Crítica
Ouvimos: Blur, “Live at Wembley Stadium”

O Blur ama discos ao vivo – com esse Live at Wembley Stadium já são seis registros na frente de um público que ama a banda, canta junto e, em especial, aceita o grupo britânico como ele é. Sim, porque, pelo menos na imaginação de seus muitos admiradores, o Blur nunca foi o Oasis, um grupo com sede de conquista, mapa-múndi à frente e sonhos de dominação mundial. Sobrou para Damon Albarn, Graham Coxon, Alex James e Dave Rowntree a vocação para grupo britânico cuja trajetória é repleta de storytellings, de ousadias, de tentativas, de idas e vindas e de respeito à própria história (acompanhar ressentimentos eternos entre integrantes ou ex-integrantes de bandas rende causos, mas cansa, e muito).
Live at Wembley Stadium não deixa de fazer jus a essa ousadia. Os shows que deram origem ao disco ao vivo aconteceram em 8 e 9 de julho, pouco antes do lançamento do disco mais recente, The ballad of Darren – o repertório novo estava sendo praticamente testado na frente de vários fãs. O resultado foi mais uma celebração do que um show: mesmo que acertos de estúdio possam ter sido feitos aqui e ali (sempre rola…), o Blur estava mais preocupado em se mostrar como era, e em exibir como andava o estado de espírito daquelas noites.
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Damon Albarn abre conversações bem doidonas com a plateia, erra letras, desafina aqui e ali. O cantor parece meio tenso e o grupo não parece entrar no palco achando que aquilo é jogo ganho. A qualidade de som às vezes lembra a de discos ao vivo dos anos 1980, sem muito apuro técnico e maluquices de mixagem – em There’s no other way, tudo parece prestes a desafiar o metrônomo, por exemplo.
Clássicos como Coffee & TV, Song 2 e Parklife (com participação do ator Phil Daniels, como na gravação original) ganham versões que, se não são as definitivas, chama a atenção pela urgência e pela garra. Girls & boys saiu corretinha. Tender, com andamento mais roqueiro, e participação do London Community Gospel Choir, ficou parecendo um gospel composto por Lou Reed, bem mais no que na gravação de estúdio. E ainda tem o repertório de The ballad of Darren, com St Charles Square e The narcissist.
O disco ao vivo novo do Blur tem uma série de qualidades que poderiam soar como defeitos se ele tivesse saído bem na era dos DVDs e do excesso de discos ao vivo. Ouvido em 2024, é só uma das maiores bandas do mundo mostrando a que veio.
Nota: 8,5
Gravadora: Parlophone
Crítica
Ouvimos: Villanelle – “Measly means” (EP)

RESENHA: Filho de Liam Gallagher, Gene estreia com o Villanelle em EP que troca a sombra do Oasis por grunge, alt rock noventista e shoegaze.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Villanelle / FAE
Lançamento: 6 de maio de 2026
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Tá surgindo uma nova geração de nepobabies que não têm vergonha de serem nepobabies. Se isso é bom ou ruim, talvez nem a qualidade das bandas diga, só que pelo menos a tendência é estarmos livres de ver filhos de gente poderosa dizendo que “ralaram como qualquer outro artista” (não, se você é filho de artista e ouvia as conversas do seu pai / mãe sobre o mercado musical, você não é “qualquer outro artista”). Mesma coisa com relação a fidalgos da música que se acham “super indies” só porque tocaram em alguma biboca.
E, bom, o Villanelle é “apenas” a banda de Gene Gallagher, o filho de Liam, do Oasis. O grupo não teve a glória de abrir shows da recente turnê de reunião deles, mas abriu em 2024 shows de Liam na tour Definitely maybe 30 Years. No geral, é a banda “anos 90” de Gene e de seus amigos Ben Taylor e Jack Schiavo, com uma enorme influência não de Oasis, mas do rock norte-americano da mesma época. Muita coisa de Measly means, o EP de estreia, parecer ter vindo da audição de Nirvana, Offspring, Smashing Pumpkins e adjacências.
- Ouvimos: Violet Grohl – Be sweet to me
Não é brincadeira: músicas como Opportunity arising, Hinge e a faixa-título tem muito dessas três bandas, além de Hole, Foo Fighters e ate L7. Agora, não é uma imitação barata – o subtexto é meio britânico, e há algo que lembra as bandas mais ruidosas da Inglaterra no mesmo período (Bush, Placebo, Suede). E, epa, o EP fecha com uma barulheirinha de classe chamada Placebo, basicamente uma música sobre paranoia e isolamento, que fala em amigos “cheirando chaves e espelhos” (uma referência a drogas) e manda bala em situações nas quais é fácil se convencer de que está tudo bem – quando está tudo à beira do precipício.
O mais “inglês” do disco do Villanelle, na real, é uma tentativa de shoegaze – é na faixa Squeeze, uma balada que soa como se tivesse sido lançada em 1993, e que fica como uma curiosidade bem interessante do disco. É o único momento em que o Villanelle mostra uma cara mais eminentemente britpop – e vá lá, próxima do Oasis – mas, de modo geral, o grupo não buscou ficar à sombra de onde seria mais fácil ficar, musicalmente falando. Já é muito.
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Crítica
Ouvimos: Puterrier – “Putaria é quase amor”

RESENHA: Em Putaria é quase amor, Puterrier mistura grime, funk e humor ácido para narrar confusões entre sexo, relacionamentos e não monogamia em clima de filme B.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: MSTT Records
Lançamento: 9 de junho de 2026
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Se tivesse saído lá por 1985, 1986, Putaria é quase amor, álbum de Puterrier, seria um filme pornô tipo Senta no meu que eu entro na tua, ou Expectativa para dar a b… – algo bem safado e quase em clima de paródia da vida real. Por mais que dê pra levar muito a sério a bizarrice sexual de Nora perfeitinha, Rebuceteio (opa, olha o cinema nacional aí) e No RJ eu sou casado, o funk de Victor Mitoso, o popular Puterrier, tá mais pra um roteiro bem louco de filme, em que oportunidades de sexo não livram ninguém de dores de cabeça e o amor às vezes se parece com um trem fantasma.
- Ouvimos: Febem, Fleezus, CESRV – Brime!! (EP)
Embarcado no tornado nervoso do grime, Putaria é quase amor invade terrenos como o da vida sexual enrolada da mulher solteira – Puterrier toma um esporro de uma peguete por confundir falta de compromisso com falta de atenção, leva um enquadra da MC Carol de Niterói (Vou investir em você) e ouve um “presta atenção, rapá” de MC Koringa (em Movimento cruel) quando é obrigado a reconhecer que a não-monogamia venta lá e venta cá. Intro matrimônio é a celebração de um casamento baseado na loucura, e amor e sexo combinam-se (numa relação cheia de problemas) em Delírios de amor, Baby e Ganhando e gozando.
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Crítica
Ouvimos: Mary In The Junkyard – “Role model hermit”

RESENHA: Mary In The Junkyard mistura pós-punk, folk sombrio e dream pop espectral em estreia intensa, melancólica e cheia de beleza inquietante.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: AMF Records
Lançamento: 3 de julho de 2026
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No Brasil, o espaço para uma banda como o trio londrino Mary In The Junkyard seria numa espécie de underground noturno – se houvesse uma banda como eles, provavelmente iria se aproximando devagar da cena emo, a partir da galera que fuça as referências Midwest e coisas do tipo. Isso porque o grupo, mesmo fazendo uma espécie de pós-punk agourento, tem guitarras arpejadas, beats caóticos que têm alg de math rock, e coisas do tipo.
Na real, Role model hermit, o primeiro álbum, está mais para um filhote da fase “perdida” do The Cure – a época de músicas como Charlotte Sometimes e Splintered in her head, de namoro-casamento com climas mais do que góticos. Algo de Closer (1980), segundo disco do Joy Division, surge ali também, com a vocalista e guitarrista Clari Freeman-Taylor abusando de vocais fantasmagóricos em músicas como Mantra III, New muscles, Seek and destroy e Myrtle.
- Ouvimos: American Football – American Football (LP4)
Essa cara musical surge ao lado de arranjos de cordas, bateria que soa quase como um mapa sonoro (Blood) e climas mais próximos do folk – só que um folk de cidade-fantasma, de crimes sobre os quais é melhor calar, de gente que sumiu sem deixar rastros e parece nunca ter existido. Peter the dog, Crash landing, Welcome break… Tudo do disco, praticamente, vem nessa base, como um dream pop que não foi feito pra ninguém sonhar. Muitas vezes, a música vem “de longe”, como se um vizinho ouvisse música.
As letras de Clari falam de amores cagados, autossabotagem, vulnerabilidade, mas que há bastante força ali, ninguém duvida – ela diz “abraçar o trovão e o relâmpago” em New muscles, aludindo à força discreta e a vibes mentais. Candelabra faz lembrar Judee Sill com versos como “quero que você me conheça através das minhas canções / elas são muito mais puras do que qualquer coisa que eu pudesse dizer” – uma música de tristezas e profundezas. O mais bonito fica pro fim, com o clima quase cigano de Thoul shalt sprout e os ruídos de Mouse. Muita beleza envolvida.
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