Crítica
Ouvimos: Goat Girl, “Below the waste”

- Below the waste é o terceiro álbum da banda londrina Goat Girl, formada hoje por Lottie Pendlebury (ou Clottie Cream, vocal e guitarra), Rose Jones (ou Rose Bones, bateria) e Holly Mullineaux (ou Holly Hole, baixo). O disco foi produzido pela banda ao lado de John Spud Murphy (Lankum, Black Midi).
- É o primeiro álbum gravado como trio, já que a guitarrista Ellie Rose Davies descobriu um diagnóstico de câncer e decidiu afastar-se da banda. Com a saída de Ellie, as três passaram a ter funções menos fixas na banda. “E como éramos menos integrantes, meio que abriu mais portas para trocarmos instrumentos. Essencialmente, havia mais espaço dentro da música para preencher, então tivemos que ser bem criativos com a forma como iríamos descobrir isso”, contou Lottie à DIY.
- Entre os temas do disco, há a luta de Rose para se livrar do abuso de substâncias (a faixa TCNC fala de um mantra criado pela mãe da musicista, “take care, not crack”). Não foi o único problema enfrentado por elas. “Ellie estava doente; eu basicamente passei por abuso doméstico por um longo tempo e tive que sair de Londres para fugir disso”, contou Holly.
O Goat Girl não é exatamente o arquétipo de banda de rock explosiva. O trio (que já foi um quarteto), em seus discos anteriores, parecia estar mais interessado na exploração de climas diferentes do que em soar exatamente pesado – numa espécie de visão feminina, misteriosa e elaborada do que é fazer rock experimental e (em vários momentos) “mágico”.
Below the waste, um disco longo (quase 50 minutos) e o terceiro delas, investe na criação de músicas sobre monstros nada imaginários. Surgem temas como ecologia, desperdício, superficialidades, abuso de drogas (os problemas da baterista Rosy Bones surgem em faixas como Words fell out), a mão do destino (a letra de Play it out tem frases ótimas sobre isso), Perhaps (de versos como “não há mais barreiras de estação/cadeados e correntes se abriram/não há mais câmeras nos observando/portas bem fechadas se abriram”). A arte da capa lembra a dos discos do Black Widow, uma banda que fazia rock satanista na época em que o Black Sabbath começou – mas não se tornou conhecida.
No novo disco, o som delas se tornou mais assustador, e principalmente, se tornou uma massa ameaçadora que afasta quem espera discos “diretos”. A mensagem de Below the waste é entregada em meio a vinhetas “de terror” como Reprise e Prelude, a canções calmas e perigosas como Words fellout e o noise-rock de bolso Ride around, e ao tom acústico e quase sussurrado de Tonight. Take it away é som quase gótico, ameaçando uma balada, com um coral que vai ganhando vozes, inclusive masculinas.
Jump sludge ameaça um blues, mas o que vem é um indie rock de masmorra, com sons tensos de guitarra e piano. E faixas como Wasting e Perhaps conseguem soar como a mistura certa de Pixies, Black Sabbath,Velvet Underground e o Nirvana do disco Bleach (1989) – no caso de Perhaps, sons aparecem como correntes sendo arrastadas.
Lançado em junho de 2024, Below the waste é o tipo de disco que afasta roquistas empedernidos. Não é à toa: as faixas do álbum conversam com sensações bem diferentes do habitual. E em alguns momentos, vale dizer, ele exige um pouco mais do ouvinte do que geralmente acontece em outros álbuns recentes.
Nota: 8,5
Gravadora: Rough Trade.
Lançamento: 7 de junho de 2024.
Crítica
Ouvimos: Guilherme Arantes – “Interdimensional”

RESENHA: Interdimensional reafirma Guilherme Arantes como MPB-pop sofisticado, unindo rock 70/80, bossa e hits, em diálogo com novas gerações.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Coaxo do Sapo / Virgin Music
Lançamento: 15 de janeiro de 2026
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Às vezes as coisas demoram para acontecer porque… demoram. Mesmo tendo o respeito da crítica, Guilherme Arantes poucas vezes teve seu trabalho avaliado como merecia. E mesmo sendo um artista pop completíssimo e cheio de hits, sempre teve dificuldades para encontrar seu lugar num mercado cheio de estranhezas. Nesse cenário, Interdimensional, seu novo disco, tem um papel quase de “entendeu ou quer que eu desenhe?”: mais do que apresentar Guilherme às novas gerações (enfim, à turma que vai a festivais, redescobriu o vinil, despreza o CD e conhece música no Tik Tok), ele parece mostrar o que sempre esteve lá, mas nem sempre era enxergado por muita gente.
Para começar, ainda que Guilherme seja enxergado como um cara do pop (e, enfim, após anos de “imprensa roqueira” e bastiões da MPB na crítica musical, todo mundo sabe da condescendência com que o segmento “música pop” costuma ser tratado), Interdimensional é um disco de MPB baseado no rock anos 1970/1980 e no pop. Mais do que em sucessos como Coisas do Brasil e Pedacinhos, explicita de vez as influências da bossa nova em geral, e de Tom Jobim em particular, no som do paulistano. Faixas como A vida vale a pena, Libido da alma, a balada sofisticada e soturna Puro sangue (Libelo do perdão) e o jazz-bossa Toda felicidade têm bastante esse clima. Mas são referências que surgem até mesmo em trechos de 50 anos-luz, instrumental progressivo que emana o som de bandas como Focus e Trace.
- Ouvimos: Tavito, Clarisse Grova, Marcio Lott – Inéditas / Tunai – Dança das cadeiras
Essa união de brasilidade com progressões sonoras surge bastante equilibrada em Interdimensional. Aliás formam quase um jogo de figura-e-fundo – em que cada uma dessas faces sobressai por alguns segundos numa mesma faixa, ao lado de outras pulsações. Como na idealista Minúcias, no pop sofisticado O prazer de viver pra mim é você, e na quase bossa No mel dos seus olhos (cuja letra, cheia de versos grandes, pontiagudos e rápidos, como num rap, desafia o fôlego de qualquer cantor). Ou na valsa Luar de prata, canção quase erudita, com Monica Salmaso dividindo os vocais com Guilherme, e melodia que aponta simultaneamente para Francis Hime e Paul McCartney.
O Guilherme dos anos 1970/1980 ressurge numa parte boa do disco: tem a mescla Rita Lee + Steely Dan + Santana Band de Enredo de romance, a vibe Eurythmics de O espelho (que tem muito do hit Olhos vermelhos), os vocais em inglês de A vida vale a pena – que remetem a Pedacinhos e seu “bye bye, so long, farewell”. Algo entre os hits Um dia, um adeus e Muito diferente desponta na espacial Intergaláctica missão (Balada interdimensional), a melhor do disco. Uma música em tons altíssimos, que também evoca Paul McCartney e David Bowie, além de trazer à memória o Space oddity particular de Guilherme, que é Nave errante – faixa pouco lembrada de seu disco de estreia, de 1976. Mas Interdimensional tem beleza celestial do começo ao fim.
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Crítica
Ouvimos: The Divine Comedy – “Rainy sunday afternoon”

RESENHA: Novo disco do The Divine Comedy, Rainy sunday afternoon, mistura tristeza e beleza em art/chamber pop orquestral, com Neil Hannon refletindo meia-idade, perdas e amor.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Divine Comedy Records
Lançamento: 19 de setembro de 2025
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Destacão da segunda metade do ano passado (e lamentavelmente só ouvido por nós agora), o novo disco do The Divine Comedy é um daqueles raros exemplos de alegria na tristeza, de disco que é quase impossível ouvir sem deixar um nó na garganta surgir de vez em quando. Neil Hannon, o cara por trás do nome do projeto, já experimentou diversas sonoridades ao longo de sua carreira (o Divine Comedy grava desde 1990) mas sua proximidade maior é com estilos como art pop e chamber pop – algo que passa simultaneamente por Roxy Music, Scott Walker, David Bowie e Beach Boys.
Rainy sunday afternoon é um luxuoso disco de orquestra, cujos gastos foram financiados por um job importante e popular que Hannon fez: as músicas da trilha do filme Wonka (2024), dirigido por Paul King, em que o queridinho Timothée Chalamet fez o papel principal. Com um repertório focado em referências de folk-pop mágico (à moda justamente de Scott Walker e os Beach Boys, além de Donovan e Burt Bacharach e do John Cale do disco Paris 1919, de 1973), Neil trilhou o novo álbum nos ganhos, perdas e whatever da meia-idade (ele já está com 55).
O folk Achilles, que abre o disco, é um som guerreiro e leve, que lembra Paul Simon – e que tem um coral que, estranhamente, faz lembrar algo de metal clássico. Os últimos versos parecem resumir todo o álbum: “Vi um homem esta manhã / ele estava completando cinquenta e três anos / e sua mente mimada se voltava / para pensamentos sobre a mortalidade / um dia eu não serei nada / pense em como isso será estranho / pois para nós, os vivos / a morte é o calcanhar de Aquiles”.
Achilles joga o/a ouvinte no universo introspectivo de Rainy sunday afternoon – cujo ciclo é fechado com a beleza dolorida de The invisible thread, pop clássico comovente sobre a partida da filha para outro país. Neil usa climas nostálgicos e voadores para falar da perda de seu pai com Alzheimer (The last time I saw the oold man, The man who turned into a chair), amor intenso (I want you), discussões estúpidas com a namorada (a faixa-título, com piano andarilho como nas músicas de Burt Bacharach, e metais lindos) e lembranças do livro O coração é um caçador solitário, de Carson McCullers – em The heart is a lonely hunter, balada clássica e grandiloquente, com algo do rock oitentista na estrutura da composição, e um clima que faz lembrar Lou Reed + John Cale + Joy Division.
Hannon evoca também o David Bowie do comecinho da carreira na imaginativa Down the rabbit hole. E – pode levar fé – encarna uma espécie de Julio Iglesias indie em Mar-a-lago by the sea, música que mete o dedo na cara de um certo presidente sem dó nem piedade, citando o resort na Flórida do qual ele é proprietário. “Mar-a-Lago, ouso sonhar / que um dia estarei dentro de seus muros novamente (…) / trapaceando perdedores nos campos de golfe / trocando esposas por misses / fazendo discursos de casamento enfadonhos / recebendo sanguessugas fascistas”. Nem tudo em Rainy sunday afternoon olha apenas para dentro.
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Crítica
Ouvimos: Pobre Orfeu – “Pobre Orfeu”

RESENHA: Projeto de Agatha Fortes, Pobre Orfeu mistura em álbum epônimo estilos como MPB, psicodelia e folk, em canções folk íntimas, imaginativas e de clima setentista.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 17 de dezembro de 2025
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O Pobre Orfeu é um projeto criado pela cantora, compositora e guitarrista Agatha Fortes – e que já apareceu no Pop Fantasma com o álbum Galeria das recordações . É uma mistura fluida de punk, psicodelia e MPB viajante, sempre com histórias e travessias pessoais nas letras. Pobre Orfeu, álbum mais recente, é um disco bastante pessoal, focado em canções alt-folk com clima imaginativo – além de uma paleta de emanações sonoras que passa por David Crosby, Nick Drake, Clube da Esquina, Paul Simon, e climas que fazem lembrar o bittersweet setentista.
Quadro sem cor, na abertura, une andamentos latinos e folk tristonho, com versos poéticos como “me pintaram como um quadro sem cor (…) / sou como um velho mar / ruim de navegar / quem cruzou as águas não voltou”. Um clima que também invade a melancólica Meu melhor amigo e a luminosa Desejo da bruxa – essa última, formada por guitarras bem tramadas e por um clima localizado entre Smiths e a MPB hippie dos anos 1970. O ser humano como peça do sistema surge em Invisível som, rock com lembranças de Creedence Clearwater Revival e letra lembrando de quem está á margem (“o mundo me mostrou que eu não vou servir”).
A felicidade toma conta de músicas como o indie-folk-rock escapista Nesse dia eu fui feliz, e a detalhista e quase progressiva Rico de coração. Pobre Orfeu, faixa-título do disco e do projeto, encerra o álbum com vibrações mágicas e quase psicodélicas, além de lembranças sonoras de bandas como The Verve.
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