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Ouvimos: Thiago Amud, “Enseada perdida”

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Ouvimos: Thiago Amud, "Enseada perdida"

Ainda não se sabe se Enseada perdida levará Thiago Amud a um público maior — talvez o disco encontre apenas os ouvidos certos, mais receptivos à sua complexidade. Mas o álbum, que inaugura o 2025 da gravadora Rocinante, tem potencial para atravessar fronteiras. E não apenas por contar com Caetano Veloso e Chico Buarque como parceiros em duas faixas (Cantiga de ninar o mar e Cidade possessa, respectivamente).

A musicalidade de Enseada perdida é quase retropicalista, evocando referências que vão das sonoridades indígenas às suítes musicais, do rock-MPB-pop sofisticado à la Boca Livre e 14 Bis ao apuro vocal de Zé Renato (por acaso, integrante do Boca Livre). Há até espaço para uma inesperada conexão com o indie rock, já que, após a suíte-samba-enredo Baía de Janeiro (um mergulho geográfico e histórico no Rio de Janeiro, exaltando suas águas e raízes indígenas e negras) e a jazzística e percussiva Oração à Cobra Grande (cujos coros remetem aos discos de Caetano e Gil dos anos 1970/80) vem Se você pensasse. Uma canção que soa como um híbrido improvável de Sonic Youth e Pixies em clima de MPB. Ou melhor: como se o Sonic Youth compusesse uma canção para Djavan, com um engenhoso diálogo entre orquestra e guitarra distorcida.

O universo de Enseada perdida é vasto em destaques. Cidade possessa, parceria com Chico Buarque, funde Carnaval e fúria num arranjo que lembra as experimentações orquestrais dos discos infantis da Ariola (ou seja, Rogério Duprat, que cuidou do design musical de álbuns como Arca de Noé). Mapa mundi é uma peça de piano com atmosfera quase clássica, remetendo a Milton Nascimento antes de se dissolver em um ruído no final. Orgia carrega ecos do pop nacional dos anos 1980, funcionando como um encontro entre Mutantes e Luiz Melodia. Dinamismo mistura percussão jazzística e MPB, evocando o lirismo de Chico Buarque e a sofisticação harmônica/rítmica de João Bosco. E atenção para Penteu, inspirada em As Bacantes (405 a.C.), peça grega de Eurípides: uma faixa cheia de surpresas e momentos desconcertantes, transitando entre o pop de câmara, o soul e o sambalanço.

Nota: 9
Gravadora: Rocinante
Lançamento: 29 de janeiro de 2025

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Ouvimos: Memorials – “All clouds bring not rain”

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Ouvimos: Memorials – “All clouds bring not rain”

RESENHA: All clouds bring not rain, disco do Memorials, mistura psicodelia, shoegaze e referências 60s/70s em som denso, intuitivo e surpreendente, que atualiza ideias do gênero.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Fire Records
Lançamento: 27 de março de 2026

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Não há como não ter a sensação de que o novo disco do Memorials, All clouds bring not rain, só poderia ser um disco de 2026 – a mistura sonora e a união de referências tem tanta informação musical que tudo parece vir da audição de muita música pós-1966. Se hipoteticamente fosse um disco lançado em 1967 seria algo tipo “música para sonhar”, “música para relaxar”- no geral, tem até um ar de mensagem na garrafa ali, como no caso de um disco gravado num selo pequeno, lançado em pequeníssima escala e nunca valorizado de fato.

Verity Susman e Matthew Simms seguem uma onda tão intuitiva que você, depois de um determinado momento, começa até mesmo a adivinhar o que vem na sequência. No geral, é um disco de “shoegaze de câmara”, com ruídos, guitarras emparedadas e climas que lembram um amanhecer ácido em Life could be a cloud, a mágica I can’t see a rainbow (que ganha um som que lembra uma harpa, ou violão harpejado) e a funkeada Mediocre demon, com clima assutador de araque e lembranças de Jefferson Airplane e Mutantes.

  • Ouvimos: Angine de Poitrine – Vol. II

Tem também Bell miner, música de clima cerimonial, batida circular e voadora, algo com a doçura de The Mamas and The Papas e uma psicodelia que parece filtrada pelo krautrock – mesma onda de Cut glass hammer, melódica, psicodélica e distorcida, e de Holy invisible, a última faixa, pop psicodélico e hipnótico, que ganha mudanças de tom, e que parece a capa de All clouds bring not rain musicada. Essas ondas todas, unidas, formam um disco cheio de surpresas, e que parece ter a função de atualizar várias ideias que a gente tem do que é “psicodelia”.

No fim das contas, All clouds… tem bem mais pesquisa e escuta de música do que clichês musicais, mesmo quando une Byrds, um órgão safado e nostálgico, e um clima punk discreto em Dropped down the wall, ou quando invade a pequena área do pop de AM dos anos 1970 em Reimagined river. Tem ainda Watching the moon, pop inocente norte-americano dos anos 1960, com emanação de Phil Spector, clima de The Doors e vibe fantasmagórica.

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Ouvimos: Witch Post – “Butterfly” (EP)

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Ouvimos: Witch Post – “Butterfly” (EP)

RESENHA: Em Butterfly, Witch Post troca noise por folk com guitarras indie. EP oscila entre doçura e ruído, misturando grunge, alt-folk e clima sombrio.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Partisan Records
Lançamento: 20 de março de 2026

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O Witch Post é uma dupla formada por um músico escocês, Dylan Fraser, e uma musicista de Los Angeles, Alaska Reid. Beast, EP do ano passado (que resenhamos aqui) era um disco ruidoso, oscilando entre folk e noise-rock em vários momentos. Butterfly, EP novo, põe a balança pesando mais para o lado folk, sem esquecer de guitarradas indie – como em Changeling, faixa de abertura, quase um Red Hot Chili Peppers deprê.

O som por acaso fica às vezes na onda de Courtney Barnett em seu novo Creatures of habit, mas com vocais em duo e uníssono que dão um ar de cantiga folk. Worry angel, a faixa seguinte, vai nessa linha: é um alt-folk de violão-e-voz com certo desespero nos vocais. Só que depois rola uma metamorfose: a faixa ganha ares de college rock e fica num clima entre Nirvana e Radiohead. Esse clima que vai da doçura ao incômodo em poucos segundos marca todo o EP.

Seria esse aí o tal do bubblegrunge? Talvez, mas o principal é que Witching hour, que abre quase lembrando um darkwave de bolso, ganha clima de balada bruxuleante e chega lembrar Cranberries – daí as emanações sonoras são bem variadas. Twin fawn segue com riff de guitarra circular e clima doce, lado a lado com os vocais. Country soul tem um lado country – mas o “soul” aqui no máximo tem a ver com uma vibe fantasmagórica que surge em seguida.

Butterfly encerra com um curioso bolerinho beatle e indie (Tilt-a-wirl, com diálogo entre as vozes de Dylan e Alaska) e algo mais próximo do pós-punk (Something to give, com a onda ruidosa de Beast e evocações de New Order e The Cure). As letras, por sua vez, unem a contemplação de um road movie com memórias cheias de emoção – e também de medo, como em Worry angel, música que brinca com a ideia de quando tudo estiver por um segundo, haverá sinais, ou não.

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Ouvimos: Soviet Dust – “Soviet Dust” (EP)

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Ouvimos: Soviet Dust – “Soviet Dust” (EP)

RESENHA: O Soviet Dust nasce de colagens de áudio de viagens. EP mistura kraut, pós-punk e shoegaze em clima frio, experimental e melancólico.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Bellissimo Fingers
Lançamento: 27 de março de 2026

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Vindo de Brisbane (Austrália), o Soviet Dust é um projeto musical que surgiu de maneira bem diferente do, digamos, comum. Andrew Bower, da banda The Valery Trails, fez vários vídeos durante viagens ao redor do mundo. Ele pegou os vídeos, editou pedaços de áudio, pôs muita coisa em loop e depois acrescentou vocais, guitarra, baixo e teclados. E ainda chamou o colega de banda Dan McNaulty (bateria, percussão e ruídos estranhos), além de Luke Spreadborough (guitarra).

Nasceu assim o Soviet Dust, cujo EP epônimo tem uma estranha onda que passa por kraut rock, rock clásssico, letras enigmáticas (“say no to yes, say yes to no! / enjoy the show”, é um verso de Kakadu) e coisas que lembram, de longe, Swans e Velvet Underground. Kerala tem vocais esparsos, som maquínico e estranho, e uma guitarra que lembra até The Who e Queen. A já citada Kakadu é um estranho pós-punk com guitrra bluesy. Veronesi e Colca têm uma onda meio shoegaze, meio pós-punk, mas com guitarra em tom blues.

O Soviet Dust se diz algo como “imagine Beck improvisando com o Big Audio Dynamite e com a participação especial de J Mascis na guitarra”. Faz sentido, mas sem a onda mais suingada que volta e meia surge no trabalho dos dois primeiros, já que o SD segue uma estética mais fria, pós-punk, mais contemplativa. Essa contemplação fica ainda mais intensa no final, com a melancolia de Nowhere, uma espécie de Velvet Underground folk, com mellotron de flauta no fim.

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