Crítica
Ouvimos: The Lemon Twigs, “Everything harmony”

- Formado pelos irmãos Brian e Michael D’Addario (nascidos em 1997 e 1999, respectivamente), o Lemon Twigs vieram de Long Island, Nova York, e são filhos de um músico e compositor de Manhattan, Ronnie D’Addario. Everything harmony é o quarto disco da dupla.
- A banda começou gravando pela 4AD. Dessa vez, retornam pelo selo Captured Tracks, que lançou artistas como DIIV e Wild Nothing. O disco anterior, Songs for the general public, saiu em 2020 e foi prejudicadíssimo pela pandemia.
- Os Lemon Twigs tocaram recentemente em discos de Foxygen e Weyes Blood. O som deles costuma ser comparado a Todd Rundgren (que participou do segundo disco, Go to school), Big Star e Beach Boys.
Tem um problema com a história dos Lemon Twigs, dupla de irmãos que surgiu em 2016 com o excelente disco Do Hollywood, fazendo um mix certeiro de indie rock, loucura lúcida no estilo de Todd Rundgren e Roy Wood, AOR e folk de rádio. Mesmo que a banda tenha lançado uma ópera-rock malucona em 2018, Go to school, o trabalho de Brian e Michael D’Addario passou a ficar menos cheio de surpresas e mais ligado aos pastiches que dominavam as rádios AM nos anos 1970. Everything harmony, o quarto álbum (ou quinto, se contar o descartado What we know, de 2014, demo feita quando eram adolescentes) melhora um pouco.
A dupla volta a brincar de Todd Rundgren em faixas como When winter come around, dá um aceno simultaneamente a Todd e Prince na intrincada Any time of day e recebe rápido um misto de R.E.M. e The Who em What you were doing. A personalidade própria dos dois rapazes ao atacar a sonoridade pop do começo dos anos 1970 inclui noções básicas de que os primeiros discos solo de John Lennon e Paul McCartney estão entre os mais importantes da história do rock, talvez mais até do que discos como Pet sounds, dos Beach Boys – com quem volta e meia eles são comparados.
Já o lado mais (vamos dizer assim) xarope do som radiofônico da era do bittersweet, com baladas tristes e canções meio desesperadas, dá aquelas aporrinhadas básicas em Everyday is the worst day of my life, canção fofolk cuja letra se resume ao título, e que provavelmente você não vai querer ouvir nos piores dias da sua vida, ou a deprê vai piorar. Mesmo caso de What happens to a heart, que caberia na trilha de uma novela como O astro.
Essa faceta baladeira é a mais desinteressante dos Lemon Twigs, rendendo músicas acuçaradas e desencantadas que você possivelmente vai deixar para ouvir em dias melhores que nunca chegam, e que lembram mais John Denver do que Big Star. Mas traz pelo menos um candidato a clássico, Still it’s not enough, e uma música que soaria bem na voz de Paul McCartney ou do hoje esquecido irmão do beatle, Mike McGear, Born to be lonely.
Rola também um power pop psicodélico de categoria, Ghost run free, com clima de trilha de filme. E o belo pop barroco da faixa-título, que soa como a mescla exata de The Left Banke e Milton Nascimento. Fica faltando um álbum em que os Twigs mergulhem na acidez de A wizard, a true star, de Todd Rundgren, ídolo da dupla (Go to school, o segundo deles, era por aí), ou descubram The Who, Queen e até Cheap Trick. Que venha com o tempo.
Gravadora: Captured Tracks
Nota: 6,5
Crítica
Ouvimos: Kiss – “Kiss Destroys Anaheim ’76” (ao vivo)

RESENHA: Gravado diante de mais de 42 mil fãs em 1976, Kiss Destroys Anaheim ’76 recupera um show histórico com som restaurado por Eddie Kramer e toda a teatralidade da banda.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Universal Music
Lançamento: 21 de agosto de 2026
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O Kiss não era um sucesso evidente até o extremamente bem sucedido duplo ao vivo Alive (1975). A ponto de a gravadora Casablanca não estar tão certa assim de que foi bom negócio contratar a banda. Destroyer, quarto disco do grupo (1976), já pegou clima de jogo quase ganho: foi uberproduzido (pelo rato de estúdio Bob Ezrin), chegou a uma turma enorme e bateu recordes de vendagens.
Quando Gene Simmons, Paul Stanley, Ace Frehley e Peter Criss encararam mais de 42 mil fãs no Estádio de Anaheim, na Califórnia, em 20 de agosto de 1976, aquilo era atestado de que tinha dado certo, pelo menos até ali. Três anos antes, o grupo havia ganhado 50 dólares para fazer um show no Queens, em Nova York, para meia-dúzia de gatos-pingados, se tanto.
Kiss Destroys Anaheim ’76 passou décadas sendo pirateado e ouvido com qualidade péssima – chega agora às plataformas e a formatos físicos oficiais depois de um belo trato nas fitas multipista originais. Trato este realizado pelo mesmo sujeito que gravou o show em 1976, o experiente Eddie Kramer. O novo ao vivo do Kiss só parece um show resgatado após 50 anos porque, em 1976, o único “tratamento” a ser feito numa gravação dessas era botar a banda no estúdio pra regravar uma porrada de coisas.
O som de Kiss Destroys Anaheim ’76 é real: desafinações, desencontros ao vivo, falas meio louconas, estrondos de pirotecnia, banda feliz igual pinto no lixo. Já o repertório, olhando hoje, não tinha como dar errado, mas naquela noite muita coisa era novidade para grandes plateias: Detroit rock city, King of the night time world, Let me go rock’n roll, Rock and roll all nite, God of thunder, Shout it out loud, Deuce.
Tinha também os solinhos de cada integrante: Ace (guitarra) arrebentou, o acrobático Peter (bateria) ameaçava chupar deslavadamente o solo de In a gadda-da-vida, do Iron Butterfly, Gene (baixo) fez poucas notas e “ok, isso é um solo”, Paul (guitarra base) nem tentou. O Kiss performático já havia nascido um tempo antes, mas tinha virado caso sério há pouco tempo.
O Kiss trazia como novidade uma noção de rock como espetáculo – e como evento que precisa de interação com a plateia. Os Rolling Stones faziam isso, e botavam o público pra dançar, mas o Kiss criava conexões que não existiam antes: tinha humor de história em quadrinhos, maquiagem usada num contexto não-glam, mito do heroi. Era circo, mas não era “o pum do palhaço” (ai).
Não era “rock adulto”, mas não era infantil – muito embora, com o tempo, as coisas mudassem a ponto da imagem da banda parecer patética demais para adultos e “proibida pra menores” demais pra crianças. Antes que essa estranha confusão surgisse, eram só quatro caras maquiados encantando mais de 40 mil fãs. E voltando hoje do túnel do tempo.
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Crítica
Ouvimos: Firefriend – “Redshift”

RESENHA: Em Redshift, o Firefriend reúne garage rock, drone e psicodelia em gravações ao vivo que transformam ruído, repetição e reverberação em uma viagem sombria e espacial.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 10 de junho de 2026
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A banda paulistana Firefriend está acostumada a caminhos ruidosos e sombrios – ano passado, soltou inclusive dois álbuns complementares, Blue radiation e Fuzz, que se dividiam em drones estranhos e garage rocks com cara de Stooges. Agora é a vez de Redshift, álbum que parece unir as duas experiências. Foi “gravado ao vivo em uma única sessão em São Paulo, em 16 de novembro de 2025”, sem direito a overdubs (“apenas primeiras tomadas”).
Uma epígrafe parece resumir o clima de “derretimento” sonoro do material: “O universo não é estático. Tudo está se desintegrando…”. O som de Redshift é garageiro, baseado em ruídos e riffs repetitivos, apontando para uma música noturna e, às vezes, dançante – como o caso de Spearhead, filha da era Honey’s dead, do The Jesus and Mary Chain (1992), e de My Bloody Valentine. Dust devil é viagem psicodélica sombria e meditativa, com beat fluido e “perdido no espaço”, vocais e guitarras reverberando.
Acid rain high-speed clouds abre em clima de drone, embarca no noise-rock e depois num hardcore psicodélico (!) – na real uma cacofonia lisérgica, com tudo ao redor girando. O clima volta a ficar calmo na viagem de Cosmic background radiation e na onda sombria e garageira, com beat dançante, de Dreamscapes. Já Afterhours, no final, é como se o Velvet Underground decidisse investir no rock estradeiro, feito para ouvir de fones numa moto (opa, sim, tem a ver com o sumido Black Rebel Motorcycle Club) – mas lembra até um U2 maldito no fim.
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Crítica
Ouvimos: Rocketsuit Rogue – “Hello, apocalypse”

RESENHA: Vindo do Zebrahead, Matty Lewis estreia como Rocketsuit Rogue com Hello, apocalypse, disco que cruza punk, hard rock, ska e humor apocalíptico em canções rápidas e explosivas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7,5
Gravadora: Double Helix Records / SBAM Records
Lançamento: 21 de agosto de 2026
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Rocketsuit Rogue é o codinome de Matty Lewis, cantor, compositor e guitarrista presente durante vários anos na história do Zebrahead, grupo pop-punk que promove mesclas com hip hop (tem quem chame de punk-rap) e que, a bem da verdade, não chega a ser o tipo de banda imperdível. Nos anos 90 chegaram a lançar uma música, Get back, em que diziam “tenho que arrumar dinheiro como meu mano Trump” – uma patacoada da qual se arrependeram anos depois (dá pra alegar que nos anos 1990 Donald Trump era só um empresário, mas naquela época, já era uma companhia das piores).
Hello, apocalypse, sua estreia solo sob o codinome, tem um tom mais pesado, satírico e rock hero do que sua banda fazia supor – o som lembra uma união de grupos como Motörhead, Green Day, Ramones, Pennywise, e alguns clássicos do pré-pop punk, como Vice Squad. A agilidade sonora e o link com temas espaciais e/ou apocalípticos em faixas como Watch the world just fall apart, Better off dead, a explosiva Our last parade e o skacore Artificial ignorance, além de um certo pé na canoa do hard rock, garantem que o / a ouvinte vá deparar com canções legais.
Matty diz que o “alô, apocalipse” do título não é necessariamente o fim do mundo, mas qualquer sensação de “tudo acabado” do dia-a-dia. Algo que bate em canções como o power pop + ska-punk de The best last day on Earth e em hinos punk de fôlego, como Take me home e Goodbye paradise.
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