Crítica
Ouvimos: Replacements, “Tim (Let it bleed edition)”

- Tim, lançado em 18 de setembro de 1985, é o quarto disco dos Replacements e o primeiro pela Sire/Warner. Foi também o último com o guitarrista Bob Stinson, demitido em 1986 por ultrapassar os limites de bebedeira e doideira do grupo (!). Na época, alcançou sucesso moderado, mas teve críticas bem positivas.
- A Let it bleed edition, lançada agora pela Rhino, é uma reedição turbinada com o álbum original remixado pelo produtor Ed Stasium, além de um CD de raridades e um ao vivo. Foi batizada assim como uma brincadeira com o álbum de mesmo nome dos Rolling Stones – e o álbum anterior dos Replacements, de 1984, se chamava Let it be, mesmo nome do disco dos Beatles. Resenhistas são unânimes em falar que o novo mix transformou Tim em outro disco, com gravação/mixagem superior.
Dizem os teóricos do mundo corporativo que as pessoas são contratadas por seu currículo e demitidas por seu comportamento. No caso dos Replacements, algo se inverteu. Aliás o mundo ficou invertido por alguns momentos por causa deles. O grupo, que costumava encher a cara e sabotar os próprios shows especialmente quando sabia que ia se apresentar para uma plateia repleta de notáveis de gravadora, foi descoberto pelo dono da Sire, Seymour Stein, numa noite em que o executivo tinha tomado todas e precisou ser amparado por um amigo, que o levou para conferir a banda ao vivo. Parecia que ia dar liga.
Não só isso: quanto mais Paul Westerberg (voz, guitarra), Bob Stinson (guitarra), Tommy Stinson (baixo) e Chris Mars (bateria) subiam no palco doidões, mais o público gostava. Até porque os shows se tornavam imprevisíveis, o repertório abarcava uma gama inusitada de covers (de clássicos do pop meloso a músicas do Led Zeppelin, numa sequência que a banda chamava de pussy set). Alguém sempre saía se sentido afrontado (estamos falando dos anos 1980). A banda não parecia estar nem aí para nada – o que tornava tudo mais legal ainda. E os shows pareciam mais divertidos.
Pareciam, apenas. Vários anos de vícios, hábitos ruins e pelotas de “foda-se” cuspidas em momentos inadequados transformaram os Replacements no exemplo típico da banda que lida mal com o sucesso, desdenha de oportunidades, rasga dinheiro e leva a categorias perigosas o “não vou me vender” típico das bandas da origem indie. O sucesso não desistiu do grupo, que durou além do término real – com All shook down (1990), programado para ser a estreia solo de Paul Westerberg, sendo lançado como o último álbum da banda por ordem da Sire.
Tim (1985), quarto álbum e início da fase da banda na gravadora grande, e que ganha reedição turbinadíssima agora (com o nome de Let it bleed edition), já havia sido uma excelente introdução a um público maior. Um power pop feito com o pensamento tanto em fãs de Big Star quanto de Ramones, um punk rock ágil que soa como homenagem a Eddie Cochran e a bandas como Blondie e Dead Boys, com letras que mostravam o quanto custa simplesmente nem saber como se encaixar em padrões. E que lidam o tempo todo com um estranho jogo de sorte e azar – quando você nem sabe mais quando é sorte ou azar, enfim.
Era o disco da desencantada Here comes a regular (um relato dos dilemas da banda na época, com versos como “tudo o que sei é que estou farto de tudo que meu dinheiro pode comprar”), das revoltadas Bastards of young e I’ll buy, do boogie punk doidão Dose of thunder (“só leva um pouquinho até você querer uma tonelada”, diz a letra, cara de pau) e da homenagem às college radios em Left of the dial. Tinha romantismo em meio à tensão do dia a dia em Kiss me on the bus, e uma balada solitária ao estilo dos anos 1950 em Swingin party. Mas para ter uma ideia de como era lidar com os Replacements no dia a dia, só conferir a letra de Waitress in the sky, desomenagem a alguma aeromoça que mandou Westerberg apagar o cigarro durante um voo.
Uma discussão boa (e que rendeu um texto da Variety outro dia) é sobre a qualidade de gravação do disco, produzido por Tommy Erdelyi, o sujeito que um dia sentou na bateria dos Ramones e se chamou Tommy Ramone. Os vocais são uma piscina de reverb, as guitarras parecem transmitidas de um rádio AM, o baixo é inaudível quase sempre. Mas parece que a vontade de soar como uma banda independente dentro de uma gravadora grande falou alto – assim como havia falado alto também durante a gravação dos dois discos de um trio conterrâneo dos Replacements, o Hüsker Dü, na mesma Sire.
A Let it bleed edition melhora (e muito) isso com um mix alternativo feito por Ed Stasium, um ex-produtor dos próprios Ramones, que dá peso às músicas e corta os reverbs – e é esse remix que abre o pacote, seguido por um outro remix do original, várias demos e takes alternativos, e uma gravação feita ao vivo em Chicago, em 1986, unindo autorais e covers (de Nowhere man, dos Beatles, cantada por Westerberg no limite de seu alcance vocal, a Black diamond, do Kiss). No mix de Ed, Little mascara ganha mais um minuto e surgem vocais e teclados que haviam sido apagados do LP original. É quase um disco novo.
Uma descoberta, mais do que uma redescoberta. Tim nunca foi ouvido desse jeito, talvez nem pelos próprios Replacements. Que, pelo menos aqui, na reedição, tornam-se uma banda feliz em fazer parte de uma grande gravadora.
Gravadora: Rhino/Warner
Nota: 10
Foto: Reprodução da capa do álbum
Crítica
Ouvimos: Holy Fuck – “Event beat”

RESENHA: O Holy Fuck mistura eletrônico, pós-punk e experimental em Event beat, disco hipnótico e dançante, com ruído, psicodelia e clima sombrio.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Satellite Services
Lançamento: 27 de março de 2026
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O Holy Fuck vem do Canadá, tem pouco mais de duas décadas de carreira no som experimental e ruidoso, mas provavelmente não chegou a mais ouvidos mais por causa do seu nome do que pela música. Até porque o som desse grupo pode interessar bastante a fãs de bandas como Nine Inch Nails e até The Cure e Depeche Mode – por acaso, recentemente surgiu uma música deles, Lost cool, na trilha do filme A substância, o que já garantiu mais fãs para o HF.
Event beat, o novo álbum, abre na dança eletrônica, com as linhas de baixo sinuosas e o beat duro de Evie – algo mais próximo até de uma noção de pós-punk do que puramente algo “só” experimental, marcado também por teclados que voam ao longo da faixa, com bips constantes. Broken roots, a segunda faixa, confirma o som do Holy Fuck no disco novo como algo bem hipnotizante, com baixo funkeado, beat seco e ligeira psicodelia no pano de fundo – soa como um soul gélido, uma disco-music para quem está derretido de ácido na pista de dança.
- Ouvimos: Tortoise – Touch
Tudo que surge em Event beat daí pra diante vem com intenção de fazer dançar e migrar para outros estados de espírito. Não é exatamente “dance punk” porque o peso aqui nem é usado como algo necessariamente afrontoso, mesmo no caso de uma banda que se chama “Puta Merda!”. Há espirais sonoras eletrônicas, em faixas como a auto-explicativa Elevate, a escalada de ruído e funk experimental de Czar, a explosão sonora e viajante de Aerosol, e a fantasmagoria quase cardíaca da faixa-título.
O mais próximo que o Holy Fuck chega de algo mais deslavadamente agressivo no novo disco é na distorção baileira de Ice box, com guitarras ruidosas e vocais reprocessados – tem também o clima robótico e sombrio de Bricks e de Diamond. Já a marota Seven soa como a mistura exata entre Weezer e Wire, como se os caras de Buddy Holly tentassem fazer música experimental com beat 60’s robótico um dia.
Já Gold flakes é pós-punk, desolada e ambient como o Joy Division – o som parece uma viagem de carro por ruas abandonadas, cidades-fantasma e estradas escuras e desertas. Uma música que responde pela melhor faceta que o Holy Fuck apresenta em Event beat, mas ali tem outras faces igualmente legais.
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Crítica
Ouvimos: Iggy Pop – “Iggy & Ziggy Cleveland ‘77” / “Jesus loves the Stooges”

RESENHA: Dois relançamentos de Iggy Pop: um ao vivo com David Bowie, acessível e histórico; outro com raridades dos Stooges, irregular e mais para fãs.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5 (Cleveland 77) e 7 (Jesus loves)
Gravadora: Cleopatra Records
Relançamento: 13 de março de 2026 (Cleveland 77) e 27 de março de 2026 (Jesus loves)
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A grande diferença entre esses dois piratões licenciados (pela gravadora Cleopatra Records) é que o primeiro pode fazer você se tornar fã de Iggy Pop – já o segundo é altamente recomendado para quem já é muito fã. Ambos ganharam relançamentos em vinil agora, e estão no Bandcamp, aquela rede social em que você pode comprar música, nem que seja os áudios para ouvir.
Iggy & Ziggy Cleveland ‘77, mais que um disco ao vivo, é um momento. Os concertos de Iggy Pop no Agora Ballroom, em Cleveland, entre 21 e 23 de março de 1977 foram históricos não apenas por divulgarem o disco básico The idiot (1977), como também por trazerem Iggy acompanhado de um tecladista muito especial: ninguém menos que o produtor e anjo da guarda David Bowie, que ficava no canto do palco, de forma a quase nem ser visto.
Há pedaços desses shows no oficial TV eye live 1977, de 1978, mas aqui há doze faixas de uma das apresentações. As gravações de Cleveland ‘77 foram realizadas no dia 21 de março – mesmo dia em que uma banda desconhecida chamada Devo foi levar um papo com Iggy no camarim, deu-lhe uma fita demo e ela acabou na mão de Bowie, que ajudou o grupo a conseguir um contrato.
Mesmo que Bowie tenha preferido sumir, dá pra reconhecer a voz dele em várias faixas (ele fazia backing vocals também), assim como dá pra entender o banho de elegância que ele, Ricky Gardiner (guitarra) e os irmãos Tony e Hunt Sales (baixo e bateria) deram na onda musical de Iggy, que lembra uma espécie de Mick Jagger maldito. Gimme danger, dos Stooges, ganha um ar menos perigoso e mais sombrio. E boa parte do material da ex-banda de Iggy se torna até mais palatável, no melhor dos sentidos – até porque Bowie foi bastante competente em captar o que havia de mais melhor em Iggy Pop.
- A fase 1976-1977 de Iggy Pop no podcast do Pop Fantasma
- Tudo sobre Raw power, de Iggy Pop e Stooges
Jesus loves the Stooges, por outro lado, é mais para fãs e para quem quer ouvir tudo que surgir por ai com o nome de Iggy. É uma compilação de gravações de estúdio de 1972 e 1973, com o material pré-Raw power (disco de 1973, produzido e mixado por David Bowie), incluindo muita coisa que já havia saído em outros lançamentos e até caixas. Entre as faixas, tem o que funciona bem, que são clássicos como I wanna be your dog, Johanna, Wild love e o gospel zoeiro Jesus loves the stooges. Tem igualmente o que funciona mais ou menos (Iggy relendo The ballad of Hollis Brown, de Bob Dylan, em vibe garageira country de terror).
Agora, tem também o que não funciona: com James Williamson nas guitarras ao lado de Ron (baixo) e Scott Asheton (bateria), os Stooges entram numa trip blues que acabou deletada de Raw power. Aqui, ela surge em faixas dispensáveis como a versão de Purple haze, de Jimi Hendrix, ou enormidades como Cry for me e Delta blues shuffle. Um disco mais “da banda” do que do cantor, na real – e olha que isso não aconteceu nem mesmo em discos em que Iggy estava doidão demais para intervir em alguma coisa.
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Crítica
Ouvimos: Monica Casagrande – “Corpo coral”

RESENHA: Em Corpo coral, Monica Casagrande revisita clássicos femininos em disco audiovisual intimista, entre jazz e rock, com versões pessoais e clima existencial.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 26 de março de 2026
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Novo disco da cantora Monica Casagrande, Corpo coral nasce com ares de experiência, para ela e para quem ouve o disco. É um álbum audiovisual, que fala “do corpo como território atravessado por múltiplas vozes femininas”, em que o repertório é formado por versões de músicas gravadas ou compostas por mulheres.
As faixas não apenas relembram canções históricas, como também põem na mesa temas importantes, como emancipação, desejo, liberdade, autorreconhecimento, numa espécie de jornada musical e existencial. Mulheres musicistas como Lan Lahn (percussão) e Navalha Carrera (guitarra) ajudam a ampliar o conceito do álbum. E vale dizer que Monica ousou regravar faixas como Agora só falta você (Rita Lee), Don’t let me be misunderstood (hit dos Animals que ganhou releitura célebre feita por Nina Simone) e Amor meu grande amor (Angela Ro Ro). Mas essa ousadia leva o repertório para um lado intimista, jazzístico, buscando caras próprias nas versões.
- Ouvimos: Courtney Barnett – Creature of habit
No geral, Corpo coral funciona muito bem. Monica consegue unir rock e jazz na voz, sem cair na bobagem de tentar soar “roqueira”. Don’t let me be misunderstood ficou bacana na onda lenta e acústica, com riff roubado da versão disco do Santa Esmeralda (lembra?). Fullgás (Marina Lima) surfa uma onda jazzística e sexy. Agora só falta você virou jazz-blues com metais e percussão. At last, de Etta James, é o lado puramente jazz do disco.
A presença de músicas como Suddenly I see (KT Tunstall, em clima samba-jazz), You don’t own me (Lesley Gore) e Put your records on (Corinne Bailey-Rae, em versão meio James Taylor) arriscou levar Corpo coral para um lado meio “o som do barzinho”. Não foi o que rolou, felizmente: além do conceito bem formado do disco, a própria Monica demonstra uma vibe delicadamente agressiva nos vocais, que dá personalidade ao repertório e torna tudo bem menos “limpo”. Só a versão de Baby, de Caetano Veloso – imortalizada por Gal Costa – é que não acrescentou muito ao universo de uma canção já bastante gravada.
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