Crítica
Ouvimos: Viagra Boys, “Viagr aboys”

Definir o Viagra Boys como uma banda punk-pop, como geralmente rola por aí, é bobagem: o grupo sueco está mais para dance-punk, stoner rock de festa, ou qualquer outra definição que abarque som pesado, zoeira e despojamento, como rola exatamente no quarto álbum, Viagr aboys – ao que parece, o nome é um jeito de fazer piada em cima da censura a temas sexuais nas redes sociais.
Essa sonoridade marca boa parte não só do álbum, como da carreira do grupo – e surge em faixas como o single Man made of meat, uma história absurda enfeitada por um arroto vocal (logo no início, e parece que saiu sem querer e foi mantido), e que descreve um rolé com os Queens Of The Stone Age. Também aparece na doideira punk de The bog body e numa espécie de stoner new wave, Uno II, marcada por umas notas de flauta que, de alguma forma, aproximam a sonoridade de algo tipo Prince.
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Daí para a frente, os portões do Viagra Boys são abertos de uma tal forma que o som abarca power pop gritado (Dirty boyz), um estranho encontro entre The Cure e Red Hot Chili Peppers (Medicine for horses), uma onda meio Madchester (Pyramid of health) e uma vibe eletrostoner (Waterboy, Store police, You n33d me). Isso só para ficar na música, porque nas letras, o grupo é um grande criador de personagens e situações esquisitas – o tipo de banda que, na briga entre duas pessoas absolutamente imbecis, é a favor da briga. Como na figurinha bizarra de You n33d me, no monólogo absurdo de Uno II (cujo personagem, ao que parece, é um cachorro), e nos rituais quase satânicos de saúde em Pyramid of health.
Já The bog body tenta botar em versos um tema que aparentemente não faz sentido: a preservação de coisas antigas versus nossa mania de beleza, de juventude e de desafiar a morte. Só que logo dá para perceber que é tudo zoeira, uma tiração de sarro com as obsessões da modernidade, com os malucos que dedicam a vida a falar groselha em fóruns escrotos da internet (os 4chan da vida).
No fim de Viagr aboys, o máximo de experimentalismo a que o grupo vem se permitindo: as batidinhas quase de samba de Best in show pt. IV. E a balada lo-fi, com piano, sopros e ruídos de restaurante, de River king – cuja letra parece uma perversão da poética de David Byrne nos Talking Heads (“vá comer comida chinesa / no restaurante local em uma segunda-feira à noite / tem gosto de carne azeda / mas eu já comi pior, então não me importo”).
Nota: 9
Gravadora: Shrimptech Enterprises
Lançamento: 25 de abril de 2025.
Crítica
Ouvimos: Nastyjoe – “The house”

RESENHA: Banda francesa Nastyjoe estreia em The house com pós-punk sofisticado: vocais graves, guitarras nervosas e clima indie cerebral. Pode virar favorita.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: M2L Music
Lançamento: 16 de janeiro de 2026
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Assumidamente referenciada em bandas como The Cure, Blur e Fontaines DC, a banda francesa Nastyjoe soa mais indie rock do que o grupo de Robert Smith e mais voltada ao pós-punk do que a banda do hit Country house – também soa mais cerebral que a fase atual do Fontaines. A cara própria deles está numa noção sofisticada de pós-punk, com vocais graves combinados a guitarras ágeis, baixos cavalares e bateria motorik.
- Ouvimos: Bee Bee Sea – Stanzini can be alright
Esse som aparece nas faixas de abertura de The house, disco de estreia do grupo: a boa de pista Strange place e a maquínica faixa-título, que lembra bastante Stranglers nos timbres de guitarra. Por sinal, o Nastyjoe é uma banda nova recomendadíssima para quem curtia a base carne-de-pescoço do grupo punk britânico, com direito a vocais falados no estilo de Hugh Cornwell na gozadora Dog’s breakfast – uma crônica musicada em que um sujeito começa a sentir inveja de um cachorro na rua (!).
The house tem ainda uma curiosa mescla de Stooges e Psychedelic Furs (Worried for you), uma concessão às vibes góticas oitentistas (a anti-fofinha Hole in the picture, que prega: “estou de saco cheio de ser gentil”), breves lembranças do Wire (numa pérola krautpunk intitulada justamente… Wire), guitarras em meio a nuvens (as duas partes de Things unsaid), punk garageiro turbinado (Blood in the back) e som deprê e frio (Cold outside). Pode ser sua banda preferida, um dia. Ouça e fique de olho.
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Crítica
Ouvimos: Wet For Days – “Wet For Days”.

RESENHA: Wet For Days, trio punk canadense de mães, mistura Ramones, L7 e Buzzcocks em disco de estreia pesado, feminista e sem paciência pra machos imbecis.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 9 de setembro de 2025
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“Banda punk rock de mães de Ottawa. Tendo seis filhos entre nós, nos unimos pelo amor ao rock and roll e por criar boas pessoas em um mundo difícil”. É assim que esse trio canadense define, mais do que seu som, seu propósito. Sarah (guitarra, voz), Steph (baixo, backing vocal) e Deirdre (bateria, backing vocal), as três do Wet For Days, somam emanações sonoras de bandas como Ramones, L7, Buzzcocks e Babes In Toyland em seu disco epônimo de estreia, e apresentam canções sobre sexo, feminismo, machos imbecis – e sobre não aturar gente imbecil de modo geral.
- Ouvimos: Besta Quadrada – Besta Quadrada
A banda abre com as guitarras distorcidas e o clima Ramones de Wet for days, seguindo com o imenso “larga do meu pé!” de Alpha male e os riffs graves de Anxiety, punk rock numa onda meio Dead Kennedys, cuja letra fala em “cérebro bagunçado e taquicardia” e pede que a ansiedade fique bem longe. Lembranças de The Damned e Motörhead surgem nas furiosas On the run e Listen up, e sons entre os anos 1980 e 1990 dão as caras nas esporrentas Kill your ego e Smile. No final, lembranças ruins na ágil Bad date.
Wet for days ainda tem duas vinhetas fofas em que as integrantes aparecem interagindo com suas crianças: em Don’t worry be mommy, uma brincadeira com os versos de Don’t worry be happy, de Bobby McFerrin, vai fazer você ficar com um sorriso bobo na cara o dia inteiro. Mas o principal aqui é o peso.
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Crítica
Ouvimos: Vá – “Pra domingo” (EP)

RESENHA: Quarteto gaúcho Vá mistura prog autoral, MPB e indie rock em Pra domingo, EP ao vivo contemplativo, com pianos, guitarras e ecos de Radiohead e Khruangbin.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 25 de janeiro de 2026
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Progressivo de malandro? Esse é um dos estilos musicais que a banda gaúcha Vá diz moverem seu som. No release do EP Pra domingo, registro audiovisual apresentando quatro músicas gravadas ao vivo em 2024 no Estúdio Trilha (Sapucaia do Sul, RS), o quarteto de Canoas (RS) conta misturar essa vertente própria do prog com MPB e estileira indie rock.
- Ouvimos: Assombroso Mundo da Natureza – Espectros
Com quatro faixas e 18 minutos de duração, Pra domingo é um disco marcado pelo clima contemplativo, em que pianos e guitarras constroem paisagens sonoras que fazem lembrar tanto o Pink Floyd quanto algumas mumunhas de soul progressivo e MPB. Estas últimas surgem em faixas como Via infinita e Arco íris, até que o som ganhe mais peso, mais dinamismo e uma ambiência sonora menos “vazada” – que remete tanto a Khruangbin quanto a Radiohead.
O lado “progressivo” surge em detalhes como as mudanças no andamento e no clima de Arco íris, criando quase uma parte 2 na música. Na segunda metade de Pra domingo, a tranquilidade de Desleixar, marcada por guitarras meio sombrias e um piano Rhodes – até que o clima relax proposto pela letra cede espaço para um interlúdio e um solinho de sintetizador. E um mergulho maior nas progressões, embora filtradas pelo peso dos anos 1990, nos vários segmentos de Olhos nos olhos.
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