Connect with us

Crítica

Ouvimos: Molchat Doma, “Belaya polosa”

Published

on

Ouvimos: Molchat Doma, “Belaya polosa”
  • Belaya polosa é o quarto disco de estúdio do Molchat Doma, banda de darkwave de Minsk, capital da Bielorrússia. O grupo é formado por Egor Shkutko (voz), Roman Komogortsev (guitarra, sintetizador, bateria eletrônica) e Pavel Kozlov (baixo, sintetizado).
  • O disco é o segundo do trio pelo selo norte-americano Sacred Bones. A banda hoje vive em Los Angeles. “A mudança nos deu novas oportunidades, acesso a melhores equipamentos e mudou nosso ambiente. Enquanto permanecemos fiéis à nossa estética sombria, a nova cidade trouxe elementos que tornaram nossa música mais rica e experimental”. diz Pavel ao site Louder Than War.
  • “Nós constantemente nos lembramos de quem somos e tentamos não perder nossa identidade. Enquanto experimentamos o som, é importante permanecermos ancorados nas raízes da banda”, diz Pavel.

O Molchat Doma volta (digamos) americanizado: com o bicho pegando violentamente na Bielorrússia, os integrantes mudaram-se para Los Angeles e terminaram Belaya polosa, o novo álbum, por lá. As inquietações dos últimos anos (guerra, crise, pandemia, invasões sangrentas) deram infelizes banhos de realidade na dramaticidade do grupo.

Belaya polosa (“faixa branca”, em português) é um disco marcado por pesadelos, ruídos na comunicação, amores estranhos, tentativas de adivinhar o que está vindo por aí. Tudo ìsso narrado em letras (bom, eu li as traduções da internet em inglês, não falo russo) extremamente descritivas e apocalípticas. Mas um saldo positivo já surgiu no caminho da banda: ao contrário de Monument (2020), o anterior, o novo do Molchat tem bastante peso. E realmente parece um álbum gravado em 2024 – e não um disco perdido de uma banda de 1980.

  • Apoie a gente e mantenha nosso trabalho (site, podcast e futuros projetos) funcionando diariamente.

Musicalmente, o lance do novo álbum do Molchat Doma é remexer no som de bandas como Laibach, New Order, The Cure, Front 242 e Depeche Mode fazendo “algo mais” – e sempre com um filtro eletrônico. É retrô, mas não apenas isso; tem ligeiros toques de krautrock, e volta e meia lembram uma house music aterrorizante. Ty zhe ne znaesh do ya (“você não me conhece”), vai nessa linha, com beats pesados, sintetizadores na onda tecnopop oitentista, até que entram os vocais quase gregorianos de Egor Shkutko e o clima de festa gótica chega no ambiente.

Dentre as surpresas do disco, Chernye Cvety (“flores negras”) talvez seja a maior delas: o som gótico chega ao pop adulto-contemporâneo, ganha uma guitarra sexy no final e fica bastante parecido com Sade (a cantora, não o Marquês). Se mexer em remexer na letra da dançante e poderosa III, o Molchat Doma ganha seu grande hit romântico: “foi uma noite modesta/voando, não percebi/como os sonhos não embora/como os anos se transformam em nada/nessa noite modesta/não vi você”.

Já a curta e instrumental Beznadezhniy waltz (“valsa sem esperança”, diz o Google translator) está mais para um blues-metal, ou para a introdução de uma música do Mercyful Fate, do que para uma valsa gótica. E num universo tão popularizado pelos teclados e pelas batidas eletrônicas, vale citar o toque até meio blues da guitarra de Roman Komogortsev (a faixa-titulo do disco parece até mais suingada do que uma banda tida como “gótica” normalmente seria) e o bate-bola com o baixo de Pavel Kozlov. Tá bem legal.

Nota: 8
Gravadora: Sacred Bones.

Crítica

Ouvimos: DIIV – “ZIRP!”

Published

on

Resenha: DIIV – "ZIRP!"

RESENHA: Em ZIRP!, quinto álbum do DIIV, a banda mistura shoegaze, eletrônica e pop sob produção de A. G. Cook, com letras sobre algoritmos, IA e capitalismo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Fantasy Records
Lançamento: 30 de outubro de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

O DIIV continua sendo uma das bandas que melhor sabem misturar doçura e ruído, especialmente quando juntam as guitarras carregadas de efeitos aos vocais quase sussurrados de Zachary Cole Smith. Só que ZIRP!, quinto disco do grupo nova-iorquino, amplia bastante essa receita. Depois do slowcore + grunge de Deceiver (2019) e do shoegaze sem sombra de dúvida de Frog in boiling water (2024, resenhado aqui), o quarteto resolve abrir espaço para melodias mais pop, eletrônicos e até alguma diversão. Tudo isso sem perder a identidade.

A presença de A. G. Cook na produção poderia indicar uma guinada radical. Colaborador de Charli XCX e Caroline Polachek, ele acabou preferindo trabalhar com baterias reais e guitarras cheias de pedais, deixando os computadores para intervenções pontuais. Em The fountain, que abre o álbum, até a guitarra parece sair de uma máquina, entre ruídos de transmissão e interferências eletrônicas. When the glow came for us segue pelo mesmo caminho, num eletroshoegaze que tem algo de alt-pop, mas não economiza na barulheira.

O lado mais acessível aparece em Kid, uma das músicas mais delicadas já gravadas pelo DIIV (cuja letra fala basicamente sobre bichos-papões e homens do saco do mundo adulto), e na ótima Dare me, que lembra o desvio eletrorock do Jesus and Mary Chain no álbum Honey’s dead (1992). Trillions é outra surpresa: rock quase solar, com algo de Kraftwerk e um auto-tune que funciona muito bem. Já Evangelizer parece uma canção de pop eletrônico que resolveu se apresentar como rock. E funciona.

Há momentos em que o DIIV prefere bagunçar tudo. The crash é uma pancada pós-punk, com guitarras mecânicas e vocais misteriosos. Us against you começa quase como trip hop e vai ganhando peso, enquanto Underground mistura esse mesmo gênero com The Cure fase Disintegration (1989) e guitarras ruidosas. My star acrescenta uma psicodelia distorcida à história, e Idiot in the sky encerra o disco com uma beleza quase espacial, chegando perto do emo antes de mergulhar nos efeitos de guitarra.

As letras continuam pouco otimistas, agora olhando para algoritmos, inteligência artificial e os absurdos do capitalismo tecnológico. O curioso é que *ZIRP!* soa mais leve justamente quando seus assuntos parecem ainda mais complicados. Nem todas as experiências têm o mesmo impacto, mas o DIIV consegue fazer um disco bastante variado sem parecer uma banda tentando se reinventar à força. E mostra que ainda há muita coisa a explorar nessa combinação de guitarras, eletrônicos e boas canções.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

 

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Partido da Classe Perigosa – “Você, eu e a FEBRABAN pegando fogo”

Published

on

Resenha: Partido da Classe Perigosa – “Você, eu e a FEBRABAN pegando fogo”

RESENHA: Em Você, eu e a FEBRABAN pegando fogo, o Partido da Classe Perigosa mistura rap, funk e eletrônica para criticar bancos, exploração e violência policial.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 7 de setembro de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

A Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN) podia dormir sem essa – aliás, o mundo nada mágico do capitalismo à brasileira ganha comentários à altura das maiores sandices já cometidas na história do Brasil, com o novo álbum da banda carioca Partido da Classe Perigosa. Você, eu e a FEBRABAN pegando fogo serve como trilha sonora para os últimos minutos de tensão no caldeirão antes do segundo turno – o som do neo-fascismo sendo defenestrado, e dos suspiros de alívio, ainda que não se saiba bem o que tá vindo aí.

Dá pra resumir Você, eu e a FEBRABAN pegando fogo numa ideia: dinheiro, poder, armas, patronato, PM, bets – tudo isso está do mesmo lado, que não é nunca o de quem mais sofre com as injustiças. Contos do crypto, rap de melodia bacana e batidão que lembra um drum’n bass alterado, abre o disco falando das bets (“proibir ninguém se atreve”, antes da proibição), mas inclui também a menção dos elogios à tortura (as homenagens a Brilhante Ustra feitas por você-sabe-quem, etc), e uma frase lapidar: “bota o patrão para trabalhar / onze horas de labuta, quero ver ele aguentar”.

Direito de reposta e Mutação da escravidão (essa um synthpop com baixo na cara a la Talking Heads, que depois vira paródia de funk melody) falam de direitos trabalhistas vistos como papel higiênico usado e de “negociações com o patrão”. O carro do ovo fala de comida dada como esmola, num som entre funk carioca anos 1980 e Depeche Mode – com citação de Strangelove, no verso “vem tomar o poder / parar de sofrer / vem”. O PCP ainda envereda pelo jazz-rap em Minha bolação, e pelo misto rap + metal em Sobre outro assunto, com Disstantes – cuja letra aconselha aos mais jovens: “não pega em arma pra ganhar teu pão / não faz sua mãe chorar, não veste essa farda / não entra pra corporação”.

Mata vibe, com Leticia Camaleão e Daniel Paiva, une jazz, funk e rap numa cruzada contra os inimigos da felicidade – que vão do colega de trabalho péla-saco aos metidos a coach. Te vi no baile, com 808 Punks, soa com uma visitinha de Nik Fiend ao Cassino Bangu. E em Dança da farda, Inimigos do povo (com Miçanga) e Ciclo (com God Pussy) bases pesadas e climas realistas apresentam todo mundo a um dia a dia bem sombrio. Aquela realidade que poucos aguentariam enfrentar diariamente, e que no fim de Ciclo, é complementada por uma explosão sonora – uma torrente de microfonias e ruídos, como se tudo estivesse prestes a ir para os ares, como na capa do disco.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Engelbert Humperdinck – “Faithfully”

Published

on

Resenha: Engelbert Humperdinck – “Faithfully”

RESENHA: Em Faithfully, Engelbert Humperdinck, aos 90 anos, transforma clássicos de Kiss, Journey, Beatles e Ozzy Osbourne em baladas com arranjos de crooner.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Cleopatra Records
Lançamento: 28 de agosto de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Para as novas gerações, o noventão (chegou à idade no dia 2 de maio) Engelbert Humperdinck é um sujeito que voltou a ser comentado nos anos 1990, quando teve início uma moda do revival do lounge – foi bem naquela época em que Tony Bennett gravou um Unplugged MTV, e em que bandas como Stereolab mostravam mais do que apenas algumas referências do estilo. Engelbert surgiu cantando o tema Lesbian seagull (composto pelo cantor e ativista LGBTQIAP+ Tom Wilson Weinberg) no filme Beavis and Buthead do America (1996) e permaneceu gravando e excursionando.

Faithfully, seu novo álbum, é um lançamento endereçado a quem quer conhecer, digamos, o lado Fabio Jr de Engelbert. O britânico exercita seu lado de crooner romântico, quase sempre acompanhado por cordas – e sempre com convidados – num repertório formado quase inteiramente por clássicos do rock e do pop adulto. Se você não se deixar levar pela capa estilo meu-sobrinho-fez (com uma arte de IA em que Engelbert pilota uma moto) vai se divertir bastante e vai ficar bem feliz com o bom gosto dos arranjos e das escolhas de repertório.

Engelbert poderia ter feito uma versão brega de Faithfully, do Journey – mas chamou o tecladista do grupo, Jonathan Cain, para fazer a música ir além do rockão de FM. Take my breath away (aquela) ganhou a guitarra de Al Di Meola e um toque quase blues-latino. Se você abomina More than words, a balada do Extreme, prepare-se para a versão definitiva dela – saiu meio dançante, meio beatle, com a guitarra de Eric Gales. E falando em Beatles, tem Something, de George Harrison, em versão quase britpop.

Engelbert, com Harvey Mandel na guitarra, dá a I was made for loving you (Kiss) um ar de pop clássico, mais para anos 1980 do que para 1970 – e ainda tem Beth, outra dos mascarados, com Rick Wakeman no piano. Always my love, única autoral do disco, ganha clima meio Righteous Brothers. Mama I’m coming home, aquela do Ozzy Osbourne (!), fica linda com clima acústico e com cordas. Tem até o inacreditável encontro de Humperdinck, Ian Anderson (o do Jethro Tull, na flauta) e o superbaixista Bob Daisley numa versão turbinada e quase progressiva de Feel like makin’ love, do Bad Company. Um disco com várias surpresas.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

 

Continue Reading

Acompanhe pos RSS