Crítica
Ouvimos: Peter Murphy – “Live Volume 4 Metro Chicago 1990” / “Live Volume 3 4th & B San Diego 2000” (ao vivo)

RESENHA: Dois álbuns ao vivo revelam fases fortes de Peter Murphy, revisitadas com banda afiada, repertório abrangente e transição do gótico ao pop sofisticado.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9 (ambos)
Gravadora: Silver Shade
Lançamento: 28 de novembro de 2025 (ambos)
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Recentemente, Peter Murphy retornou com Silver shade, um disco solo bem mais ou menos (resenhamos aqui), coisa rara em sua carreira de discos profundos e canções intensas. Por acaso, o novo lançamento coincidiu com uma época em que ele vem produzindo uma série de álbuns ao vivo, lançados por seu próprio selo – igualmente chamado Silver Shade – e que resgatam shows seus com ótimo repertório e banda campeã.
Os lançamentos começaram em 2024, com um show de 2008 em Nova York, e um disco sortido de covers ao vivo – na real, já vinham saindo registros ao vivo de Murphy havia um tempinho, mas essa série uniformizada com pinturas do cantor na capa é bem nova. Live Volume 4 Metro Chicago 1990, por exemplo, lembra um período bem prolífico na história de Murphy, que tinha acabado de abrir sua carreira solo sob condições bem menos adversas do que na época de sua ex-banda Bauhaus, com a sequência de três álbuns Should the world fail to fall apart (1986), Love hysteria (1987) e Deep (1989).
O repertório é o dessa época, mostrando a fase de ascensão de Murphy nos Estados Unidos e trazendo hits como Deep ocean, vast sea e Cuts you up, além de Roll call, Marlene Dietrich’s favourite poem e de versões para The light pours out of me (Magazine) e Funtime (David Bowie e Iggy Pop), numa transição completa do rock gótico para o pop sofisticado e adulto – algo que tornava Murphy mais próximo de Bowie e Bryan Ferry. Falta o hit Indigo eyes, de Love hysteria, mas o álbum é representado por faixas como His circle and hers meet e All night long.
Live Volume 3 4th & B San Diego 2000 é mais um show dado nos Estados Unidos, num período em que Murphy estava havia cinco anos sem discos novos. O mais recente era Cascade, de 1995, devidamente lembrado em vários momentos do show. Mas o repertório era bem abrangente, cabendo músicas de todos os álbuns – entre elas, a versão de Final solution, do Pere Ubu, lançada por ele em Should the world… . Ao lado de Murphy, músicos como Eric Avery (Jane’s Addiction, baixo), Kevin Haskins (outro ex-Bauhaus, na bateria) e Peter DiStefano (Psychedelic Furs, guitarra). Dois registros de época, para fãs e para quem quer descobrir Murphy.
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Crítica
Ouvimos: Nastyjoe – “The house”

RESENHA: Banda francesa Nastyjoe estreia em The house com pós-punk sofisticado: vocais graves, guitarras nervosas e clima indie cerebral. Pode virar favorita.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: M2L Music
Lançamento: 16 de janeiro de 2026
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Assumidamente referenciada em bandas como The Cure, Blur e Fontaines DC, a banda francesa Nastyjoe soa mais indie rock do que o grupo de Robert Smith e mais voltada ao pós-punk do que a banda do hit Country house – também soa mais cerebral que a fase atual do Fontaines. A cara própria deles está numa noção sofisticada de pós-punk, com vocais graves combinados a guitarras ágeis, baixos cavalares e bateria motorik.
- Ouvimos: Bee Bee Sea – Stanzini can be alright
Esse som aparece nas faixas de abertura de The house, disco de estreia do grupo: a boa de pista Strange place e a maquínica faixa-título, que lembra bastante Stranglers nos timbres de guitarra. Por sinal, o Nastyjoe é uma banda nova recomendadíssima para quem curtia a base carne-de-pescoço do grupo punk britânico, com direito a vocais falados no estilo de Hugh Cornwell na gozadora Dog’s breakfast – uma crônica musicada em que um sujeito começa a sentir inveja de um cachorro na rua (!).
The house tem ainda uma curiosa mescla de Stooges e Psychedelic Furs (Worried for you), uma concessão às vibes góticas oitentistas (a anti-fofinha Hole in the picture, que prega: “estou de saco cheio de ser gentil”), breves lembranças do Wire (numa pérola krautpunk intitulada justamente… Wire), guitarras em meio a nuvens (as duas partes de Things unsaid), punk garageiro turbinado (Blood in the back) e som deprê e frio (Cold outside). Pode ser sua banda preferida, um dia. Ouça e fique de olho.
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Crítica
Ouvimos: Wet For Days – “Wet For Days”.

RESENHA: Wet For Days, trio punk canadense de mães, mistura Ramones, L7 e Buzzcocks em disco de estreia pesado, feminista e sem paciência pra machos imbecis.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 9 de setembro de 2025
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“Banda punk rock de mães de Ottawa. Tendo seis filhos entre nós, nos unimos pelo amor ao rock and roll e por criar boas pessoas em um mundo difícil”. É assim que esse trio canadense define, mais do que seu som, seu propósito. Sarah (guitarra, voz), Steph (baixo, backing vocal) e Deirdre (bateria, backing vocal), as três do Wet For Days, somam emanações sonoras de bandas como Ramones, L7, Buzzcocks e Babes In Toyland em seu disco epônimo de estreia, e apresentam canções sobre sexo, feminismo, machos imbecis – e sobre não aturar gente imbecil de modo geral.
- Ouvimos: Besta Quadrada – Besta Quadrada
A banda abre com as guitarras distorcidas e o clima Ramones de Wet for days, seguindo com o imenso “larga do meu pé!” de Alpha male e os riffs graves de Anxiety, punk rock numa onda meio Dead Kennedys, cuja letra fala em “cérebro bagunçado e taquicardia” e pede que a ansiedade fique bem longe. Lembranças de The Damned e Motörhead surgem nas furiosas On the run e Listen up, e sons entre os anos 1980 e 1990 dão as caras nas esporrentas Kill your ego e Smile. No final, lembranças ruins na ágil Bad date.
Wet for days ainda tem duas vinhetas fofas em que as integrantes aparecem interagindo com suas crianças: em Don’t worry be mommy, uma brincadeira com os versos de Don’t worry be happy, de Bobby McFerrin, vai fazer você ficar com um sorriso bobo na cara o dia inteiro. Mas o principal aqui é o peso.
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Crítica
Ouvimos: Vá – “Pra domingo” (EP)

RESENHA: Quarteto gaúcho Vá mistura prog autoral, MPB e indie rock em Pra domingo, EP ao vivo contemplativo, com pianos, guitarras e ecos de Radiohead e Khruangbin.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 25 de janeiro de 2026
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Progressivo de malandro? Esse é um dos estilos musicais que a banda gaúcha Vá diz moverem seu som. No release do EP Pra domingo, registro audiovisual apresentando quatro músicas gravadas ao vivo em 2024 no Estúdio Trilha (Sapucaia do Sul, RS), o quarteto de Canoas (RS) conta misturar essa vertente própria do prog com MPB e estileira indie rock.
- Ouvimos: Assombroso Mundo da Natureza – Espectros
Com quatro faixas e 18 minutos de duração, Pra domingo é um disco marcado pelo clima contemplativo, em que pianos e guitarras constroem paisagens sonoras que fazem lembrar tanto o Pink Floyd quanto algumas mumunhas de soul progressivo e MPB. Estas últimas surgem em faixas como Via infinita e Arco íris, até que o som ganhe mais peso, mais dinamismo e uma ambiência sonora menos “vazada” – que remete tanto a Khruangbin quanto a Radiohead.
O lado “progressivo” surge em detalhes como as mudanças no andamento e no clima de Arco íris, criando quase uma parte 2 na música. Na segunda metade de Pra domingo, a tranquilidade de Desleixar, marcada por guitarras meio sombrias e um piano Rhodes – até que o clima relax proposto pela letra cede espaço para um interlúdio e um solinho de sintetizador. E um mergulho maior nas progressões, embora filtradas pelo peso dos anos 1990, nos vários segmentos de Olhos nos olhos.
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