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Crítica

Ouvimos: Jack White, “No name”

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Ouvimos: Jack White, "No name"

Agora No name, o disco sem título de Jack White, já é uma realidade: está disponível nas plataformas, tem uma capa de verdade (horrível, mas tem), e as músicas têm títulos. O disco, inicialmente pensado como brinde da loja da Third Man Records (gravadora de White) e disponibilizado no YouTube por fãs do cantor e guitarrista a pedido dele próprio, chegou a ganhar uma nova edição com letras e notas de encarte, disponível apenas para quem compareceu a um show dele em Nashville. Outros relançamentos, em vinil azul e preto, também foram prometidos pelo ex-White Stripes a pequenos lojistas.

Tinha gente nas redes sociais comemorando a ousadia do músico de lançar um disco secreto (sei). Houve, enfim, quem caísse no conto do artista que lança um disco sigilosamente, e todo mundo diz o quanto ele é low profile quando, na prática ele só fez isso porque pode fazer (imagine uma banda indie nova fazendo o mesmo, pense em quantos discos saem por dia e você mal fica sabendo). O ex-White Stripes pertence à turma dos artistas que não dão ponto sem nó, e que têm lá suas técnicas de atração da mídia. No name faz parte disso, claro.

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Enquanto você pensa sobre tudo isso, vale dizer que No name dificilmente vai ficar de fora das listas de melhores discos de rock de 2024. O disco produzido, gravado e mixado por ele não é só do it yourself no processo, como também na prática. O resultado é uma visão particular do rock clássico filtrada pelo indie rock, pelo blues e pelo punk, quase sempre bem minimalista.

Não é nada de extremamente original porque tem muita coisa ali que lembra bandas como Jon Spencer Blues Explosion. Mas rende momentos legais como a porradaria de Bless yourself e That’s how I’m feeling – essa última, soando como um White Stripes alguns passos a frente, e com mais argamassa rocker. Ou o balanço soul-rock de It’s rough on rats (If you’re asking), que mostra o quanto White herdou de Jimmy Page como guitarrista.

As letras, todas contando histórias bem estranhas e fragmentadas, trazem mais cinismo do que mensagens diretas, como acontece em Archbishop Harold Holmes, uma espécie de rap-metal zombando de mercadores da fé (“se você estiver sofrendo de uma doença estranha/e alguém estiver bloqueando todo o seu sucesso/você precisa me ver agora mesmo para que eu possa consertar isso!”) e no countrycore Bombing out, que pelo menos nas versões divulgadas pelo YouTube, tem som de demo velha.

Já o r&b-metal What’s the rumpus surpreende: parece uma versão de música de Michael Jackson feita pelo Soundgarden, com versos como “quando a gravadora vai nos abandonar?/tentaram nos confundir, e agora com qual gênero eles irão nos confundir?”. O encerramento tem algo de Oasis (e mais uma vez, de Led Zeppelin) no brit pop psicodélico e energético de Terminal Archenemy Endling.

Nota: 8
Gravadora: Third Man Records

Crítica

Ouvimos: Puterrier – “Putaria é quase amor”

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Resenha: Ouvimos: Puterrier – “Putaria é quase amor”

RESENHA: Em Putaria é quase amor, Puterrier mistura grime, funk e humor ácido para narrar confusões entre sexo, relacionamentos e não monogamia em clima de filme B.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: MSTT Records
Lançamento: 9 de junho de 2026

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Se tivesse saído lá por 1985, 1986, Putaria é quase amor, álbum de Puterrier, seria um filme pornô tipo Senta no meu que eu entro na tua, ou Expectativa para dar a b… – algo bem safado e quase em clima de paródia da vida real. Por mais que dê pra levar muito a sério a bizarrice sexual de Nora perfeitinha, Rebuceteio (opa, olha o cinema nacional aí) e No RJ eu sou casado, o funk de Victor Mitoso, o popular Puterrier, tá mais pra um roteiro bem louco de filme, em que oportunidades de sexo não livram ninguém de dores de cabeça e o amor às vezes se parece com um trem fantasma.

  • Ouvimos: Febem, Fleezus, CESRV – Brime!! (EP)

Embarcado no tornado nervoso do grime, Putaria é quase amor invade terrenos como o da vida sexual enrolada da mulher solteira – Puterrier toma um esporro de uma peguete por confundir falta de compromisso com falta de atenção, leva um enquadra da MC Carol de Niterói (Vou investir em você) e ouve um “presta atenção, rapá” de MC Koringa (em Movimento cruel) quando é obrigado a reconhecer que a não-monogamia venta lá e venta cá. Intro matrimônio é a celebração de um casamento baseado na loucura, e amor e sexo combinam-se (numa relação cheia de problemas) em Delírios de amor, Baby e Ganhando e gozando.

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Crítica

Ouvimos: Mary In The Junkyard – “Role model hermit”

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Resenha: Mary In The Junkyard – “Role model hermit”

RESENHA: Mary In The Junkyard mistura pós-punk, folk sombrio e dream pop espectral em estreia intensa, melancólica e cheia de beleza inquietante.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: AMF Records
Lançamento: 3 de julho de 2026

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No Brasil, o espaço para uma banda como o trio londrino Mary In The Junkyard seria numa espécie de underground noturno – se houvesse uma banda como eles, provavelmente iria se aproximando devagar da cena emo, a partir da galera que fuça as referências Midwest e coisas do tipo. Isso porque o grupo, mesmo fazendo uma espécie de pós-punk agourento, tem guitarras arpejadas, beats caóticos que têm alg de math rock, e coisas do tipo.

Na real, Role model hermit, o primeiro álbum, está mais para um filhote da fase “perdida” do The Cure – a época de músicas como Charlotte Sometimes e Splintered in her head, de namoro-casamento com climas mais do que góticos. Algo de Closer (1980), segundo disco do Joy Division, surge ali também, com a vocalista e guitarrista Clari Freeman-Taylor abusando de vocais fantasmagóricos em músicas como Mantra III, New muscles, Seek and destroy e Myrtle.

  • Ouvimos: American Football – American Football (LP4)

Essa cara musical surge ao lado de arranjos de cordas, bateria que soa quase como um mapa sonoro (Blood) e climas mais próximos do folk – só que um folk de cidade-fantasma, de crimes sobre os quais é melhor calar, de gente que sumiu sem deixar rastros e parece nunca ter existido. Peter the dog, Crash landing, Welcome break… Tudo do disco, praticamente, vem nessa base, como um dream pop que não foi feito pra ninguém sonhar. Muitas vezes, a música vem “de longe”, como se um vizinho ouvisse música.

As letras de Clari falam de amores cagados, autossabotagem, vulnerabilidade, mas que há bastante força ali, ninguém duvida – ela diz “abraçar o trovão e o relâmpago” em New muscles, aludindo à força discreta e a vibes mentais. Candelabra faz lembrar Judee Sill com versos como “quero que você me conheça através das minhas canções / elas são muito mais puras do que qualquer coisa que eu pudesse dizer” – uma música de tristezas e profundezas. O mais bonito fica pro fim, com o clima quase cigano de Thoul shalt sprout e os ruídos de Mouse. Muita beleza envolvida.

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Ouvimos: Joaoeascoisasnaoessenciais – “Joaoeascoisasnaoessenciais” (EP)

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Resenha: Joaoeascoisasnaoessenciais – “Joaoeascoisasnaoessenciais” (EP)

RESENHA: Joaoeascoisasnaoessenciais une lo-fi, folk, rock e experimentação em álbum gravado de forma artesanal, com crítica aos algoritmos e ao streaming.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 7,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 26 de junho de 2026

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Vindo de Cachoeiro do Itapemirim (ES), João Pedro Monteiro de Freitas, o popular Joaoeascoisasnaoessenciais, faz som experimental – mas os métodos de produção e de lançamento são mais experimentais ainda. Recentemente ele lançou o EP Lost media – Vitruviano????, em que as faixas foram divididas em pedaços de 30 segundos. No cerne disso, uma discussão sobre as plataformas digitais, que precisam apenas desses 30 segundos para entender se um conteúdo é revelante ou não.

  • Ouvimos: Francis Of Delirium – Run, run pure beauty

No EP Joaoeascoisasnaoessenciais, João decidiu fazer as coisas do seu jeito e não alimentar nem algoritmos nem milionários. Gravou tudo com uma mesa de som analógica, instalada no quarto de uma pousada na região do Caparaó, no Espírito Santo. O local é tão perto da natureza que dá pra ouvir pássaros na gravações de João (dá também para ouvir carros passando, enfim). João gravou voz e violão com microfone aberto e zero de isolamento acústico, num esquema lo-fizaço o que dá a impressão de músicas sendo gravadas quase ao mesmo tempo em que são compostas.

Dessa vez, João pôs apenas duas faixas no Spotify e deixou todo o disco para download gratuito em seu site (“eu já não recebo nada mesmo, só estaria ajudando a enriquecer mais um bilionário”). O repertório traz músicas que com baixo, guitarra e bateria, poderiam ir do punk ao noise rock, como Capitão dos ventos (do verso “estou num barco a vela mas fiz de conta que era barco a motor”) e a balada soul Cânhamo. Tem um lado rock rural em Maria e um clima quase grunge na contemplativa Baleias.

Afrodite e Celebração vão ganhando ar emo, bem devagar, mesmo no esqueleto voz e violão – e o final é com Delírio, slacker rock gravado ao vivo com banda. Nas letras, mitos digitais, pastores e coisas que a gente muitas vezes naturaliza.

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