Crítica
Ouvimos: Sløtface, “Film buff”

- Film buff é o terceiro álbum da banda norueguesa Sløtface, liderada pela vocalista e compositora principal Haley Shea. A banda começou em 2012, como um quarteto fundado pelos amigos do ensino médio Shea, Lasse Lokøy, Tor-Arne Vikingstad e Halvard Skeie Wiencke. Como Lokøy e Vikingstad saíram, Shea passou a liderar o projeto.
- Shea disse numa entrevista ao DIY que tinha muita “misoginia internalizada” quando a banda começou. “Acho que, quando criança, era muito importante para mim ser uma “garota legal” que andava com os meninos. Eu pensava que as meninas eram mais dramáticas do que os meninos, que os meninos tinham melhor gosto musical, etc. Estar em bandas com todos os meninos desde pequena sempre foi muito bom para mim, porque eu sentia que isso era um sinal de que eu ‘não era como as outras meninas’, o que é uma atitude muito idiota”, afirmou.
O Sløtface já foi, digamos, uma banda completa. Hoje segue o caminho de projetos como Pom Pom Squad e tornou-se uma banda focada na vocalista e fundadora Haley Shea, cada vez mais dedicada a fazer com que, de uma ponta a outra, o nome do Sløtface seja associado à mescla de sons pesados e melodias agradáveis.
Film buff, terceiro disco, põe o pop-punk mais próximo da new wave e do rock dos anos 1980, com riffs constantes, ataques de bateria e fortes linhas de baixo em faixas como Ladies of the fight (tema de uma espécie de “clube da luta” para mulheres), Leading man, Lift heavy, Final gørl e o single I used to be a real piece of shit. Todo o material é inspirado por filmes e séries, ou cita algo parecido com um filme ou uma série na letra, partindo disso para falar de situações em que a personagem toma (ou não) uma atitude – Final gørl, segundo a própria Haley, fala sobre não aceitar regras e se empoderar, e temas como misoginia tomam conta do disco.
Com essa mudança, o Sløtface soa mais pesado e certeiro que nos dois primeiros discos anteriores, embora alguma coisa se perca justamente no momento mais pop de Film buff, o pós-grunge de rádio I confess, I guess – que faz Haley Shea soar um pouco mais genérica do que ela mesma preferiria. O álbum anima bastante no momento meio punk, meio The Police de Charlie calls, na batidinha rápida de Tired old dog, e no ruído punk de Quiet on set, encerrada em clima de hardcore destruidor.
O encerramento de Film buff vem em clima de dramas, frustrações e expectativas pessoais expostos no palco, com Impressions of a car crash – uma letra bastante detalhada e descritiva, que praticamente se sustenta sem a música (“quando assisti a fita/vi que tinha entendido errado/as acrobacias não se traduzem/desapareceram no contexto/tudo que o público viu foi um arrepio”).
Nota: 7,5
Gravadora: Propeller Recordings
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Crítica
Ouvimos: DIIV – “ZIRP!”

RESENHA: Em ZIRP!, quinto álbum do DIIV, a banda mistura shoegaze, eletrônica e pop sob produção de A. G. Cook, com letras sobre algoritmos, IA e capitalismo.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Fantasy Records
Lançamento: 30 de outubro de 2026
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O DIIV continua sendo uma das bandas que melhor sabem misturar doçura e ruído, especialmente quando juntam as guitarras carregadas de efeitos aos vocais quase sussurrados de Zachary Cole Smith. Só que ZIRP!, quinto disco do grupo nova-iorquino, amplia bastante essa receita. Depois do slowcore + grunge de Deceiver (2019) e do shoegaze sem sombra de dúvida de Frog in boiling water (2024, resenhado aqui), o quarteto resolve abrir espaço para melodias mais pop, eletrônicos e até alguma diversão. Tudo isso sem perder a identidade.
A presença de A. G. Cook na produção poderia indicar uma guinada radical. Colaborador de Charli XCX e Caroline Polachek, ele acabou preferindo trabalhar com baterias reais e guitarras cheias de pedais, deixando os computadores para intervenções pontuais. Em The fountain, que abre o álbum, até a guitarra parece sair de uma máquina, entre ruídos de transmissão e interferências eletrônicas. When the glow came for us segue pelo mesmo caminho, num eletroshoegaze que tem algo de alt-pop, mas não economiza na barulheira.
O lado mais acessível aparece em Kid, uma das músicas mais delicadas já gravadas pelo DIIV (cuja letra fala basicamente sobre bichos-papões e homens do saco do mundo adulto), e na ótima Dare me, que lembra o desvio eletrorock do Jesus and Mary Chain no álbum Honey’s dead (1992). Trillions é outra surpresa: rock quase solar, com algo de Kraftwerk e um auto-tune que funciona muito bem. Já Evangelizer parece uma canção de pop eletrônico que resolveu se apresentar como rock. E funciona.
Há momentos em que o DIIV prefere bagunçar tudo. The crash é uma pancada pós-punk, com guitarras mecânicas e vocais misteriosos. Us against you começa quase como trip hop e vai ganhando peso, enquanto Underground mistura esse mesmo gênero com The Cure fase Disintegration (1989) e guitarras ruidosas. My star acrescenta uma psicodelia distorcida à história, e Idiot in the sky encerra o disco com uma beleza quase espacial, chegando perto do emo antes de mergulhar nos efeitos de guitarra.
As letras continuam pouco otimistas, agora olhando para algoritmos, inteligência artificial e os absurdos do capitalismo tecnológico. O curioso é que *ZIRP!* soa mais leve justamente quando seus assuntos parecem ainda mais complicados. Nem todas as experiências têm o mesmo impacto, mas o DIIV consegue fazer um disco bastante variado sem parecer uma banda tentando se reinventar à força. E mostra que ainda há muita coisa a explorar nessa combinação de guitarras, eletrônicos e boas canções.
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Crítica
Ouvimos: Partido da Classe Perigosa – “Você, eu e a FEBRABAN pegando fogo”

RESENHA: Em Você, eu e a FEBRABAN pegando fogo, o Partido da Classe Perigosa mistura rap, funk e eletrônica para criticar bancos, exploração e violência policial.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 7 de setembro de 2026
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A Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN) podia dormir sem essa – aliás, o mundo nada mágico do capitalismo à brasileira ganha comentários à altura das maiores sandices já cometidas na história do Brasil, com o novo álbum da banda carioca Partido da Classe Perigosa. Você, eu e a FEBRABAN pegando fogo serve como trilha sonora para os últimos minutos de tensão no caldeirão antes do segundo turno – o som do neo-fascismo sendo defenestrado, e dos suspiros de alívio, ainda que não se saiba bem o que tá vindo aí.
Dá pra resumir Você, eu e a FEBRABAN pegando fogo numa ideia: dinheiro, poder, armas, patronato, PM, bets – tudo isso está do mesmo lado, que não é nunca o de quem mais sofre com as injustiças. Contos do crypto, rap de melodia bacana e batidão que lembra um drum’n bass alterado, abre o disco falando das bets (“proibir ninguém se atreve”, antes da proibição), mas inclui também a menção dos elogios à tortura (as homenagens a Brilhante Ustra feitas por você-sabe-quem, etc), e uma frase lapidar: “bota o patrão para trabalhar / onze horas de labuta, quero ver ele aguentar”.
Direito de reposta e Mutação da escravidão (essa um synthpop com baixo na cara a la Talking Heads, que depois vira paródia de funk melody) falam de direitos trabalhistas vistos como papel higiênico usado e de “negociações com o patrão”. O carro do ovo fala de comida dada como esmola, num som entre funk carioca anos 1980 e Depeche Mode – com citação de Strangelove, no verso “vem tomar o poder / parar de sofrer / vem”. O PCP ainda envereda pelo jazz-rap em Minha bolação, e pelo misto rap + metal em Sobre outro assunto, com Disstantes – cuja letra aconselha aos mais jovens: “não pega em arma pra ganhar teu pão / não faz sua mãe chorar, não veste essa farda / não entra pra corporação”.
Mata vibe, com Leticia Camaleão e Daniel Paiva, une jazz, funk e rap numa cruzada contra os inimigos da felicidade – que vão do colega de trabalho péla-saco aos metidos a coach. Te vi no baile, com 808 Punks, soa com uma visitinha de Nik Fiend ao Cassino Bangu. E em Dança da farda, Inimigos do povo (com Miçanga) e Ciclo (com God Pussy) bases pesadas e climas realistas apresentam todo mundo a um dia a dia bem sombrio. Aquela realidade que poucos aguentariam enfrentar diariamente, e que no fim de Ciclo, é complementada por uma explosão sonora – uma torrente de microfonias e ruídos, como se tudo estivesse prestes a ir para os ares, como na capa do disco.
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Crítica
Ouvimos: Engelbert Humperdinck – “Faithfully”

RESENHA: Em Faithfully, Engelbert Humperdinck, aos 90 anos, transforma clássicos de Kiss, Journey, Beatles e Ozzy Osbourne em baladas com arranjos de crooner.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Cleopatra Records
Lançamento: 28 de agosto de 2026
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Para as novas gerações, o noventão (chegou à idade no dia 2 de maio) Engelbert Humperdinck é um sujeito que voltou a ser comentado nos anos 1990, quando teve início uma moda do revival do lounge – foi bem naquela época em que Tony Bennett gravou um Unplugged MTV, e em que bandas como Stereolab mostravam mais do que apenas algumas referências do estilo. Engelbert surgiu cantando o tema Lesbian seagull (composto pelo cantor e ativista LGBTQIAP+ Tom Wilson Weinberg) no filme Beavis and Buthead do America (1996) e permaneceu gravando e excursionando.
Faithfully, seu novo álbum, é um lançamento endereçado a quem quer conhecer, digamos, o lado Fabio Jr de Engelbert. O britânico exercita seu lado de crooner romântico, quase sempre acompanhado por cordas – e sempre com convidados – num repertório formado quase inteiramente por clássicos do rock e do pop adulto. Se você não se deixar levar pela capa estilo meu-sobrinho-fez (com uma arte de IA em que Engelbert pilota uma moto) vai se divertir bastante e vai ficar bem feliz com o bom gosto dos arranjos e das escolhas de repertório.
Engelbert poderia ter feito uma versão brega de Faithfully, do Journey – mas chamou o tecladista do grupo, Jonathan Cain, para fazer a música ir além do rockão de FM. Take my breath away (aquela) ganhou a guitarra de Al Di Meola e um toque quase blues-latino. Se você abomina More than words, a balada do Extreme, prepare-se para a versão definitiva dela – saiu meio dançante, meio beatle, com a guitarra de Eric Gales. E falando em Beatles, tem Something, de George Harrison, em versão quase britpop.
Engelbert, com Harvey Mandel na guitarra, dá a I was made for loving you (Kiss) um ar de pop clássico, mais para anos 1980 do que para 1970 – e ainda tem Beth, outra dos mascarados, com Rick Wakeman no piano. Always my love, única autoral do disco, ganha clima meio Righteous Brothers. Mama I’m coming home, aquela do Ozzy Osbourne (!), fica linda com clima acústico e com cordas. Tem até o inacreditável encontro de Humperdinck, Ian Anderson (o do Jethro Tull, na flauta) e o superbaixista Bob Daisley numa versão turbinada e quase progressiva de Feel like makin’ love, do Bad Company. Um disco com várias surpresas.
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