A atriz austríaca Hedwig Eva Maria Kiesler (1914-2000) virou Hedy Lamarr ao chegar em Hollywood em 1938 (foi rebatizada pelo magnata do cinema Louis B. Mayer). Foi pulando de produção em produção até estrelar seu maior sucesso, Sansão e Dalila, de Cecil B. DeMille (1949), ao lado de Victor Mature. E provavelmente foi um dos mais belos rostos do cinema em seu tempo.

Se o nome de Hedy já vem sendo bem pouco comentado ao longo dos últimos anos, não custa lembrar mais uma coisa: além de atriz, ela foi inventora. E foi responsável pela criação do wi-fi e do bluetooth (oi?) bem antes da própria internet existir, em plena Segunda Guerra Mundial.

A ideia de Hedy (que ela assinou com seu nome verdadeiro, despistando ainda mais as possibilidades de receber crédito pelas inovações) surgiu em 1940, e consistia em criar um aparelho de interferência de rádio para despistar radares nazistas. Ao que consta, tudo surgiu quando ela tocava piano ao lado do compositor George Antheil, repetindo em outra escala as notas que ele tocava.

De uma conversa sobre como duas pessoas podem conversar mudando o canal de comunicação, veio outro papo sobre uma época em que Hedy era casada (na Áustria) com um traficante de armas (!). O maridão conversava volta e meia com nazistas e ouvia deles preocupações a respeito da criação de um dispositivo que permitisse o controle por rádio de torpedos aéreos. Ela e Antheil começaram a pensar que, para conseguir derrotar os nazistas, a ideia enviar sinais de rádio para mísseis, sincronizados em vários comprimentos de onda, para redirecionar suas rotas. Tem mais detalhes sobre isso no obituário de Hedy no New York Times (em inglês).

Hedy e Antheil receberam uma patente dos EUA em 11 de agosto de 1942, mas o governo americano não se interessou pela ideia – em parte porque ninguém acreditava que uma atriz que tinha um dos rostos mais bonitos da telona fosse também uma inventora. Uma versão do sistema foi usada pelos militares americanos na década de 1960, depois que a patente expirou. De qualquer jeito, não é pouca gente que considera que os sistemas de wi-fi e bluetooth vieram da iniciativa de Hedy.

Até sua morte, Hedy declarou várias vezes que seguiu apenas seus instintos, e que “melhorar as coisas é algo que vem naturalmente para mim”. De qualquer jeito, é uma surpresa pra muita gente, até hoje, que uma atriz de Hollywood dos anos 1940 tenha sido também um nome da tecnologia.

Hedy continuou atuando até o fim dos anos 1950 e teve um fim de carreira nada fácil. Ficou meio esquecida pela indústria do cinema, foi acusada de furto algumas vezes (em lojas de Los Angeles e da Flórida). Tentou papel no filme Picture mommy dead (1960) mas acabou preterida por outra atriz imigrante que havia se tornado uma sensação da tela por aqueles anos: Zsa Zsa Gabor. Até 1996, quatro anos antes dela morrer, Hedy não havia ganhado um centavo com suas descobertas tecnológicas. Nesse ano, finalmente recebeu o Pioneer Award da Electronic Future Foundation. “Está na hora”, disse ao saber da novidade.

Ah sim, em 1966, Andy Warhol fez um curta-metragem sequelado chamado Hedy, sobre uma história da vida da atriz que envolve visitas ao cirurgião plástico e roubo (enfim) numa loja. O filme não está no YouTube, mas a trilha, que envolveu a turma do Velvet Underground, está em parte lá.

Via Open Culture.