Connect with us

Crítica

Ouvimos: Mr. Catra, “Com todo respeito ao samba”

Published

on

Ouvimos: Mr Catra, "Com todo respeito ao samba"
  • Com todo respeito ao samba é o disco de samba do funkeiro Mr. Catra (1968-2018), gravado por ele há mais de uma década, e que já circulava na web. Um lançamento do álbum chegou a ser anunciado em 2012, mas ele sai só agora, póstumo.
  • O disco surgiu de churrascos e rodas de samba na casa do cantor, e foi sendo feito aos poucos. Iniciado entre amigos, foi gravado em Uberlândia (MG) com produção de Pedrinho Ferreira, ex-diretor musical do grupo de pagode Só pra Contrariar.
  • Do disco anunciado em 2012 para o oficial, há algumas diferenças: seis faixas do sambista Dido da Mangueira saíram do repertório (entre elas a canábica Baseado na lei do samba). Já Triste fim da mina, autoral de Catra, teve seu nome mudado para Ela vacilou. O original, com todas as músicas retiradas, está no YouTube.

Um conhecido cantor e compositor da MPB convidou Mr. Catra para fazer uma participação numa música sua, e depois comentou, espantado: “Nem ele sabia que cantava tão bem”. O funkeiro pode até ter se assustado com sua própria voz, mas é ela que chama mais atenção em Com todo respeito ao samba, disco que o cantor vinha anunciando quase uma década antes de morrer, e que só agora ganha edição oficial.

Não é um disco de samba tradicional – e não poderia ser de outro jeito no caso de um cara com o currículo de Catra, funkeiro que já cantou até heavy metal. As treze músicas do álbum estão mais próximas do conceito do samba-rock, bastante influenciado por Jorge Ben, Bebeto e até Tim Maia (a introdução falada de Ela adora lembra a de Telefone, hit do rei do soul). Tem também vocais sacanas no estilo de Barry White no meio de algumas faixas, como Happy endings. Entre as outras misturas do disco, tem o r&b-samba Não pode parar e um funk pagode, Que delícia. Já o samba Mangueira é uma mãe foi herdado do repertório de Alcione. 

No disco de Catra, rolam também pagodes românticos bem típicos, em faixas como a autoral Se dê valor, na qual o cantor faz solitariamente uma letra no estilo de Conselho, de Almir Guineto. Aliás, justamente nessa faixa, Catra dá uma confundida nos ouvintes, exagerando nos vocais com drive, que soam meio deslocados num disco de samba. Como tinha que ter sacanagem no meio do romantismo, tem o samba-soul Elevador (“no sobe e desce do elevador/a gente ainda vai fazer amor”). Já Ela vacilou, samba-funk gravado com o Grupo Skema Novo, aponta para o machismo do repertório comum de Catra.

Nota: 6,5
Gravadora: Labidad

Foto: Reprodução da capa do álbum

Crítica

Ouvimos: Red Recluse – “Orange”

Published

on

Resenha: Red Recluse - "Orange"

RESENHA: O misterioso Red Recluse lança Orange, disco que mistura punk, Stooges, stoner, country-punk e hard rock setentista em uma coleção de faixas sujas e perigosas.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Transient Industries
Lançamento: 4 de julho de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Mais underground que o próprio underground, o Red Recluse se define como “uma espécie de gravação de campo com um elenco global de convidados: correm rumores de que ex-integrantes do Drunks With Guns, Thee Hypnotics e Drones (de Melbourne) estão entre os participantes”. A banda é criação de um sujeito chamado Red Graves, que trabalha ao lado de colaboradores.

O projeto tem dois discos, White (de 2023, com capa branca) e este Orange – o som é basicamente punk sob uma perspectiva rocker, que se assemelha a Stooges, Iggy Pop, bandas de stoner rock, algo de rock pauleira, vibes de country-punk e coisas do tipo. Uma união que rende clássicos da leseira gelada como Knock it off, o country-jazz-punk de Billy Bad Ass, o true crime de Skin walker. Além da pauleira anti-militarista Lick my boots, do som marcial de Red Recluse stomp, e do mistério pós-punk-metal de The elegy of hop head.

Funcionando como uma marca registrada da banda, as músicas têm efeitos sonoros e riffs de baixo distorcido, além de um clima de perigo herdado do hard rock dos anos 1970. Por acaso, olha só que banda eles escolheram pra fazer uma cover: The Sensational Alex Harvey Band tem sua Midnight Moses relida pelo Red Recluse, com a participação de amigos como James McCann (James McCann and Selfish Gene, Death Groupie) e Stuart Gray (Art Gray Noizz Quintet).

Na segunda metade de Orange, uma vibe bem mais próxima do desert rock passa por músicas como Black daisy e a percussiva e hendrixiana Circe, além da noturna e blueseira Let’s build an ark. Encerrando, algo entre Iggy Pop e The Cars, em All atomic blonde.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

 

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: DJ Dengue – “dnb”

Published

on

Resenha: DJ Dengue – “dnb”

RESENHA: No álbum dnb, DJ Dengue transforma metrô, barcas, trânsito e volta para casa em paisagens sonoras que cruzam jungle, breakbeat, drum’n bass e ambient.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 18 de agosto de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

“Um mosquito fazendo barulho desde 2014”, diz o Instagram de DJ Dengue, que vem de Maricá (RJ), e une no álbum dnb estileiras como jungle, ambient, breakbeat e drum’n bass num clima de trilha sonora para o dia a dia. Ruídos de metrô, barcas, pessoas passando na rua… Tudo isso ganha um tom dramático, diferente, como numa música feita para acompanhar pensamentos a caminho do trabalho ou de casa.

A faixa Terceiro espaço leva o / a ouvinte à estação do metrô Praça da Bandeira (perto da Tijuca, na Zona Norte do Rio), em clima de breakbeat melancólico. Guitarras dedilhadas e circulares ganham espaço na fantasmagórica Barcas, assim como a mistura de samba-soul e batidões corridos, com bpm altíssimo, conduzem TRJG. Cansada é o remix da música lançada por Carol Vieira, originalmente uma baladinha de piano em tons gospel, sobre amores pra lá de mal resolvidos – agora virou um dreampop sintetizado

Sexta à noite e Paradoxo do transporte põem em tema instrumental o compasso de espera pela volta pra casa, assim como o dub Fim de Linha, com Crizin da Z.O., (que traz letra e diálogos sobre trens e ônibus lotados). Eterna rotina põe um pouco de tranquilidade ambient no clima de dnb, com áudios maternos e lembranças boas.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Black Pantera – “Continental”

Published

on

Resenha: Black Pantera – “Continental”

RESENHA: Em Continental, o Black Pantera amplia seu som entre metal, punk, funk e grunge, combinando letras sobre racismo e resistência com arranjos cada vez mais elaborados.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Deck
Lançamento: 21 de agosto de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Se o Black Pantera já era uma das melhores bandas brasileiras no palco, o mesmo posto já foi alcançado nos estúdios. Continental é o melhor disco deles, e um dos álbuns mais detalhadamente burilados dos últimos tempos. Chaene da Gama (baixo e vocal), Charles Gama (vocal e guitarra) e Rodrigo “Pancho” (bateria) voltam recriados em técnica, arranjo, referência, teoria e poesia – o disco traz letras cada vez mais bem escritas, combinando pé-na-porta e o dedo-na-cara com versos poéticos, saudades imensas, lembranças amargas e realidades duras.

Como aquele velho conto do peixe que só conhecia a água, porque vivia imerso nela e não sabia o que havia do lado de fora do aquário, é preciso aparecer uma banda como o Black Pantera para esfregar um fato na cara de todo mundo: as histórias do rock já foram demasiadamente contadas a partir da perspectiva de gente branca. Vendo dessa forma, dá pra cair na real no mais puro estilo Nazaré Confusa: há décadas que não apenas o protagonismo, mas também os sonhos de poder, os planos de carreira, os paradigmas de loucura, de riqueza, de faz o que tu queres, de que-se-fodam-todos… Tudo isso partiu dos instintos de gente branca.

  • Bong Brigade transforma crítica aos EUA em clipe de Adeus América

Fácil de entender: se metade do anti-profissionalismo profissional de um Keith Richards fizesse parte do repertório comportamental de um roqueiro preto, talvez a história tivesse parado em Satisfaction – afinal, um hipotético Rolling Stones afro-britânico seria bombardeado pelo racismo do showbusiness, perseguido implacavelmente (mais do que os Stones foram) por delegados antidrogas, abortado em pleno voo. O sucesso de Jimi Hendrix não foi um almoço grátis, muito menos um sonho psicodélico: o guitarrista foi sacaneado até o fim por empresários escrotos, e enfrentou perdas financeiras graves na mesma medida em que ganhava grana.

Dito isso, a faixa-título de Continental põe as coisas em seus lugares ao avisar que “seus heróis morreram de overdose / os meus morreram pelo corre” – seguindo com uma letra que fala em diáspora, nas veias abertas da América Latina, no jogo sujo do governo Trump, e ainda completa com um áudio do professor e pensador Milton Santos (1926-2001). No decorrer de Continental, o Black Pantera mete marcha num som pesado com linguagem afrobrasileira, unindo stoner rock, funk e grunge (Hórus), punk guerrilheiro e oi! music (Velho jeans rasgado, com lembranças de The Clash e New Model Army e versos como “serei tudo que eu sempre quis / por dentro eu grito”), metal + raggamuffin + cultos afro (Negusa nagast) e até metal bélico à moda do Iron Maiden e do Sabaton, mas dentro do universo negro (Yasuke, que recorda o primeiro samurai negro do Japão).

O racismo é tematizado pelo Black Pantera ao lado de, digamos, questões adjacentes: o corre nosso de cada dia (no metal de videogame Start the game), as lágrimas de crocodilo dos filhos da riqueza (o hardcore WPP) e a cagação geral da meritocracia – na beleza de Banzo, com Chico Cesar nos vocais, base metal-reggae e clima, às vezes, quase screamo. Continental tem outras participações de peso: a rapper Duquesa declama no metalcore industrial Serotonina, Derrick Green solta o berro em Obsoleto e… tem ainda Sandra Sá emocionando em Quando canto, afrometal percussivo, repleto de referências de blues e soul, com clima festeiro e guerreiro.

Em Continental, o Black Pantera surge grande, heroico, e preocupado tanto com peso quanto com beleza – em músicas como a faixa-título, dá pra perceber o quanto os vocais da banda mudaram e se tornaram mais elaborados. O final, com Punhos cerrados, é a comemoração: uma marcha punk-metal em que eles disparam que “demorei pra aceitar que o mundo é meu”. E o rock é preto.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Acompanhe pos RSS

Agenda RJ: Malu Rodrigues revisita Erasmo Carlos ao lado da Banda do Tremendão
Urgente4 horas ago

Agenda RJ: Malu Rodrigues revisita Erasmo Carlos ao lado da Banda do Tremendão

Robbie Williams (Foto: Divulgação)
Urgente9 horas ago

Robbie Williams traz ao Brasil o disco que resolveu sua crise com o britpop

Reading e Leeds trocam palco de novos artistas da BBC por “palco de nepo babies” (na foto, Violet Grohl)
Urgente9 horas ago

Reading e Leeds trocam palco de novos artistas da BBC por “palco de nepo babies”

A Shoreline Dream - Foto: Ryan Policky / Divulgação
Urgente12 horas ago

A Shoreline Dream transforma 20 anos de estrada em “Legacy”

A Olívia - Foto: Camila Cara / Divulgação
Urgente16 horas ago

A Olívia amplia o álbum “Obrigado por perguntar” com três novas faixas

Tela Vazia - Foto: Dani Duraes / Divulgação
Urgente16 horas ago

Tela Vazia mergulha na música sombria em “Iniciação”

Lia Kapp- Foto: Fran Augusto / Divulgação
Urgente16 horas ago

Lia Kapp transforma inquietação e resistência em “Burn this house down”

Resenha: Red Recluse - "Orange"
Crítica18 horas ago

Ouvimos: Red Recluse – “Orange”

Resenha: DJ Dengue – “dnb”
Crítica18 horas ago

Ouvimos: DJ Dengue – “dnb”

Applegate mistura pós-punk, dub e krautrock no sombrio “Duo”
Urgente18 horas ago

Applegate mistura pós-punk, dub e krautrock na sombria “Duo”

Giu Lenda cruza hardcore e música urbana em fase solo distópica
Urgente18 horas ago

Giu Lenda cruza elementos de música urbana em fase solo distópica

Resenha: Black Pantera – “Continental”
Crítica1 dia ago

Ouvimos: Black Pantera – “Continental”

Resenha: Weezer – “Weezer (Gold album)”
Crítica1 dia ago

Ouvimos: Weezer – “Weezer (Gold album)”

Beck - Foto: Autumn De Wilde / Divulgação
Urgente1 dia ago

Beck: o que já dá pra esperar do álbum “Ride lonesome”

Bong Brigade (Foto: Divulgação)
Urgente4 dias ago

Bong Brigade transforma crítica aos EUA em clipe de “Adeus América”

Catiça- Foto: Bernardo Sardi / Divulgação
Urgente4 dias ago

Catiça transforma frase do desenho do Pica-Pau em declaração de amor à música

Elton John volta a 1995 em show histórico no Rio, agora nos cinemas
Urgente4 dias ago

Elton John volta a 1995 em show histórico no Rio, agora nos cinemas

Nouvelle Vague leva Depeche Mode para o jazz em versão de "Only when I lose myself"
Urgente4 dias ago

Nouvelle Vague leva Depeche Mode para o jazz em versão de “Only when I lose myself”