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Crítica

Ouvimos: Planet Hemp, “Baseado em fatos reais: 30 anos de fumaça”

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Ouvimos: Planet Hemp, "Baseado em fatos reais: 30 anos de fumaça"
  • Baseado em fatos reais: 30 anos de fumaça é o segundo álbum ao vivo do Planet Hemp, gravado em julho de 2024 no Espaço Unimed (SP). O disco sai em formato digital e audiovisual, foi produzido por Daniel Ganjaman, e tem mixagem do baterista do grupo, Pedro Garcia.
  • “Esse álbum ao vivo é mais do que uma celebração, é a reafirmação de tudo que sempre defendemos desde o começo. Cada faixa e participação trazem um pedaço dessa história, e ouvir isso ao vivo, com a energia do público, é lembrar o motivo pelo qual começamos. São 30 anos e a chama não se apagou, nem se apagará”, diz Marcelo D2 no texto de lançamento.
  • “Esse disco ao vivo é o registro dessa energia, da nossa conexão com o público e de uma história que não se perdeu no tempo, ao contrário: apenas se fortaleceu. São 30 anos, mas a pressão sonora é a mesma. O Planet Hemp nunca foi só música; é uma ideia, uma mensagem que nunca deixou de ser atual”, conta BNegão.
  • O grupo recebeu vários convidados na gravação: Black Alien, Seu Jorge, Emicida, Pitty, Criolo, BaianaSystem, Major RD, Rodrigo Lima (vocalista do Dead Fish), As Mercenárias, Mike Muir (vocalista do Suicidal Tendencies), Kamau e DJ Zegon.

Parece que foi ontem, mas não foi. Mais de três décadas depois do começo do Planet Hemp, e 29 anos após o lançamento da estreia Usuário, o repertório do grupo liderado por Marcelo D2 e BNegão ganhou ares de manual de sobrevivência, de memória viva do underground carioca, de apostila de guerrilha urbana. Numa época em que mais do que nunca, as pessoas sabem das guerrilhas e trincheiras do dia a dia, diga-se.

Baseado em fatos reais: 30 anos de fumaça é o registro dessas três décadas, e a prova de que uma das coisas mais valiosas que o Planet Hemp tem são eles mesmos, e seu legado. Músicas como Jardineiros, Zero vinte um, Queimando tudo, Dig dig dig, Contexto, Puxa fumo, vão bem além de serem discursos pontiagudos sobre maconha e liberação. São músicas que falam de liberdade, de enfrentamento a pequenas ditaduras do dia a dia, de violência urbana, e (em especial) de luta, vindas de uma banda que foi presa política numa época em que a ditadura supostamente já havia acabado.

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Quase como num show dos Ratos de Porão, o repertório do Planet tem seus momentos de atualidade total, e de espelhar a época em que foi feito. Em Stab, os ex-presidentes Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso são citados sem atualização da letra, e em Contexto “os Trapalhões em reprise” (que davam o maior ibope na época do terceiro disco, A invasão do sagaz homem-fumaça, de 2000). Mesmo o repertório do disco mais recente, Jardineiros (2022), foi feito numa época de escrotidão política sem margem de dúvidas, e de pós-pandemia imediato – mas canções como o indie-rap-rock Distopia (ao vivo com Criolo no vocal) são quase uma newsletter musicada.

O grupo aproveita a festa para homenagear amigos. Nomes como Chorão e Marcelo Yuka são citados na releitura de Samba makossa, de Chico Science e Nação Zumbi. Fábio Kalunga, líder da banda carioca de skate-punk Cabeça, morto em 2017, ressurge no hardcore Salve Kalunga, que havia sido incluído na versão deluxe de Jardineiros. As Mercenárias, em formação atual, soltam a voz na releitura punk-reggae de Me perco nesse tempo. Das modificações em arranjos, o mais evidente é o de A culpa é de quem, que retorna na faceta blues-rock dos shows do grupo. Uma curiosidade são os metais em algumas faixas.

O Planet Hemp continua sendo a prova viva de que ideias movem montanhas e mudam vidas. As vidas de BNegão, D2 e do baixista Formigão foram afetadas (para bem melhor) pela história do grupo. Os assuntos falados por eles nas músicas podem até chocar muita gente ainda, mas não são mais varridos para debaixo do tapete. A união de samba, punk e hip hop proposta pela banda virou uma onda na qual até uma veteraníssima como Elza Soares surfou.

Nota: 10
Gravadora: Som Livre

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Ouvimos: Starly Kind – “Inferno (xe/xem)”

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Resenha: Starly Kind – “Inferno (xe/xem)”

RESENHA: Starly Kind mistura lo-fi, screamo, pós-punk e psicodelia em Inferno (xe/xem), EP sombrio sobre angústia queer e demônios internos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: CorpoRAT Records
Lançamento: 8 de maio de 2026

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Musicista agênero do Oregon, Estados Unidos, que se radicou em São Paulo, Starly Lou Riggs criou a Starly Kind como veículo para uma música lo-fi e fantasmagórica. Um som que volta e meia ganha ares math rock, ou que se aproxima de um art rock em clima de pesadelo. Inferno (xe/xem) é um EP sobre demônios xamânicos, angústia existencial queer, dores acumuladas durante uma vida inteira – e sobre como é chamar o inferno de casa.

Starly kind, a faixa de abertura, é lo-fizaça, com glitches, clima dreamy e vocais torturados e gritados. Held me with soma a isso um clima mais ambient, em que vibrações screamo unem-se ao experimentalismo da música. Superanatural clutches fica entre a psicodelia e a no wave, com direito a uma guitarra próxima do som do Black Sabbath. Uma curiosidade e uma mudança de rumo vêm com Bloodlust rising, algo entre Beach Boys, Residents e Devo – seguida justamente pela onda reggae + dub + fantasmagoria de And the devil watched me dance in.

  • Ouvimos: Delmore – Tão logo cada poste se ilumina

Demon dreams, que encerra o disco, é pós-punk mais do que tudo, e é a música mais bonita do EP – aliás lida com uma noção mais tranquila de “beleza” na melodia, ainda que também invista na vibe sombria das outras faixas. Um disco bem instigante, em todos os momentos.

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Ouvimos: Duo Violeta – “Mar pequeno”

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Resenha: Duo Violeta – “Mar pequeno”

RESENHA: Duo Violeta mistura violão, escaleta e folk nordestino em Mar pequeno, disco contemplativo, viajante e cheio de imagens sonoras.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: The Citadel House
Lançamento: 22 de maio de 2026

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Se você for com muita sede ao pote no disco do Duo Violeta e chegar meio desavisado, pode acabar adorando o encontro do violão com a sanfona. Depois vai dar risada quando descobrir que André Sant’Anna e Rafael Campanaro, são na real, e respectivamente, o encontro da escaleta – teclado de sopro popularizadíssimo pelo reggae e pelo dub – com o violão. Mais que isso, as gravações tiveram vários testes de estúdio, que envolveram posicionamentos dos músicos, microfones diferentes e muitas experimentações sonoras.

Mar pequeno tá bem longe de ser um disco experimental, mas passa perto. É um disco brasileiríssimo e quase sempre nordestino, que parece seguir o curso de um rio e contar uma história – já que as músicas parecem encadeadas e evocam imagens que soam do mesmo modo. Será marés, Na rede e O boto, no começo, são folk nordestino – sendo que a última insere clima sombrio e efeitos de tremolo na escaleta. Para a ilha é forró + jazz, mas tem algo de indie rock na sonoridade, até algo de Beatles no meio da melodia. Inverno no mar é balada, blues e folk, com final contemplativo e várias partes diferentes.

Esse clima de viagem sonora, que insere segmentos diferentes em canções curtas, chega no ápice na última faixa do álbum, Emergiu. Até lá, André e Rafael proporcionam surpresas como a melodia de À deriva, que chega a lembrar um soul no final. Ou a recriação da folclórica Peixe vivo, cujas linhas melódicas só se tornam claras lá pelas tantas. Ou o clima folk brasileiro de Náufrago. Um disco muito bonito.

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Ouvimos: Soma Please – “Ballet” (EP)

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Resenha: Soma Please – “Ballet” (EP)

RESENHA: Soma Please mistura synth pop, pós-punk e dream pop em Ballet, um EP que cruza Queen, U2, LCD Soundsystem e até samba indie.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Skud & Smarty
Lançamento: 14 de maio de 2026

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O Soma Please é um duo luso-britânico, formado pelos músicos Nuno Bracourt e Rob Williamson. Não chega a ser um som muito inovador, mas tem detalhes que conquistam de cara, já que Ballet, o EP, soa às vezes como um encontro entre estilos e épocas. Tipo o que rola com I’m a fan, entre o synth pop e uma onda que lembra o Queen, ou Love, um dream pop com peso. Pockets on my sleeves é pós-punk com alma oitentista, e algo de Radiohead e LCD Soundsystem misturado.

As duas últimas faixas do EP são as mais diferentonas do disco: Alone é um curioso pop meio samba, meio bossa, com cara indie e solar. What’s the score é mais ruidosa, abre com clima sombrio fake, e depois chega a lembrar um blues rock eletrônico. Ballet é um pequeno apanhado do som deles, e uma demonstração de sonoridades que estão no arquivo deles.

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