Crítica
Ouvimos: Ringo Starr, “Look up”

Uma ideia genial e que parece a coisa mais óbvia do mundo: um disco country de Ringo Starr. Nos Beatles, o baterista sempre foi o músico mais ligado ao estilo: foi ele que fez o vocal da releitura de Act naturally, sucesso do countryman Buck Owens, na trilha de Help!, e sua contribuição autoral para o Álbum branco (1968), Don’t pass me by, é bem nessa onda. Aliás, não custa lembrar que Starr já havia gravado um álbum dedicado ao country, e foi justamente seu segundo disco solo, Beaucoups of blues (1970). Faz tempo.
Look up é o tipo de disco que, se você for fã de Ringo e dos Beatles, vai demorar até achar algo minimamente criticável. O autor de praticamente todas as faixas, o veterano T Bone Burnett, foi guitarrista de Bob Dylan nos anos 1970, e é uma fera que caminha há décadas entre folk, country e rock clássico. Ringo está com a voz em forma, toca bateria em todas as faixas, e fez de Look up um trabalho bem mais cheio de personalidade que seu último EP, Crooked boy, no qual topou até bancar o indie-rocker em alguns momentos. As músicas são boas: a abertura com Breathless é linda, a faixa-título insere micropontos quase invisíveis de psicodelia na história, Time on my hands acena para o lado clássico do country, e traz o velho estilão de Ringo na bateria.
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O clima de todo o disco é basicamente esse mesmo. Mesmo assim, passando a animação, vem uma impressão esquisita: Ringo, um cara que nunca foi exatamente um grande cantor, soa em Look up mais como um baladeiro, um cantor romântico, do que como um contador de histórias do country. Isso talvez faça de Look up uma celebração do rock e da música pop influenciados pelo country, e não exatamente um disco do estilo. Se você for fanático (a) por country music e já chegar disposto a implicar com o álbum, pode acabar arrumando motivos pra isso – ainda mais quando o repertório fica meio irregular, graças a músicas como Come back e Can you hear me call.
E daí? E daí que, entre altos e baixos, o cara mais indicado para brincar de countryman nos dias de hoje é Ringo mesmo. Look up, vale informar, é balizado por alguns country rocks bacanas, como I live for your love, uma canção em que Ringo, ao lado de Molly Tuttle, diz que “não vive no futuro nem no passado” – e curiosamente é uma música que caberia bem num dos primeiros discos dos Beatles. Thankful, com Allison Krauss, emociona: Ringo, 84 anos, sobrevivente de tudo que você possa imaginar dos anos 1960/1970 (da ameaça de falência ao alcoolismo) fala sobre o amor e amizade como elementos de salvação.
No corredor roqueiro de Look up, cabem também o hino You want some e a melhor faixa do álbum, Rosetta – uma espécie de country lúgubre, marcado por violões fortes e por uma guitarra que costura toda a música e ganha protagonismo merecido. Uma curiosidade é a bela e venturosa String theory, outra canção que dá pena por não ter sido composta lá por 1968 e não ter estado na lista de candidatas a White album ou Abbey Road. Talvez John Lennon e Paul McCartney, naquela altura, achassem a letra infantil demais (para Ringo, “tudo vibra”, das melhores coisas às piores tragédias), mas é uma canção tão legal quanto Now and then, o single recente deles.
Nota: 8
Gravadora: Lost Highway
Lançamento: 10 de janeiro de 2025.
Crítica
Ouvimos: Master Peace – “Stupid kids” (EP)

RESENHA: No EP Stupid kids, Master Peace mistura rock, dance e rap com ironia sobre IA, big techs, traumas e geração Z, citando Cure e Ramones.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Big Family Music
Lançamento: 27 de fevereiro de 2026
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Falamos disso na resenha do álbum de estreia do Master Peace, How to make a master peace: Peace Okezie, o criador do projeto, une rock, dance, hip hop e estilos afins, mas vale citar que não faz isso como se o tempo não houvesse passado. Faz isso sabendo exatamente onde provocar reações e causar desconforto, até porque suas letras são a mais pura zoeira moderna: big techs, IA, a geração Z, jovens urbanos perdidos, vendedores de drogas que acham um absurdo serem chamados de traficantes … Nada disso saía ileso de How to make, muito menos passa batido por Stupid kids, novo EP de Okezie.
O som dance-rock do primeiro álbum ganha novas proporções no novo EP. There’s no more underground brinca com a melodia de The KKK took my baby away, dos Ramones, para contar a história de um mundo em que todos nichos culturais e musicais estão sendo observado pela IA (“não existe mais underground / para ficar sozinho, para ficar sozinho”) e os monstros da tecnologia são mais importantes do que tudo (o ótimo verso: “eles estão derrubando a Amazônia / para dar mais espaço para a Amazon”). My guitar une dance music, rap e rock maquínico. A ótima Spin the block é filha de Los narcos, um dos melhores sons do disco anterior, mas a letra fala de um pé na bunda seguido de vinganças amorosas.
- Ouvimos: Josh Freese – Just a minute vol. 2
O restante do EP paga bastante tributo a bandas como The Cure e New Order, Good times, canção que é basicamente sexo, putaria e zoeira, faz lembrar um pouco a melodia de A forest, do Cure. A faixa-título ganha peso nas guitarras e no beat, e quase põe tudo a perder com um daqueles vocais “de arena” estilo “ô ô ê ô” na onda do Coldplay – já a letra é pura ostentação, um “olha onde a gente chegou” chapado de drogas, feito por garotos tão merdeiros quanto os moleques do clipe de 1979, dos Smashing Pumpkins.
Declan McKenna surge em Fuck it up, pós-punk que tem origens no Cure até no vocal (que lembra Robert Smith) e cuja letra fala de erros do passado, colégios com métodos escrotos e situações em que todo mundo fode tudo. O TDAH aparece citado quase como o DDT na letra de Teenage lobotomy, dos Ramones (“o TDAH me dominou / sem qualificação e sem diploma / expulso da escola por ser um moleque”). Um som de verão, mas que revira traumas.
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Crítica
Ouvimos: DMenezes – “Trama”

RESENHA: DMenezes faz MPB lo-fi com alma setentista. Em Trama, mistura Fagner, Jorge Ben e trilhas antigas num pop sombrio e caseiro.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 17 de outubro de 2025
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Guilherme de Menezes (ou DMenezes) é um músico de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, que faz bedroom… Bom, digamos que é mais bedroom MPB do que bedroom pop. Ou quem sabe um bedroom pop com cara emepebística, vinda do hábito de colecionar discos – no Instagram dele, ele mostra os álbuns que tem, alguns deles bem raros, e faz comentários bem bacanas em reels curtos.
Trama, o segundo disco de DMenezes, traz uma referência no título – a gravadora que “renovou a MPB” nos anos 2000, mas que não resistiu às mudanças no mercado e às variações nas modas musicais (e vá la, à falta de grana do mundo fonográfico pós-CD). Pode não ser proposital, mas passou pela minha mente o tempo todo ao ouvir o clima das faixas do disco, basicamente um lo-fi derretido feito com a mente nas trilhas internacionais de novelas como O espigão (1974) e O grito (1976), ou nas trilhas de filmes nacionais dos anos 1970. Ou quem sabe nos arranjos de discos setentistas nacionais, como rola em Não vou pra capital (algo entre Raul Seixas, Som Imaginário e Silvio Brito) e Experiência programada (clima herdado de Fagner e Belchior).
- Ouvimos: Chico Chico – Let it burn / Deixa arder
As gêmeas Presságio e Inevitável lembram as experiências de Fagner ao lado de letristas como Abel Silva e Fausto Nilo, enquanto Velha rede, cheia de lembranças de casas antigas e vidas reais passadas, cruza desafinações propositais com uma musicalidade que lembra o Som Imaginário – mas o Som Imaginário que tocou em discos de Odair José. Manduka e Jorge Ben residem no violão de Oeste, algo entre Tame Impala e Lincoln Olivetti aparece em Fantástica 1974, e em Diga…, a musicalidade de Plano de voo, disco de 1975 de Gonzaguinha, parece ser a referência, com órgão Hammond, synths mais modernos, piano Rhodes, num lo-fi voador. Em alguns momentos, os vocais de DMenezes lembram uma versão mais oldies de Cazuza.
Curiosamente, o disco vai ficando menos “antigo” no fim. As duas partes de Medo e desejo têm tanto dos discos da RCA e da Odeon nos anos 1970, quanto de Rita Lee e Ney Matogrosso. A faixa-título, uma balada romântica de violão que encerra o disco, tem muito do pop adulto dos anos 1980 (Marcelo, Leoni, Cazuza), mas ganha uma tensão de tons, notas e timbres que vai tornando a canção um experiência sonora bem sombria. Como se houvesse um filme de horror por trás do pop e da MPB.
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Crítica
Ouvimos: PapaNotPope – “Vol. I”

RESENHA: PapaNotPope, de Fernando Papassoni (ex-Detetives), mistura eletrônica suja, trip hop e clima 80s experimental em Vol. I.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 10 de janeiro de 2026
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PapaNotPope é o projeto solo de Fernando Papassoni, ex-integrante da banda Detetives, e originalmente um cara do rock – mas que aqui, em Vol. I, volta dedicado ao experimentalismo e à sujeira eletrônica, às vezes lembrando as primeiras gravações do selo Mute, ou o underground eletrônico dos anos 1980. Tanto que Eletrika faz lembrar coisas antigas do Cabaret Voltaire, Exoplanets cai dentro da sujeira eletrônica do Ministry (na fase do selo Wax Trax) e War machines, com participação de Marcelo Gross (guitarrista do Cachorro Grande) tem até algo de KMFDM – mas sem o lado metal do grupo e focando em gravação + mixagem suja.
- Ouvimos: Maddie Ashman – Her side (EP)
Tem algo até de trip hop em Vol. I, em Breath – que começa em clima tenso e vai ganhando beleza por causa dos teclados – e também no clima sexy, indianista e psicodélico de Are we even real, cuja guitarra tem até algo do Pink Floyd. Gnomon é um ambient sujo e guitarrístico, também com Gross. O trip hop volta a surgir no disco em Black dog kali, faixa que apesar da tensão do loop vocal do começo, vai ganhando uma onda soltar e próxima do soul.
A partir da segunda metade, Vol. I fica bem mais viajante e meditativo, e o disco vai até perdendo sujeira. Ainda que volta e meia a tensão chegue perto, em músicas como One six five, Inside myself e Omoamoa, que abre em vibe espacial, e ganha beat lento e ondas sombrias.
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