Crítica
Ouvimos: Ringo Starr, “Crooked boy” (EP)

Fazendo a defesa dos EPs em seus lançamentos recentes e em algumas entrevistas, o beatle Ringo Starr vem se especializando em discos de curta duração, com poucas faixas, e que acabam sendo mais uma curtição para os fãs antigos do seu trabalho, do que uma tentativa de fazer um lançamento de grande porte, ou algo mais pretensioso (como os lançamentos de Paul McCartney, por exemplo).
No ano passado saiu Rewind forward, quase junto com o “novo” lançamento dos quatro de Liverpool – o single Now and then – e agora é a vez de Crooked boy. Um EP curtíssimo (pouco mais de dez minutos) e quatro faixas, no qual o baterista, cantor e compositor assume uma face diferente a cada música. Ringo soa parecido com Tom Petty em February sky, traz um lado ska-reggae-anos 1950 nostálgico em Adeline (cujo balanço chega a lembrar uma música de carrossel), traz referências dos Strokes (!) em Gonna need someone e soa um pouco mais beatle na faixa título, que encerra o disco.
A curiosidade do novo EP é que Ringo volta 0% autoral: as quatro faixas foram compostas e produzidas por Linda Perry (aquela mesma, a vocalista da banda 4 Non Blondes, do hit What’s up). O tom Strokes de Gonna need someone talvez não surja à toa: Nick Valensi, guitarrista do grupo, participa tocando em todas as músicas. Ringo canta ao lado de Linda – que faz backing vocals e toca vários instrumentos – e toca todas as baterias.
Nota: 6,5
Gravadora: Universal
Crítica
Ouvimos: Brutalismus 3000 – “Harmony”

RESENHA: Brutalismus 3000 mistura gabber, hyperpop e punk em Harmony, disco acelerado e distópico, em que a pista de dança vira campo de batalha. E não apenas ela.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Live From Earth / Columbia
Lançamento: 26 de junho de 2026
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O produtor Theo Zeitner e a cantora Victoria Vassiliki Daldas formam o duo berlinense Brutalismus 3000. E se tem muita coisa do hyperpop que tem uma baita cara de new rave, tão aí esses dois dando aquela lembrada básica na onda gabber – aquele tecno aceleradíssimo e com cara de hardcore, que aqui ganha uma cara bem mais punk e lascada.
A cena gabber nunca desapareceu de fato, mas parece que muita gente só se deu conta agora de que faz sentido juntar batidas frenéticas e climas (vá lá) pop, como se fosse um chiptune intermitente. Harmony abre nessa onda, com o clima caótico de No friends in the company. E segue com a vibe sombria de Garland, e o esquema “Domingo Legal no MD” de A milli, Kairo, Mother bug e I bring my gun to the funcion (com Boys Noize).
Essa vibe de dançarinas de programa de auditório ligeiramente alteradas parece o norte do Brutalismus 3000. Aliás, da mesma forma que uma turma decidiu aumentar o bpm do funk, Theo e Victoria podem ser responsáveis por estabacos trágicos na pista de dança, graças ao beat quase vertiginoso de algumas faixas.
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Parece música feita de sacanagem, e é. Afinal ,Theo começou a produzir de brincadeira no GarageBand e boa parte do material parece uma desculpa “dançante” para a dupla mandar bala num clima distópico, de todo mundo na ativa – e cheio de ritalin, tadala e mounjaro – enquanto o mundo acaba. Morning is for the happy, com letra narrada pela atriz Anna Taylor-Joy, parece um filme musicado em que a personagem se prepara para mais uma merda de dia lamacento (“a manhã é para os felizes / o dia é para os comportados”).
É quase um, digamos, blueprint distópico do disco – e a banda ainda tem uma música chamada Leonard Cohen, um batidão psicodélico em que um ser humano com alguma sensibilidade parece ser achado em meio à paranoia diária. O bate-estaca de Gore Louvre, por sua vez, põe sangue, tiro, porrada e bomba no museu. Provavelmente uma “visão de futuro” do duo.
O disco termina com as duas partes de Testo skin, um pula-pula violento, que parece fazer o chão rachar – a segunda parte é mais lenta, e mesmo assim tem esse mesmo clima. A onda do Brutalismus 3000 é a do corpo como campo de batalha: conflitos internos, traumas, padrões, masculindade tóxica. E Testo skin soa como se todos os “eus” de todos os personagens do disco estivessem saindo na porrada. Loucura.
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Crítica
Ouvimos: Cuir – “Monoface”

RESENHA: Banda de synth-punk francesa, o Cuir volta com o curto álbum Monoface e, entre teclados e climas ágeis, aponta para bandas como Angelic Upstarts e até o lado punk do Anthrax.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 19 de junho de 2026
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O Cuir é um curioso projeto musical francês, feito por um cara chamado Doug Zilla, veterano do hardcore local – e que para sua banda nova, adotou uma espécie de balaclava rosa. O som é synthpunk, quase tão distorcido quanto sintetizado, com letras no estilo que-se-foda. Monoface é um álbum com, digamos, jeito de EP – mais ou menos como o da banda punk brasileira Basttardz, também assunto nosso hoje.
O nome “monoface” é justamente porque todo o repertório, que dura 15 minutos, cabe em apenas um lado de disco. Já o som do novo disco, mesmo com os teclados, aproxima-se às vezes da mescla de metal e hardcore, com Majeur em l’aair, na abertura, lembrando Anti-social, o hit da banda francesa de hard rock Trust que o Anthrax imortalizou. E faixas como Derniète minute e Road trip lembram bandas como Angelic Upstarts, enquanto Rock’n roll, interim, chômage cai dentro do hardcore-synth. Aliás, dá pra perceber uma conexão forte com a oi! music no som deles, embora Doug não concorde com o rótulo.
Os synths surgem como uma curtição a mais, em meio ao peso punk do grupo – que ganha ar de Stranglers + Rancid em Blastover e Brûler les barrières, e dá uma lembrada em Billy Idol em Spleen. Como vocalista, Doug é quase um rapper cantando punk, com vocais quase sempre brigões e falados. Resta saber se vinil e K7 (o disco sai nos dois formatos) de Monoface vão ter música só no lado A. Ou no B.
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Crítica
Ouvimos: Basttardz – “Tramas & traumas”

RESENHA: Banda maranhense Basttardz une peso, introspecção, punk, funk e até piseiro nas curtíssimas faixas do curto álbum Tramas & traumas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Brisa Rec
Lançamento: 13 de julho de 2026
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Seguindo a onda do álbum pequeno, Tramas & traumas, terceiro disco da banda maranhense Basttardz, é curtinho (oito faixas, 15 minutos) e foca no punk e no hardcore com misturas inusitadas e letras introspectivas. O som une hardcore e estilos como funk e rap (na faixa-título e em favelas), parte para o reggae punk em O inconsciente coletivo e insere até algo de piseiro, forró e reggamuffin em músicas como Vitrine e Do culto ao lucro.
O som do grupo é pensado como um mergulho, tanto no som quanto no universo deles – que inclui temas como influencers que surgem do nada, violência, exclusão, drogas de 2026 (na ótima letra de Tarja preta, que fala de aditivos usados para trabalhar, produzir, estudar, dormir e se deixar manipular) e memórias amargas que ganham espaço como traumas, anos depois. Tem inovação no som e um clima herdado da vulnerabilidade do emo Midwest, embora na prática o Basttardz faça uma música com bem mais foco em peso e beats.
- Ouvimos: Arlomine – Francis Frankenstein
Nas letras de Tramas & traumas, o grupo também une depressão e falta de grana. O desespero diante do capitalismo dá o tom de músicas como Desconstrução, que, inspirada em Construção, de Chico Buarque, encerra o disco olhando para quem já está quase desistindo de tudo.
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