation mistura pós-hardcore, math rock, fanfarra sombria e ataques free-jazz, criando uma avalanche ruidosa, tensa e coesa.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Fire Talk
Lançamento: 14 de novembro de 2025.
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Vindo de Chicago, o Ira Glass vive de causar estranhamento: é um quarteto escoladíssimo no pós-hardcore e no math rock, mas que às vezes, parece estar querendo repetir eternamente o final de 21 century schizoid man, do King Crimson, com aquele ataque free-jazz de guitarra, baixo, bateria e metais.
Joy is no knocking nation, segundo EP da banda, é basicamente um disco de rock experimental maníaco, soando como uma fanfarra sombria em faixas como It’s a whole “Who shot John” story – faixa, que curiosamente tem vocal em clima grunge e destruidor, chegando a lembrar Alice In Chains. Essa onda de fanfarra do mal chega no seu ápice em fd&c red 40, repleta de vocais guturais e gritos mais chegados do screamo, e no stoner tenso e quebradiço de New guy (Big softie). Nem precisa falar que nomes como James Chance, Wire e Swans pairam sobre todo o repertório do disco, e que o próprio Fugazi, com suas quebras rítmicas, também é citado aqui e ali.
Jill Roth, saxofonista da banda, é um dos responsáveis pela tal cara free-jazz que o Ira Glass tem – e que, felizmente, não surge forçada nem mesmo quando é inserida em momentos mais pesados do disco. Fritz all over you é o mais progressivo e suave que o grupo parece querer soar, mas sempre numa onda sombria. No fim, That’s it/That? That’s all you can say?, entre gritos e vocais demoníacos, soa como uma música tocada ao contrário, uma roda de ruídos presa numa corrente igualmente ruidosa. Uma porrada bem elaborada, mesmo quando parece que tudo saiu do controle.
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